CONTINUAÇÃO DO ESTUDO DA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS - CAPÍTULO 32
Por: D.M. Lloyd Jones
"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” - Efésios 2:20-22
Passamos agora a mais um estudo desta terceira figura. Tivemos uma visão geral do assunto, mas também observamos que o apóstolo não se contenta só com isso, embora seja importante. Em acréscimo a oferecer-nos uma descrição geral do edifício e, portanto, da natureza e do caráter da unidade própria da Igreja, o apóstolo trata também dos detalhes da planta e das especificações.
Já dedicamos alguma consideração ao fundamento, que é da máxima importância. A primeira coisa que Paulo nos diz é que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina". Não vou retornar a isso, mas certamente nós temos de compreender que o fundamento é de impor¬tância absolutamente central. Nunca devemos sujeitar-nos a correr nenhum risco com um alicerce. O nosso Senhor firmou esse ponto em Sua parábola das duas casas, uma edificada sobre a rocha e a outra edificada sobre a areia. O alicerce é absolutamente vital, e nós já vimos o que é o alicerce da Igreja, e como o próprio Senhor Jesus Cristo é a principal pedra da esquina, interligando as pedras subsidiárias, interli¬gando todas as paredes, e assim suportando e unindo a estrutura inteira.
Agora, tendo feito isso, a próxima coisa da qual o apóstolo trata, a próxima coisa na qual evidentemente estamos interessados, é esta: onde nós entramos nisso tudo? Somos edificados sobre o fundamento, somos partes integrantes das paredes que estão subindo neste processo em que se vai erguendo este grande templo que Deus está construindo para Si e para a Sua habitação, este templo santo no Senhor. Noutras palavras, passamos agora a estudar a nossa parte, o nosso lugar e a nossa posição neste admirável edifício de Deus. O apóstolo regozija-se no fato de que os efésios estão sendo edificados no edifício. A obra tinha começado antes deles entrarem, mas eles são acrescentados a ele, são colocados nele, e assim prossegue a edificação. Outros, muitos outros, entraram daquele tempo em diante. Eu e vocês, como cristãos, estamos nele. Devemos observar com toda a atenção o que o apóstolo nos diz sobre quais as pessoas que são edificadas nele, e como são edificadas. Essas são as duas coisas que importam. Quem são os que têm lugar, posição e parte nesta grande estrutura? Como entraram ali? Como são postos ali? O apóstolo trata de ambas as questões com muita clareza.
“Como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento”
Devemos ter em mente três coisas. Obviamente, cada parte desta estrutura tem que estar numa relação especial com o fundamento. Quase não é preciso dizer isso e, contudo, é um ponto tão importante que eu devo salientá-lo outra vez. Num templo como este que está sendo construído, em qualquer edifício grande e magnífico, sempre tem que haver correspondência entre as diversas partes. Você não pode por material falsificado aqui e ali num edifício perfeito. Se você vai erigir um edifício incomum, um grande e santo templo, cada parte terá que corresponder às demais. E assim é vital que nos lembremos de que nós, como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento, devemos estar verdadeira e correta¬mente relacionados com esse fundamento. Isso é algo de importância crucial. Permitam-me lembrá-los da maneira como o apóstolo expres¬sou essa verdade no capítulo três da Primeira Epístola aos Coríntios. Trata-se de uma palavra particularmente dirigida àqueles de nós que temos o privilégio de pregar e de servir como pastores. Somos edificadores sob Deus, somos Seus colaboradores. E eis o que o apóstolo diz: "Ninguém pode por outro fundamento além do que já está posto". "Mas veja cada um como edifica sobre ele."
Você pode edificar sobre ele, diz o apóstolo, com ouro ou prata ou com metais preciosos. Isso tem valor; mas também há os que querem construir com madeira, feno e palha; e isso não é nada bom. A madeira, o feno e a palha não são coerentes com o fundamento que foi posto. O fundamento é tão precioso, e a principal pedra da esquina é tão preciosa, que nada senão ouro ou prata ou metais preciosos são adequados. Colocar ali madeira, feno e palha é uma indignidade. Não somente isso, diz ele; estas coisas não resistirão, afinal. Esta obra será submetida a prova - "o dia a declarará". E ela será provada pelo fogo. E quando for posto o fogo, a madeira, o feno, a palha e a serragem desaparecerão num momento e não restará nada. Um edifício construído com material de má qualidade nunca passa na prova. Há gente que fica tão ansiosa pela rápida construção de um edifício que não toma cuidado com o que põe nas paredes - qualquer coisa serve para levantá-las, e depois se cobre tudo com um pouco de tinta. Parece maravilhoso, e o ignorante e o inexperiente ficam impressionados. Eles dizem: que maravilhoso! Outros parecem estar construindo tão devagar que as pessoas faltas de discernimento dizem: ele não está fazendo coisa nenhuma. No entanto, "o dia" a declarará. Não estamos construindo para o tempo, mas para a eternidade, e o arquiteto responsável é o próprio Deus, que vê tudo quanto está sendo feito e o provará no fim. Há homens, diz o apóstolo, que parecem ter feito maravilhas, porém quando chegar "o dia", verão que a sua obra foi destruída, e nada restará. Eles mesmos, se são cristãos verdadeiros, serão salvos, apesar de ser destruída a sua obra, mas eles serão salvos "como pelo fogo".
Portanto, diz o apóstolo, veja cada homem como constrói sobre este fundamento. Noutras palavras, o ponto é que o dever deste construtor auxiliar não é simplesmente levantar uma parede, mas certificar-se de que tudo o que vai dentro dela está em harmonia com o fundamento. Ele não deve edificar na Igreja apenas número num papel ou num rol, todavia aqueles que realmente estão firmados no fundamento da fé. O tipo de gente que quer ser cristão só para obter certos benefícios, não pode entrar nesta parede. Somente podem aqueles que compreendem que estão mortos em ofensas e pecados, completamente sem esperança e em desamparo, e que dependem unicamente da graça de Deus em Cristo para a sua salvação; que compreendem que, se Ele não tivesse derra¬mado o Seu sangue por eles e por seus pecados, eles ainda estariam perdidos, e que confiam somente na expiação de Cristo, expiação vicária, sacrificial, perfeita e consumada, e no poder do Espírito Santo - somente estes entram nestas paredes. Não aqueles que meramente foram habituados a freqüentar um local de culto ou que têm moralidade razoável. Tem que haver esta relação definida com o único e exclusivo fundamento.
A nossa relação com a Pedra da esquina.
Passemos à segunda questão. Menciono este ponto separadamente porque o apóstolo lhe dá essa ênfase. Não somente temos que estar relacionados dessa maneira com o fundamento, mas também temos que estar especificamente relacionados com a principal pedra da esqui¬na. Todo verdadeiro membro da Igreja Cristã não está somente relaci¬onado com a fé apostólica, também está numa relação muito definida com o Senhor Jesus Cristo. Vocês se lembram de que começamos com a fé, e com a fé apostólica, com o mínimo de cristianismo irredutível que temos aqui neste capítulo dois desta Epístola aos Efésios. Entretanto não paro nisso, porque dar assentimento intelectual a isso não é suficiente. Se você não der assentimento intelectual a estas verdades, certamente você não estará no edifício. Mas, meramente subscrever estes princípios não basta. Temos que "estar em Cristo". Temos que estar ligados a Cristo. Temos que conhecer esta união vital, esta relação vital com Ele. A principal pedra da esquina mantém todas as partes juntas - razão pela qual o apóstolo vai repetindo: “... no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados...”. O capítulo todo dá ênfase a isso. Fomos vivificados juntamente com Cristo, fomos ressuscitados juntamente com Cristo, e juntos nos assentamos nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Não se pode fugir disso, é algo que não se pode evitar. Não somente cremos e aceitamos a verdade como está em Cristo Jesus, temos que ser incorpo¬rados nEle, temos que estar em união vital com Ele. "Eu sou a videira, vós as varas", disse Ele, e a idéia é a mesma. De modo que, como membros, como partes deste grande edifício, estamos relacionados com o fundamento, e todos nós estamos relacionados com Ele desta maneira mística e vital.
Algumas das outras ilustrações que o apóstolo utiliza expõem isso com maior clareza. A ilustração do corpo, que já vimos de relance, faz isso de maneira ainda mais perfeita. O corpo não é uma junção de partes afixadas umas nas outras. A essência da unidade de um corpo é que a sua unidade é vital e orgânica. Não se forma um corpo afixando os dedos às mãos, as mãos aos punhos, e os punhos aos braços. Ao contrário, eles são vital, íntima e organicamente relacionados. Assim todos nós somos relacionados com Cristo, em Cristo, somos partes dEle, pertencentes a Ele, e somos mantidos juntos por Ele. Isso é também, então, obviamen¬te, uma coisa de fundamental importância.
