sábado, 9 de março de 2013

DISCIPLINA COM EQUILÍBRIO






Efésios 6:1-4

Chegamos agora à questão de como exercer a disciplina. O apóstolo trata disso, em particular, neste versículo quatro. Não há dúvida quanto à necessidade da disciplina, e de que ela deve ser imposta. Mas, como fazê-lo? É aí que muitas vezes se formou grande confusão. Já concordamos que, fora de questão, nossos avós vitorianos erraram nesse ponto e que com freqüência não exerciam disciplina de maneira certa e bíblica. Também vimos que o que temos hoje é, em grande parte, uma violenta reação contra aquilo. Isso não justifica a situação atual, porém nos ajuda a compreendê-la. O importante é que não devemos cair no erro de voltar da situação atual para o outro extremo, igualmente errado. E aqui, se tão somente seguirmos as Escrituras, teremos um conceito equilibrado. A disciplina é essencial e deve ser imposta; no entanto o apóstolo nos exorta a sermos cuidadosos quanto à maneira de exercê-la, porque poderemos causar mais dano do que benefício, se não o fizermos do modo certo.
É claro que, em geral, há pouca necessidade deste ensino na época atual porque, como venho indicando, o problema hoje é que as pessoas não acreditam em nenhuma disciplina. Portanto, há pouca necessidade de dizer-lhes que não exerçam disciplina de maneira errônea. Temos de instar com o homem moderno a reconhecer a necessidade de disciplina e a pô-la em prática. Mas na esfera da Igreja - e talvez na esfera das igrejas cristãs evangélicas em particular, e especialmente nos Estados Unidos da América - o que o apóstolo diz neste versículo quatro será cada vez mais necessário. É da seguinte maneira que surge essa necessidade. O perigo sempre presente é o de reagir violentamente. É sempre errado quando a nossa atitude é determinada por outra atitude que consideramos errada. Nosso conceito nunca deve ser resultante de uma reação meramente negativa. Este princípio vale não somente com respeito a este assunto particular, e sim também em muitos aspectos e departamentos da vida. Muitíssimas vezes deixamos que a nossa atitude seja governada e determinada por algo errôneo. Permitam-me apresentar uma ilustração atual desta tendência. Há cristãos, em certas partes do mundo, que estão reagindo tão violentamente a um tipo errôneo de fundamentalismo dos dias atuais que estão quase perdendo seu conhecimento das doutrinas cristãs essenciais. É seu aborrecimento com alguma coisa errada que determina a posição deles. Isso é sempre errado. Nossa posição deve ser positivamente determinada pelas Escrituras. Não devemos ser apenas reacionários. E nesta questão particular de disciplina no lar, e das crianças, há o perigo real de que bons cristãos evangélicos, bíblicos, tendo visto claramente que a atitude moderna é inteira e completamente errada, e estando determinados a não aceitá-la, partam para o outro extremo e retrocedam à antiga idéia vitoriana. Portanto, eles têm necessidade da exortação que encontramos nestes versículos desta epístola.
O apóstolo divide o seu ensino em duas seções, negativa e positiva. Este problema ele diz que não se limita aos filhos; os pais e as mães também têm que ter cuidado. Negativamente, ele lhes diz: “Não provoqueis a ira a vossos filhos”. Positivamente, diz: “Mas criai-os na doutrina e na admoestação “do” Senhor”. Na medida em que nos lembrarmos dos dois aspectos, tudo irá bem.
Começamos com a negativa: “Não provoqueis a ira a vossos filhos”. Estas palavras podem ser traduzidas, “não exaspereis vossos filhos, não irriteis vossos filhos, não provoqueis vossos filhos, levando-os a ficarem ressentidos”. Esse é um perigo muito real quando exercemos a disciplina. E se cometermos esse erro, faremos muito mais mal do que bem. Não teremos sucesso na aplicação da disciplina aos nossos filhos, só produzindo neles tão violenta reação, tanta ira e ressentimento, que a situação será quase pior do que se não praticarmos disciplina alguma. Todavia, como vimos, ambos os extremos são completamente errôneos. Noutras palavras, devemos exercer esta disciplina de ma­neira tal, que não irritemos nossos filhos, não os provoquemos levando-os a um ressentimento pecaminoso. Exige-se de nós que mantenhamos o equilíbrio.
Como fazê-lo? Como os pais devem exercer esta disciplina? E não somente os pais, mas também os professores e todo aquele que têm a in­cumbência de dirigir os mais novos. Mais uma vez devemos retornar ao capítulo 5, versículo 18. “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito.” A chave é sempre essa. Quando estávamos tratando desse verso, vimos que a vida vivida no Espírito, a vida do homem cheio do Espírito, é sempre caracterizada por duas coisas importantes - poder e domínio. É um poder disciplinado. Lembrem-se de como Paulo o expressa, escrevendo a Timóteo: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação (de disciplina)” (2 Tm 1:7). Não um poder descontrolado, mas um poder controlado pelo amor e pela moderação, pela disciplina! É sempre essa a característica da vida daquele que é “cheio do Espírito”.
Noutras palavras, o cristão é completamente diferente do homem que se acha sob a influência do vinho, do homem embrutecido pelo vinho. Há sempre excesso ou contenda nesse caso, e o homem reage violentamente. Pode-se irritar facilmente um ébrio e provocá-lo, levando-o a uma reação violenta. Falta-lhe equilíbrio, falta-lhe juízo, ofende-se por qualquer trivialidade e, por outro lado, fica contente em demasia com coisas triviais. Invariavelmente peca por reação excessiva. O cristão, porém, diz o apóstolo, sempre deve manifestar a antítese desse tipo de comportamento.
Então, como devo exercer a disciplina? “Não provoqueis a ira a vossos filhos.” Este deve ser o primeiro princípio a governar a nossa ação. Seremos incapazes de exercer a verdadeira disciplina, se primeiro não formos capazes de exercer domínio próprio e de disciplinar o nosso gênio. O problema com o homem “cheio de vinho” é que ele não pode dominar-se; ele é dominado por seus instintos e paixões, e por sua natureza inferior. O álcool põe fora de ação os centros mais elevados do cérebro, incluindo-se o senso de autodomínio. O álcool é uma dessas drogas depressivas que eliminam as mais refinadas capacidades de discriminação do cérebro, os centros mais elevados, dando como resultado que os fatores instintivos, elementares, ganhem expressão. É o que acontece com o homem cheio de vinho; daí seus excessos e sua falta de domínio próprio. Entretanto os cristãos são cheios do Espírito, e as pessoas cheias do Espírito sempre são caracterizadas pelo domínio próprio. Quando você for disciplinar um filho, terá que dominar-se primeiro a si próprio. Se tentar disciplinar seu filho quando você estiver de mau humor, é certo que fará mais malefício do que benefício. Que direito terá de dizer ao filho que ele precisa de disciplina, quando evidentemente você mesmo precisa dela? O domínio próprio, o domínio do gênio, é um requisito essencial para podermos comandar outros. Mas o problema é esse, não é? Vemos isso nas ruas, em toda parte. Vemos pais aplicando castigo com raiva, muitas vezes a tremer de irritação. Não têm domínio próprio, e o resultado é que acabam exasperando o filho. Assim, o primeiro princípio é que devemos começar por nós mesmos. Precisamos estar certos de que estamos tendo domínio próprio, de que estamos calmos. Seja o que for que tenha acontecido, seja qual for a provocação, não devemos reagir com violência similar à do bêbado; é preciso haver esta disciplina pessoal, este autodomínio que habilita o homem a examinar a situação objetivamente e a lidar com ela de maneira equilibrada e bem controlada. Como isto é importante! As nações precisam aprender justamente esta lição. Suas conferências fracassam porque os homens se portam como crianças, ou pior; não se dominam, reagem violentamente. Esta condição de “embriaguez”, estas reações violentas, são uma causa da guerra. São as causas principais de todos os fracassos da vida - no casamento, no lar e em todas as outras esferas. Todavia, em lugar nenhum esta lição é mais importante do que na área da disciplina aplicada aos nossos filhos.
