quarta-feira, 1 de junho de 2011

AS INSONDÁVEIS RIQUEZAS DE CRISTO


CAPÍTULO 17

“Largura, Comprimento, Altura, Profundidade”

"Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.” (Ef 3:18,19)

Chegamos agora à petição propriamente dita que o apóstolo fez em favor dos efésios. É para que, estando “arraigados e fundados” em amor, possam ser plenamente capazes de “compreender com todos os santos”,qual seja a “largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento”. Devemos lembrar-nos de que estamos tratando, não do nosso amor a Deus, e sim do Seu amor por nós. Até aqui temos examinado isto de maneira muito geral. Agora vamos examiná-la de modo pormenorizado. Antes de estudarmos a natureza ou o caráter desse conhecimento, devemos considerar o conhecimento propriamente dito, e verificar o que se pode conhecer do amor de Deus.

A própria terminologia empregada pelo apóstolo sugere vastidão. E não há dúvida de que ele preferiu descrevê-lo desta maneira “quadridimensional” com o fim de dar aquela impressão. Provavelmente ele tinha em mente o que estivera dizendo no final do capítulo dois, antes de começar a digressão que ocupa os primeiros treze versículos deste capítulo. Ali ele estivera descrevendo a Igreja como “templo santo no Senhor”, como um grande edifício no qual Deus fez sua habitação e no qual Ele permanece. Como pensava da Igreja como um templo enorme, achou-se que esta era uma boa maneira de descrever a “amor de Cristo” pelo seu povo. Assemelha-se à largura, comprimento, altura e profundidade daquele grande edifício. O apóstolo estava interessado em expor a vastidão deste amor.

Ele ora para que “conheçamos” o amor de Cristo, “que excede todo o entendimento”. Como se pode conhecer algo que não se pode conhecer? Como se pode definir algo que é tão grande que não pode ser definido? O que o apóstolo está dizendo é que, apesar deste amor de Cristo estar além de toda computação, e nunca pode ser corretamente medido, não obstante nos compete a tarefa de aprender sobre ele. Portanto, convém-nos examinar esta descrição que ele faz do amor de Cristo.

Estamos prestes a pôr os olhos em algo que é tão glorioso e interminável, que será o tema de contemplação de todos os santos, não somente neste mundo como também no porvir. Passaremos a eternidade contemplando-o, maravilhando-nos e nos extasiando com isso. Entretanto o que nos cabe é começar aqui e agora, nesta vida.

Uma das características dos maiores santos foi que eles passavam muito tempo meditando no amor de Cristo para com eles. Nada lhes dava maior alegria. Quem ama deleita-se em pensar não somente no objetivo do seu amor, porém também no amor que recebe. Portanto, nada deveria dar maior alegria ao povo de Deus do que meditar neste amor de Cristo. Quantas vezes temos pensado nisto? Tomamos tempo pensando em nossas atividades e em nossos problemas, todavia a necessidade mais importante da vida cristã é “conhecer o amor de Cristo” e meditar nele. Tentemos examiná-lo, pois, nos termos das “dimensões” utilizadas pelo apóstolo.

Vocês algumas vezes consideraram a “largura” deste amor? Há vários lugares nas escrituras onde esta particular dimensão é posta diante de nós de maneira extraordinária. No livro de Apocalipse 5: 9,11, por exemplo, encontramos estas palavras:

“e entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação

“Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares

O livro de Apocalipse parece estar particularmente interessado na “largura” do amor de Cristo. Ainda no capítulo 7:9, quando nos dá o quadro dos glorificados, e do Filho de Deus com os Seus remidos, emprega estes números:

“Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos”

Num desalentador período como este na história da Igreja, o que poderia causar mais ânimo e alegria do que pensar nesta “largueza” do amor de Cristo? Como cristãos somos apenas um punhado de pessoas neste país hoje, apenas uma pequena porcentagem. Às vezes esse pensamento tende a deprimir-nos e a desanimar-nos. O antídoto é considerar a “amplitude” deste amor de Cristo.