Nosso relacionamento uns com os outros
Isso nos leva ao terceiro ponto, ponto que devemos considerar em detalhe, qual seja, a nossa relação uns com os outros. Pensem num edifício e nas pedras de um edifício. Estão todas relacionadas com o fundamento, estão todas relacionadas com a principal pedra da esquina, porém também estão relacionadas umas com as outras. Não se pode ter uma parede sem que as suas partes estejam interligadas. Este é um princípio que o apóstolo ilustra com esta afirmação importante e pitoresca que no versículo vinte e um é traduzida pelas palavras "adequada e conjuntamente ajustado" (V A) - "no qual todo o edifí¬cio", ou, como a temos na Versão Revista (inglesa, RV), "no qual todo edifício adequada e conjuntamente ajustado". A frase importante é "adequada e conjuntamente ajustado".
É uma expressão muito interessante. Temo-la aqui com três palavras (em inglês; com duas em português, Almeida), mas na verdade o apóstolo utilizou somente uma palavra no grego. Há outra coisa muito interessante acerca dessa palavra. É uma palavra que só se acha aqui e no versículo dezesseis do capítulo quatro desta Epístola, em toda a Bíblia. Não se acha em nenhum outro lugar. Contudo há ainda outra coisa mais interessante sobre ela. É uma palavra que, obviamente, foi feita, foi inventada e formada pelo próprio apóstolo. Ele não a copiou de ninguém; ele não a tinha visto em lugar algum. Este é o primeiro uso conhecido desta palavra. Dou ênfase a isso pela seguinte razão: obvia¬mente o apóstolo considerava este ponto particular como excepcional¬mente importante, tanto assim que ele cunhou uma palavra para expor a sua idéia. Todavia, apesar de todo o trabalho tomado pelo apostolo, é patética a maneira como algumas traduções atualmente populares omitem completamente o significado exato. Vejam, por exemplo, a Versão Revista Padrão (inglesa, RSV). Ela traduz a palavra simples¬mente por "unido juntamente", deixando completamente de lado o ponto específico da palavra que o apóstolo cunhou. O apóstolo podia ter empregado muitas outras palavras para expor a idéia de “unido junta¬mente". Moffatt chega um pouco mais perto. Ele diz, "caldeado juntamente". Mas até essa tradução é errada, pois não ,se caldeiam pedras juntamente, e toda a concepção e toda a figura do apostolo são em termos de edificar com pedras.
De fato, a palavra utilizada pelo apóstolo significa "harmoniosa¬mente ajustadas juntas" - pensando nas pedras do edifício. É um duplo composto, três palavras colocadas juntas e feitas uma só. A palavra fundamental significa "ligar" ou "juntar", e isto em Si já sugere a idéia de vir junto. No entanto, depois ele acrescenta a isso, o prefixo syn, que significa simplesmente "junto com", a mesma idéia que temos em "sinfonia" e em qualquer dos seus compostos. Juntar, junto - junto, juntar. Ora, a própria palavra "juntar" sugere a idéia de "junto" ou "juntos", mas o apóstolo diz "junto-juntar" para assegurar-se de que captamos o significado. E depois ele acrescentou a estas duas uma terceira palavra, que realmente significa “coligir” ou “reunir” ou "selecionar". Esta terceira palavra muitas vezes é utilizada para ajustar palavras juntas ou juntar palavras para formar uma frase completa. Quando alguém está falando ou escrevendo, certas palavras se lhe insinuam. Ele escolhe uma e rejeita a outra. Depois ele faz a mesma coisa com a próxima palavra, rejeita uma e escolhe outra. Depois ele aplica todas as palavras escolhidas à formação de uma frase. A palavra que o apóstolo utilizou deixa entrever esse processo. Assim temos "juntos¬-juntar-escolher" (selecionar). E ele coloca estas três palavras juntas para formar um vocábulo que na Versão Autorizada (inglesa) é traduzida por "adequada e conjuntamente ligado" (na Versão de Almeida é traduzida por "bem ajustado").
Obviamente, há uma doutrina profunda aqui. O apóstolo jamais se daria ao trabalho de formar uma palavra como esta, de inventar uma palavra, se não quisesse ser bastante claro nas idéias que estava transmitindo. Espero que possamos compreender a sua figura. Ah, vivemos dias em que os edifícios são de tijolos e não de pedras, e, portanto, alguns sejam demasiado jovens para entender a figura do apóstolo como deviam. Afastem da mente a idéia de um edifício de tijolos. Pensem antes num grande e maciço edifício de pedras. Obser¬vem aquele homem, ou melhor, aqueles homens que estão erigindo este edifício. Vocês já viram um verdadeiro artesão, o antigo tipo de pedreiro, no seu trabalho? Alguma vez vocês o viram levantar uma parede? Já o viram tirar uma pedra de uma pilha, olhá-la e tornar a olhá-la e, vendo que não é adequada, jogá-la fora e apanhar outra que ele apara e depois a coloca na posição certa? Esta é a figura que o apóstolo está usando; "bem ajustado", "adequada e conjuntamente ajustado" - pedras individuais sendo acrescentadas e colocadas na posição certa numa parede. Quais serão as idéias que o apóstolo comunica mediante essa linguagem, mediante essa expressão pictórica?
“A idéia da escolha”
O primeiro ponto é a idéia de escolha. Repito, quem já viu um verdadeiro construtor sabe exatamente o que isso significa. Lembremos que estamos considerando o nosso lugar e a nossa posição como membros da Igreja de Cristo. Estamos examinando a nós mesmos como partes desta grande parede, deste grande edifício que está sendo erigido para a construção de um templo, uma habitação para Deus. Como Deus habitava no templo antigo, na glória da Shekinah, no "lugar santíssimo", Ele habita e habitará por toda a eternidade na Igreja, em Seu povo. E eu e você estamos nessa Igreja. Como chegamos ali? Aqui está o primeiro ponto, a questão da escolha. É uma questão muito individual, esta. Vejam aquele pedreiro, aquele construtor. Ele levantou uma parede até certo nível; porém quer levantá-la mais, e no momento precisa de uma pedra particularmente grande para ocupar certa posição. Ele dispõe de uma pilha de pedras ali trazidas para o seu uso. Ele corre os olhos sobre elas. Ah, diz ele, esta serve. Tira a pedra da pilha, examina-a, mas finalmente decide que ela não serve. Tem que devolvê-Ia à pilha. Pega outra, e talvez tenha que pegar várias, e rejeitá-las; então finalmente acha a que serve e a coloca.
Tudo isso está envolvido. Há uma seleção pessoal e particular. Cada pedra é selecionada e colocada individualmente na posição. Isso de produção em massa não existia quando a construção era feita desse jeito, nos tempos antigos. Quando se constrói com tijolos, um é tão bom como qualquer outro. Entretanto não é assim com o tipo de edifício no qual o apóstolo estava pensando. Não foi assim que o antigo templo de Jerusalém foi construído, e é essa a figura que Paulo tem em mente. Não, ali há uma seleção deliberada, pessoal, particular e individual. E, graças a Deus, isso caracteriza todo aquele que se torna cristão. Não existe produção em massa na Igreja Cristã. Alguns parecem pensar que existe, mas não existe, e não pode existir. Graças a Deus, num mundo em que o individual está perdendo valor cada vez mais, ele fica bem no centro nestas questões.
Examinemos a questão de outro ângulo, mediante uma mudança da ilustração. Há somente um modo de entrar no reino de Deus, e esse é por uma catraca. Não é uma porta ampla, é uma catraca - "estreita é a porta"; "apertado é o caminho"; um por um. Não se pode entrar em multidão no reino dos céus; trata-se de uma transação individual entre Deus e a alma. A regeneração é individualista. E essa é a base da fé cristã; é o princípio essencial no que diz respeito às paredes deste edifício, deste templo de Deus. As pessoas não se salvam em famílias, menos ainda em grupos ou classes ou nações. Um por um, um é tomado e outro é rejeitado!
Todo esse assunto é também exposto pelo apóstolo no uso que faz da figura da madeira, do feno e da palha, em 1 Coríntios, capítulo 3. O nosso Senhor deixou isso claro em Sua parábola da rede que é lançada ao mar e recolhe grande número, uma grande multidão de peixes; mas depois é feito um exame, e os bons são mantidos e os maus são jogados fora. Eles ficam na rede por um momento, porém não são mantidos, são devolvidos ao mar. O construtor apanha uma pedra. Vai colocá-la na parede? Parece que ele vai usá-la. Mas não. Lá vai ela de volta, jogada fora, rejeitada. Nem tudo que parece certo a mim e a vocês é certo aos olhos de Deus. É um pensamento terrível este, mas a Bíblia o ensina em toda parte. No Dia do Juízo haverá muitos que pensavam que estavam no edifício, no entanto Cristo lhes dirá: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Trata-se de uma seleção individual, envolve uma escolha, e uma rejeição. Esse é o primeiro ponto.
