sábado, 4 de agosto de 2012

O Espírito Glorifica a Cristo



Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. João 16:14
        A Escritura fala de uma dupla glorificação do Filho. Uma é pelo Pai, a outra pelo Espírito: uma se dá no céu, a outra aqui na terra. Por uma Ele é glorificado “no próprio Deus”; por outra, “em nós” (João 13:32; 17:10). Da primeira, Jesus disse: “se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará nele mesmo; e glorificá-lo-á imediatamente”. E novamente, na oração sacerdotal, “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho [...] e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti” (João 17:1,5). Da última, Ele disse: “há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”.
        Glorificar é manifestar a excelência e valor ocultos de uma pessoa. Jesus, o Filho do Homem, seria glorificado quando Sua natureza humana fosse admitida em plena participação do poder e glória em que Deus habita. Ele entrou na perfeita vida espiritual do mundo celestial, do ser divino. Todos os anjos O louvaram como o Cordeiro no trono. Esta glória celestial e espiritual de Cristo, a mente humana não pode conceber ou compreender. Ela só pode ser conhecida verdadeiramente por experiência, sendo comunicada e apropriada pela vida interior. Esta é a obra do Espírito Santo, como o Espírito do Cristo glorificado. Ele vem como o Espírito da glória e revela a glória de Cristo em nós pelo Seu habitar e trabalhar. Da mesma maneira, Ele O glorifica em nós e através de nós naqueles que têm olhos para ver. O Filho não busca a Sua própria glória: o Pai O glorifica nos céus, o Espírito O glorifica em nossos corações.
        Mas antes que o Espírito pudesse glorificar a Cristo, Ele primeiro precisava se afastar de Seus discípulos. Eles não poderiam tê-Lo em Espírito e na carne também; Sua presença física impediria a habitação espiritual. Eles tinham de se separar do Cristo que conheceram e amaram antes que pudessem receber a habitação do Cristo glorificado pelo Espírito Santo. O próprio Cristo teve de abrir mão da vida que tinha para que pudesse ser glorificado nos céus e em nós. Mesmo em união com ele, devemos abrir mão daquela medida de vida que tínhamos Nele se desejamos tê-Lo glorificado para nós e em nós pelo Espirito Santo.
        Estou convencido de que, neste ponto, muitos dos filhos de Deus precisam do ensinamento: “convém-vos que eu vá”. Conforme os discípulos, eles também creram em Jesus; eles O amam e obedecem, e experimentaram muito da bênção inexprimível de conhecer e seguir a Ele. Ainda assim, sentem que o profundo descanso e gozo, a santa luz e o divino poder de Sua habitação presente, conforme a veem nas Sagradas Escrituras, ainda não pertencem a eles. Primeiro em segredo e então sob a bendita influência da comunhão dos santos, o ensino dos servos de Deus tem sido ajudado e maravilhosamente abençoado. Cristo se tornou muito precioso. Mesmo assim, ainda veem algo adiante deles – promessas ainda não cumpridas, desejos não plenamente satisfeitos. Pode ser que a razão para isto seja que eles ainda não tenham herdado plenamente a promessa: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” (João 16:13-14). Não entenderam plenamente a conveniência da partida de Cristo para que voltasse glorificado no Espírito. Ainda não puderam dizer que apesar de terem conhecido Cristo segundo a carne, até agora ainda não O conhecem.
        O conhecimento de Cristo segundo a carne deve chegar ao fim. Devemos abrir caminho para o conhecimento Dele no poder do Espírito. “Segundo a carne” significa no poder do que é externo, relativo a palavras e ideais, esforços e sentimentos, influências e ajudas vindas de fora. O crente que recebeu o Espírito Santo, mas não conhece plenamente o que isto implica e, portanto, não se entrega inteiramente à Sua liderança, tem em grande parte sua confiança somente na carne. Admitindo que não pode fazer nada sem o Espírito, ele ainda trabalha e luta em vão para crer e viver como sabe que deve. Confessando seus pecados sinceramente, e por vezes experimentando de maneira mais abençoada que somente Cristo é sua vida e força, se entristece em pensar no quanto falha em manter essa atitude de dependência confiante pela qual Cristo pode viver Sua vida nele. Ele procura crer em tudo o que sabe sobre a presença, guarda e habitação de Cristo, e mesmo assim, de alguma forma, ainda há brechas e interrupções; é como se a fé não fosse o que deveria ser – a certeza daquilo que se espera. A razão deve ser que a fé é ainda um exercício mental, no poder da carne, na sabedoria do homem. Houve uma revelação de Cristo: o guarda fiel, o amigo presente, mas essa revelação foi, em parte, apropriada pela carne e a mente natural. Isso tornou a revelação impotente. O Cristo da glória, a doutrina do Cristo de habitação, foi recebido apenas parcialmente pelo espírito. Somente o Espírito de Cristo pode glorificar a Cristo. Devemos desistir da velha maneira de conhecer a Cristo. Devemos não mais conhecê-Lo segundo a carne.
        O que significa o Espírito glorificar a Cristo? Lemos em Hebreus:
Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem. Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles. (Hebreus 2:9-10, ênfase adicionada)
