sábado, 26 de março de 2011

"FORTALECIDOS COM PODER”


ESTUDO DA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

CAPÍTULO 10

POR: D.M Lloyd Jones


"Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito, no homem interior." – Efésios 3:16


Diz-nos agora o apóstolo que está orando para que o homem interior seja corroborado ou fortalecido com poder pelo Espírito Santo. Devo acentuar que esta oração está sendo elevada a favor dos que já são cristãos. Está orando pelas pessoas que estivera descrevendo nos dois primeiros capítulos, onde dissera algumas coisas muito notáveis, como, "Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus" (Ef 1:13-14). Não só isso! O apóstolo já elevara uma grande oração por eles no capítulo 1, a saber, "Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Ef 1:17). Mas ainda não estava satisfeito. Ele continua a orar por eles, e os fez sabedores de que, conquanto na prisão e distante deles, ele está se ajoelhando e está orando na presença de Deus, está com os olhos postos no semblante de Deus em favor deles, e está orando para que, no homem interior, fossem fortalecidos com poder pelo Espírito de Deus.
Saliento o fato de que ele eleva esta oração em favor dos cristãos porque a experiência do perdão e da salvação é meramente o princípio da vida cristã. É só o primeiro passo, uma indicação da entrada para o reino de Deus. Desafortunadamente, há muitos cristãos que param nesse ponto; só se preocupam com a sua proteção e segurança pessoal; seu único interesse é pertencer ao reino de Deus. Seu desejo é saber que os seus pecados estão perdoados, que não vão para o inferno e que podem ter a esperança de ir para o céu. Contudo, assim que passam por esta experiência inicial, parecem descansar nela. Jamais crescem, jamais poderemos perceber alguma diferença neles, se os encontrar¬mos cinquenta anos mais tarde. Permanecem onde estavam. Pensam que têm tudo, e neles não há sinal nenhum de desenvolvimento.
Ora, isso está muito longe do que vemos aqui sobre os cristãos. Há grandes e gloriosas possibilidades para os cristãos. Uma delas é que "Cristo pode habitar pela fé nos vossos corações" e que eles podem vir a conhecer algo do amor de Deus em sua "largura, comprimento, altura e profundidade"; de fato eles podem "ser cheios de toda a plenitude de Deus".
Não é somente uma possibilidade para todos os cristãos; é dever de todos os cristãos ocuparem esta posição. O grande Charles Haddon Spurgeon, tratando deste assunto, disse um vez: "Na graça há um ponto situado tão acima do cristão comum, como o cristão comum está acima do mundano". Noutras palavras, há na vida cristã um estágio "situado tão acima do cristão comum, como o cristão comum está acima do mundano". Isso coloca a coisa de maneira impressionante e forte, mas é certa e verdadeira. Todos nós sabemos a diferença de nível entre o não cristão e o cristão. O cristão está num nível mais elevado, num plano mais alto que o do não cristão. Mas Spurgeon nos lembra que na vida cristã pode-se alcançar pontos mais elevados, pontos que se acham tão acima deste nível cristão comum, como o cristão está acima do não cristão. Só temos que aceitar isto, se é que nós cremos que Cristo pode habitar em nossos corações, que podemos conhecer este amor de Deus e de Cristo em todas as suas dimensões, que podemos conhecer este amor de Deus e de Cristo em todas as suas dimensões, que podemos ser cheios de toda a plenitude de Deus. Evidentemente, isto se acha tão acima do nível cristão comum, como este nível está acima do não cristão.
Portanto, a questão que devemos encarar é esta: já alcançamos este nível a que se refere Spurgeon? Correspondemos à descrição que o apóstolo aqui faz daquilo que é possível para o cristão? Cristo habita pela fé em nossos corações? Vemos por dentro este grande "cubo" do eterno amor de Deus? Ficamos pasmos quando examinamos as suas dimensões? Sabemos o que significa ser "cheios de toda a plenitude de Deus"? Conhecemos o Deus que pode fazer por nós tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos? Atingimos esse nível, essa altura? Estamos permanecendo ali? Ou ainda estamos embaixo, no nível cristão comum? Sempre há o perigo de imaginarmos que, porque nos convertemos, podemos repousar sobre os nossos louros, ou de simplesmente nos tomarmos obreiros ativos e ocupados, sempre a correr para a realização das nossas atividades.
