quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

EDIFÍCIO BEM AJUSTADO

Continuação do estudo da epístola de Paulo aos efésios.

Por: D. M Lloyd Jones

CAPÍTULO 32

"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” - Efésios 2:20-22


Passamos agora a mais um estudo desta terceira figura. Tivemos uma visão geral do assunto, mas também observamos que o apóstolo não se contenta só com isso, embora seja importante. Em acréscimo a oferecer-nos uma descrição geral do edifício e, portanto, da natureza e do caráter da unidade própria da Igreja, o apóstolo trata também dos detalhes da planta e das especificações.
Já dedicamos alguma consideração ao fundamento, que é da máxima importância. A primeira coisa que Paulo nos diz é que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina". Não vou retornar a isso, mas certamente nós temos de compreender que o fundamento é de impor¬tância absolutamente central. Nunca devemos sujeitar-nos a correr nenhum risco com um alicerce. O nosso Senhor firmou esse ponto em Sua parábola das duas casas, uma edificada sobre a rocha e a outra edificada sobre a areia. O alicerce é absolutamente vital, e nós já vimos o que é o alicerce da Igreja, e como o próprio Senhor Jesus Cristo é a principal pedra da esquina, interligando as pedras subsidiárias, interli¬gando todas as paredes, e assim suportando e unindo a estrutura inteira.
Agora, tendo feito isso, a próxima coisa da qual o apóstolo trata, a próxima coisa na qual evidentemente estamos interessados, é esta: onde nós entramos nisso tudo? Somos edificados sobre o fundamento, somos partes integrantes das paredes que estão subindo neste processo em que se vai erguendo este grande templo que Deus está construindo para Si e para a Sua habitação, este templo santo no Senhor. Noutras palavras, passamos agora a estudar a nossa parte, o nosso lugar e a nossa posição neste admirável edifício de Deus. O apóstolo regozija-se no fato de que os efésios estão sendo edificados no edifício. A obra tinha começado antes deles entrarem, mas eles são acrescentados a ele, são colocados nele, e assim prossegue a edificação. Outros, muitos outros, entraram daquele tempo em diante. Eu e vocês, como cristãos, estamos nele. Devemos observar com toda a atenção o que o apóstolo nos diz sobre quais as pessoas que são edificadas nele, e como são edificadas. Essas são as duas coisas que importam. Quem são os que têm lugar, posição e parte nesta grande estrutura? Como entraram ali? Como são postos ali? O apóstolo trata de ambas as questões com muita clareza.

“Como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento”