Em certo sentido, o segundo princípio decorre do primeiro. Se cabe ao pai aplicar esta disciplina da maneira certa, ele jamais deverá agir caprichosa­mente. Não há nada mais irritante para quem está se submetendo à disciplina do que a percepção de que a pessoa que a está ministrando é caprichosa e incerta. Não há nada mais aborrecido para um filho do que o tipo de pai cujos sentimentos e atos nunca podem ser previstos, pessoa variável, cujas condições pessoais são sempre incertas. Não há pior tipo de pai do que aquele que, um dia, com temperamento bondoso, é indulgente e deixa o filho fazer quase tudo que quer, contudo no dia seguinte fuzila de raiva se o filho mal chega a fazer alguma coisa. Isso torna a vida impossível para o filho. Uma atitude excêntrica do pai é, de novo, indicativa da condição de quem está “cheio de vinho”. As reações de um homem embriagado são imprevisíveis; não se pode dizer se ele vai mostrar-se jovial ou com mau gênio; ele não é governado pela razão, não tem domínio próprio, não tem equilíbrio. Tal pai, torno a dizê-lo, não exerce uma disciplina verdadeira e proveitosa, e a situação do filho fica impossível. Este é provocado e irritado, vindo a irar-se, e perde todo o respeito pelo pai.
Estou me referindo não somente a reações temperamentais, e sim também à conduta. O pai que não é coerente em sua conduta não pode exercer disciplina no caso do filho. O pai que faz uma coisa hoje e o contrário amanhã, não é capaz de ministrar boa disciplina. Tem que haver coerência, não somente na reação, mas também na conduta e no comportamento do pai; precisa haver um padrão quanto à vida do pai, pois o filho está sempre observando e vigiando. No entanto, se o filho vê que o pai é variável e que faz exatamente aquilo que proíbe ao filho, de novo não se pode esperar que o filho se beneficie com qualquer disciplina ministrada por um tal pai. Não pode haver nada de variável, capricho­so, incerto ou inconstante nos pais, se é que estes querem exercer disciplina.
Outro princípio muito importante é que os pais nunca devem ter a mente e os ouvidos fechados para os argumentos do filho. Não há nada que aborreça tanto aquele que está sendo disciplinado como a percepção de que todo o procedimento é completamente irracional. Noutras palavras, é um pai to­talmente mau aquele que não se dispõe a levar em consideração quaisquer circunstâncias, ou que não quer ouvir nenhuma explicação concebível. Alguns pais e mães, em seu desejo de exercer disciplina, são propensos a tornarem-se inteiramente irracionais, e eles mesmos podem estar equivocados. O relato que receberam a respeito do filho pode ser errôneo, ou podem existir circunstâncias peculiares que eles ignoram; porém ao filho não é dada permissão nem sequer para expor a sua situação ou para dar algum tipo de explicação. Naturalmente se pode ver que o filho poderá tirar proveito disso. O que estou dizendo é que jamais devemos ser irracionais. Deixe que o filho dê a sua explicação e, se não for uma explicação verdadeira, castigue-o por isso, bem como pelo ato particular que constitui a transgressão visada. Mas, negar-se a ouvi-lo, proibir toda espécie de réplica, é indesculpável.
Este princípio nos fica claro quando vemos um Estado portando-se mal. Não nos agrada um Estado policial, temos orgulho da Lei do Habeas Corpus neste país, lei que declara que é um grave mal manter um homem na prisão sem lhe conceder um julgamento. Somos eloqüentes sobre isto, porém muitas vezes fazemos exatamente a mesma coisa em nossos lares. Não é dada ao filho nenhuma oportunidade para expor o seu caso, nem por um momento a razão tem vez na situação, recusamo-nos a sequer admitir a possibilidade de que haja alguma explicação a respeito da qual até então nada ouvimos. Tal conduta é sempre errada; é provocar a ira a nossos filhos. Com todo a certeza, isso vai exasperá-los e irritá-los, levando-os a um estado de rebelião e antagonismo.
No entanto, há outro princípio a considerar - o pai nunca deve ser egoísta. “Pais, não provoqueis a ira a vossos filhos.” Isto acontece às vezes devido ao puro e simples egoísmo dos pais. Minha denúncia visa aquelas pessoas que não reconhecem que o filho tem sua própria vida e sua própria personalidade, e que parecem achar que os filhos são inteiramente para o prazer delas ou para o seu uso. Têm uma noção essencialmente falsa da paternidade e do que ela significa. Não entendem que são apenas tutores e guardiães destas vidas que nos são entregues, que não somos seus donos, que elas não nos “pertencem”, que não são "‘mercadorias” ou “bens”, que não temos direitos absolutos sobre elas. Mas muitos pais que se comportam como se tivessem esse direito de propriedade; e a personalidade do filho não recebe nenhum reconhecimento. Não há nada — mais deplorável ou repreensível do que um pai dominador. Refiro-me ao tipo de pai ou mãe que impõe a sua personalidade ao filho, e que está sempre esmagando a personalidade do filho; o tipo de pai ou mãe que exige tudo e tudo espera do filho. Geralmente estes pais são descritos como possessivos. Sua atitude é sumamente cruel e, infelizmente, pode persistir na vida adulta dos filhos.
Algumas das maiores tragédias que encontrei em minha experiência pastoral eram resultantes disso. Conheço muitas pessoas cujas vidas foram totalmente arruinadas por pais egoístas, possessivos, dominadores. Conheço muitos homens e muitas mulheres que nunca se casaram por esta razão. Fizeram com que eles se sentissem criminosos só por pensarem em deixar pai e mãe; tiveram que dedicar a vida toda aos pais. Por que teriam vindo ao mundo, senão para isso? Não lhes fora permitido ter sua vida própria, independente, nem desenvolver a sua personalidade; um pai despótico ou uma mãe dominadora esmagara a vida, a individualidade e a personalidade do filho ou da filha. Isso não é disciplina; é tirania do tipo mais repugnante, e uma contradição do claro e simples ensino das Escrituras. É totalmente indesculpável e, à medida que oprime a personalidade do filho, produz ressentimento. Como evitá-lo? Estejamos certos de que estamos completamente livres disso. “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda.” O bêbado só pensa em si, seu único interesse é sua própria satisfação. Se pensasse nos outros, nunca se embriagaria, porque bem sabe que isso os faz sofrer. A embriaguez é uma manifestação de egoísmo, é auto-indulgência consumada. Não devemos ter esse espírito com respeito a coisa nenhuma, e particularmente nesta relação sumamente delicada entre pais e filhos.