Havendo tratado deste assunto, devemos passar para a questão subsequente. Se achamos que ainda permanecemos neste nível co¬mum, como poderemos chegar ao nível mais elevado? Há unicamente uma resposta para essa pergunta, a resposta dada pela oração do apóstolo. Que sejamos fortalecidos ou "corroborados com poder pelo seu Espírito (de Deus) no homem interior."

Por que o nosso homem interior precisa ser fortalecido?

A primeira resposta é que, inicialmente, o cristão é apenas um bebê. É dessa maneira que se expressa o Novo Testamento. Paulo, escreven¬do aos coríntios, diz: "não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos (ou bebês) em Cristo". O bebê mal começou a viver; não se desenvolveu plenamente e precisa ser fortalecido. É fraco, é ignorante, é ingênuo quanto a muitas coisas do mundo que o cerca, e não tem imunidade contra as coisas tendentes a atacá-lo. Isto sempre caracteriza a infância. Daí por que a criança tem que ser protegida pelos pais; é óbvio que ela não sabe nem entende. Julga a todos pelo seu valor aparente, toma o mundo como ele é, e vê todas as coisas muito superficialmente. Nada sabe da feiúra do mundo e das coisas vis nele existente. Somente quando crescemos é que começamos a compreender estas coisas. Não estou dizendo que o bebê é sem pecado, ou que é inocente. Não concordo com a ideia de Wordsworth, de que entramos neste mundo "arrastando nuvens de glória", e de que mais tarde "as sombras do cárcere começam a fechar-se sobre o menino que cresce". O que estou dizendo é que devido à sua ignorância, a criança não tem consciência dos perigos e, portanto, precisa ser protegida.
A mesma coisa acontece com o novo homem em Cristo Jesus. Por mais idoso que o homem seja quando é convertido, a princípio é um bebê em Cristo. E como bebê ele acha, no início, que tudo está resolvido, que nunca mais terá outra dificuldade. Com muita frequên¬cia os evangelistas são responsáveis por esse modo de pensar; eles lhe dão essa impressão. Em sua total candura o bebê imagina que nunca mais haverá outra nuvem, em toda a sua vida. Mas, infelizmente, as nuvens vêm, surgem as dificuldades, problemas cruzam o seu cami¬nho; e ele fica desnorteado e muitas vezes cai. Pode até vir a ser um apóstata. Em grande parte acontece isto porque ele era um bebê e não estava ciente dos fatos. Assim, o bebê necessita ser fortalecido. Em sua primeira epístola o apóstolo João escreve aos "filhinhos", aos "jovens" e aos "pais", porque há esta gradação na vida cristã, que é um processo de crescimento e de desenvolvimento.
Uma segunda razão da necessidade deste fortalecimento do "ho¬mem interior" é a existência do diabo, o adversário, o acusador dos irmãos. Quem quer que não tenha percebido que é confrontado por este poder é o mais rematado neófito na vida cristã. O apóstolo dá ênfase à questão no último capítulo desta Epístola aos Efésios, dizendo: "não temos que lutar contra a carne e o sangue." O problema não é somente que temos que lutar contra a nossa própria carne e sangue, isto é, contra os nossos corpos. Tampouco é apenas uma luta contra outros homens. O verdadeiro problema, diz Paulo, é a luta "contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais". O homem interior precisa ser fortalecido porque este poder não somente é grande em força, como também em sutileza e em astúcia. Este mesmo apóstolo diz aos coríntios que o arqui-inimigo é tão poderoso que é capaz de "transfigurar-se em anjos de luz" (2 Coríntios 11:14). Ele pode citar as Escrituras, pode arrazoar com você, pode expor argumentos e apresen¬tar exemplos, e pode confrontar você com uma aparência da verdade que parece correta e verdadeiramente cristã, porém que é falsa; e pode levá-lo a desviar-se e a cair em armadilhas que o prenderão. Não existe razão mais forte para a necessidade de fortalecimento com poder pelo Espírito no homem interior, do que a realidade do diabo.