Devemos ter em mente três coisas. Obviamente, cada parte desta estrutura tem que estar numa relação especial com o fundamento. Quase não é preciso dizer isso e, contudo, é um ponto tão importante que eu devo salientá-lo outra vez. Num templo como este que está sendo construído, em qualquer edifício grande e magnífico, sempre tem que haver correspondência entre as diversas partes. Você não pode por material falsificado aqui e ali num edifício perfeito. Se você vai erigir um edifício incomum, um grande e santo templo, cada parte terá que corresponder às demais. E assim é vital que nos lembremos de que nós, como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento, devemos estar verdadeira e correta¬mente relacionados com esse fundamento. Isso é algo de importância crucial. Permitam-me lembrá-los da maneira como o apóstolo expres¬sou essa verdade no capítulo três da Primeira Epístola aos Coríntios. Trata-se de uma palavra particularmente dirigida àqueles de nós que temos o privilégio de pregar e de servir como pastores. Somos edificadores sob Deus, somos Seus colaboradores. E eis o que o apóstolo diz: "Ninguém pode por outro fundamento além do que já está posto". "Mas veja cada um como edifica sobre ele."
Você pode edificar sobre ele, diz o apóstolo, com ouro ou prata ou com metais preciosos. Isso tem valor; mas também há os que querem construir com madeira, feno e palha; e isso não é nada bom. A madeira, o feno e a palha não são coerentes com o fundamento que foi posto. O fundamento é tão precioso, e a principal pedra da esquina é tão preciosa, que nada senão ouro ou prata ou metais preciosos são adequados. Colocar ali madeira, feno e palha é uma indignidade. Não somente isso, diz ele; estas coisas não resistirão, afinal. Esta obra será submetida a prova - "o dia a declarará". E ela será provada pelo fogo. E quando for posto o fogo, a madeira, o feno, a palha e a serragem desaparecerão num momento e não restará nada. Um edifício construído com material de má qualidade nunca passa na prova. Há gente que fica tão ansiosa pela rápida construção de um edifício que não toma cuidado com o que põe nas paredes - qualquer coisa serve para levantá-las, e depois se cobre tudo com um pouco de tinta. Parece maravilhoso, e o ignorante e o inexperiente ficam impressionados. Eles dizem: que maravilhoso! Outros parecem estar construindo tão devagar que as pessoas faltas de discernimento dizem: ele não está fazendo coisa nenhuma. No entanto, "o dia" a declarará. Não estamos construindo para o tempo, mas para a eternidade, e o arquiteto responsável é o próprio Deus, que vê tudo quanto está sendo feito e o provará no fim. Há homens, diz o apóstolo, que parecem ter feito maravilhas, porém quando chegar "o dia", verão que a sua obra foi destruída, e nada restará. Eles mesmos, se são cristãos verdadeiros, serão salvos, apesar de ser destruída a sua obra, mas eles serão salvos "como pelo fogo".
