quinta-feira, 29 de março de 2012

O DRAMA DA REDENÇÃO

Por: D. M. Lloyd Jones

Ef 4:8-10; Ef 1:19-23

Nestes versículos o apóstolo põe-se a provar e a demonstrar que a declaração do Salmo 68, versículo 18, que ele tinha citado, deve ser aplicada ao nosso bendito Senhor e Salvador. Na versão Autorizada, estes dois versículos são colocados entre parên­teses para indicar que eles são parte da exposição daquilo que ele acabara de dizer, como o indica a palavra “Ora”. “Ora”, diz ele; e depois faz a pergunta, “que é, senão”? Então se concentra na palavra “subiu”. Esta palavra prova que Ele tinha que ter descido primeiro.

O Salmo 68 é um grande hino de louvor a Jeová, que dera a Davi uma vitória maravilhosa. Mas Davi afirma que Jeová tinha “subido”. A questão é: como pode Jeová, o “Eu sou o que sou”, o Único Ser eternamente existente - como pode Jeová subir? A resposta do apóstolo é que há só um modo de explicar isso. É que o próprio uso do termo “subir” implica uma descida anterior - “Ora isto - ele subiu - que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” Há somente uma maneira pela qual podemos falar de uma descida da Deidade, e é com relação a Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. É nEle, e somente nEle, que Deus, Jeová, desceu. Assim o apóstolo argumenta que a declaração do Salmo 68, versículo 18, só pode ser uma referência ao nosso bendito Senhor e Salvador Jesus Cristo. Não há outra explicação concebível, é a única maneira pela qual Deus desceu à terra e subiu de volta ao céu.

Chegamos agora à afirmação que se evidenciou ser mais difícil na história da interpretação - “que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra”. Como sabem os que têm conhecimento da história da Igreja, a expressão “às partes mais baixas da terra” tem provocado muita discussão. Têm sido sugeridas muitas explicações dela, das quais não po­demos tratar exaustivamente. Mas devemos dar uma olhada nalgumas delas. Alguns dizem que as pa­lavras de Paulo fazem referência ao túmulo. “Terra” é a terra, argumen­tam eles, porém “as partes mais baixas da terra”, indicando algo que está abaixo do nível do solo, devem, portanto, ser o túmulo. Outros, que vão mais longe ainda, dizem que as palavras em questão se referem ao inferno. O inferno está embaixo, o céu em cima; assim, a frase “as partes mais baixas da terra” é uma referência ao inferno ou ao Hades. A interpretação que nos é importante considerar é a segunda, pois é a que tem figurado mais proeminentemente na história da Igreja e na história das doutrinas.

Há, digo, aqueles que crêem que as palavras de Paulo ensinam que o nosso Senhor, depois da Sua morte e do Seu sepultamento, desceu ao inferno e fez certas coisas, em particular que Ele derrotou ali o diabo e as suas hostes. Outros acreditam que o que o nosso Senhor fez quando desceu ao inferno foi proclamar a salvação a certas pessoas que estavam lá. Eles baseiam essa idéia, não somente neste texto, e sim também no que vemos na Primeira Epístola de Pedro 3: 17- 20:

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito... e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé...”

A frase importante é “pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão”. Isto sustentam eles, só pode ter o sentido de que o nosso Senhor, após a Sua morte e sepultamento, desceu ao inferno e lá pregou o evangelho aos que foram destruídos no Dilúvio dos dias de Noé, com o fim de conceder-lhes “uma segunda chance”, outra oportunidade para arrependimento e fé. Das explicações sugeridas, da expressão “as partes mais baixas da terra”, essa é a mais popular.

São essas as declarações que se fazem de tempos em tempos, ao longo da história da Igreja. Minha opinião é, pois, que ela não tem nenhum desses sentidos, mas que o sentido da frase, “as partes mais baixas da terra” é simplesmente a terra mesma. A questão crucial, contudo, é a exposição de 1 Pedro 3:19. Estará o apóstolo Pedro dizendo que o nosso Senhor foi pregar aos que tinham sido destruídos no Dilúvio do tempo de Noé? Por que haveriam de ser eles os únicos a quem Ele pregou? Nas gerações anteriores houve muitos que tinham pecado antes dos que viveram na época do Dilúvio, pois, só a eles foi dada mais uma oportunidade? Por que não também ao povo de Sodoma e Gomorra? Por que não a muitos outros que foram mortos e destruídos repentinamente pela ação de Deus? Os que ensinam que o nosso Senhor pregou no Hades àquelas pessoas, não têm resposta para estas pergun­tas. A verdade dessa questão é que o apóstolo Pedro não está dizendo tal coisa. Nesta parte da sua Epístola, Pedro está lembrando aos seus leitores que eles estavam vivendo num tempo de juízo. No capítulo subseqüente ele diz:

“Já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus”.