Sempre o diabo faz deste homem interior um alvo especial. Muitas vezes tive que lidar com pessoas que estavam com problemas e dificuldades em sua vida espiritual simplesmente porque não se havi¬am dado conta da existência e da astúcia do diabo. Pareciam pensar que os únicos pecados eram os da carne. Mantinham-se cautelosas e vigilantes contra estes, e tinham chegado a um ponto em que eram relativamente livres. Por isso achavam que essa era a única linha em que o diabo ataca, e não tinham consciência de que, com grande sutileza c como anjo de luz, ele pode fazer ataques diretos ao homem interior, e ali insinuar os seus pensamentos e ideias malignos, as suas induções e sugestões. Inconscientes disto, aquelas pessoas de repente se viram infelizes e em condição miserável, e se perguntavam se alguma vez foram cristãs. Isto era totalmente devido ao fato de que o diabo, em sua sutileza, tinha deixado por completo o exterior e concentrara toda a sua atenção no homem interior. Daí a exortação presente no Velho Testa¬mento: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida" (Provérbios 4:23).
Uma terceira razão pela qual necessitamos do fortalecimento do homem interior é a própria grandeza daquilo que nos é oferecido, e que é possível para nós. Esta possibilidade é "que Cristo pode habitar pela fé em nossos corações", e que podemos conhecer o amor de Deus e podemos "ser cheios de toda a plenitude de Deus". A própria grandeza daquilo que nos é oferecido exige que sejamos fortalecidos para recebê-lo, para não suceder que sejamos destruídos por aquilo. Este é um ponto sumamente importante, e um ponto que com frequência é mal compreendido; muitos cristãos não avaliam a sua significação.
Uma ilustração do que considero um completo fracasso em compreender o ponto ocorre nalgumas palavras escritas pelo piedoso bispo Handley Moule. Ele escreve: "E por que precisamos de um supremo revestimento de poder tão-somente para recebermos a nossa vida, a nossa luz?" Acha ele que é estranho dizer que precisamos ser fortale¬cidos para recebermos Jesus Cristo, que é a nossa vida e a nossa luz. Ele indaga: "O errante faminto precisa de forças para comer o alimento sem o qual ele logo sucumbirá? O marinheiro desorientado precisa de forças para receber o piloto que, só ele, pode conduzi-lo ao porto desejado? Não!" A pura e simples ideia, opina ele, parece inteiramente ridícula. Contudo, em minha opinião, isto soa completamente errado. Paulo ora no sentido de que sejamos fortalecidos com poder pelo Espírito de Deus no homem interior, para recebermos Cristo. Mas, diz o bom bispo, Cristo é a nossa força. De que modo precisamos de forças a fim de recebermos forças? Depois de apresentar as suas duas ilustrações, ele prossegue dizendo que Paulo deve estar referindo a uma tendência que há dentro de nós de espantar-nos com a ideia da "absoluta habitação" de Cristo em nossos corações e de ficarmos com medo disso, e de indagarmos o que isso poderia fazer-nos. Embora haja um elemento de verdade nessa declaração, rejeito-a como exposição deste versículo em particular. Diz o bispo que precisamos ser fortalecidos pelo Espírito porque, deixados entregues a nós mesmos, temos medo de receber Cristo em Sua plenitude.
Há uma bem definida falha no argumento do bispo Moule, e uma falha precisamente em função das suas próprias ilustrações. Ele per¬gunta se o homem que ficou muito tempo sem alimento precisa de forças para tomar o alimento que lhe vai dar forças. Diz ele: "Não"! Aventuro-me a sugerir, com grande respeito, que a resposta pode ser: "Sim!" Deixem-me explicar. Provavelmente alguns de nós leram sobre homens que, durante a última guerra, foram torpedeados e passaram muitos dias em jangadas ou barcos no oceano; ou sobre homens que estiveram em campos de concentração onde chegaram ao cúmulo da desnutrição. Finalmente estes homens foram resgatados ou postos em liberdade. A tendência geral da gente seria fazê-los sentar-se a uma mesa e servir-lhes uma tremenda refeição. Entretanto isto bem poderia matá-los. A explicação é que o homem não está bastante forte para comer essa comida. Antes de estar em condições de consumir uma refeição pesada, terá que recuperar as forças. Para isso é preciso injetar glicose em suas veias, em seu sangue; pode-se dar-lhe diversos extratos de alimentos, ou um ovo ligeiramente cozido, que contém poucos elementos nutritivos. No início é preciso submetê-lo a um regime alimentar muito suave. Um homem enfraquecido e exausto simples¬mente não pode comer alimento forte; é perigoso para ele. Portanto, eu afirmo que, nos termos da própria argumentação do bispo, sua causa está completamente errada. Certamente perde de vista a intenção espiritual da oração do apóstolo neste ponto que, em minha opinião, é que aquilo que vamos receber é tão poderoso, tão vigoroso, tão forte, que precisamos ser fortalecidos para podermos recebê-lo.