Portanto, diz o apóstolo, veja cada homem como constrói sobre este fundamento. Noutras palavras, o ponto é que o dever deste construtor auxiliar não é simplesmente levantar uma parede, mas certificar-se de que tudo o que vai dentro dela está em harmonia com o fundamento. Ele não deve edificar na Igreja apenas número num papel ou num rol, todavia aqueles que realmente estão firmados no fundamento da fé. O tipo de gente que quer ser cristão só para obter certos benefícios, não pode entrar nesta parede. Somente podem aqueles que compreendem que estão mortos em ofensas e pecados, completamente sem esperança e em desamparo, e que dependem unicamente da graça de Deus em Cristo para a sua salvação; que compreendem que, se Ele não tivesse derra¬mado o Seu sangue por eles e por seus pecados, eles ainda estariam perdidos, e que confiam somente na expiação de Cristo, expiação vicária, sacrificial, perfeita e consumada, e no poder do Espírito Santo - somente estes entram nestas paredes. Não aqueles que meramente foram habituados a freqüentar um local de culto ou que têm moralidade razoável. Tem que haver esta relação definida com o único e exclusivo fundamento.

A nossa relação com a Pedra da esquina.

Passemos à segunda questão. Menciono este ponto separadamente porque o apóstolo lhe dá essa ênfase. Não somente temos que estar relacionados dessa maneira com o fundamento, mas também temos que estar especificamente relacionados com a principal pedra da esqui¬na. Todo verdadeiro membro da Igreja Cristã não está somente relaci¬onado com a fé apostólica, também está numa relação muito definida com o Senhor Jesus Cristo. Vocês se lembram de que começamos com a fé, e com a fé apostólica, com o mínimo de cristianismo irredutível que temos aqui neste capítulo dois desta Epístola aos Efésios. Entretanto não paro nisso, porque dar assentimento intelectual a isso não é suficiente. Se você não der assentimento intelectual a estas verdades, certamente você não estará no edifício. Mas, meramente subscrever estes princípios não basta. Temos que "estar em Cristo". Temos que estar ligados a Cristo. Temos que conhecer esta união vital, esta relação vital com Ele. A principal pedra da esquina mantém todas as partes juntas - razão pela qual o apóstolo vai repetindo: “... no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados...”. O capítulo todo dá ênfase a isso. Fomos vivificados juntamente com Cristo, fomos ressuscitados juntamente com Cristo, e juntos nos assentamos nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Não se pode fugir disso, é algo que não se pode evitar. Não somente cremos e aceitamos a verdade como está em Cristo Jesus, temos que ser incorpo¬rados nEle, temos que estar em união vital com Ele. "Eu sou a videira, vós as varas", disse Ele, e a idéia é a mesma. De modo que, como membros, como partes deste grande edifício, estamos relacionados com o fundamento, e todos nós estamos relacionados com Ele desta maneira mística e vital.
Algumas das outras ilustrações que o apóstolo utiliza expõem isso com maior clareza. A ilustração do corpo, que já vimos de relance, faz isso de maneira ainda mais perfeita. O corpo não é uma junção de partes afixadas umas nas outras. A essência da unidade de um corpo é que a sua unidade é vital e orgânica. Não se forma um corpo afixando os dedos às mãos, as mãos aos punhos, e os punhos aos braços. Ao contrário, eles são vital, íntima e organicamente relacionados. Assim todos nós somos relacionados com Cristo, em Cristo, somos partes dEle, pertencentes a Ele, e somos mantidos juntos por Ele. Isso é também, então, obviamen¬te, uma coisa de fundamental importância.