“As pedras não são idênticas”
O segundo ponto é que as pedras deste edifício não são todas idênticas. Dêem uma olhada nalgum magnífico edifício de pedra e façam uma atenta busca desse ponto. As pedras não são iguais nem no tamanho, nem na forma, nem em nenhuma outra coisa. São todas diferentes e, contudo, estão harmoniosamente ajustadas e unidas, e fazem parte de uma parede magnífica. Umas são muito grandes, outras são pequenas, outras são de tamanho médio. Elas diferem no tamanho, na forma e em muitos outros aspectos. Torno a dizer, graças a Deus por isso. Esse também é um ponto muito importante, que, ao que me parece, é ignorado e esquecido hoje. Tive o privilégio de estar presente numa discussão de pastores e clérigos há não muito tempo, na qual uma questão muito pertinente foi levantada por um participante. Ele pergun¬tou: por que será que o cristianismo atual só parece atrair um tipo particular de gente? E acrescentou: é evidente que não estamos sensi¬bilizando as classes trabalhadoras, assim chamadas. Só estamos sensi¬bilizando uma certa classe, uma camada da sociedade. Por que será? Em minha opinião era uma questão muito profunda. Minha resposta foi que há algo radicalmente errado em nossa concepção fundamental da Igreja. Atrair classes é o tipo de coisa ligada à psicologia, mas é contrário ao gênio do cristianismo. A glória do cristianismo é que ele sensibiliza todos os tipos, espécies e condições de homens. Este elemento de variedade e variação, e de falta de mesmice, é sumamente interessante. A característica essencial de uma parede de pedra em distinção de uma parede de tijolo é que as pedras variam de tamanho, porém são ajustadas juntamente para compor o modelo. Não há nenhuma uniformidade monótona e insípida na Igreja. É uma característica das seitas que todos os seus seguidores tendem a ser sempre idênticos. Na Igreja Cristã há diversidade na unidade. Portanto, sempre devemos olhar com suspeita qualquer tipo de ensino que leve a uma espécie de mesmice nos resultados. Há certas pessoas que, só pelo modo de falar e pelas frases que empregam, quase contam a você onde foram convertidas. São produzidas em massa, são todas a mesma coisa. Falam as mesmas coisas, e as falam da mesma maneira, e fazem as mesmas coisas. São como uma série de selos postais. Não é esse o princípio que o apóstolo está enunciando aqui. Nunca fomos destinados a ser desse jeito, fomos destinados a ser diferentes. Todos na mesma parede, sim, mas muito diferentes uns dos outros - alguns grandes, alguns médios, alguns pequenos; alguns com esta forma, alguns com outra, porém todos igualmente na parede. Essa é a verdadeira unidade, não a uniformidade monótona e insípida que vemos hoje em muitos aspectos da vida, e, lamentavelmente, na Igreja. Permitam-me expressá-lo com simplici¬dade e clareza dizendo isto: como cristãos, não fomos destinados a ser iguais. As nossas características individuais devem permanecer. Alguns de nós nascemos veementes; bem, fomos destinados a ser veementes. Outros nascem tranqüilos e fleumáticos, que continuem sendo assim. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa tentar ser veemente ou sangüínea. E, contudo, acontece com freqüência; todos procurando ser iguais. Não é o que se espera de nós. Ah, você dirá, mas eu sempre gosto do cristão alegre e animado. Bem, eu nem sempre! Há ocasiões e circunstâncias que esse tipo de cristão me deprime terrivelmente. A risada forçada! A jovialidade afetada! Há vezes em que dou graças a Deus pelo indivíduo sério, de aparência sóbria, que me assegura que está tendo uma interior e profunda visão de vida, e que tem algum conhecimento do que o apóstolo quis dizer quando declarou: "Neste tabernáculo, gememos carregados" (2 Coríntios 5:4).
Nem todos fomos destinados a pregar. Mas há um ensino hoje que quase parece dizer que fomos. Assim que a pessoa é convertida, tem que dar o seu testemunho, e então pregar. Contudo nem todos nós fomos destinados a pregar. Nem todos fomos destinados a ir para algum campo missionário estrangeiro. Nem todos fomos destinados a ser obreiros de tempo integral na causa de Deus. Há pessoas que procuram passar a idéia de que fomos. Em suas conferências eles pressionam os jovens, fazen¬do-os sentir que quase estarão pecando se não se apresentarem como voluntários para as missões estrangeiras. Mas esse ensino é muito falso. Não fomos destinados a ser iguais. Todos nós temos o nosso papel a desempenhar, a nossa função a realizar; esta não é a mesma em cada caso. Aí está a pedra grande, que suporta um peso tremendo. Ali está a pedra pequena - é igualmente importante, ajusta-se àquele ponto ao qual nenhuma outra coisa se ajustaria.
Livremo-nos, pois, da idéia de que todos nós temos que ser iguais, e procuremos descobrir o que Deus quer fazer conosco e o que Deus quer que nós sejamos. A história da Igreja dá eloqüente testemunho do fato de que, às vezes, um cristão obscuro e desconhecido, de quem a Igreja pouco ouvira falar, que passava o tempo em oração e intercessão, fez muito mais do que os grandes pregadores populares que edificaram com muita madeira, feno e palha, que não subsistirão no Dia do Juízo. Aprendamos a ver estas coisas espiritualmente. Alguns de nós, como cristãos, talvez sejam chamados simplesmente para serem bondosos com as pessoas, para serem amigáveis e compreensivos, para fazerem pouco mais que sentar-se e ouvi-las. Você pode ajudar tremendamente as pessoas apenas ouvindo-as e deixando que descarreguem os seus corações. Mas há alguns de nós que somos tão ativos e ocupados, e falamos tanto, que nunca damos às pessoas oportunidade para falarem; nunca temos tempo para ouvi-las e, portanto, não as ajudamos.
Procuremos captar bem este princípio vital - que há esta grande variedade e variação nas pedras que devem estar no mesmo edifício, no mesmo templo santo do Senhor, neste edifício de Deus. Você pode não ser grande e importante; bem, não se glorie no fato de não ser, porém lembre-se de que o fato de não o ser não significa que você não está no edifício. Ele sabe. Ele nos vê a todos. Voltemos a 1 Coríntios, capítulo 12, e vejamos como o apóstolo desenvolveu ali este princípio minuci¬osamente, em termos do corpo. O corpo completo não é o olho, não é o ouvido, não é a mão, não é o pé. Todas estas diferentes partes estão no mesmo corpo, embora alguns sejam mais elegantes que outros. Todavia ele acentua que as nossas partes menos elegantes são tão indispensáveis como as mais elegantes. Portanto, não caiamos na tolice de desejar que todos sejamos iguais e idênticos. Não pensemos em termos de produção em massa ou em termos de tijolos. Pensemos numa parede de pedra, e demos graças a Deus que, seja o que for que sejamos, Ele nos tomou e colocou na parede do Seu edifício, e que Ele tanto nos conhece como conhece a pedra grande, bem proporcionada e sólida. É maravilhoso para mim, estupendo o fato, de que somos colocados ali um por um, e que o cristão mais humilde é objeto de conhecimento de Deus como o é o maior e mais poderoso santo, que Ele vê o lugar exato para nós na parede e nos coloca ali; e nos coloca ali exatamente da mesma maneira como coloca todos os demais.
Não tentemos, pois, atalhar ou violar o plano de Deus, o método de Deus e a Sua maneira de edificar. Procuremos estar cientes deste terrível perigo psicológico com que se defronta a Igreja hoje - a idéia de produção em massa, sempre levando ao mesmo resultado e produzindo o mesmo tipo particular. É uma coisa grave quando a Igreja só produz certo tipo de cristão e somente apela a certo tipo ou classe de pessoa. Quando este evangelho é pregado corretamente, ele toca todos os segmentos da sociedade. A história da Igreja o comprova. O perigo hoje é entender que todos nós devemos ser meramente pessoas finas, tranqüilas e respeitáveis, pessoas que ainda se apegam à moralidade própria, e que a Igreja só deve consistir de tais pessoas - somente pessoas da classe média. Jamais houve tal propósito. Reconsideremos a nossa pregação, o nosso ensino, e especialmente os nossos métodos, para não acontecer que inconscientemente deslizemos para a prática do método psicológico e, com isso, nos persuadamos de que estamos construindo um edifício maravilhoso, para somente descobrir no fim que não acrescentamos nada ao templo de Deus, e ver-nos no "grande dia" com muito pouca coisa para mostrar do nosso esforço e de todo o nosso entusiasmo. Esse é o segundo ponto.