Permitam-me dar respaldo ao meu argumento referindo-me ao que Paulo escreveu ao coríntios: "Com leite vos criei, e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tão pouco ainda agora podeis" (1 Coríntios 3:2). Correspondentemente, o autor da Epístola aos Hebreus escreve: "O mantimento sólido é para os perfeitos" (ou "maduros") (Hb 5:14), quer dizer, para os que cresceram e se desenvolveram. Se você der a um bebê carne ou comida pesada, isso vai lhe dar indigestão aguda e vai causar-lhe grande mal-estar e moléstia. Não se dá comida pesada a bebês; o que se lhes dá é leite. Alimento pesado só é próprio para aqueles cujos organismos foram exercitados pelo uso, que se desenvol¬veram, que são bastante fortes para o assimilar. Na verdade o apóstolo Paulo dissera a mesma coisa aos coríntios na primeira Epístola, capítulo 2, versículo 6: "Todavia, falamos sabedoria entre os perfei¬tos". Ele não lhes tinha ensinado "sabedoria" porque ainda eram carnais, eram, de fato, simples bebês na graça. Ele lhes havia dado o alimento apropriado para eles. Antes de poderem receber "sabedoria" precisavam ser fortalecidos.
Isso tudo é plenamente consubstanciado pelo que vemos nas expe¬riências de muitos santos de Deus. Há uma bem conhecida história de uma experiência pela qual passou D. L. Moody quando caminhava pela Wall Street em Nova York uma tarde. Subitamente lhe sobreveio o Espírito Santo; foi batizado com o Espírito Santo. Diz-nos ele que a experiência foi tão tremenda, tão gloriosa, que ele ficou em dúvida se poderia aguentá-la, num sentido físico; tanto assim que ele clamou a Deus que segurasse a sua mão, para que ele não caísse na rua. Foi assim por causa da glória transcendental da experiência. Quando Cristo entra no coração a glória é tal, que a própria estrutura parece desmoronar-se sob o seu impacto, e somos levados a tremer e a estremecer. Pode-se ver a mesma coisa nas experiências de homens como Jonathan Edwards e David Brainerd. Quando Cristo vem habitar pela fé no coração, e quando somos cheios de toda a plenitude de Deus, precisamos ser fortes. É uma experiência lancinante e irresistível. Assim o apóstolo ora no sentido de que estes efésios sejam fortalecidos com poder no homem interior. Quanto maior o poder, maior será a força necessária para contê-lo.

Então, como se mostra esta fraqueza do homem interior? Primeiramente, a mente precisa ser fortalecida num sentido espiritual. Isto porque somos assaltados por dúvidas. Alguns dos maiores santos relataram que foram assaltados até o fim das suas vidas por dúvidas. Eles não davam crédito às dúvidas, mas estas se apresentavam a eles e os perturbavam por algum tempo. Depois vem o problema da depres¬são. É muito difícil definir a depressão. Você pode despertar de manhã e ver-se com a mente num estado de depressão. A mente que pode ter estado funcionando perfeitamente ontem, não parece estar funcionan¬do bem hoje. Sentimos uma espécie de entorpecimento, lentidão e incapacidade para pensar com clareza. Parece que a mente precisa ser fortalecida. Ou podemos ser perturbados por maus pensamentos que invadem a mente. Parece que estes estão sendo lançados em nós. Mais adiante, no capítulo 6, Paulo fala dos "dardos inflamados do maligno". O diabo os arremessa na mente. Eles começam quando você acorda de manhã, antes de ter tempo para pensar. Assim a mente precisa ser fortalecida. Outro problema é o de pensamentos dispersos. Todos nós temos experiência disto. Você vê que pode ler uma literatura leve ou um jornal sem dificuldade, no concernente à concentração. No entanto quando procura ler a Bíblia, a sua mente parece vagar por todas as direções e você não consegue concentrar-se. Está olhando para as palavras, está lendo os versículos, mas a sua mente parece estar noutro lugar.