Nosso relacionamento uns com os outros

Isso nos leva ao terceiro ponto, ponto que devemos considerar em detalhe, qual seja, a nossa relação uns com os outros. Pensem num edifício e nas pedras de um edifício. Estão todas relacionadas com o fundamento, estão todas relacionadas com a principal pedra da esquina, porém também estão relacionadas umas com as outras. Não se pode ter uma parede sem que as suas partes estejam interligadas. Este é um princípio que o apóstolo ilustra com esta afirmação importante e pitoresca que no versículo vinte e um é traduzida pelas palavras "adequada e conjuntamente ajustado" (V A) - "no qual todo o edifí¬cio", ou, como a temos na Versão Revista (inglesa, RV), "no qual todo edifício adequada e conjuntamente ajustado". A frase importante é "adequada e conjuntamente ajustado".
É uma expressão muito interessante. Temo-la aqui com três palavras (em inglês; com duas em português, Almeida), mas na verdade o apóstolo utilizou somente uma palavra no grego. Há outra coisa muito interessante acerca dessa palavra. É uma palavra que só se acha aqui e no versículo dezesseis do capítulo quatro desta Epístola, em toda a Bíblia. Não se acha em nenhum outro lugar. Contudo há ainda outra coisa mais interessante sobre ela. É uma palavra que, obviamente, foi feita, foi inventada e formada pelo próprio apóstolo. Ele não a copiou de ninguém; ele não a tinha visto em lugar algum. Este é o primeiro uso conhecido desta palavra. Dou ênfase a isso pela seguinte razão: obvia¬mente o apóstolo considerava este ponto particular como excepcional¬mente importante, tanto assim que ele cunhou uma palavra para expor a sua idéia. Todavia, apesar de todo o trabalho tomado pelo apostolo, é patética a maneira como algumas traduções atualmente populares omitem completamente o significado exato. Vejam, por exemplo, a Versão Revista Padrão (inglesa, RSV). Ela traduz a palavra simples¬mente por "unido juntamente", deixando completamente de lado o ponto específico da palavra que o apóstolo cunhou. O apóstolo podia ter empregado muitas outras palavras para expor a idéia de “unido junta¬mente". Moffatt chega um pouco mais perto. Ele diz, "caldeado juntamente". Mas até essa tradução é errada, pois não ,se caldeiam pedras juntamente, e toda a concepção e toda a figura do apostolo são em termos de edificar com pedras.
De fato, a palavra utilizada pelo apóstolo significa "harmoniosa¬mente ajustadas juntas" - pensando nas pedras do edifício. É um duplo composto, três palavras colocadas juntas e feitas uma só. A palavra fundamental significa "ligar" ou "juntar", e isto em Si já sugere a idéia de vir junto. No entanto, depois ele acrescenta a isso, o prefixo syn, que significa simplesmente "junto com", a mesma idéia que temos em "sinfonia" e em qualquer dos seus compostos. Juntar, junto - junto, juntar. Ora, a própria palavra "juntar" sugere a idéia de "junto" ou "juntos", mas o apóstolo diz "junto-juntar" para assegurar-se de que captamos o significado. E depois ele acrescentou a estas duas uma terceira palavra, que realmente significa “coligir” ou “reunir” ou "selecionar". Esta terceira palavra muitas vezes é utilizada para ajustar palavras juntas ou juntar palavras para formar uma frase completa. Quando alguém está falando ou escrevendo, certas palavras se lhe insinuam. Ele escolhe uma e rejeita a outra. Depois ele faz a mesma coisa com a próxima palavra, rejeita uma e escolhe outra. Depois ele aplica todas as palavras escolhidas à formação de uma frase. A palavra que o apóstolo utilizou deixa entrever esse processo. Assim temos "juntos¬-juntar-escolher" (selecionar). E ele coloca estas três palavras juntas para formar um vocábulo que na Versão Autorizada (inglesa) é traduzida por "adequada e conjuntamente ligado" (na Versão de Almeida é traduzida por "bem ajustado").
Obviamente, há uma doutrina profunda aqui. O apóstolo jamais se daria ao trabalho de formar uma palavra como esta, de inventar uma palavra, se não quisesse ser bastante claro nas idéias que estava transmitindo. Espero que possamos compreender a sua figura. Ah, vivemos dias em que os edifícios são de tijolos e não de pedras, e, portanto, alguns sejam demasiado jovens para entender a figura do apóstolo como deviam. Afastem da mente a idéia de um edifício de tijolos. Pensem antes num grande e maciço edifício de pedras. Obser¬vem aquele homem, ou melhor, aqueles homens que estão erigindo este edifício. Vocês já viram um verdadeiro artesão, o antigo tipo de pedreiro, no seu trabalho? Alguma vez vocês o viram levantar uma parede? Já o viram tirar uma pedra de uma pilha, olhá-la e tornar a olhá-la e, vendo que não é adequada, jogá-la fora e apanhar outra que ele apara e depois a coloca na posição certa? Esta é a figura que o apóstolo está usando; "bem ajustado", "adequada e conjuntamente ajustado" - pedras individuais sendo acrescentadas e colocadas na posição certa numa parede. Quais serão as idéias que o apóstolo comunica mediante essa linguagem, mediante essa expressão pictórica?