Preparo e adaptação
Permitam-me acrescentar apenas uma palavra como nosso terceiro princípio: é a questão de preparo e adaptação. Só posso fazer uma introdução disso aqui, porquanto é um grande tema. Teremos que entrar em detalhes posteriormente. Eu disse a vocês que o construtor, o pedreiro, em dado ponto precisa de uma pedra de certo tamanho ou forma e, olhando para o monte de pedras, enxerga uma que parece servir e a retira. Ah, diz ele, esta vai servir. Tendo rejeitado algumas, ele diz: agora esta vai servir direitinho. Mas não tão direitinho, porque esta pedra vai ter que ser preparada e adaptada ao material que já fora posto ali. Há pedras embaixo e nos lados. Esta é a pedra certa em geral, porém terá que ser adaptada às que estão nos lados e por baixo, e depois ainda terá que ser colocada alguma coisa em cima. Vocês já viram um pedreiro fazendo o seu serviço? Em minha adolescência eu vi isso muitas vezes, e sempre me fascinou. Ele apanhava a pedra e depois, com seus diversos tipos de martelo, tirava pedaços dela. Ele a aparava, modelava-a, dava¬-lhe forma, e lhe tirava lascas. Aí tentava colocá-la. Depois tornava a tirá-la porque não estava bem ajustada. Tirava outro pedaço, talvez com o cinzel e o martelo. E assim ele ia trabalhando nela até ficar bem certa. Depois a colocava, e se afastava para olhar. Satisfeito, punha a argamas¬sa, pegava outra pedra e fazia o mesmo trabalho. Pois bem, é isso que o apóstolo quer dizer com "bem ajustado" ou "adequada e conjunta¬mente ajustado". Algo terá que acontecer conosco, antes de podermos estar adequadamente ajustados ao conjunto. O construtor não lança as pedras juntas de qualquer maneira. Não, há uma maravilhosa simetria em tudo isso. Observem os edifícios, e vocês verão isso. E, natural¬mente, é óbvio que o trabalho de aparar, cortar e cinzelar é mais necessário em alguns casos do que noutros. Mas todos nós precisamos disso. E o temos. E enquanto isso não acontecer conosco, jamais faremos parte da parede em construção.
Ao que me parece, não há nada mais fascinante na longa história da Igreja e do seu povo do que ver em operação e na prática este princípio. Houve homens que precisaram de muito trabalho de aparelhagem e de modelagem, e o tiveram. Depois disso tornaram-se pedras enormes. Houve outros que pareciam estar quase totalmente prontos como estavam. Pouca coisa foi necessária fazer com eles. Vocês devem ter visto isso em sua experiência pessoal, ao observarem diferentes cristãos. O que importa não é a quantidade, o princípio é que sempre há necessidade desse procedimento e desse processo, em maior ou menor medida.
Como se faz? Pela pregação e pelo ensino. É esse o dever geral da pregação e do ensino; é modelar-nos, preparar-nos. Todos nós temos estes estranhos ângulos e arestas e, como somos por natureza, não nos ajustamos à construção. Estas coisas têm que ser podadas. Angulosidades, grosserias, gente grosseira na Igreja! Todos nós somos grosseiros, em certo sentido, uns mais, outros menos. Somos pedras rudemente talha¬das quando saímos da pedreira, como que arrancadas dela mediante uma explosão. Temos mais ou menos a forma geral certa, mas é necessário muito trabalho com o cinzel antes de nos adequarmos bem aos nossos lugares particulares na construção. E enquanto não formos aparelhados, não seremos colocados nela. Como nos inclinamos a esquecer isso! Se lermos o Novo Testamento, se dermos ouvido à pregação e ao ensino, veremos a absoluta necessidade e urgência desta preparação. Há os que dizem: sou deste tipo de pessoa. Sou daquele tipo de pessoa. Sempre tenho que dizer o que tenho na cabeça. Se todos fossem assim, que tipo de igreja vocês teriam? Que espécie de edifício vocês teriam, se todas as pedras fossem pontudas e difíceis assim? Seria impossível, vocês não poderiam construir; estas arestas têm que ser debastadas. Pois bem, é aí que entra a disciplina pessoal. Temos que ser menos difíceis, como pessoas. Temos que ajustar-nos - adequada e conjuntamente ajustados.
Devemos esquecer-nos de nós mesmos e pensar na parede, no edifício, e compreender juntos que é o Senhor quem decide onde devemos estar, o que devemos ser e que funções nos cabe desempenhar. E, acredite-me, se você está neste edifício, ou vai estar, terá que ser aparelhado e amoldado. É o edifício de Deus, lembremo-nos, e se eu e você não aplicarmos o ensino, as instruções e a mensagem das Escrituras como devemos, Deus terá outro meio de fazê-lo. Leia o capítulo doze da Epístola aos Hebreus, e verá o que estou querendo dizer. "O Senhor corrige a quem ama" (12:6, ARA). Se os apelos e argumentos do evangelho não o levam a disciplinar-se, e se você não se livrar dessas arestas e irregularidades, Ele tem um cinzel poderoso e um poderoso martelo, e Ele as arrancará de você. Todos nós temos algum conheci¬mento disso em nossas experiências pessoais. Ele nos humilha, Ele nos derruba, e Ele tem muitas maneiras de fazê-lo por meio de enfermidade ou doença, ou morte, ou tristeza, ou fracasso, ou incompreensão; mil e uma coisas. E Ele o faz. Graças a Deus que Ele o faz. Pois, se Ele não fizesse isso conosco, nenhum de nós chegaria a estar preparado para estar nessa parede. É a quem o Senhor ama que Ele castiga. Se Ele não o ama, Ele não Se importará com você, Ele o jogará fora, e lá você poderá ficar com todas as suas angulosidades e anomalias pelo resto da sua vida, dizendo: eu sou deste tipo de pessoa! Muito bem! Seja esse tipo de pessoa! Saiba, contudo, que você não está no templo santo do Senhor, e nunca estará, enquanto for desse jeito. Esta é uma questão muito grave e solene, uma questão de importância eterna para nós. Temos que ser amoldáveis, e que ajustar-nos uns aos outros, se é que desejamos estar neste templo santo. Assim, se nós não compreendermos este princípio, não virmos a importância desta preparação vital, e não nos submetermos a ela, seremos rejeitados, e se não compreendermos isso no tempo, certamente o compreenderemos na eternidade.
Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. Hebreus 4:12
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 86
Continuação do estudo de Rissa, que Deus abra os nossos olhos para enxergarmos a verdade e a riqueza da Sua Palavra.
Por: Luiz Fontes
Rissa – 18ª estação – Parte 2
TEXTO: Números 15:32-41
Nós estamos estudando esta 18ª estação – Rissa. Os textos relativos a esta estação se encontram em Números capítulo 15, versículos 32 a 41. Temos visto que Rissa é uma palavra hebraica que tem dois significados. Essa palavra no hebraico é um antônimo. Antônimo é o contrário e sinônimo é quando a mesma palavra tem diferentes significados.
Nós estamos estudando o aspecto negativo, porque esta estação nos leva para uma experiência negativa e uma positiva. Essa experiência negativa nós vemos aqui no versículo 32, “sobre um homem que foi apanhando pegando lenha no dia de sábado”. E o Senhor diz na Sua palavra, por que Israel não sabia o que fazer, mas o senhor diz: “que tal pessoa deveria ser morta”. Aqui nós vemos o julgamento, a disciplina de Deus. O Senhor é muito claro na Sua palavra. Ele nos diz que: “não podemos seguir os desejos do nosso coração”. Quando lemos estes textos, de Números capítulo 15, versículos 32 a 41, vemos que no versículo 39b, o Senhor diz: “não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos”. Muito sugestiva toda essa leitura. Nós sabemos que algo deveria ser feito àquele que violava o sábado.
Em Êxodo capítulo 31, versículos 12 a 17, temos a Palavra de Deus falando acerca do assunto da guarda do sábado. Esses textos dizem assim:
“12 - Disse mais o SENHOR a Moisés: 13 - Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica. 14 - Portanto, guardareis o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo. 15 - Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. 16 - Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações. 17 - Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.”
Portanto, amados, o sábado, como repouso, é uma figura de Cristo. Mostra a nossa confiança em Cristo, o nosso descanso Nele. O sábado nos traz uma lição, isto é, que nós não somos deste mundo, não vivemos como as pessoas deste mundo. Não fomos separados para o mundo, somos separados do mundo. Nós somos separados dele. Nosso viver está relacionado com o caráter de Deus, da Sua Palavra. Se o nosso viver é como o viver do mundo, qual é o nosso testemunho diante das pessoas que não são salvas? Portanto, o sábado é um sinal entre Deus e nós. O Senhor nos separou do mundo e Ele deseja que nós confiemos Nele, que andemos conforme Sua Palavra. Por isso Ele estabeleceu em nós um sinal, um sinal entre Ele e nós. Para entendermos o significado do sábado na economia de DEUS, no plano de Deus, primeiro precisamos estudar a primeira menção dessa palavra na Bíblia. Porque senão nós não vamos entender o que esses textos de Êxodo 31:12-17 estão nos dizendo. Por que Deus foi tão severo com aquele homem, exigindo que andasse na Sua Palavra?
Em Gênesis capítulo 2, versículo 2 e 3, diz assim:
“2 - E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. 3 - E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.”
Muitos de nós vemos o sábado apenas como o dia em que DEUS descansou das obras de Suas mãos. Embora isso seja verdade, nós precisamos penetrar no conteúdo da economia de DEUS para compreender a riqueza desse descanso, no assunto do sábado. Em Gênesis 1 vemos DEUS criando todas as coisas pela Palavra do Seu poder, chamando à existência as coisas que não existiam.