A causa fundamental do fracasso dos judeus foi que eles jamais captaram esta particular dimensão. Eles pensavam que a salvação era só pro judeu. No entanto, aqueles dentre eles cujos olhos foram abertos pelo Espírito, vieram a enxergar que em Cristo “não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre;” (Cl 3:11). Nada é mais animador e revigorante que recordar que, em cada país, em cada continente – embora diferentes de cor, cultura, língua, em quase tudo – homens e mulheres se reúnem regularmente para o culto a Deus e para agradecer-Lhe Seu amado Filho e Sua grandiosa salvação. Essa á a gloriosa perspectiva na qual devemos permanecer e meditar. Devemos conhecer a “amplitude” do Seu amor.

Mas procuremos examinar o “comprimento” do Seu amor. Estou convicto de que o apóstolo especificou estas medidas particulares com o fim de encorajar-nos a desenvolver isto em nossas mentes. Certamente o “comprimento” comunica a idéia do caráter infindável do amor de Cristo. Às vezes lemos sobre o “eterno” amor de Deus – como nos é dito em Jeremias 31:3:

“Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.”

Porventura já consideraram a eternidade do amor de Cristo do amor de Cristo para com vocês e para com todos os santos? A dimensão do “comprimento” lembra-nos que este amor começou na eternidade. Sempre existiu. Anteriormente ao tempo, antes da criação do mundo e do homem, entraram num acordo Deus o Pai e Deus o Filho. Foi um acordo concernente à salvação daqueles que haveriam de ser salvos pelo Senhor Jesus Cristo. A Queda do homem foi prevista, tudo era conhecido; e o Filho, como representante desta nova humanidade, entrou numa aliança com seu Pai, no sentido de que Ele os salvaria e os resgataria.

Como é importante meditar sobre este tema! Fazê-lo lava-nos logo à percepção de que o amor de Cristo pelos seus começou “anteriormente ao tempo”, na remota eternidade passada. O amor de Cristo por nós não veio à existência repentinamente; existia antes de iniciar o tempo. Veja o que nos diz o apóstolo João em Apocalipse 13:8; 17:8:

“... aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.”

Que dignidade acrescenta à vida humana e à nossa existência neste mundo, saber que Ele pôs o seu coração sobre nós, que a Sua afeição pousava sobre nós, mesmo na eternidade. Esse é o começo – se é possível tal expressão – do “comprimento de Seu amor” para conosco. Antes de existir o tempo.

Vejamos, porém, nesta dimensão de comprimento, como opera na vida deste mundo. O amor de Cristo pelos Seus é de eternidade a eternidade. Portanto, podemos estar sempre seguros de que ele nunca mudará, nunca sofrerá variação, sempre será o mesmo, como nos diz em Hebreus 13:8:

“Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre.”

E o Seu amor é sempre o mesmo. Não sofre interrupções. Este “comprimento” é uma linha ininterrupta. Aconteça o que acontecer segue adiante; não é variável; é constante. É um amor que nunca nos abandona nem nos larga; é um amor que nunca perde as esperanças quanto a nós.

Uma das mais perfeitas expressões deste elemento de dimensão acha-se na parábola do nosso Senhor sobre o filho pródigo. A despeito do fato de que o filho mais moço tinha sido um tolo e partira para uma terra longínqua, desprezando o amor que lhe fora mostrado em casa, e gastara os seus bens nos dispendiosos e falsos prazeres daquele país distante, seu pai o amava, esperava seu regresso e derramou bênçãos sobre ele. Este é o quadro do amor de Cristo para com os Seus – paciente, resignado, tolerante, nunca nos abandona. Não há nada mais maravilhoso do que dar-nos conta de que, mesmo quando em nossa loucura damos as costas ao senhor, e ainda pecamos gravemente contra Ele, o Seu amor permanece.

Quão importante é que meditemos neste amor. É porque não fazemos isso que, por vezes, inclinamo-nos a pensar que Ele Se esqueceu de nós, ou que Ele nos abandonou. O apóstolo Paulo expressa essa verdade em Romanos 8:38,39:

“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Que conforto, que consolação, que força isto nos dá! Nada jamais poderá arrancar-nos da Sua mão, nada poderá jamais privar-nos desse amor. Nada!