“A idéia da escolha”

O primeiro ponto é a idéia de escolha. Repito, quem já viu um verdadeiro construtor sabe exatamente o que isso significa. Lembremos que estamos considerando o nosso lugar e a nossa posição como membros da Igreja de Cristo. Estamos examinando a nós mesmos como partes desta grande parede, deste grande edifício que está sendo erigido para a construção de um templo, uma habitação para Deus. Como Deus habitava no templo antigo, na glória da Shekinah, no "lugar santíssimo", Ele habita e habitará por toda a eternidade na Igreja, em Seu povo. E eu e você estamos nessa Igreja. Como chegamos ali? Aqui está o primeiro ponto, a questão da escolha. É uma questão muito individual, esta. Vejam aquele pedreiro, aquele construtor. Ele levantou uma parede até certo nível; porém quer levantá-la mais, e no momento precisa de uma pedra particularmente grande para ocupar certa posição. Ele dispõe de uma pilha de pedras ali trazidas para o seu uso. Ele corre os olhos sobre elas. Ah, diz ele, esta serve. Tira a pedra da pilha, examina-a, mas finalmente decide que ela não serve. Tem que devolvê-Ia à pilha. Pega outra, e talvez tenha que pegar várias, e rejeitá-las; então finalmente acha a que serve e a coloca.
Tudo isso está envolvido. Há uma seleção pessoal e particular. Cada pedra é selecionada e colocada individualmente na posição. Isso de produção em massa não existia quando a construção era feita desse jeito, nos tempos antigos. Quando se constrói com tijolos, um é tão bom como qualquer outro. Entretanto não é assim com o tipo de edifício no qual o apóstolo estava pensando. Não foi assim que o antigo templo de Jerusalém foi construído, e é essa a figura que Paulo tem em mente. Não, ali há uma seleção deliberada, pessoal, particular e individual. E, graças a Deus, isso caracteriza todo aquele que se torna cristão. Não existe produção em massa na Igreja Cristã. Alguns parecem pensar que existe, mas não existe, e não pode existir. Graças a Deus, num mundo em que o individual está perdendo valor cada vez mais, ele fica bem no centro nestas questões.
Examinemos a questão de outro ângulo, mediante uma mudança da ilustração. Há somente um modo de entrar no reino de Deus, e esse é por uma catraca. Não é uma porta ampla, é uma catraca - "estreita é a porta"; "apertado é o caminho"; um por um. Não se pode entrar em multidão no reino dos céus; trata-se de uma transação individual entre Deus e a alma. A regeneração é individualista. E essa é a base da fé cristã; é o princípio essencial no que diz respeito às paredes deste edifício, deste templo de Deus. As pessoas não se salvam em famílias, menos ainda em grupos ou classes ou nações. Um por um, um é tomado e outro é rejeitado!
Todo esse assunto é também exposto pelo apóstolo no uso que faz da figura da madeira, do feno e da palha, em 1 Coríntios, capítulo 3. O nosso Senhor deixou isso claro em Sua parábola da rede que é lançada ao mar e recolhe grande número, uma grande multidão de peixes; mas depois é feito um exame, e os bons são mantidos e os maus são jogados fora. Eles ficam na rede por um momento, porém não são mantidos, são devolvidos ao mar. O construtor apanha uma pedra. Vai colocá-la na parede? Parece que ele vai usá-la. Mas não. Lá vai ela de volta, jogada fora, rejeitada. Nem tudo que parece certo a mim e a vocês é certo aos olhos de Deus. É um pensamento terrível este, mas a Bíblia o ensina em toda parte. No Dia do Juízo haverá muitos que pensavam que estavam no edifício, no entanto Cristo lhes dirá: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Trata-se de uma seleção individual, envolve uma escolha, e uma rejeição. Esse é o primeiro ponto.