Quando DEUS criou o homem, Ele o criou do pó da terra conforme Gn 2:7. Diferente de todas as coisas, o homem foi criado do pó da terra segundo a imagem e semelhança de DEUS – espiritual e moralmente. Ele foi criado assim. Então depois de criar o homem, no sexto dia, DEUS declarou: “... e eis que era muito bom..." (Gn 1:31). Isso demonstra a satisfação de DEUS em ver o homem conforme a Sua imagem e semelhança. Deus vê no homem a Sua completação. Ali, diante de DEUS, estava o homem conforme a Sua imagem e semelhança para expressá-lO. Quando DEUS obteve isso, o que nós vemos? Ele descansou. Mas sabemos que o pecado trouxe dano ao descanso de DEUS, à satisfação de Deus. Por causa da queda do homem, DEUS perdeu o seu descanso, sua satisfação, porque o homem à imagem e semelhança de Deus era a Sua satisfação, o Seu prazer, Sua expressão, para o louvor da Sua glória.
No Evangelho de João, capitulo 5 e versículo 9, que relata a história do paralítico do tanque de Betesda, vemos que aquele dia era sábado, e aquilo que o SENHOR JESUS fizera contrariava os preceitos judaicos. No versículo 17 o SENHOR JESUS responde àqueles que O perseguiam para matá-lO naquele dia, pelo fato de ter curado aquele paralítico no sábado. Ele diz assim: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também". O sábado que o Pai teve em Gênesis 2:1-3 foi perdido por causa da Queda. Gostaria que você prestasse atenção em alguns textos, pois eles nos serão úteis mais adiante. Nesses textos, vemos o princípio da economia de DEUS em CRISTO. Pois foi em CRISTO que o Pai teve a sua satisfação (descanso) restaurada.
Em Mateus 3:17 e 17:5 e em II Pedro 1:17 vemos o Pai dizer “... Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. A palavra “comprazo” aqui traz a ideia de “descanso, satisfação, completação”. Essa palavra aparece 21 vezes no Novo Testamento e o seu significado é: "agradar" (Lc 12:32), "lhes pareceu bem" (Rm 15:27), "prazer" (II Co 12:10) e "deleite" (II Ts 2:12). Então, quando voltamos para os textos de Mateus 3:17 e 17:5 e II Pedro 1:17, o sábado significa que DEUS está satisfeito com o homem quando o homem O expressa e O representa. Quando o homem está de acordo com a Sua intenção perfeita.
Em Dt 12:9 a terra de Canaã foi chamada de "descanso". Se olharmos o restante do capítulo 12, versículos 10-32, veremos que eles não se firmaram nas exigências de DEUS. Eles não estavam comprometidos com a Palavra de Deus, com o caráter de Deus. No livro do profeta Ezequiel, capítulo 20, há vários textos dizendo algo para nós. O versículo 12 de Ezequiel capítulo 20 diz assim:
“Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o SENHOR que os santifica.”
Os sábados eram para isso! O sábado era para que o povo conhecesse Deus. Durante todos os seis dias o homem poderia trabalhar para si. Deus deu para o homem seis dias para que trabalhasse para si. Mas um dia Deus deu para que o homem pudesse viver para Ele, Ser um repouso para Ele, descansar Nele. Mas nós fazemos isso? Nós não fazemos. Nós não temos feito isso. Não estou aqui inserindo o estudo da guarda do sábado como fazem algumas denominações religiosas. Colocam a salvação no sábado. Uma coisa completamente desfocada da Palavra de Deus, do propósito de Deus. Porque eles estudam o sábado na lei, não estudam o princípio do sábado em Gênesis. O princípio da satisfação, da contemplação, da devoção, da piedade. Não estudam baseado nisso. Apenas pegam um texto fora do seu contexto e criam um pretexto religioso. Não é isso que eu estou ensinando. Creio que você está entendendo o que eu estou falando por meio do Espírito Santo – se para você o sábado é o domingo, o sétimo dia, como nós temos guardado. Porque desde o início da história da Igreja primitiva, os irmãos primitivos têm preservado o domingo como o dia, ou como o oitavo dia que é o dia da ressurreição, onde a semana se inicia. Alguns podem dizer que o domingo foi instituído pelo Catolicismo. Então, você guarda o sábado. Você pode guardar na sexta, não sei qual é o seu “Sabat”. Não sei se é na segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. Não sei quando é o seu “Sabat”. Mas sei que você precisa ter. É importante que você tenha! Mesmo individualmente, e também coletivamente, nós precisamos ter. E não temos feito isso. Geralmente é um dia de passarmos a maior parte do tempo em frente à televisão. Ou então visitando parentes descrentes, envolvendo-se em festas e programações, em viagens. Esse princípio está desordenado. Esse tem que ser um dia de devoção, contemplação, piedade, de culto, de entrega, de oferta ao Senhor. Aquilo que somos para o prazer Dele, para a satisfação Dele. O povo de Deus precisa voltar a Palavra de Deus.
Então veja que o Senhor disse: “para que soubessem que eu sou o SENHOR”. Porque é um dia de conhecê-lo mais e mais. É um dia de desfrute, de relacionamento mais íntimo. Isso não significa que os outros “seis dias” sejam vividos somente para nós. Mas que o Senhor nos dá esta oportunidade de nós vivermos seis dias trabalhando. Não que venhamos perder o foco do Senhor. Não é isso que a Bíblia diz, porque é impossível para um cristão que ama o Senhor. Porque tudo o que Ele faz no seu trabalho, sua vida, seus estudos, deve ser para a glória do Senhor.
Então veremos que em Ezequiel capítulo 20, versículo 13, 16, 20, 21 e 24, diz assim:
“13 - Mas a casa de Israel se rebelou contra mim no deserto, não andando nos meus estatutos e rejeitando os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles; e profanaram grandemente os meus sábados. Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor no deserto, para os consumir. 16 - Porque rejeitaram os meus juízos, e não andaram nos meus estatutos, e profanaram os meus sábados, pois o seu coração andava após os seus ídolos. 20 - santificai os meus sábados, pois servirão de sinal entre mim e vós, para que saibais que eu sou o SENHOR, vosso Deus.”
Ele vai repetindo isso. Veja porque o senhor repete tanto isso. As mesmas palavras no mesmo capítulo. Nos versículos 21 e 24, diz assim:
“21 - Mas também os filhos se rebelaram contra mim e não andaram nos meus estatutos, nem guardaram os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles; antes, profanaram os meus sábados. Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra eles a minha ira no deserto. 24 - porque não executaram os meus juízos, rejeitaram os meus estatutos, profanaram os meus sábados, e os seus olhos se iam após os ídolos de seus pais.”
Por que os olhos das pessoas estão sendo corrompidos pela idolatria deste mundo? Pela corrupção, compulsão, pelo prazer, entretenimento? Porque falto o sábado. Falta este “Sabat”, esta comunhão, este relacionamento, contemplação, intimidade, esta vida espiritual. A nação de Israel foi incapaz de restaurar o descanso de DEUS.
Então, o que é que nós vemos nos textos que citei? De Mateus 3.17 e 17:5 e em II Pedro 1:17? Que “Cristo é o descanso de Deus, o prazer de Deus, o deleite de Deus”. Porque agora nossa vida está em Cristo e em Cristo nós temos o descanso de Deus restaurado em nós. O desejo de DEUS é ganhar o homem. Depois que nossa vida é unida com a vida de CRISTO, DEUS tem em nós o Seu prazer. Este é um principio fundamental, um principio preponderante na nossa vida cristã. O Sábado de DEUS necessita de um homem à Sua própria imagem, com Seu domínio para expressa-lO. Um homem segundo o caráter do Reino de Deus.
Em Dt 12:9 vemos que Canaã era um descanso para Israel, porque era um descanso de DEUS. Mas isso foi perdido. A terra era o descanso de DEUS porque lá Ele podia ter Sua habitação e podia colocar o Seu nome. Em Dt 12 podemos ver dois versículos (5 e 11) que podem nos ajudar a compreender isso pelo menos espiritualmente. Porque não foi alcançado lá, mas tem que ser alcançado em nós hoje. O Senhor deseja ter um lugar para o Seu nome, Seu descanso, Sua expressão, Sua glória, Seu testemunho. Isso Deus deseja alcançar hoje na Igreja. Hoje a Igreja tem procurado viver a sua vontade, seguir seus próprios olhos. Nós temos vivido um evangelho de entretenimento. Nós precisamos retornar à prática da Palavra de Deus. Precisamos viver uma vida conforme O caráter de Deus. Não importa o sucesso que você esteja vivendo, um sucesso grande no seu ministério, uma grande experiência, uma grande multidão de pessoas que ofertam muito dinheiro; que você está envolvido com tudo isto: muito dinheiro, muitas pessoas. Tudo isso pode ser um espírito “megalomaníaco” que pode roubar a centralidade de Cristo, o lugar da Sua Palavra. E nesse “emanharado” de coisas nós podemos estar perdidos em nós mesmos. Não percebemos que estamos apanhando lenha como aquele homem, pisando a Palavra de Deus, fazendo algo que não esteja conforme o caráter de Deus. Não podemos viver a vida cristã pensando em agradar a nós mesmos, nem tão pouco viver a vida cristã para agradar os outros. Nós temos que viver a vida cristã para agradar a Deus, para que Ele tenha satisfação em nós.