Contudo, repito: a punição, a disciplina, jamais deverá ser ministrada de maneira mecânica. Há gente que acredita na disciplina pela disciplina. Esse não é o ensino bíblico, mas sim a filosofia do sargento instrutor. Não há nada que dizer a favor dela; não tem nada de inteligente! Isso é o que há de horrível com tal disciplina. No Exército e nas outras forças armadas a disciplina é pouco ou nada inteligente; é feita em termos de números, e a personalidade não é levada em conta. Pode ser que essa forma de disciplina seja necessária lá, porém quando penetra na esfera do lar, é imperdoável. Noutras palavras, é preciso haver uma razão para aplicar-se a disciplina de maneira correta e genuína; não deve ser aplicada de maneira mecânica. Sempre deverá ser inteligente; sempre deverá existir uma razão para a sua aplicação, e essa razão deve ser exposta com simplicidade e clareza. Nunca deve ser aplicada à semelhança de alguém que aperta um botão, e espera o resultado inevitável. Isso não é disciplina verdadeira; nem humana é. Pertence aos domínios da mecânica. Mas a disciplina verdadeira sempre se baseia no entendimento; tem mensagem própria; tem explicação para dar.
Observem que em todo o transcurso do nosso estudo, estamos vendo que é necessário atingir um equilíbrio. Ao criticarmos o conceito moderno que não reconhece nenhuma disciplina, observamos que ele parte do pressuposto de que tudo que se tem que fazer é dar explicações e fazer apelos, e tudo estará bem. Vimos claramente que esse conceito não é válido, nem na teoria, nem na prática; todavia, é igualmente errado arrojar-se para o outro extremo e dizer: “Isto tem que ser feito porque eu mando. Não há nada que perguntar, e não será dada nenhuma explicação.” A disciplina cristã, equilibrada, nunca é mecânica; é sempre dinâmica, é sempre pessoal, é sempre compreensível e, acima de tudo, é sempre altamente inteligente. Sabe o que faz e nunca peca por excesso. Não perde o domínio próprio, não é uma espécie de cachoeira a derramar-se de maneira descontrolada e violenta. Há sempre este fator inteligente e com­preensível no âmago e no centro da verdadeira disciplina.
Isso leva inevitavelmente ao sexto princípio. A disciplina nunca deve ser demasiado severa. Aí talvez esteja o perigo que confronta muitos bons pais atualmente, quando vêem a rebeldia generalizada que os cerca, e a lamentam e a condenam. Correm o perigo de influenciar-se tão intensamente por sua revolta, que vão direto ao outro extremo e se tornam severos demais. O oposto da ausência de disciplina não é a crueldade, e sim a disciplina equilibrada, controlada. Um antigo adágio nos fornece a regra e a lei fundamentais acerca de toda esta matéria. É que “a punição deve ser proporcional ao crime.” Noutras palavras, devemos ter o cuidado de não aplicar a punição máxima a todas as transgressões, grandes ou pequenas. Isto simplesmente equivale a dizer de novo que a punição não deve ser mecânica; pois se a punição dada for despropor­cional ao mau comportamento, ao crime, ou seja ao que for, não pode ser boa. Inevitavelmente dará à pessoa punida uma sensação de injustiça, um sentimento de que a punição é tão severa, tão fora de proporção com o mal praticado, que constitui um ato de violência, não de correção saudável. Isso inevitavelmente produz esta “ira” de que o apóstolo fala. O filho se irrita e acha que a punição é irracional. Embora talvez esteja disposto a admitir alguma culpa, ele está seguro de que a culpa não foi tão grave para merecer aquilo tudo. Para expressá-lo doutro modo, jamais devemos humilhar outra pessoa. Se ao punir ou ministrar disciplina ou correção cometermos o erro de humilhar o filho, é claro que nós mesmos precisaremos ser disciplinados. Nunca humilhemos ninguém! Certamente devemos castigar, se necessário, mas que seja uma punição ra­zoável, baseada no entendimento. E nunca o façamos de modo que o filho pense que está sendo espezinhado e completamente humilhado em nossa presença, e pior ainda, na presença de outros.
Tudo isso, bem sei, pode ser muito difícil; porém, se somos “cheios dc Espírito”, faremos bom julgamento nestas questões. Aprenderemos que nossa ministração da disciplina jamais deverá ser apenas um meio de aliviar nossas tensões emocionais. Isso é sempre errado; e nunca devemos deixar-nos gover­nar pelo prazer de punir; tampouco, como já salientei, devemos pisar na personalidade e na vida do indivíduo com quem estamos lidando. O Espírito nos admoesta a sermos extremamente cuidadosos neste ponto. No momento em que a personalidade é posta para fora e esta rígida, dura e áspera a idéia de punição entra, somos culpados das coisas contra as quais Paulo nos adverte. Então estaremos irritando e provocando a ira a nossos filhos, e os estaremos tornando rebeldes. Perderemos o respeito deles e os faremos pensar que estão sendo maltratados; um senso de injustiça se inflamará dentro deles, e acharão que estamos sendo cruéis. Isso não beneficia nenhuma das partes e, portanto, jamais deveremos tentar aplicar disciplina desse modo.
Assim chegamos àquilo que, de muitas maneiras, é a última das nossas considerações em termos negativos. Nunca devemos deixar de reconhecer o crescimento e o desenvolvimento dos nossos filhos. Este é outro alarmante defeito paterno que, graças a Deus, não se vê hoje com tanta freqüência como antigamente. Ainda existem, no entanto, alguns pais que continuam a consi­derar os seus filhos a vida toda como se nunca tivessem saído da meninice. Os filhos podem ter vinte e cinco anos de idade, mas são tratados como se tivessem cinco. Esses pais não reconhecem que esta pessoa, este indivíduo, este filho que Deus lhes deu por Sua graça, é alguém que está crescendo e se desenvolvendo e amadurecendo. Não reconhecem que a personalidade do filho está flores­cendo, que ele está obtendo conhecimento, que sua experiência está se alar­gando, e que o filho está se desenvolvendo como acontecera com eles próprios. Isso é de particular importância no estágio da adolescência; daí, um dos maiores problemas sociais de hoje é o que está relacionado com o manejo e o tratamento do adolescente.                                                                                                                                                                                                                                   É o problema das escolas dominicais, como também das escolas diárias. Os professores da escola dominical atestam que têm pouca dificuldade enquanto as crianças não chegam à adolescência, mas que, aí, tendem a perdê-las. Os pais acham a mesma coisa. Este período da adolescência é, notoria­mente, a idade mais difícil, pela qual todos têm que passar e, portanto, precisa de graça especial, compreensão, e do mais cuidadoso manejo.
Como pais, nunca deveremos ser culpados de não reconhecer este fator, e temos que procurar ajustar-nos a ele. Pelo fato de você poder dominar o seu filho, digamos até à idade de nove ou dez anos, não deve dizer: “Vou continuar agindo assim, dê no que der. A vontade dele tem que ser dobrada pela minha. Não me importa o que ele sinta, ou o que ele entenda, as crianças sabem muito pouca coisa, de modo que continuarei a impor-lhe a minha vontade”. Pensar e agir assim significa que certamente você provocará a ira a seu filho e, com isso, irá causar-lhe grande dano. Irá causar-lhe dano psicológico, e até poderá causar- lhe dano físico. Criará nele vários tipos de enfermidades psicossomáticas, tão comuns nos dias atuais. Essa espécie de comportamento por parte dos pais é prolífico na produção desses efeitos e resultados. Nunca deveremos ser culpa­dos desse erro.