“As pedras não são idênticas”

O segundo ponto é que as pedras deste edifício não são todas idênticas. Dêem uma olhada nalgum magnífico edifício de pedra e façam uma atenta busca desse ponto. As pedras não são iguais nem no tamanho, nem na forma, nem em nenhuma outra coisa. São todas diferentes e, contudo, estão harmoniosamente ajustadas e unidas, e fazem parte de uma parede magnífica. Umas são muito grandes, outras são pequenas, outras são de tamanho médio. Elas diferem no tamanho, na forma e em muitos outros aspectos. Torno a dizer, graças a Deus por isso. Esse também é um ponto muito importante, que, ao que me parece, é ignorado e esquecido hoje. Tive o privilégio de estar presente numa discussão de pastores e clérigos há não muito tempo, na qual uma questão muito pertinente foi levantada por um participante. Ele pergun¬tou: por que será que o cristianismo atual só parece atrair um tipo particular de gente? E acrescentou: é evidente que não estamos sensi¬bilizando as classes trabalhadoras, assim chamadas. Só estamos sensi¬bilizando uma certa classe, uma camada da sociedade. Por que será? Em minha opinião era uma questão muito profunda. Minha resposta foi que há algo radicalmente errado em nossa concepção fundamental da Igreja. Atrair classes é o tipo de coisa ligada à psicologia, mas é contrário ao gênio do cristianismo. A glória do cristianismo é que ele sensibiliza todos os tipos, espécies e condições de homens. Este elemento de variedade e variação, e de falta de mesmice, é sumamente interessante. A característica essencial de uma parede de pedra em distinção de uma parede de tijolo é que as pedras variam de tamanho, porém são ajustadas juntamente para compor o modelo. Não há nenhuma uniformidade monótona e insípida na Igreja. É uma característica das seitas que todos os seus seguidores tendem a ser sempre idênticos. Na Igreja Cristã há diversidade na unidade. Portanto, sempre devemos olhar com suspeita qualquer tipo de ensino que leve a uma espécie de mesmice nos resultados. Há certas pessoas que, só pelo modo de falar e pelas frases que empregam, quase contam a você onde foram convertidas. São produzidas em massa, são todas a mesma coisa. Falam as mesmas coisas, e as falam da mesma maneira, e fazem as mesmas coisas. São como uma série de selos postais. Não é esse o princípio que o apóstolo está enunciando aqui. Nunca fomos destinados a ser desse jeito, fomos destinados a ser diferentes. Todos na mesma parede, sim, mas muito diferentes uns dos outros - alguns grandes, alguns médios, alguns pequenos; alguns com esta forma, alguns com outra, porém todos igualmente na parede. Essa é a verdadeira unidade, não a uniformidade monótona e insípida que vemos hoje em muitos aspectos da vida, e, lamentavelmente, na Igreja. Permitam-me expressá-lo com simplici¬dade e clareza dizendo isto: como cristãos, não fomos destinados a ser iguais. As nossas características individuais devem permanecer. Alguns de nós nascemos veementes; bem, fomos destinados a ser veementes. Outros nascem tranqüilos e fleumáticos, que continuem sendo assim. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa tentar ser veemente ou sangüínea. E, contudo, acontece com freqüência; todos procurando ser iguais. Não é o que se espera de nós. Ah, você dirá, mas eu sempre gosto do cristão alegre e animado. Bem, eu nem sempre! Há ocasiões e circunstâncias que esse tipo de cristão me deprime terrivelmente. A risada forçada! A jovialidade afetada! Há vezes em que dou graças a Deus pelo indivíduo sério, de aparência sóbria, que me assegura que está tendo uma interior e profunda visão de vida, e que tem algum conhecimento do que o apóstolo quis dizer quando declarou: "Neste tabernáculo, gememos carregados" (2 Coríntios 5:4).
Nem todos fomos destinados a pregar. Mas há um ensino hoje que quase parece dizer que fomos. Assim que a pessoa é convertida, tem que dar o seu testemunho, e então pregar. Contudo nem todos nós fomos destinados a pregar. Nem todos fomos destinados a ir para algum campo missionário estrangeiro. Nem todos fomos destinados a ser obreiros de tempo integral na causa de Deus. Há pessoas que procuram passar a idéia de que fomos. Em suas conferências eles pressionam os jovens, fazen¬do-os sentir que quase estarão pecando se não se apresentarem como voluntários para as missões estrangeiras. Mas esse ensino é muito falso. Não fomos destinados a ser iguais. Todos nós temos o nosso papel a desempenhar, a nossa função a realizar; esta não é a mesma em cada caso. Aí está a pedra grande, que suporta um peso tremendo. Ali está a pedra pequena - é igualmente importante, ajusta-se àquele ponto ao qual nenhuma outra coisa se ajustaria.