Ele os está advertindo da vinda do juízo e lhes diz que há somente um modo de serem salvos, o modo que ele menciona nos versículos que se seguem. Lembra-lhes ele que Noé e sua família foram salvos por meio de uma arca; e lhes diz que nós somos salvos por um similar do tipo de arca, a saber, Cristo. Em Cristo, que é a nossa Arca, somos salvos.

A afirmação de Pedro é que a situação dos cristãos é similar à situação que prevalecia imediatamente antes do Dilúvio. Cristo está falando no Espírito por meio dos apóstolos (Pedro e outros), e está exortando o povo de Deus e outros a “fugir da ira que está para vir”. Há somente dois grandes julgamentos universais na história da humanidade - o primeiro foi o Dilúvio; o segundo será quando o Senhor vier de novo, e os elementos se fundirão com o tremendo calor do juízo final. Assim Pedro está dizendo que há um paralelo entre os que estão vivendo na época e era anteriores ao segundo grande julgamento e os que viveram antes do primeiro grande julgamento. O paralelo é perfeito: Cristo prega “no Espírito” agora por intermédio dos apóstolos, como pregou “no Espírito” naquele tempo por intermédio de Noé àquele povo antigo. Esta não é somente a exposição verdadeira; é a única que evita a idéia de que o evangelho foi pregado somente a certos pecadores particulares, e não a todos.

Não há prova nenhuma para dizer-se que o nosso Senhor alguma vez pregou no inferno. É uma suposição, mera especulação, e uma teoria. Não há nada nas Escrituras que a consubstancie, nenhuma palavra que insinue que Ele tenha libertado pessoas que tinham sido mantidas cativas. Não há qualquer indicação de que o nosso Senhor finalmente tenha vencido o diabo e os seus poderes (no) inferno, depois da Sua morte; na verdade, é-nos dito, positivamente, que essa obra foi realizada na cruz. Veja o que Paulo ensina na Epístola aos Colossenses 2:15:

“e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.”

Não “nas partes mais baixas da terra”, mas “publicamente” - “e deles triunfou em si mesmo” - a saber, em Sua morte na cruz. Nada foi deixado para completar-se no inferno; a obra foi realizada completamente na cruz. Para concluir esta exposição, há outras declarações nas Escrituras que, quando tomadas juntas com esta declaração, leva à conclusão de que aquilo de que estamos tratando nada é, senão uma maneira de descrever a vinda do nosso Senhor à terra. Não é Sua descida a estas ou aquelas profundezas da terra, mas é Sua vinda do céu à terra. Veja João 3:13:

“Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu”.

Temos aí de novo o subir e descer, a descida e a subida; não em termos de descer ao inferno, porém de vir para viver na terra. O nosso Senhor estava na terra e estava falando com Nicodemos na terra, e estava reivindicando autoridade única para o Seu ensino. “Nós dizemos o que sabemos e testificamos o que vimos.” Eu vim do céu e continuo no céu. Ou tomem o que se vê em João 8:23:

“Vós sois de baixo, eu sou de cima”

Ele não quis dizer que eles estavam embaixo, nalguma cova, debaixo da terra; eles estavam na terra, mas, em comparação com o “de cima” do qual Ele viera, eles eram “de baixo”. Pedro está pregando no dia de Pentecoste, e cita o profeta Joel: vejam Atos 2:19:

“E farei aparecer prodígios em cima, no céu; e sinais em baixo, na terra...”

O contraste é, patentemente, entre o céu em cima e a terra em baixo. Diz o apóstolo que este Jeová subiu “acima de todos os céus”, significa no mais alto céu, no lugar mais alto que se pode conceber.

Assim o apóstolo está asseverando que o que coloca o nosso Senhor na condição em que Ele é o doador de todos estes dons à Igreja, a Cabeça da Igreja e o Senhor de toda a Igreja, é a obra que Ele realizou quando esteve aqui na terra. Ele subiu, e está em condições de dispensar dons porque primeiro desceu e veio à terra para aqui habitar e para fazer certas coisas enquanto estivesse aqui. Esta exposição e explicação evita toda confusão e toda especulação desnecessária sobre o que o nosso Senhor pode ou não ter feito depois da Sua morte e antes da Sua ressurreição. O que podemos dizer desta declaração de Ef 4:8-10? O que temos aqui é uma descrição de todo o movimento da salvação. O apóstolo está descrevendo o grande drama da salvação. Por que há necessidade de salvação? A resposta é, porque a humanidade em peca­do está numa condição de escravidão. Um inimigo entrou no mundo. O diabo, o inimigo de Deus, fingindo-se amigo do homem, foi o maior inimigo do homem. Ele dominou o homem e daí em diante o mantém em escravidão e cativeiro. Veja Hb 2:14,15:

“... para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão

Ele está efetivamente dizendo que o versículo do Salmo 68 que tinha citado é uma descrição de como o nosso Senhor realizou a salvação e redenção, e, na qualidade de poderoso Vencedor, agora está dando dons ao Seu povo na Igreja. O homem em pecado é escravo do diabo; está sob o domínio de satanás. Satanás, o arquiinimigo, é o coman­dante dos exércitos do inferno; e ele atacou e derrotou a humanidade, e a tornou cativa. Ele exerce um terrível domínio e poder sobre a humanidade. O pecado é semelhante a uma terrível escravidão. Muitos pensam que uma vida de pecado é uma vida de liberdade, mas é a maior escravidão de todas. Eis o poderoso inimigo que mantém a humanidade em escravidão a vida inteira, o medo da morte. Veja 1 Coríntios 15:26:

“Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte”

Esta é a condenação, e dela não podemos escapar. Satanás maneja e usa esse medo para manter-nos na escravidão. A humanidade em pecado odeia esse temível espectro que cada vez mais se aproxima de nós. Ela faria qualquer coisa para evitá-lo, todavia não consegue. Estes são os inimigos que derrotaram o homem. O Filho de Deus veio a este mundo a fim de vencer estes inimigos e pôr em li­berdade todos os que nEle crêem. Cristo veio para redimir a Igreja, para resgatar o Seu próprio povo dessa escravidão, desse cativeiro, dessa tirania. Ele veio com esse objetivo específico, e o levou a cabo. Veja Ef 4:8:

“Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro...”

O nosso Senhor agora está na glória, assentado à destra de Deus, tendo posto todos os inimigos debaixo dos Seus pés. Mas, quando pen­sarmos nEle, devemos pensar também nalguma coisa mais - “que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” Ele está nos altos céus agora, mas já esteve na terra. Ele “deixou o palácio real celestial”, Ele “humilhou-se”; estes são outros modos de dizer, “que é, senão que também antes tinha desci­do?” Estes são modos de descrever a Encarnação. Ele não poderia levar cativo o cativeiro enquanto não descesse primeiro e enfrentasse o inimigo. No entanto Ele veio, Ele desceu. Ele veio dos mais altos palácios reais do céu ao ventre da virgem, à terra, na forma de homem, na forma de servo, com toda a pobreza e com tudo o que caracterizava o lar para o qual Ele veio. Ele desceu para defrontar-Se com os inimigos que nos derrotaram, e especialmente o poderoso adversário que nos mantém na escravidão. Ele veio para empenhar-Se num conflito terrível; ainda quando Ele era um bebê, o Rei Herodes tentou matá-l0. Sujeitou-Se ao batismo, apesar de não ter feito nada de errado e não ter nenhuma necessidade de ser batizado. Recordem o que João Batista Lhe disse. Mas Ele estava Se identifican­do com o Seu povo, pelo qual Ele ia lutar. Ele foi tentado pelo diabo. Durante quarenta dias e quarenta noites no deserto, Ele esteve em combate singular e mortal com o principal inimigo. Tudo isso faz parte do drama da redenção e da luta, do conflito para libertar o Seu povo. Ele “desceu” para fazer isso. Veio depois aquele terrível momento no Jardim do Getsêmani, quando Ele viu claramente o que a nossa redenção ia envolver, e clamou:

“Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”

Ele foi até à cruz a fim de que esta vitória fosse completa. No Calvário eles puseram à mostra as suas últimas reservas. O diabo supunha que, se O matasse, ficaria livre dEle, e assim O derrotaria. Mas quando eles O estavam matando, Ele os estava destruindo. Foi morrendo e ressucitando que Ele derrotou finalmente o diabo e todas as suas hostes. Ele morreu e foi sepultado; os Seus amigos fizeram rolar uma grande pedra sobre a boca do túmulo, e os Seus inimigos puseram soldados para vigiá-lo. O inimigo parecia vitorioso, e tudo parecia estar perdido. Mas Ele “rompeu as ataduras da morte” e Se levantou triunfante sobre o túmulo. “Tragara foi a morte na vitória.” Ele venceu a morte e o túmulo, de modo que podemos dizer com Paulo:

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? Ora o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Jesus Cristo”

O nosso Senhor venceu o último inimigo. Todo inimigo que alguma vez escravizou o homem e o manteve em cativeiro foi vencido e derrotado. Assim, tendo completado a obra, Ele ressurgiu e subiu da terra ao céu. A asserção do apóstolo é que é porque Ele fez tudo o que viera fazer na terra, que Ele está agora “acima de todos os céus”. Veja Fp 2:9,10:

“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, na terra, e debaixo da terra”

Aquele que subiu está em condições de dar dons, primeiro desceu, venceu todos os nossos inimigos e captores e os levou em Seu séquito triunfal. Ele conquistou o direito de ser a Cabeça da Igreja, e tem todo o poder. Assim, Ele dispensa estes dons ao Seu povo na Igreja, segundo a medida que Ele próprio determinou.

Certamente devemos juntar-nos todos para agradecer a Deus o grande apóstolo ter interrompido o seu argumento e ter-nos dado esta exposição, e, com ela, esta estupenda visão do drama da redenção - do céu à terra, ao túmulo, e de volta ao céu. Esse é o quadro com o qual o apóstolo descreve Cristo como a Cabeça da Igreja, concedendo e distribuindo graças e dons ao Seu povo na Igreja.

“que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”.

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