Como evitarei todos estes males?”, você perguntará. Uma boa regra é que nunca devemos impingir nossas idéias em nossos filhos. Até certa idade é certo e bom ensinar-lhes certas coisas e insistir nelas, e não haverá dificuldade nisso, se for feito corretamente. Eles até gostarão disso. Mas depressa chegarão a uma idade em que começarão a ouvir conceitos e idéias dos seus amigos, provavelmente na escola ou noutras agremiações. É quando a crise começa a de­sabrochar. Todo o instinto dos pais leva-os, muito acertadamente, a proteger o filho, porém, outra vez, isso pode ser feito de tal maneira que causa mais dano do que benefício. Se você der ao filho a impressão de que ele tem que acreditar nestas coisas simplesmente porque você acredita nelas, e porque seus pais também acreditavam, inevitavelmente criará uma reação. É antibíblico agir assim. E não somente é antibíblico, mas também põe à mostra uma triste falta de compreensão da doutrina neotestamentário da regeneração.
Surge neste ponto um importante princípio que se aplica não somente a esta esfera, mas também a muitas outras. Constantemente estou tendo que dizer a pessoas que se tomaram cristãs e cujos entes queridos não são cristãos, que tenham muito cuidado. Eles mesmos vieram a enxergar a verdade cristã, e não podem entender por que estes outros membros da família - marido, esposa, pai. Mãe, ou filho - não a enxergam. Toda a tendência desses cristãos é de impacientar-se com eles e de forçá-los à fé cristã, de impingir neles sua crença. De modo nenhum se deve fazer isso. Se a pessoa em questão não foi regenerada, não poderá exercer fé. Precisamos ser vivificados”, antes de podermos crer. Quando a pessoa está morta “em ofensas e pecados(Ef 2:1), não pode crer; portanto, não se pode impingir fé nos outros. Eles não enxergam a verdade, não podem compreendê-la. “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las. porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:14). Muitos pais caíram neste erro justamente neste ponto. Tentaram arrastar seus filhos, no estágio da adolescência, para a fé cristã; tentaram impingir-lhes seus conceitos, tentaram compeli-los a dizerem coisas nas quais na verdade não criam. Este método é sempre errado.
Bem, o que se pode fazer?”, serei interrogado. Nosso interesse é tentar ganhá-los, é tentar mostrar-lhes a excelência e a racionalidade do que somos e do que cremos. Devemos ser muito pacientes com eles e tolerar as dificuldades que apresentam. Eles têm os seus problemas, embora estes não signifiquem nada para você. Contudo, para eles esses problemas são muito reais. Toda a arte de exercer disciplina está em reconhecer esta outra personalidade o tempo todo. Você deve colocar-se no lugar do seu filho, por assim dizer, e com real simpatia, amor e compreensão tentar ajudá-lo. Se os filhos recusarem e rejeitarem os seus esforços, não reaja violentamente, mas faça-os perceber que você sente muito, que você se entristece por amor deles, e que você acha que algo muito precioso está se perdendo. E, ao mesmo tempo, deve fazer-lhes tantas concessões quantas puder. Não deve ser duro e rígido, não deve negar-lhes nada automati­camente sem qualquer razão, simplesmente porque é o pai e este é seu método e seu modo de agir. Ao contrário, deve preocupar-se em fazer toda legítima concessão que puder, ir tão longe quanto puder em matéria de concessão, mostrando com isso que você respeita a personalidade e a individualidade do seu filho. Isso, em si e por si, é sempre bom e certo, e sempre redundará em benefício.
Permitam-me resumir a minha argumentação. A disciplina deve ser sempre praticada com amor, e se você não puder praticá-la com amor, não tente aplicá-la de modo nenhum. Nesse caso, terá necessidade de tratar de si próprio primeiro. O apóstolo já nos disse que devemos falar a verdade com amor, num sentido mais geral, porém exatamente a mesma coisa aplica-se aqui. Fale a verdade, mas com amor. Com a disciplina é precisamente a mesma coisa; deve ser governada e dirigida pelo amor. “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda (ou “excesso”), mas enchei-vos do Espírito.” Qual é “o fruto do Espírito”? “Caridade (ou “amor”), gozo, paz, longanimidade, benignidade bondade, fé, mansidão, temperança”. Se como pais, estamos cheios do Espírito, e produzimos tal fruto, a disciplina não será grande problema para nós. “Cari­dade, gozo, paz, longanimidade- sempre com amor, sempre para o bem do filho. O objetivo da disciplina não é manter o seu padrão ou dizer: “Decidi que tem que ser assim, e assim será”. Você não deve pensar primordialmente em si próprio, e sim no filho. O bem do filho deve ser o seu motivo dominante. Você deve ter um conceito correto da paternidade e considerar o filho como uma vida que Deus lhe deu. Para quê? Para guardar para você e moldar segundo o seu modelo, para impor-lhe a sua personalidade? Absolutamente não! Pelo con­trário, foi colocado sob os seus cuidados e sob a sua responsabilidade por Deus, para que a alma dele finalmente venha a conhecê-l0 e a conhecer o Senhor Jesus Cristo. O filho é uma entidade como você, dada, enviada por Deus a este mundo como você. Assim, você deve olhar para os seus filhos primariamente como almas, e não como você olha para um animal que você possui, ou para certos bens que lhe pertencem. Seu filho é uma alma que Deus lhe deu, e você deve agir como seu tutor e seu depositário.
Finalmente, a disciplina sempre deve ser exercida de modo que leve os filhos a respeitarem seus pais. Nem sempre eles entenderão e, provavelmente, por vezes acharão que não merecem castigo. Entretanto, se somos “cheios do Espírito”, o efeito de nossa ação disciplinar será que eles nos amarão e nos respeitarão; e virá o dia em que nos agradecerão por havermos agido assim. Mesmo quando queiram defender-se, haverá alguma coisa dentro deles que lhes dirá que estamos certos. Terão um respeito fundamental pelo nosso caráter. Eles ficam vigiando as nossas vidas; observam a disciplina e o autodomínio que exercemos sobre nós mesmos, e vêem que o que fazemos com eles não é algo caprichoso, que não estamos apenas dando escape às nossas tensões emocionais e procurando alívio. Saberão que os amamos, que estamos interessados em seu bem-estar e em beneficiá-los neste mundo pecaminoso e mau; e assim haverá este respeito, esta admiração, esta apreciação e este amor subjacentes.
E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos.” Que tremenda coisa a vida é! Como são maravilhosas todas estas relações - marido, esposa, pais, filhos! Vemos pessoas no mundo que nos cerca precipitando-se para o casa­mento e precipitando-se para sair do casamento. Quanto aos filhos, muitos deles não têm a mínima idéia do que a paternidade realmente significa! Para muitos pais os filhos não passam de um estorvo, ora exageradamente mimados, ora severamente punidos; muitas vezes deixados sozinhos em casa enquanto os pais saem para se divertirem; enviados a internatos escolares para que os pais tenham liberdade! Quão pouco se pensa no filho, em seu sofrimento, nas pressões que se exercem sobre a sua natureza sensível! A tragédia disso tudo é que as vidas dessas pessoas não são governadas pelos ensinamentos do Novo Testamento: não são “cheias do Espírito”; não tratam seus filhos como Deus nos trata, em Seu infinito amor, bondade e compaixão. Imagine, se Deus nos tratasse como freqüentemente tratamos nossos filhos! Ah, a longanimidade de Deus! Ah, a paciência de Deus! Ah, a admirável maneira pela qual Ele tolera as nossas maldades como fez com as maldades dos filhos de Israel da antiguidade! Para mim, não há nada mais admirável que a paciência de Deus, e Sua longanimidade para conosco. Digo ao povo cristão, e a todos quantos de algum modo são res­ponsáveis pela disciplina de crianças e jovens, “haja em vós o mesmo sen­timento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5). E que o mesmo amor esteja também em nós, para que não provoquemos a ira a nossos filhos e com isso, os envolvamos, e a nós também, em todas as más conseqüências do nosso fracasso.











quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

OS PRIVILÉGIOS DA ESPOSA




 
Continuação do estudo sobre o casamento.


Efésios 5:25-33

Estivemos traçando nosso curso através desta grande afirmação, primari­amente destinada à edificação dos maridos, mas que, como vimos, tem uma gloriosa mensagem para todo o povo cristão. Isto porque, ao dirigir sua mensagem ao marido, o apóstolo o faz empregando a comparação com o relacionamento que existe entre Cristo e a Igreja. Essa é a analogia que o marido sempre deverá ter em mente.

Há, porém, mais uma coisa que nos cabe fazer antes da aplicação do ensino aos deveres particulares dos maridos para com as suas esposas. Há implícita naquilo que o apóstolo vem dizendo, mais uma coisa que será de grande importância quando chegarmos à aplicação prática, mas que é de inestimável valor para cada um de nós, cristãos, quando nos damos conta da nossa relação com o Senhor Jesus Cristo, e de que, juntos, somos a esposa de Cristo. Deixem-me explicar isto.

Dado tudo que estivemos considerando, segue-se necessariamente que o marido concede certas coisas a Sua esposa; e agora vamos ver o que o Senhor Jesus Cristo, como Esposo da Igreja, lhe concede. Ao fazê-lo, compreendere­mos melhor o glorioso privilégio de sermos cristãos e membros da Igreja cristã. Demoro-me nesta verdade porque é minha crescente e profunda convicção que o maior problema, a maior dificuldade hoje é que cristãos como nós não se dão conta do privilégio e da dignidade de serem membros da Igreja cristã e do corpo de Cristo. Bem sei, e concordo, que está certo preocupar-nos com as condições do mundo. Não poderemos ser cristãos, se não tivermos essa preocupação; todavia não consigo entender como se pode ser complacente quanto às con­dições da Igreja. Para mim a coisa mais triste e mais séria dos dias atuais é a omissão do povo cristão de considerar o que o Novo Testamento diz acerca de nós mesmos, e o que significa ser membro do corpo de Cristo. Num mundo que dá tanta importância a honras, glórias e posições, não é espantoso darmos tão pouca atenção ao fato de sermos membros da Igreja? Muitos parecem entender isso como sendo eles que conferem à Igreja alguma dignidade, em vez de perceberem que esse é o supremo e o mais glorioso privilégio que se pode ter ou conhecer. Outros acham que ser membro da Igreja é um trabalho e um dever, e ficam mais satisfeitos consigo mesmos se desempenham alguma função. Ora, isso revela uma completa incapacidade de entender o que significa realmente sermos membros do Seu corpo, o qual é a esposa do Senhor Jesus Cristo.

Vejamos, pois, algumas das coisas que Ele nos concede, coisas que dizem respeito a nós como povo cristão e membros da Igreja. Se a Igreja tão somente percebesse estas coisas, deixaria de estar cheia de racionalizações defensivas, deixaria de ser frouxa e desanimada, e de apresentar o infeliz aspecto que apresenta; transbordaria de genuíno gozo, alegria e glória.
Que é que Cristo nos concede? Primeiramente, Sua vida. Já estudamos essa verdade, mas preciso mencioná-la outra vez, neste contexto. Ele nos dá uma parte da Sua própria vida - tornamo-nos partícipes da Sua vida. É o que acontece quando alguém se casa, não é? Ele vivia sua própria vida, porém agora não a vive exclusivamente; sua esposa se torna participante da sua vida. Como é uma parte dele, ela se torna participante da sua vida, das suas atividades e de tudo que lhe diz respeito. A primeira coisa que um homem casado tem que aprender é que, quando se vê confrontado por situações diversas, agora lhe compete fazer algo novo. Antes, o principal problema para ele era: como isto me afeta, qual a minha reação a isto? Entretanto, agora ele não pára aí. Agora ele tem que pensar em como isto afeta sua esposa. Já não leva uma vida isolada, digamos, por sua própria conta; sempre terá que considerar outra pessoa, que é partícipe da sua vida. Certas coisas podem ser-lhe aceitáveis, mas agora há alguém mais que ele tem de levar em consideração.

Eu poderia desenvolver isto; poderia falar baseado em muita experiência pastoral sobre problemas e dificuldades de que já tive de tratar porque os maridos se esquecem justamente deste ponto. Permitam-me dar-lhes uma ilustração disso. Uso-a porque é uma experiência que muitas vezes tive de enfrentar, e a respeito da qual muitas vezes fui mal compreendido. Mas, correndo esse risco, conto-a de novo, com o fim de ilustrar este ponto. Um homem me procura e me diz que se sente chamado para servir nalgum campo missionário estrangeiro. Bem, isso é excelente. No entanto, então eu tenho que lhe fazer uma pergunta - e sempre a faço, se o homem é casado: que diz sua esposa sobre isso? Algumas vezes tenho de lidar com homens que não parecem preocupados com isso, e parecem considerar a matéria como se fosse de decisão puramente pessoal. Todavia não é! O homem não tem direito de isolar-se sobre uma questão como essa, deixando de lado a sua esposa. Uma vez que ambos são uma carne, ele tem de considerar as opiniões da sua esposa. Já estivemos tratando dos deveres das esposas para com os seus maridos. Há muito que dizer sobre esse outro lado também; mas o ponto que estou firmando é que é um cristão bem pobre aquele que diz: “Se me sinto chamado para uma obra particular, não importa o que a minha esposa diga”. Claro que importa! Isso mostra uma compreensão completamente falsa deste ensino.

Vejamos, no entanto, outro aspecto do assunto, e tratemos de aperceber-nos de que somos partícipes da vida do Senhor Jesus Cristo. É um pensamento tremendo, mas temos direito de dizer que estamos sempre em Sua mente; que em toda a Sua perspectiva temos nossa parte e nosso lugar. Estamos “em Cristo”, somos participantes da Sua vida. Escrevendo aos colossenses, o apóstolo utiliza esta extraordinária frase no capítulo 3, verso 4: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar”. Ele é “a nossa vida”, o que é outra maneira de dizer que somos participantes da Sua vida. Ora, não há nada que supere isso! De fato, já estivemos examinando isso quando estávamos es­tudando a afirmação de que somos membros do Seu corpo, da Sua carne e dos Seus ossos. Agora o estamos examinando de um ângulo ligeiramente diferente; não tanto do ângulo da união mística, e sim da consciência pessoal do Senhor de que Ele está dando Sua vida, partilhando-a, e de que nós somos incluídos nela e nos tornamos parte integrante da Sua vida.

Prossigamos, porém, para mostrar isto em suas várias manifestações. Uma é que Ele nos outorga Seu nome. Tomamos sobre nós o Seu nome porque Ele mesmo no-lo dá. Somos chamados “cristãos”, e essa é a maior verdade concernente a nós. Não somos mais o que éramos; mudamos de nome. Quando a mulher se casa, muda de nome. Quão importante é isso, para ajudar-nos a entender o ensino do grande apóstolo neste capítulo cinco desta Epístola aos Efésios! Quanta coisa ele tem para dizer também acerca deste insensato movimento moderno chamado “feminismo”! Quando uma mulher se casa, renuncia ao seu nome e toma o nome do seu marido. Isso é bíblico, e também é o costume do mundo inteiro. Isso nos ensina sobre a relação entre marido e mulher. Não é o marido que muda de nome, mas a esposa. Há uma notável ilustração disto, de tempos recentes. Refiro-me a ela porque espero que ajude a fixar estas verdades em nossas mentes. A nação toda sabe o que aconteceu no caso da princesa Margaret, como o nome do marido dela é apresentado sempre que ela é mencionada; e isso está certo. Não proceder assim é antibíblico. O nome do marido é que é tomado, não o da mulher. Não importa quem sejam os cônjuges, esta é a posição escriturística.