Livremo-nos, pois, da idéia de que todos nós temos que ser iguais, e procuremos descobrir o que Deus quer fazer conosco e o que Deus quer que nós sejamos. A história da Igreja dá eloqüente testemunho do fato de que, às vezes, um cristão obscuro e desconhecido, de quem a Igreja pouco ouvira falar, que passava o tempo em oração e intercessão, fez muito mais do que os grandes pregadores populares que edificaram com muita madeira, feno e palha, que não subsistirão no Dia do Juízo. Aprendamos a ver estas coisas espiritualmente. Alguns de nós, como cristãos, talvez sejam chamados simplesmente para serem bondosos com as pessoas, para serem amigáveis e compreensivos, para fazerem pouco mais que sentar-se e ouvi-las. Você pode ajudar tremendamente as pessoas apenas ouvindo-as e deixando que descarreguem os seus corações. Mas há alguns de nós que somos tão ativos e ocupados, e falamos tanto, que nunca damos às pessoas oportunidade para falarem; nunca temos tempo para ouvi-las e, portanto, não as ajudamos.
Procuremos captar bem este princípio vital - que há esta grande variedade e variação nas pedras que devem estar no mesmo edifício, no mesmo templo santo do Senhor, neste edifício de Deus. Você pode não ser grande e importante; bem, não se glorie no fato de não ser, porém lembre-se de que o fato de não o ser não significa que você não está no edifício. Ele sabe. Ele nos vê a todos. Voltemos a 1 Coríntios, capítulo 12, e vejamos como o apóstolo desenvolveu ali este princípio minuci¬osamente, em termos do corpo. O corpo completo não é o olho, não é o ouvido, não é a mão, não é o pé. Todas estas diferentes partes estão no mesmo corpo, embora alguns sejam mais elegantes que outros. Todavia ele acentua que as nossas partes menos elegantes são tão indispensáveis como as mais elegantes. Portanto, não caiamos na tolice de desejar que todos sejamos iguais e idênticos. Não pensemos em termos de produção em massa ou em termos de tijolos. Pensemos numa parede de pedra, e demos graças a Deus que, seja o que for que sejamos, Ele nos tomou e colocou na parede do Seu edifício, e que Ele tanto nos conhece como conhece a pedra grande, bem proporcionada e sólida. É maravilhoso para mim, estupendo o fato, de que somos colocados ali um por um, e que o cristão mais humilde é objeto de conhecimento de Deus como o é o maior e mais poderoso santo, que Ele vê o lugar exato para nós na parede e nos coloca ali; e nos coloca ali exatamente da mesma maneira como coloca todos os demais.
Não tentemos, pois, atalhar ou violar o plano de Deus, o método de Deus e a Sua maneira de edificar. Procuremos estar cientes deste terrível perigo psicológico com que se defronta a Igreja hoje - a idéia de produção em massa, sempre levando ao mesmo resultado e produzindo o mesmo tipo particular. É uma coisa grave quando a Igreja só produz certo tipo de cristão e somente apela a certo tipo ou classe de pessoa. Quando este evangelho é pregado corretamente, ele toca todos os segmentos da sociedade. A história da Igreja o comprova. O perigo hoje é entender que todos nós devemos ser meramente pessoas finas, tranqüilas e respeitáveis, pessoas que ainda se apegam à moralidade própria, e que a Igreja só deve consistir de tais pessoas - somente pessoas da classe média. Jamais houve tal propósito. Reconsideremos a nossa pregação, o nosso ensino, e especialmente os nossos métodos, para não acontecer que inconscientemente deslizemos para a prática do método psicológico e, com isso, nos persuadamos de que estamos construindo um edifício maravilhoso, para somente descobrir no fim que não acrescentamos nada ao templo de Deus, e ver-nos no "grande dia" com muito pouca coisa para mostrar do nosso esforço e de todo o nosso entusiasmo. Esse é o segundo ponto.