Perceberemos na Bíblia que em muitas experiências Deus só pôde encontrar poucas pessoas que estavam dispostas a correr o risco de viver uma vida para agradá-lO. Porque viver uma vida para agradar a Deus é um grande risco que nós temos que correr. Porque isso pode ocasionar uma completa má interpretação da nossa própria piedade cristã, da maneira como decidimos agradar a Deus, viver conforme o caráter de Deus. Nós estamos vivendo hoje um “evangelho” antropocêntrico, onde o homem está no centro, onde as pessoas estão sendo induzidas a viverem para si mesmas, sempre em primeira instância. Deus deseja corrigir isso na nossa própria vida. É por isso que o Espírito Santo está falando para nós esta verdade em Rissa. Nós precisamos tomar cuidado! Esse princípio pode parecer muito simples, mas ele é fundamental para corrigir a distorção do nosso coração em viver para nós mesmos; em viver toda a nossa vida centrada em nós, esquecendo daquilo que é o “Sabat”, daquilo que é o descanso em Deus, o prazer de Deus, daquilo que é a nossa satisfação em Cristo.
Que Deus nos abençoe ricamente pela Sua Palavra.
Por: Luiz Fontes
Rissa – 18ª estação – Parte 2
TEXTO: Números 15:32-41
Nós estamos estudando esta 18ª estação – Rissa. Os textos relativos a esta estação se encontram em Números capítulo 15, versículos 32 a 41. Temos visto que Rissa é uma palavra hebraica que tem dois significados. Essa palavra no hebraico é um antônimo. Antônimo é o contrário e sinônimo é quando a mesma palavra tem diferentes significados.
Nós estamos estudando o aspecto negativo, porque esta estação nos leva para uma experiência negativa e uma positiva. Essa experiência negativa nós vemos aqui no versículo 32, “sobre um homem que foi apanhando pegando lenha no dia de sábado”. E o Senhor diz na Sua palavra, por que Israel não sabia o que fazer, mas o senhor diz: “que tal pessoa deveria ser morta”. Aqui nós vemos o julgamento, a disciplina de Deus. O Senhor é muito claro na Sua palavra. Ele nos diz que: “não podemos seguir os desejos do nosso coração”. Quando lemos estes textos, de Números capítulo 15, versículos 32 a 41, vemos que no versículo 39b, o Senhor diz: “não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos”. Muito sugestiva toda essa leitura. Nós sabemos que algo deveria ser feito àquele que violava o sábado.
Em Êxodo capítulo 31, versículos 12 a 17, temos a Palavra de Deus falando acerca do assunto da guarda do sábado. Esses textos dizem assim:
“12 - Disse mais o SENHOR a Moisés: 13 - Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica. 14 - Portanto, guardareis o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo. 15 - Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. 16 - Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações. 17 - Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.”
Portanto, amados, o sábado, como repouso, é uma figura de Cristo. Mostra a nossa confiança em Cristo, o nosso descanso Nele. O sábado nos traz uma lição, isto é, que nós não somos deste mundo, não vivemos como as pessoas deste mundo. Não fomos separados para o mundo, somos separados do mundo. Nós somos separados dele. Nosso viver está relacionado com o caráter de Deus, da Sua Palavra. Se o nosso viver é como o viver do mundo, qual é o nosso testemunho diante das pessoas que não são salvas? Portanto, o sábado é um sinal entre Deus e nós. O Senhor nos separou do mundo e Ele deseja que nós confiemos Nele, que andemos conforme Sua Palavra. Por isso Ele estabeleceu em nós um sinal, um sinal entre Ele e nós. Para entendermos o significado do sábado na economia de DEUS, no plano de Deus, primeiro precisamos estudar a primeira menção dessa palavra na Bíblia. Porque senão nós não vamos entender o que esses textos de Êxodo 31:12-17 estão nos dizendo. Por que Deus foi tão severo com aquele homem, exigindo que andasse na Sua Palavra?
Em Gênesis capítulo 2, versículo 2 e 3, diz assim:
“2 - E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. 3 - E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.”
Muitos de nós vemos o sábado apenas como o dia em que DEUS descansou das obras de Suas mãos. Embora isso seja verdade, nós precisamos penetrar no conteúdo da economia de DEUS para compreender a riqueza desse descanso, no assunto do sábado. Em Gênesis 1 vemos DEUS criando todas as coisas pela Palavra do Seu poder, chamando à existência as coisas que não existiam.
Quando DEUS criou o homem, Ele o criou do pó da terra conforme Gn 2:7. Diferente de todas as coisas, o homem foi criado do pó da terra segundo a imagem e semelhança de DEUS – espiritual e moralmente. Ele foi criado assim. Então depois de criar o homem, no sexto dia, DEUS declarou: “... e eis que era muito bom..." (Gn 1:31). Isso demonstra a satisfação de DEUS em ver o homem conforme a Sua imagem e semelhança. Deus vê no homem a Sua completação. Ali, diante de DEUS, estava o homem conforme a Sua imagem e semelhança para expressá-lO. Quando DEUS obteve isso, o que nós vemos? Ele descansou. Mas sabemos que o pecado trouxe dano ao descanso de DEUS, à satisfação de Deus. Por causa da queda do homem, DEUS perdeu o seu descanso, sua satisfação, porque o homem à imagem e semelhança de Deus era a Sua satisfação, o Seu prazer, Sua expressão, para o louvor da Sua glória.
No Evangelho de João, capitulo 5 e versículo 9, que relata a história do paralítico do tanque de Betesda, vemos que aquele dia era sábado, e aquilo que o SENHOR JESUS fizera contrariava os preceitos judaicos. No versículo 17 o SENHOR JESUS responde àqueles que O perseguiam para matá-lO naquele dia, pelo fato de ter curado aquele paralítico no sábado. Ele diz assim: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também". O sábado que o Pai teve em Gênesis 2:1-3 foi perdido por causa da Queda. Gostaria que você prestasse atenção em alguns textos, pois eles nos serão úteis mais adiante. Nesses textos, vemos o princípio da economia de DEUS em CRISTO. Pois foi em CRISTO que o Pai teve a sua satisfação (descanso) restaurada.
Em Mateus 3:17 e 17:5 e em II Pedro 1:17 vemos o Pai dizer “... Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. A palavra “comprazo” aqui traz a ideia de “descanso, satisfação, completação”. Essa palavra aparece 21 vezes no Novo Testamento e o seu significado é: "agradar" (Lc 12:32), "lhes pareceu bem" (Rm 15:27), "prazer" (II Co 12:10) e "deleite" (II Ts 2:12). Então, quando voltamos para os textos de Mateus 3:17 e 17:5 e II Pedro 1:17, o sábado significa que DEUS está satisfeito com o homem quando o homem O expressa e O representa. Quando o homem está de acordo com a Sua intenção perfeita.
Em Dt 12:9 a terra de Canaã foi chamada de "descanso". Se olharmos o restante do capítulo 12, versículos 10-32, veremos que eles não se firmaram nas exigências de DEUS. Eles não estavam comprometidos com a Palavra de Deus, com o caráter de Deus. No livro do profeta Ezequiel, capítulo 20, há vários textos dizendo algo para nós. O versículo 12 de Ezequiel capítulo 20 diz assim:
“Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o SENHOR que os santifica.”
Os sábados eram para isso! O sábado era para que o povo conhecesse Deus. Durante todos os seis dias o homem poderia trabalhar para si. Deus deu para o homem seis dias para que trabalhasse para si. Mas um dia Deus deu para que o homem pudesse viver para Ele, Ser um repouso para Ele, descansar Nele. Mas nós fazemos isso? Nós não fazemos. Nós não temos feito isso. Não estou aqui inserindo o estudo da guarda do sábado como fazem algumas denominações religiosas. Colocam a salvação no sábado. Uma coisa completamente desfocada da Palavra de Deus, do propósito de Deus. Porque eles estudam o sábado na lei, não estudam o princípio do sábado em Gênesis. O princípio da satisfação, da contemplação, da devoção, da piedade. Não estudam baseado nisso. Apenas pegam um texto fora do seu contexto e criam um pretexto religioso. Não é isso que eu estou ensinando. Creio que você está entendendo o que eu estou falando por meio do Espírito Santo – se para você o sábado é o domingo, o sétimo dia, como nós temos guardado. Porque desde o início da história da Igreja primitiva, os irmãos primitivos têm preservado o domingo como o dia, ou como o oitavo dia que é o dia da ressurreição, onde a semana se inicia. Alguns podem dizer que o domingo foi instituído pelo Catolicismo. Então, você guarda o sábado. Você pode guardar na sexta, não sei qual é o seu “Sabat”. Não sei se é na segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. Não sei quando é o seu “Sabat”. Mas sei que você precisa ter. É importante que você tenha! Mesmo individualmente, e também coletivamente, nós precisamos ter. E não temos feito isso. Geralmente é um dia de passarmos a maior parte do tempo em frente à televisão. Ou então visitando parentes descrentes, envolvendo-se em festas e programações, em viagens. Esse princípio está desordenado. Esse tem que ser um dia de devoção, contemplação, piedade, de culto, de entrega, de oferta ao Senhor. Aquilo que somos para o prazer Dele, para a satisfação Dele. O povo de Deus precisa voltar a Palavra de Deus.