Também precisamos ser fortalecidos na mente por causa da nature¬za da verdade cristã. Embora o evangelho do Senhor Jesus Cristo seja, num sentido, gloriosamente simples, é igualmente verdadeiro que ele é a verdade mais profunda do mundo. Esta Epístola aos Efésios não é simples. Vocês não poderão compreendê-la de maneira casual e sem esforço. Não podem passar por ela a galope. Há nela uma verdade profunda, e uma sutil argumentação. Há "imensidões e infinidades" para citar Thomas Carlyle. Vocês não podem tomar estas coisas "às carreiras". Os nascidos de novo, os cristãos, quando lêem esta Epístola bem podem dizer: "não a compreendo". Assim a mente precisa ser fortalecida. O propósito quanto a nós é que apreendamos a verdade; e não poderemos apreendê-la e compreender o que ela significa e o que ela nos está dizendo, a não ser que as nossas mentes sejam fortalecidas.
Lamentavelmente existem muitos cristãos que não sabem disto e absolutamente não o compreendem. Não só não o sabem; não querem sabê-lo. É desse tipo o cristão que diz: "Sou um cristão simples, um homem comum; posso testificar, posso dar o meu testemunho. Posso realizar obra prática. Todavia estas outras coisas são difíceis demais para mim; não consigo ligar-me a elas. Doutrina e teologia não me interessam; creio no evangelho simples". Mas nenhum cristão tem direito de falar dessa maneira. Se vocês não fazem nenhum esforço para entender esta Epístola aos Efésios, ou todos os outros ensinamentos profundos do Novo Testamento, culpa de pecado pesa sobre vocês. Esta Epístola foi escrita para cristãos comuns. O propósito é que todos nós entendamos estas coisas; e não temos nenhum direito de reduzir as nossas responsabilidades e dizer que queremos uma mensagem sim¬ples, um evangelho comum. Dizer um cristão que ele não pode perder tempo, que fazer isso requer muito esforço, que sua mente está cansada, que ele tem muitas ocupações e muitos problemas na vida diária, que não tem inclinação para ser leitor ou pensador – é negar as Escrituras. O apóstolo ora no sentido de que as mentes destes efésios sejam fortalecidas para que venham a compreender estas possibilidades mais elevadas da vida cristã, e venham a experimentá-las, a regozijar-se nelas e a dar vigoroso testemunho e demonstração da glória de Deus. A letargia intelectual é, sem dúvida, o maior pecado de muitos cristãos hoje em dia. Jamais crescem no conhecimento; terminam onde come¬çaram. Estão sempre falando das primeiras experiências que tiveram, porém nunca adentraram estas riquezas a que Paulo se refere; jamais escalaram os picos das montanhas, e jamais respiraram o ar puro da santa verdade de Deus. Estão contentes com o nível comum; ignoram o ensino mais avançado porque este exige esforço intelectual.
Exatamente da mesma maneira o coração precisa ser fortalecido porque somos invadidos por temores e imaginações. Somos sujeitos ao desânimo. Temos a tendência de render-nos a maus pressentimentos. Mesmo quando tudo vai bem conosco, os nossos corações começam a dizer: "Ah, vai tudo bem por ora, mas nunca se sabe o que está para vir!". E de imediato ficamos deprimidos. Já não experimentamos isso, todos nós? Quão traiçoeiro pode ser o coração! Ele pode evocar possibilida¬des; e vamos encontrá-las na imaginação: que será, se acontecer isto? Que será, se acontecer aquilo? Que será, se esta criança morrer? Que será, se eu perder o ser amado? – e assim por diante. Dessa maneira podemos fazer-nos sentir em miseráveis condições. De fato não está acontecendo nada; só estamos imaginando como nos sentiríamos se acontecesse. Assim, muitas vezes estes temores, presságios, desânimo e más imaginações arruínam o cristão. Há alguns cristãos cuja carreira se resume em estar "preso a superficialidade e aflições" porque nunca se aperceberam da necessidade de terem o seu coração fortalecido pelo Espírito Santo.
De igual modo a vontade precisa ser fortalecida. Nossas vontades são fracas e irresolutas, como resultado do pecado e da Queda. Com sinceridade resolvemos e fazemos o propósito de fazer certas coisas; e realmente desejamos fazê-las. Então, no último instante, ficamos com medo ou desistimos. Por causa de indagações como esta: que será ou que acontecerá se eu o fizer? A vontade parece ficar paralisada ou tornar-se irresoluta, e deixamos de fazer aquilo que sabemos que devíamos fazer. Quantas vezes falhamos exatamente no último instan¬te!