No entanto estudemos a “profundidade” do Seu amor. Quando examinamos uma das dimensões, somos tentados a pensar que essa é a mais maravilhosa de todas – e o certo é que isto é verdade a cada uma delas. Ao considerarmos a “profundidade”, não poderemos fazer nada melhor do que ler o que o apóstolo escreveu aos filipenses no capítulo segundo, onde ele mostra que se pode ver a profundidade do amor de Cristo em dois casos principais: o primeiro no que Ele fez. Na eternidade o nosso Senhor era “em forma de Deus”. Era Deus o Filho no seio do Pai desde toda a eternidade. Mas o apóstolo nos diz que Ele “não teve por usurpação ser igual a Deus”. Significa que Ele não considerava a Sua igualdade com Deus como uma presa a que agarra-Se. Ao contrário, Ele Se humilhou e se despiu daqueles sinais da Sua eterna glória. E veio a este mundo de pecado e vergonha fazendo-Se semelhante aos homens, na forma de homem.

Em seguida considerem o que Ele sofreu nas mãos dos homens. Pensem em Seu sofrimento com o cansaço, a fome, e a sede. Pensem nos homens lançando mãos cruéis sobre ele. Vejam-No cambaleando sob o peso da pesada cruz. Olhem para Ele cravado no madeiro. Pensem no terrível momento em que os nossos pecados foram postos sobre Ele. Perdeu de vista a face do Seu Pai uma única vez, entregou o espírito e morreu, foi sepultado e posto num sepulcro. Por que fez ele tudo isso? A espantosa resposta é: por causa do seu amor por nós; porque Ele nos amou. Tal é a “profundidade” do Seu amor!

Seu amor se mostra ainda maior e mais profundo quando nos lembramos de que não havia nada em nós que atraísse tal amor. Para que possamos ter uma verdadeira concepção do nosso real estado e condição, e da profundidade do seu amor, vejamos o que Paulo nos diz em Romanos 3:10-18:

“como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.”

Foi para esse tipo de gente que Cristo veio, suportando a cruz e desprezando a vergonha. Paulo ainda diz em romanos 8:5:

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.”

Tudo isso Ele fez por pecadores, por seus inimigos, pelos que eram seres vis e cheios de pecado. Essa é a “medida da profundidade” do Seu amor. Ele veio do céu, desceu às profundezas e ressurgiu por essas pessoas. Somente quando meditamos nestas coisas e nos damos conta da sua veracidade é que começamos a conhecer algo do amor de Cristo.

Isso nos leva por sua vez, à “altura” do Seu amor. Mediante esta dimensão o apóstolo expressa o supremo e final propósito de Deus quanto a nós. Ou podemos dizer que este é o meio pelo qual ele descreve a “altura” a que Deus se propõe “elevar-nos”. A maioria de nós tende a pensar na salvação em termos de perdão, como se o amor de Cristo só adquirisse para nós o “perdão dos pecados”. Quem quer que se detenha nisso mostra claramente que nunca soube coisa alguma da “altura” do amor de Cristo. Cristo morreu também para que fôssemos os “remidos de Deus”, “filhos de Deus”, “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo”. Esse é o propósito quanto a nós, e tudo o que Ele fez tinha esse fim em vista. Essa é a “altura do Seu amor” para conosco.

O Seu amor por nós é tão grande que Ele nos uniu de fato a Si. É por isso que fomos “vivificados”, “ressuscitados” e estamos “assentados nos lugares celestiais” com Ele. Paulo nos diz em Efésios 5:30:

Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos”

Devemos ir mais longe ainda, e lembrar como, em Sua última oração ao Pai, quando estava na terra, orou com estas palavras em João 17:24:

“Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo.”

O amor do nosso Senhor para conosco não tem limites; o Seu desejo quanto a nós é que estejamos com Ele e vejamos algo daquela glória que Ele comparte com o pai deste toda a eternidade.

Em sua primeira Epístola, o apóstolo João, descrevendo esta “altura”, nos diz assim no capítulo 3:1:

“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus.”

Desse modo temos procurado captar um vislumbre do amor de Cristo por nós. Você se sente triste por si próprio? Você considera o culto, a oração, a Palavra como deveres a cumprir? Você tem permitido que o mundo, a carne, o diabo o derrote e o leve a depressão? O antídoto é “meditar e contemplar” este amor de Cristo. Você já compreendeu a sua “largura, comprimento, profundidade, altura”?

Uma grande causa das presentes condições da Igreja é que não conhecemos o amor de Cristo. Se tivéssemos cheios deste amor e do conhecimento deste amor, seríamos transformados inteiramente. Aí está porque o apóstolo orava sem cessar para que os efésios pudessem “compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento”.

Por: D. M. Lloyd Jones

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