Então veja que o Senhor disse: “para que soubessem que eu sou o SENHOR”. Porque é um dia de conhecê-lo mais e mais. É um dia de desfrute, de relacionamento mais íntimo. Isso não significa que os outros “seis dias” sejam vividos somente para nós. Mas que o Senhor nos dá esta oportunidade de nós vivermos seis dias trabalhando. Não que venhamos perder o foco do Senhor. Não é isso que a Bíblia diz, porque é impossível para um cristão que ama o Senhor. Porque tudo o que Ele faz no seu trabalho, sua vida, seus estudos, deve ser para a glória do Senhor.
Então veremos que em Ezequiel capítulo 20, versículo 13, 16, 20, 21 e 24, diz assim:
“13 - Mas a casa de Israel se rebelou contra mim no deserto, não andando nos meus estatutos e rejeitando os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles; e profanaram grandemente os meus sábados. Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor no deserto, para os consumir. 16 - Porque rejeitaram os meus juízos, e não andaram nos meus estatutos, e profanaram os meus sábados, pois o seu coração andava após os seus ídolos. 20 - santificai os meus sábados, pois servirão de sinal entre mim e vós, para que saibais que eu sou o SENHOR, vosso Deus.”
Ele vai repetindo isso. Veja porque o senhor repete tanto isso. As mesmas palavras no mesmo capítulo. Nos versículos 21 e 24, diz assim:
“21 - Mas também os filhos se rebelaram contra mim e não andaram nos meus estatutos, nem guardaram os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles; antes, profanaram os meus sábados. Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra eles a minha ira no deserto. 24 - porque não executaram os meus juízos, rejeitaram os meus estatutos, profanaram os meus sábados, e os seus olhos se iam após os ídolos de seus pais.”
Por que os olhos das pessoas estão sendo corrompidos pela idolatria deste mundo? Pela corrupção, compulsão, pelo prazer, entretenimento? Porque falto o sábado. Falta este “Sabat”, esta comunhão, este relacionamento, contemplação, intimidade, esta vida espiritual. A nação de Israel foi incapaz de restaurar o descanso de DEUS.
Então, o que é que nós vemos nos textos que citei? De Mateus 3.17 e 17:5 e em II Pedro 1:17? Que “Cristo é o descanso de Deus, o prazer de Deus, o deleite de Deus”. Porque agora nossa vida está em Cristo e em Cristo nós temos o descanso de Deus restaurado em nós. O desejo de DEUS é ganhar o homem. Depois que nossa vida é unida com a vida de CRISTO, DEUS tem em nós o Seu prazer. Este é um principio fundamental, um principio preponderante na nossa vida cristã. O Sábado de DEUS necessita de um homem à Sua própria imagem, com Seu domínio para expressa-lO. Um homem segundo o caráter do Reino de Deus.
Em Dt 12:9 vemos que Canaã era um descanso para Israel, porque era um descanso de DEUS. Mas isso foi perdido. A terra era o descanso de DEUS porque lá Ele podia ter Sua habitação e podia colocar o Seu nome. Em Dt 12 podemos ver dois versículos (5 e 11) que podem nos ajudar a compreender isso pelo menos espiritualmente. Porque não foi alcançado lá, mas tem que ser alcançado em nós hoje. O Senhor deseja ter um lugar para o Seu nome, Seu descanso, Sua expressão, Sua glória, Seu testemunho. Isso Deus deseja alcançar hoje na Igreja. Hoje a Igreja tem procurado viver a sua vontade, seguir seus próprios olhos. Nós temos vivido um evangelho de entretenimento. Nós precisamos retornar à prática da Palavra de Deus. Precisamos viver uma vida conforme O caráter de Deus. Não importa o sucesso que você esteja vivendo, um sucesso grande no seu ministério, uma grande experiência, uma grande multidão de pessoas que ofertam muito dinheiro; que você está envolvido com tudo isto: muito dinheiro, muitas pessoas. Tudo isso pode ser um espírito “megalomaníaco” que pode roubar a centralidade de Cristo, o lugar da Sua Palavra. E nesse “emanharado” de coisas nós podemos estar perdidos em nós mesmos. Não percebemos que estamos apanhando lenha como aquele homem, pisando a Palavra de Deus, fazendo algo que não esteja conforme o caráter de Deus. Não podemos viver a vida cristã pensando em agradar a nós mesmos, nem tão pouco viver a vida cristã para agradar os outros. Nós temos que viver a vida cristã para agradar a Deus, para que Ele tenha satisfação em nós.
Perceberemos na Bíblia que em muitas experiências Deus só pôde encontrar poucas pessoas que estavam dispostas a correr o risco de viver uma vida para agradá-lO. Porque viver uma vida para agradar a Deus é um grande risco que nós temos que correr. Porque isso pode ocasionar uma completa má interpretação da nossa própria piedade cristã, da maneira como decidimos agradar a Deus, viver conforme o caráter de Deus. Nós estamos vivendo hoje um “evangelho” antropocêntrico, onde o homem está no centro, onde as pessoas estão sendo induzidas a viverem para si mesmas, sempre em primeira instância. Deus deseja corrigir isso na nossa própria vida. É por isso que o Espírito Santo está falando para nós esta verdade em Rissa. Nós precisamos tomar cuidado! Esse princípio pode parecer muito simples, mas ele é fundamental para corrigir a distorção do nosso coração em viver para nós mesmos; em viver toda a nossa vida centrada em nós, esquecendo daquilo que é o “Sabat”, daquilo que é o descanso em Deus, o prazer de Deus, daquilo que é a nossa satisfação em Cristo.
Que Deus nos abençoe ricamente pela Sua Palavra.
domingo, 5 de dezembro de 2010
AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 85

Por: Ir. Luiz Fontes
18ª Estação – Rissa
TEXTO: Números 33:21
Em Números capítulo 33, versículo 21, diz:
21 - partiram de Libna e acamparam-se em Rissa;
Hoje nós vamos estudar a 18ª Jornada. Essa jornada é muito interessante, pois trata de um tema muito glorioso – o nosso repouso em Cristo. Para compreendermos melhor os textos correspondentes a esta jornada, teremos que ler Números capítulo 15, onde iremos encontrar os detalhes desta estação, e depois Deuteronômio capítulo 2.
Além disso, é interessante voltarmos ao contexto, lendo Números capítulo 14. Ali saberemos que o povo de Israel esteve em Rimom-Perez, quando partiram sem a presença do Senhor, para pelejar contra os inimigos. Eles queriam possuir a terra, mas a Bíblia diz que foram derrotados até Horma (Nm 14:45 e Dt 1:44).
No versículo 46, do capítulo 1 de Deuteronômio, diz que eles estiveram em Cades. Nós sabemos que Cades refere-se ao deserto de Cades. Ali ocorreram várias estações. Tudo isso nós já temos estudado. Mas ainda há um detalhe que é interessante recordar. Aqui no capítulo 2, de Deuteronômio, versículo 1, diz:
1 - Depois, viramo-nos, e seguimos para o deserto, caminho do mar Vermelho como o SENHOR me dissera, e muitos dias rodeamos a montanha de Seir.
Note que aqui eles voltaram para o Golfo de Ácaba, em direção ao Mar Vermelho. Há um retrocesso por causa da incredulidade, por causa da presunção. Aqui são duas jornadas: a incredulidade, em Ritma, e a presunção, a autoconfiança, em Rimom-Perez. Nós sabemos pelos relatos de Nm 14 que eles recusaram a entrar na terra que Deus havia prometido dar a eles. E quando decidiram possuir a terra Deus não foi com eles. Então foram derrotados. Veja que no texto de Dt 2:1 diz: “muitos dias rodeamos a montanha de Seir”. A primeira estação nesse caminho de retrocesso é o Golfo de Ácaba. E agora, dentro desse Golfo de Ácaba, a primeira estação é Rissa. Assim que eles retornaram, a primeira estação na qual estiveram foi Rissa. Sabemos que entre Rissa e Rimom-Perez houve aquela estação de Libna, que nos fala de brancura, que trata da questão dos nossos pecados, que trata da nossa provisão de Deus em Cristo para nos conceder o perdão, para nos fazer entrar na terra. Então, tudo isso nós vimos Em Libna.
Mas, por que temos dado tanta ênfase a Ritma e a Rimom-Perez? Por um detalhe muito simples: porque o que nós vamos estudar aqui em Rissa está intimamente ligado a essas duas estações. Libna foi uma oportunidade que Deus em graça deu àquele povo, porque Deus dissera para eles que não entrariam na terra. Agora Deus vai mostrar em Libna o caminho de entrar. Deus vai revelar em Libna o caminho pelo qual eles poderão entrar na terra. Com a incredulidade é impossível. Com a presunção é impossível. Mas em Cristo é possível!
Agora nós vamos estudar Rissa. Os textos correspondentes a esta estação estão em Números capítulo 15, versículos 32 a 41. O versículo 32, de Números capítulo 15, diz assim:
32 - Estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado.