Contudo, examinemos isso tudo do nosso ponto de vista, como membros da Igreja cristã. Cristo colocou Seu nome em nós. Não se pode fazer maior cumprimento do que esse. Essa é a mais clara expressão deste relacionamento matrimonial. O Novo Testamento nos apresenta isto de muitas maneiras. “Já não há judeu nem gentio, bárbaro nem cita, escravo nem livre” (Gl 3:28 e Cl 3:11). Costumava haver. Aqueles eram os nomes que tínhamos antes. Não mais, porém! Agora somos cristãos, temos um novo nome. Ou tomemos o modo pelo qual este mesmo apóstolo o expressa em sua Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 5: “Daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne”. “Eu costumava conhecer as pessoas segundo a carne”, é o que ele diz; “como judeu, eu costumava dizer: “Quem é esse homem? É judeu? Se não é, não passa de um cão”. “Entretanto”, diz ele, “não penso mais segundo essas categorias; agora utilizo novos termos. O que desejo saber é: “Este homem é cristão?” Não me interessa qual era o seu nome antigo; este é o nome em que estou interessado agora - “cristão!” Leva ele o nome de Cristo sobre si? Assim nos damos conta de que o Senhor Jesus Cristo nos dá o Seu nome. A realidade disto é tal, diz ainda o apóstolo, escrevendo aos gálatas, que chega a este ponto: “vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. Essa é a idéia. Em certo sentido, Paulo está submerso, desaparecido, todavia ele continua, e diz: “a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (2:20). Que esplêndida exposição é essa, desta relação matrimonial! Há um sentido em que toda a vida do cristão está no Esposo e, no entanto, ele não se perdeu inteiramente, ele ainda está lá - “a vida que agora vivo na carne”.

Aí está o grande mistério do relacionamento matrimonial! Mas devemos apegar-nos a este grande fato - que levamos sobre nós o nome do Senhor Jesus Cristo. O que importa, e deve importar, para cada um de nós é que mudamos de nome. Aqui, no terreno da Igreja, os outros nomes absolutamente não impor­tam. Não importa o nome que a pessoa tenha, qual a sua posição ou o seu ofício, qual a sua capacidade, e tudo mais. A única coisa que importa a seu respeito agora, é que ela tem sobre si o nome de Cristo. Somos todos um aí, estamos todos juntos em Cristo. Ele nos tomou para Si - a Igreja é a esposa de Cristo. Eis o que praticamente Ele nos diz: “Esqueça esse velho nome, tome sobre si este Meu nome; você Me pertence”. Encontramos isto no Livro de Apocalipse, capítulo 3, verso 12: “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu nome”. É isso!

Teu novo nome escreve em meu coração,
Teu novo e melhor nome de amor.

Está é a coisa espantosa que acontece com todos os que de fato são cristãos, com todos os membros deste corpo, que é a esposa de Cristo. Foi-lhes dado pelo Príncipe da glória e, maravilha das maravilhas é o Seu nome! Não há honra ou glória maior do que esta. Você desaparece num novo nome, e é o nome mais elevado de todos. Lemos que vem o dia em que “ao nome de Jesus” se dobrará “todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra” - e esse é o nome que nos é dado, a nós que fomos constituídos em esposa de Cristo.

Então vemos que disso decorre o fato de que somos participantes da Sua dignidade, da Sua grandiosa e gloriosa posição. O apóstolo já dissera algo equivalente no capítulo 2, onde nos dissera a admirável verdade de que Deus “nos ressuscitou juntamente com ele (com Cristo) e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus”. Essa verdade agora nos abrange. Se somos cristãos, estamos “em Cristo”, o que significa que estamos assentados com Ele “nos lugares celestiais”. Onde quer que o esposo esteja, ali está a esposa também, e a reputação, a dignidade e a posição que pertencem a ele, pertencem a ela. Não tem a menor importância quem ela era; no momento em que ela se torna sua esposa, participa de todas as coisas com ele. E ai daquele que não lhe conceda a posição e a dignidade a que faz jus! Não há maior insulto ao esposo do que recusar a honrar a sua esposa. Esta verdade, diz o Novo Testamento, vale para o cristão. Isto nos é dito repetidamente. Uma declaração disso ocorre no capítulo 17 do Evangelho de João, verso 22, onde o Senhor Jesus diz: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste”. A glória que o Pai Lhe dera, diz Ele, Ele deu a Seu povo. É uma coisa que invariavelmente sucede no casamento: a esposa, sendo uma parte do marido e tendo sobre si o nome do marido, compartilha toda a posição dele. “Dei -lhes a glória que a mim me deste”.

Tomemos, porém, outra colocação do assunto. O Senhor Jesus Cristo disse a respeito de Si mesmo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8:12). É Sua reivindicação, e não existe reivindicação superior a essa. Sem mim, o mundo fica em trevas, diz Ele. Sou a luz que o mundo pode receber sempre, sendo que tudo mais não passa de tentativas feitas pelos homens para descobrirem alguma luz; e invariavelmente fracassam. Fora de Cristo não há luz. Mas, observem o que Ele diz a nosso respeito: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5:14). Noutras palavras, uma vez que Ele é o que é, e dada a nossa relação com Ele, igualmente viemos a ser a luz do mundo. É-nos muito difícil compreender isso, não é? Somos apenas um pequeno grupo nesta nossa terra pagã, e só a metade destes freqüentando a casa de Deus. Daí, ficamos cheios de desculpas, e nos sentimos um tanto envergonha­dos de nós mesmos. Contudo, a verdade acerca de nós é esta: somos a luz do mundo! Foi o Senhor Jesus Cristo que o disse. Este mundo mau e trevoso não conhece nenhuma luz, não tem nenhuma luz, exceto a luz que eu e vocês estamos disseminando.

No entanto, pensemos na questão quanto ao aspecto da nossa dignidade, da nossa glória - o que Ele é, Ele faz que sejamos. Isso é inevitável por causa da nossa relação. Há muitas outras exposições magníficas disto. Ouçam, de novo, o Senhor dizer, no Livro de Apocalipse, à igreja de Laodicéia, a respeito de toda gente: “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono” (3:21). Posto que a Igreja é a esposa de Cristo, ela vai sentar-se com Ele no Seu trono. “Ela é plebéia”, dirão vocês. Sim, mas não importa; ela se casou com o Príncipe, e compartilha o trono com Ele. Essa é a dignidade, esse é o privilégio que Ele nos confere!

Em seguida, atentem para isto: o apóstolo Paulo, procurando ensinar aos membros da igreja de Corinto algo desta grandeza e desta glória, faz a seguinte colocação, no capítulo 6 da primeira epístola, verso 2: “Não sabeis vós que os santos hão julgar o mundo?” E mais adiante: “Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?” Isto se refere a mim e a vocês. Vejam esses tristes membros da igreja de Corinto. Que há com vocês?”, pergunta o apóstolo. “Por que estão brigando uns com os outros? Por que vocês se orgulham deste ou daquele homem, e ficam levando uns aos outros às barras do tribunal por suas conten­das? Não percebem que todos vocês, como cristãos, estão em tal relação com Cristo, que irão julgar o mundo, que irão julgar os anjos?” Eis aí a dignidade que nos pertence.