Preparo e adaptação

Permitam-me acrescentar apenas uma palavra como nosso terceiro princípio: é a questão de preparo e adaptação. Só posso fazer uma introdução disso aqui, porquanto é um grande tema. Teremos que entrar em detalhes posteriormente. Eu disse a vocês que o construtor, o pedreiro, em dado ponto precisa de uma pedra de certo tamanho ou forma e, olhando para o monte de pedras, enxerga uma que parece servir e a retira. Ah, diz ele, esta vai servir. Tendo rejeitado algumas, ele diz: agora esta vai servir direitinho. Mas não tão direitinho, porque esta pedra vai ter que ser preparada e adaptada ao material que já fora posto ali. Há pedras embaixo e nos lados. Esta é a pedra certa em geral, porém terá que ser adaptada às que estão nos lados e por baixo, e depois ainda terá que ser colocada alguma coisa em cima. Vocês já viram um pedreiro fazendo o seu serviço? Em minha adolescência eu vi isso muitas vezes, e sempre me fascinou. Ele apanhava a pedra e depois, com seus diversos tipos de martelo, tirava pedaços dela. Ele a aparava, modelava-a, dava¬-lhe forma, e lhe tirava lascas. Aí tentava colocá-la. Depois tornava a tirá-la porque não estava bem ajustada. Tirava outro pedaço, talvez com o cinzel e o martelo. E assim ele ia trabalhando nela até ficar bem certa. Depois a colocava, e se afastava para olhar. Satisfeito, punha a argamas¬sa, pegava outra pedra e fazia o mesmo trabalho. Pois bem, é isso que o apóstolo quer dizer com "bem ajustado" ou "adequada e conjunta¬mente ajustado". Algo terá que acontecer conosco, antes de podermos estar adequadamente ajustados ao conjunto. O construtor não lança as pedras juntas de qualquer maneira. Não, há uma maravilhosa simetria em tudo isso. Observem os edifícios, e vocês verão isso. E, natural¬mente, é óbvio que o trabalho de aparar, cortar e cinzelar é mais necessário em alguns casos do que noutros. Mas todos nós precisamos disso. E o temos. E enquanto isso não acontecer conosco, jamais faremos parte da parede em construção.
Ao que me parece, não há nada mais fascinante na longa história da Igreja e do seu povo do que ver em operação e na prática este princípio. Houve homens que precisaram de muito trabalho de aparelhagem e de modelagem, e o tiveram. Depois disso tornaram-se pedras enormes. Houve outros que pareciam estar quase totalmente prontos como estavam. Pouca coisa foi necessária fazer com eles. Vocês devem ter visto isso em sua experiência pessoal, ao observarem diferentes cristãos. O que importa não é a quantidade, o princípio é que sempre há necessidade desse procedimento e desse processo, em maior ou menor medida.
Como se faz? Pela pregação e pelo ensino. É esse o dever geral da pregação e do ensino; é modelar-nos, preparar-nos. Todos nós temos estes estranhos ângulos e arestas e, como somos por natureza, não nos ajustamos à construção. Estas coisas têm que ser podadas. Angulosidades, grosserias, gente grosseira na Igreja! Todos nós somos grosseiros, em certo sentido, uns mais, outros menos. Somos pedras rudemente talha¬das quando saímos da pedreira, como que arrancadas dela mediante uma explosão. Temos mais ou menos a forma geral certa, mas é necessário muito trabalho com o cinzel antes de nos adequarmos bem aos nossos lugares particulares na construção. E enquanto não formos aparelhados, não seremos colocados nela. Como nos inclinamos a esquecer isso! Se lermos o Novo Testamento, se dermos ouvido à pregação e ao ensino, veremos a absoluta necessidade e urgência desta preparação. Há os que dizem: sou deste tipo de pessoa. Sou daquele tipo de pessoa. Sempre tenho que dizer o que tenho na cabeça. Se todos fossem assim, que tipo de igreja vocês teriam? Que espécie de edifício vocês teriam, se todas as pedras fossem pontudas e difíceis assim? Seria impossível, vocês não poderiam construir; estas arestas têm que ser debastadas. Pois bem, é aí que entra a disciplina pessoal. Temos que ser menos difíceis, como pessoas. Temos que ajustar-nos - adequada e conjuntamente ajustados.
Devemos esquecer-nos de nós mesmos e pensar na parede, no edifício, e compreender juntos que é o Senhor quem decide onde devemos estar, o que devemos ser e que funções nos cabe desempenhar. E, acredite-me, se você está neste edifício, ou vai estar, terá que ser aparelhado e amoldado. É o edifício de Deus, lembremo-nos, e se eu e você não aplicarmos o ensino, as instruções e a mensagem das Escrituras como devemos, Deus terá outro meio de fazê-lo. Leia o capítulo doze da Epístola aos Hebreus, e verá o que estou querendo dizer. "O Senhor corrige a quem ama" (12:6, ARA). Se os apelos e argumentos do evangelho não o levam a disciplinar-se, e se você não se livrar dessas arestas e irregularidades, Ele tem um cinzel poderoso e um poderoso martelo, e Ele as arrancará de você. Todos nós temos algum conheci¬mento disso em nossas experiências pessoais. Ele nos humilha, Ele nos derruba, e Ele tem muitas maneiras de fazê-lo por meio de enfermidade ou doença, ou morte, ou tristeza, ou fracasso, ou incompreensão; mil e uma coisas. E Ele o faz. Graças a Deus que Ele o faz. Pois, se Ele não fizesse isso conosco, nenhum de nós chegaria a estar preparado para estar nessa parede. É a quem o Senhor ama que Ele castiga. Se Ele não o ama, Ele não Se importará com você, Ele o jogará fora, e lá você poderá ficar com todas as suas angulosidades e anomalias pelo resto da sua vida, dizendo: eu sou deste tipo de pessoa! Muito bem! Seja esse tipo de pessoa! Saiba, contudo, que você não está no templo santo do Senhor, e nunca estará, enquanto for desse jeito. Esta é uma questão muito grave e solene, uma questão de importância eterna para nós. Temos que ser amoldáveis, e que ajustar-nos uns aos outros, se é que desejamos estar neste templo santo. Assim, se nós não compreendermos este princípio, não virmos a importância desta preparação vital, e não nos submetermos a ela, seremos rejeitados, e se não compreendermos isso no tempo, certamente o compreenderemos na eternidade.

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