Assim que começarem a olhar para este homem interior, e a examiná-lo, verão que ele é muito fraco, muito débil, e que necessita ser fortalecido. Não fora o fato de que podemos fazer a nosso favor a oração que Paulo estava fazendo pelos efésios, cada um de nós vacilaria e fracassaria. Quantas vezes vacilamos e fracassamos em nossa mente, em nosso coração ou em nossa vontade! Se fôssemos deixados entre¬gues a nós mesmos, não haveria esperança para nós, e não haveria ninguém para recomendar o evangelho. Graças a Deus, porém, há este meio pelo qual podemos ser fortalecidos. O apóstolo o estabelece perfeitamente para nós aqui. Assim é que, por mais fraco ou frágil que vocês se sintam neste momento, por muito que tenham falhado, este é o meio. A oração do apóstolo é para que "o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome" os fortaleça no homem interior. Não podemos, então, dizer: tudo está bem; posso ser revigorado por Deus? Não posso fazer-me forte: não posso introduzir este ferro nas muralhas da minha alma; faça o que fizer, fracassarei. Mas eis aí a força que vem de Deus. Ele é totalmente suficiente!
A expressão subsequente diz: "vos conceda". Que bendita palavra é a palavra "conceda"! Deus me faz uma concessão; Ele me dá este meio. É uma dádiva gratuita; você não precisa conquistá-la, não precisa comprá-la. Simplesmente a pede e a recebe. "Para que vos conceda..." O mais fraco santo pode elevar o rosto, mesmo quando não possa manter-se de pé. Simplesmente olha e diz – "Senhor, tem misericórdia de mim", "Fortalece-me, ó Deus". E Ele lhe "concederá" a força de que necessita.
Mais maravilhoso ainda, porém, Paulo diz: "para que vos conceda segundo as riquezas da sua glória". A glória de Deus é a suma, a soma total de todos os atributos de Deus – Seu poder, Sua majestade, Sua santidade, Sua pureza, Sua retidão, Sua justiça; Deus na totalidade do Seu ser. A glória de Deus! E é segundo as riquezas, a plenitude dessa glória, que Deus pode fortalecer-nos com poder. Ele o faz "pelo seu Espírito". É função especial do Espírito Santo fazê-lo. Foi o mesmo Espírito Santo que nos convenceu do pecado e que nos deu o dom da fé que nos capacitou a crer. Jamais poderíamos crer sem Ele, porque "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2:14). Deus, porém, nos deu do Seu Espírito, e é pelo Espírito que nós cremos e é por Ele que somos transformados em homens espirituais. O mesmo Espírito também pode fortalecer-nos no homem interior. Diz o apóstolo no capítulo 4 da Epístola aos Filipenses: "Não estejais inquietos, por coisa alguma". Quando as coisas vão mal, tendemos a ficar inquietos, e principalmente em nossos corações e mentes. Há só um meio de livrar-nos da inquietação ou ansiedade: "as nossas petições sejam em tudo conheci¬das diante de Deus pela oração e súplicas, com ação de graças" (versículo 6 a 7). Se você fizer isso, diz Paulo, "a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus". As circunstâncias não mudaram, continuam exata¬mente como eram. Donde vem, então, a paz ao coração e à mente? Vem do Espírito Santo, que fortaleceu o seu coração e a sua mente, de modo que pode resistir a tudo quanto se lance contra você; e você está a salvo.
Assim é, pois, a oração que o apóstolo faz. Estamos vivendo dias em que constantemente ouvimos falar do reforço de materiais. Reforçam o concreto, e temos o concreto armado. O concreto é muito forte, mas, se puser algum ferro nele, ficará mais forte. E quando se constroem novos e pesados edifícios, alguma coisa é necessária para aguentar com segurança o peso que terão que suportar. Esse é o princípio que está por trás daquilo que o apóstolo diz aqui. Se eu e vocês havemos de conter o Senhor Jesus Cristo dentro de nós e se havemos de ser "cheios de toda a plenitude de Deus", temos que ser reforçados no homem interior pelo Espírito Santo. E se compreendermos que há estas possibilidades para nós, e as desejarmos, e pedirmos a Deus que "segundo as riquezas da sua glória" nos reforce pelo Espírito Santo, Ele prometeu fazê-lo, e Cristo habitará pela fé em nossos corações.
Estamos nós tão acima do nível do cristão comum como o cristão comum está acima do nível do homem que não é sequer cristão? Ser alguém assim é uma extraordinária, uma gloriosa possibilidade para cada um de nós neste momento, em Jesus Cristo, pela graça de Deus.

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