Permitam-me expressá-lo deste modo: pensem no cristão em relação aos anjos. Já se deram conta de que nos está determinado um destino que nos colocará acima dos anjos? Os anjos são seres maravilhosos, “magníficos em poder” (Sl 103:20); mas estamos destinados a uma posição que será superior à dos anjos! O autor da Epístola aos Hebreus faz esta colocação: “Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos. Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: que é o homem, para que dele te lembres? ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizestes um pouco menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés(Hb 2:5-8). “Mas”, diz alguém, “não vejo todas as coisas sujeitas ao homem; de que é que você está falando?” “Oh não”, diz o autor daquela epístola, "... ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas; vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte” (verso 9). Estas palavras significam que eu e vocês vamos ocupar aquela posição. Aos olhos de Deus já a ocupamos; não vemos isto, no entanto, já é coisa certa quanto a nós. Estamos acima dos anjos porque somos a esposa de Cristo; e como Ele está acima deles nos lugares celestiais, temos essa dignidade, essa grandeza e essa posição agora mesmo.

Isso nos leva ao ponto subseqüente, ou seja, que participamos não somente da Sua vida, mas também dos Seus privilégios. No momento em que uma mulher desposa um homem, passa a participar dos privilégios dele. Sejam estes quais forem, ela se toma participante deles. O apóstolo está dizendo aqui que isto se aplica à Igreja. Participamos do que? Participamos do amor do Pai. Há um versículo que, de muitas maneiras, é para mim o verso mais espantoso da Bíblia. É o verso 23 do capítulo 17 do Evangelho de João. Diz o Senhor: “para que o mundo conheça que tu me enviastes a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim”. É uma afirmação que significa que Deus o Pai nos ama, na qualidade de povo cristão, como ama a Seu próprio Filho. O que significa que, devido à nossa relação com o Filho, estamos nessa relação com Deus. Pensem num homem, sem filhas, cujo filho homem se casou. Ele agora diz à esposa do seu filho: “Você é minha filha. Nunca antes tive uma filha, mas agora você é minha filha”. E a considera como tal. Ela e seu filho são um; portanto, ele estende a ela o seu amor paterno - “para que o mundo conheça que os tens amado, como me amas”. O privilégio é esse. Opera deste modo - dá-nos acesso ao Pai. Um pai está sempre pronto a receber a esposa do seu filho. Antes ela não tinha acesso a ele; não havia nenhum relacionamento entre ela e o pai; mas no momento em que o filho se casa, ela passa a ter direito de acesso à presença do pai. Como o Pai está pronto a receber seu filho e a dar-lhe privilégios que não concederia aos seus servidores favoritos e mais dignos de confiança, assim agora ele os concede à nora, porque é esposa do seu filho. Povo cristão, será que tiramos proveito destes altos privilégios? Será que nos apercebemos de que temos direito de entrada e acesso à presença do Pai? Apesar de ser Ele o Governador do universo, se vocês tiverem alguma necessidade, lembrem-se de que têm direito de chegar à Sua presença. Por amor a Seu Filho, Ele não os rejeitará. Esposa de Cristo, Ele sempre lhe dará ouvidos, Ele sempre terá tempo para você. Não há maior privilégio do que este. Ele nos ama como ama a Seu Filho, e nos dá este direito de entrada e acesso à Sua santa presença.

Mais ainda, estou simplesmente dando títulos para que reflitam e medi­tem. Devemos dedicar muito do nosso tempo a estes pontos, pensando neles. Quando vocês se ajoelharem para orar, não comecem a falar imediatamente; parem e pensem. Pensem mesmo antes de dobrar os joelhos. Procurem dar-se conta do que estão fazendo; lembrem-se do que são, e porque são o que são; tragam à memória aquilo que lhes diz respeito, e os direitos e privilégios que lhes são dados. Depois, passem a considerar as possessões que o Senhor nos dá. Somos participantes das Suas possessões. O apóstolo Paulo, numa extraor­dinária exposição escrita à igreja de Corinto, diz, como se fosse, o seguinte: “Com que vocês se preocupam? Por que se dividem e têm ciúme e inveja uns dos outros? Que é que há com vocês? Todas as coisas são suas. Tudo! Não importa o que seja, tudo e todos são seus. Por que? Porque vocês são de Cristo, e Cristo é de Deus.” Estudem isso com esmero, no final do capítulo 3.

Torno a inquirir: não estou certo quando digo que a verdadeira tragédia hoje está na falha evidenciada pela Igreja de não compreender a verdade sobre si mesma? Tudo é vosso” - tudo! Em certo sentido, o cosmo é nosso, porque pertencemos a Cristo. O apóstolo Paulo ficava emocionado com este conheci­mento; e a prova do nosso cristianismo, a prova da nossa espiritualidade, é se nos comovemos e vibramos com estas coisas. Pode ser que estejamos passando por períodos difíceis, que estejamos sendo perseguidos, que estejamos sendo desprezados, que estejam rindo de nós porque somos cristãos. Sabem o que devemos dizer a nós mesmos? Devemos dizer: “se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8:17). Pouco importa o que o mundo pense ou diga - “tudo é vosso”; os cristãos são “co-herdeiros de Cristo”.

Mas eu gosto particularmente da maneira como isto é expresso pelo autor da Epístola aos Hebreus, no capítulo 2, verso 5. Já o citei, mas volto a fazê-lo: “Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos”. É uma pena que a Versão Autorizada e a Versão de Almeida façam a tradução dessa maneira negativa. O sentido é: ele não sujeitou o mundo futuro, do qual falamos, aos anjos, mas a nós. Qual é este “mundo futuro” de que ele fala? É este velho mundo em que eu e vocês vivemos atualmente. Sim! No entanto, não como ele é agora. É o mesmo mundo de hoje, mas como será quando Cristo voltar e destruir todos os Seus inimigos, todo o mal, e todo vestígio e todos os restos do mal; quando ocorrer o grande incêndio, a grande purificação, a regeneração, quando surgirem “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pe 3:13; Mt 19:28). Esse é o “mundo futuro” do qual ele está falando. E esta é uma parte vital da mensagem cristã essencial. Este mundo, no qual estamos neste momento, é apenas um mundo passageiro; este não é o mundo real, o mundo duradouro. O que vemos é o mundo resultante do que o homem fez dele. Vemos o caos que o homem produziu. Naturalmente, o mundo mesmo está muito interessado no visível e no atual; e todo mundo fica se perguntando que será que a última conferência vai realizar - haverá desarmamento, será abolida a guerra, tudo será perfeito por todo o tempo restante? Mas tudo em vão. Este mundo é mau, e o mal e o pecado continuarão a manifestar-se, enquanto não chegar o dia do juízo determinado por Deus. Todavia, há um “mundo futuro”; é a Nova Jerusalém que descerá do céu, este velho mundo restaurado com toda a sua glória, este velho mundo como Deus o fez no princípio, mas ainda mais glorioso. Isso acontecerá na segunda vinda de Cristo. Ele mesmo o habitará, e Sua esposa com Ele. Esse é “o mundo futuro, de que falamos”. Quem irá viver nesse mundo, quem herdará esse mundo? Bem, diz a epístola que não serão os anjos. “Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos”, e sim a nós. Somos nós os herdeiros desta glória vindoura. Amados irmãos, vocês refletiram nisso alguma vez? Lembraram-se disso alguma vez? Pode ser que estejam tendo tempos difíceis, lutando com o mundo, a carne e o diabo; podem estar enfrentando dificuldades e obstáculos. Dêem as costas para isso! Não olhem só para isso! “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2 Co 4:18). Levantem a cabeça; vocês compartilham a herança de Cristo, as Suas possessões! Vocês O desposaram - ou melhor, Ele os desposou - e coloca todas estas coisas em suas mãos. Vocês são participantes das possessões de Cristo.