        A Ele todas as coisas foram sujeitadas. Assim, nosso Senhor conecta o fato de Ele ser glorificado, na passagem que tomamos como nosso texto, com o de todas as coisas serem dadas a Ele. “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” (João 16: 14-15). Ao exaltá-Lo acima de todo o governo e poder e domínio, o Pai colocou todas as coisas em sujeição sob Seus pés: Ele Lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho. O reino e o poder e a glória são um: Ao que está assentado no trono, e ao Cordeiro entronizado, sejam a glória e o domínio para sempre. É assentado no trono da glória divina, com todas as coisas sujeitadas sob Seus pés, que Jesus foi glorificado nos céus (veja Efésios 1:20-22; Filipenses 2:9-10).
        Quando o Espírito Santo glorifica a Jesus em nós, Ele O revela a nós em Sua glória. Ele toma as coisas de Cristo e as declara para nós. Não é que Ele nos dê uma idéia, imagem ou visão daquela glória como ela é nos céus, mas Ele nos mostra-a como experiência e possessão pessoal. Ele nos habilita a participar dela em nosso ser interior. Mostra a Cristo como presente em nós. Todo o verdadeiro e vivo conhecimento que temos de Cristo é através do Espírito de Deus. Após o nosso primeiro conhecimento de Cristo, e depois de tê-Lo convidado para o nosso coração, Ele cresce, aumenta e é formado dentro em nós; quando aprendemos a confiar e a seguir e a servi-Lo – isso também vem do Espírito Santo. Tudo isto, entretanto, pode existir, como existiu nos discípulos, com certa quantidade de trevas e erro. Mas quando o Espírito Santo faz Sua obra perfeita e revela o Senhor glorificado, o trono de Sua glória é erguido no coração e Ele governa sobre todos os inimigos. Todo poder é trazido à sujeição, todo pensamento cativo à obediência de Cristo. Através de toda a natureza renovada se levanta a canção, “Glória ao que está assentado no trono”. Ainda que a confissão permaneça verdadeira até o fim, “em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum”, a santa presença de Cristo como Senhor e Governador de tal forma enche o coração e a vida que Sua autoridade governa sobre tudo. O pecado não tem poder. A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus me libertou da lei do pecado e da morte.
        Se esta é a glorificação de Cristo que o Espírito traz, é fácil ver a o caminho que leva a ela. A entronização de Jesus em Sua glória somente pode acontecer no coração que promete obediência implícita e irrestrita. É no coração que teve a coragem de crer que Ele irá reinar, e na fé que espera que todo inimigo seja mantido sob Seus pés. Esse coração clama e aceita a Cristo como Senhor de tudo, tudo na vida, grande ou pequeno, possuído e guiado por Ele, através de Seu Espírito Santo. É no discípulo que ama e obedece que o Espírito promete habitar; nele o Espírito glorifica a Cristo.
        Isso acontece no tempo perfeito de Deus para o crente. A história da igreja como um todo se repete em cada indivíduo. Até o tempo designado pelo Pai, que tem os tempos e estações em Suas próprias mãos, o herdeiro permanece sob a tutela de guardiões e mordomos, e não é diferente de um escravo. Quando a plenitude dos tempos chega e a fé é aperfeiçoada, o Espírito d’O glorificado entra em poder e Cristo habita no coração. Sim, a história do próprio Cristo se repete na alma. No templo existiam dois lugares santos – um antes do véu, o outro após o véu, o Santo dos Santos. Cristo, em Sua vida terrena, habitou e ministrou no Lugar Santo de fora do véu: o véu da carne O afastou do Santíssimo. Foi somente quando o véu da carne foi rasgado que Ele pôde entrar no santuário interior da plena glória da vida do Espírito nos céus.
        Da mesma forma, o crente que anseia por ter Jesus glorificado em si pelo Espírito deve, mesmo que sua vida tenha sido abençoada em conhecimento e serviço ao seu Senhor, aprender que existe algo melhor. Nele, também, o véu da carne deve ser rasgado; ele deve entrar nessa obra de Cristo através do novo e vivo caminho para o Santo dos Santos. A alma deve ver quão completamente Jesus triunfou sobre a carne e entrou na vida do Espírito. Ela deve perceber quão perfeito, em virtude desse triunfo, é Seu poder sobre tudo aquilo que em nossa carne pode atrapalhar; e quão perfeita no poder do Espírito a entrada e habitação de Jesus pode ser. O véu é retirado e a vida antes vivida no Santo Lugar agora o é no Santíssimo, na plena presença de Sua glória.
        Este rasgar do véu, esta entronização de Jesus como O glorificado no coração, não é sempre com som de trombetas e clamores. Pode ser assim em algumas vezes, e com alguns indivíduos, mas em outros acontece com profundo temor e quietude, onde não se ouve nenhum som. O Rei de Sião ainda vem dócil e humilde, com o reino, para o pobre de espírito. Sem beleza nem formosura Ele entra, e quando as ideias e sentimentos falham, o Espírito Santo O glorifica na fé que não vê, mas crê. Os olhos da carne não O viram no trono; para o mundo isto era um mistério; então quando tudo parece vazio e sem esperança, o Espírito opera secretamente a segurança divina, e a bendita experiência de que Cristo, O glorificado, estabeleceu Sua residência no íntimo. A alma sabe, em adoração e louvor silenciosos, que Jesus é o Mestre, que Seu trono no coração é estabelecido em justiça e a promessa está agora cumprida.

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