Permitam-me salientar de novo que somos partícipes dos interesses de Cristo, dos Seus planos e dos Seus propósitos. “Cooperadores de Deus” (1 Co 3:9). Não pense em sua igreja local, ou nalguma outra igreja, apenas em termos de si próprio e daquilo que você faz. A mesma coisa se aplica à sua denominação ou movimento. Eleve-se a um nível superior e considere os interesses do Senhor. Torno a citar, “Vós sois a luz do mundo”. O Senhor tem um propósito com respeito a este mundo, e eu e você estamos envolvidos nesse propósito e somos participantes dele. O marido conta tudo à sua esposa. Ela conhece todos os seus segredos, todos os seus desejos, toda ambição, toda esperança, todos os projetos que penetram sua mente. Ela e ele são um. Ele lhe diz coisas que não diria a ninguém mais; ela participa de tudo, nada fica para trás, nada se lhe oculta. Essa é a relação de marido e mulher. É igualmente a relação entre Cristo e a Igreja; somos Seus parceiros neste serviço de salvar homens. Vocês sabem desse interesse? Sentem-no, pensam nisso, dão valor ao privilégio de serem participantes do segredo? Sentem alguma porção do fardo, e O estão ajudando? O cristão é para isso, a esposa é para isso - uma ajuda satisfatória - e a Igreja é a esposa de Cristo. Quantas vezes vocês oram pelo bom êxito da pregação do evangelho? Até que ponto vocês estão interessados na mensagem evangelística da Igreja? Vocês pensam nisto, sentem-se parte disto, oram por isto? A esposa digna do título não precisa ser exortada a interessar-se pelas ocupações do marido; ela considera seu maior privilégio ajudar seu marido; interessa-se vitalmente por tudo que ele faz e pelo seu sucesso em tudo. A Igreja é a esposa de Cristo; Ele partilha tudo conosco. Tratemos de nos conscientizar destas coisas e de elevar-nos à dignidade e ao privilégio que lhes são próprios.

Mas, deixem-me mencionar uma coisa que, para mim, é um dos seus mais fascinantes e encantadores aspectos. O Senhor não partilha conosco somente as Suas possessões, os Seus interesses, os Seus planos e os Seus propósitos; também partilha conosco os Seus servos. Você pode ter sido uma Cinderela (Gata Borralheira); a Igreja toda era uma Cinderela, em seus trapos, com sua dura vida de escrava, fazendo todos os trabalhos caseiros em lugar de suas irmãs. Mas Cinderela casou-se com o príncipe; e o que sucede? Em vez de mourejar como escrava daquela maneira, agora ela tem os seus servos. Que servos? Os dele! Uma vez que ela se tornou esposa deste príncipe, todos os servos dele são servos dela e lhe prestam serviço como prestam serviço a ele. Vocês já se deram conta de que esta verdade se aplica a nós? Voltemos mais uma vez à Epístola aos Hebreus, capítulo primeiro. O escritor compara e contrasta o Senhor Jesus Cristo com os anjos e eis como se expressa: “a qual dos anjos disse jamais: assenta-te à minha destra até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?” E a seguir: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” (versos 13 e 14).

O sentido é que, devido sermos cristãos, os anjos de Deus nos servem: aí está como a epístola descreve um anjo. Este é um “espírito ministrador”, enviado para nos servir e para ministrar a nosso favor, que somos herdeiros do “mundo futuro” do qual ela está falando. Receio que negligenciamos o ministério dos anjos; não pensamos suficientemente nisso. Entretanto, quer estejamos cientes quer não, há anjos que cuidam de nós; eles estão ao redor de nós. Não os vemos, mas isso não importa. As coisas mais importantes nós não vemos; só enxergamos as coisa visíveis. Contudo, estamos cercados de anjos; são designados para tomar conta de nós e para ministrar a nosso favor - anjos da guarda. Não tenho a pretensão de entender isso tudo; nada sei além daquilo que a Bíblia me diz - no entanto isto eu sei: os servos do Senhor, os anjos, são meus servos. Eles estão ao redor de todos nós, cuidando de nós e manipulando as coisas por nós de um modo que não podemos compreender. E sei mais, que quando morrermos, eles nos levarão para o lugar que nos está destinado. Foi o próprio Senhor Jesus Cristo que ensinou essa verdade na parábola do rico e Lázaro, em Lucas capítulo 16. É-nos dito que o rico morreu e foi sepultado. Mas o que aconteceu com Lázaro? Ele “foi levado pelos anjos para o seio de Abraão”. Porventura, damo-nos conta de que os anjos de Deus ministram a nosso favor porque somos a esposa do Filho? Desde sua origem eles têm ministrado para Ele e nEle têm esperado; e devido à nossa nova relação, agora são nossos servos, ministrando para nós. Queira Deus dar-nos a graça de perceber que estamos rodeados de tais ministérios e ministrações, e de tais ministros! Nada pode fazer-nos dano definitivamente; aí estão eles, enviados pelo Senhor para velar por nós.

Lembrem-se, porém, de que também somos participantes dos Seus problemas, dificuldades e sofrimentos. Ele disse: “Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós” (Jo 15:20). Também falou de ódio. Partilha mos algo dos Seus problemas? Estamos cientes disto? “Meus filhinhos”, diz Paulo aos gálatas, “por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (4:19). Ele sentia alguma coisa dessas dores. Todavia, de modo ainda mais notável ele diz, em Colossenses 1:24: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja”. O apóstolo Paulo estava tão consciente desta relação com o Senhor Jesus Cristo, que dizia que estava cumprindo em seu corpo o que restava dos sofrimentos de Cristo. A esposa digna deste título sofre sempre o que o seu marido sofre; sofre em seu coração quando o vê sofrer; ela o partilha com ele, suporta-o com ele. Assim o apóstolo Paulo completou em seu próprio corpo algo do que restava dos sofrimentos de Cristo à medida que Este leva a efeito o Seu propósito no mundo, a agonia do Filho de Deus, que continuará até chegar o “dia da coroação”. A Igreja é a esposa de Cristo. Será que nós, como partes e porções do corpo, temos alguma experiência desta agonia, deste sofrimento, dos sofrimentos da Cabeça?

Finalmente, participaremos de toda a glória das Suas prospectivas. Torno a referir-me ao “mundo futuro”. “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Cl 3:4). “Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” - quando Ele vier em sua glória. Se todos nós tivermos morrido, viremos com Ele; se estivermos vivos, seremos transformados e arrebatados para encontrar-nos com Ele nos ares. Estaremos na glória eterna com o Filho de Deus (1 Co 15:51-52 e 1 Ts 4:17). Esta é Sua oração especial ao Pai: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste”. “Eu dei-lhes a glória que a mim me deste.” Participaremos dela com Ele por toda a eternidade. Haverá alguma coisa comparável a isto, a sermos membros do corpo de Cristo, a sermos como partes da Igreja, a esposa de Cristo?

Que vergonha, por nossa fraqueza, nosso desalento, nossas queixas, nossa letargia, nossa quase-inveja do mundo e da sua vida pretensamente maravi­lhosa, da sua pretensa alegria e do seu pretenso gozo. É um mundo agonizante; é um mundo mau; está sob condenação; vai desaparecer. O mundo já “está passando”. Mas eu e você temos esta glória vindoura que podemos divisar, a glória que compartiremos com o Senhor Jesus Cristo naquele grande dia. A glória daquele “mundo futuro” é indescritível; e nele viveremos e reinaremos com o Senhor.

Havendo tomado a Igreja como Sua esposa, Ele lhe outorga isso tudo. Suas prospectivas são nossas, Sua glória é nossa, tudo é nosso. “Os mansos herdarão a terra” (Sl 37:11; Mt 5:5). Reinaremos com Ele sobre o universo todo; julgaremos os anjos. Eu e vocês! Assim é o cristão! Assim é a Igreja cristã, na qualidade de esposa de Cristo!