Quero que você note algumas coisas interessantes a respeito desta estação. Em Nm 15:32-36 temos a primeira parte, e em Nm 15:37-41 a segunda parte. E é curioso que sejam duas experiências que nós iremos estudar em Rissa. Uma é negativa e a outra é positiva. A negativa ocorre em Nm 15:32-36 e a positiva em Nm 15:37-41. Nesta jornada há acontecimentos e revelações da parte de Deus, importante para nós, de onde nós iremos extrair as lições para o nosso crescimento, para a nossa edificação.
Há uma coisa muito curiosa sobre Rissa: o nome Rissa é um antônimo. Todos nós sabemos que um antônimo é o contrário de sinônimo. Sinônimo é quando duas ou mais palavras diferentes significam a mesma coisa. Mas o antônimo é o contrário, é quando uma mesma palavra tem diferentes significados. O curioso é que a palavra Rissa em hebraico é um antônimo. Rissa é uma palavra que tem dois significados.
Então, vamos à primeira parte. Antes, precisamos considerar que não estamos lendo o Antigo testamento como história, e sim como uma admoestação para nós, a Igreja do Senhor Jesus neste tempo.
Em Colossenses capítulo 2, versículo 16 e 17, diz assim:
16 - Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados,
17 - porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.
Temos aqui um significado muito importante. Aqui nós temos um texto que serve de ferramenta hermenêutica de chave de interpretação no Novo Testamento para aquilo que nós vamos estudar aqui em Rissa. Veja que tem uma frase longa que diz assim: “porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir”. Então, “Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados”. Prestemos atenção nisso! Aqui Paulo nos ensina, pelo Espírito Santo, que aquelas comidas, bebidas, festas, novilhos, as luas novas, os sábados etc., eram “sombras de algo que havia de vir”. Tudo o que era relativo ao sábado no Antigo Testamento era uma figura. Figura de quem? Uma figura de Cristo! Nós temos que estudar este maravilhoso assunto. É bom lembrarmos das estações passadas – Ritma, onde houve incredulidade, Rimom-Perez, onde houve obstinação, Libna, onde Deus revelou sua graça, o caminho como podemos entrar na terra prometida (Libna nos mostra o perdão em Deus). Mas aqui em Rissa Deus ensina como enfrentar essa condição espiritual que esteve representada pelas estações anteriores de Ritma e Rimom-Perez. Então nós temos tudo isso. Agora Deus vai nos conduzir a Libna e a ali ele nos mostra como nós temos que enfrentar esta situação, como podemos encontrar em Deus O Caminho para podermos possuir a terra. Tudo isso é extremamente significativo.
Quando lemos estes textos de Nm 15:32-41, nós vemos que os filhos de Israel acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado. E quando encontraram aquele homem, levaram-no a Moisés e a Arão e a toda a congregação e o meteram em guarda. Eles ainda não sabiam o que fazer. No versículo 35, o Senhor diz a Moisés que o homem deveria ser morto. Assim, toda a congregação foi levada para fora do arraial. E aquele homem morreu como o Senhor ordenara a Moisés.
Depois, no versículo 38, até o versículo 41, Deus diz aos filhos de Israel que nos cantos das suas vestes fossem feitas “borlas” pelas suas gerações, “borlas” presas em cada canto por um “cordão azul”. E as “borlas” estariam ali para que eles pudessem lembrar de todos os mandamentos do Senhor, para que eles pudessem cumprir. Deus diz assim nos versículos 39 a 41:
39 - E as borlas estarão ali para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos, após os quais andais adulterando,
40 - para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sereis a vosso Deus.
41 - Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos ser por Deus. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.
Então, irmãos, sabemos que estes textos foram dados para focar a questão do “sábado”. Na Bíblia, o sábado era uma figura de Cristo. O problema aqui nesta primeira parte era em relação ao sábado. A lição que Deus queria ensinar era que eles tinham que aprender a repousar em Deus, o que prefigura, no Novo Testamento, a nossa “experiência em viver Cristo”, em “repousar em Cristo”. Qual a razão desta lição?
Quando olhamos para Rimom-Perez, eles procuraram vencer por eles mesmos. Lembra quando quiseram subir e tomar a terra? Pela obstinação dos seus corações. Eles queriam lutar sem Deus. Em Libna Deus mostra a eles que por meio do sacrifício eles obteriam o perdão de Deus, nessa nossa vida que recebemos em Cristo, isto é, nessa nova vida “em Cristo”, que recebemos pela infinita misericórdia e graça de Deus e mediante o “sangue” de Cristo, o qual nos limpa do poder do pecado, da acusação de Satanás, da presença do pecado nos governando e também pelo Seu Espírito que nos conduz a esta nova vida. Somos agora conduzidos a esta experiência.
Precisamos atentar para este versículo 32, de Números capítulo 15:
32 - Estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado.
Precisamos saber que o sábado foi dado ao homem para que nele (o sábado) o homem pudesse descansar. Esse descanso não era apenas um descanso físico, mas que nesta experiência o homem pudesse ter sempre em Deus uma profunda reflexão de tudo aquilo que é Deus. Refletir na misericórdia, na graça, na provisão de Deus é viver uma vida na completa suficiência de Deus. É isso que precisamos entender aqui.
Quando estudamos o Evangelho de Mateus, capítulo 13, versículos 7 e 22, o Senhor Jesus diz:
7 - Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.
22 - O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera.
Amados irmãos, é importante percebermos que “os espinhos” representam a “fascinação das riquezas” que “sufocam a Palavra”. No texto que lemos em Números 15:32 vemos um homem que estava apanhando lenha. Isso desagradou a Deus, pois aqui vemos um ato de desobediência à Palavra de Deus. Alguém que estava procurando viver uma vida para si próprio, uma vida fora do contexto de Deus, fora do caráter de Deus, da vontade de Deus, sem o respaldo da Palavra de Deus. Será que imaginamos o quanto é perigoso nós vivermos uma vida sem o respaldo da Palavra de Deus, que não é sustentada pela Palavra de Deus, que não está fundamentada na Palavra de Deus? Será que imaginamos o quanto isto é sério? O quanto Deus deseja nos corrigir destes erros do nosso próprio coração. Aqui encontramos alguém que procurava viver uma vida para si mesmo, completamente afastado do caminho de Deus. Como nós somos tentados a isso! Como nós somos tentados a viver para nós mesmos! A viver uma vida sem uma referência espiritual! E o grande perigo disso é sermos guiados por nossa mente, pela nossa vontade. Veja o versículo 39, do capítulo 15, de Números. A parte b deste texto diz assim: “não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos”. Nós não podemos viver uma vida segundo a nossa vontade. Temos que entender que agora “em cristo” não vivemos uma vida “almática”. Não que tenhamos que restringir nossas emoções, nossa vontade, nossa mente. Não é isso. Nós temos que viver a vida cristã permitindo, na nossa consciência, que a Palavra de Deus fale a nós claramente o que Ele quer; que tenhamos percepção, isto é, intuição. Porque “consciência”, “intuição” e “comunhão” são as faculdades do nosso espírito. E por que nós não conseguimos liberar o nosso espírito? Porque vivemos uma vida segundo os nossos desejos, segundo o nosso próprio coração almático. Seguimos os nossos olhos e não seguimos a “voz interior” do Espírito no nosso espírito. Não seguimos a nossa consciência, não seguimos aquilo que o Senhor fala em nosso espírito. Porque o que fazemos, os nossos desejos, são sempre voltados às nossas necessidades peculiares, naturais, humanas e, muitas vezes adâmicas, isto é, na nossa carnalidade. Mas, para que sejamos corrigidos, sabemos que quando nos convertemos nosso espírito foi vivificado. E nesse espírito vivificado é onde Deus fala. Nós precisamos ouvir a voz de Deus no nosso espírito. Nós precisamos ter intuição, isto é, percepção espiritual para que não sejamos enganados.
E como tudo isso acontece? Outra faculdade do nosso espírito é “comunhão”. É aqui que Deus, pelo Espírito Santo, no nosso espírito, se une. E isto tem que ser uma “motivação” contínua. Comunhão com Deus tem que ser algo todo dia, sempre. Significa que devemos viver uma vida de “prioridade espiritual”. As coisas espirituais não podem ser vividas esporadicamente durante o dia. O “maná” tinha que ser apanhado logo cedo. Isso porque as nossas primeiras ações devem estar voltadas para Deus. Como: oração, louvor, aquela lembrança de contemplação dentro de nós. Os cristãos perderam a visão, a sensibilidade de que neles existe uma faculdade chamada de “espírito”. É a parte mais profunda do ser do homem, mais extraordinária. A parte mais grandiosa do nosso ser é o espírito. Se estudarmos todos os textos na Bíblia que focam o espírito seremos ricamente ajudados. Sentiremo-nos enriquecidos com a ajuda do Senhor por meio da Sua Palavra para compreendermos a nós mesmos. Isso porque muito da nossa vida cristã tem sido vivida na alma, na nossa carne, na nossa força natural, de nós mesmos para nós mesmos. Como aquele homem que foi procurar sustento, provisão para si, alguma atividade. Pode ser uma coisa muito simples a atitude daquele homem. Mas essa atitude, aparentemente muito simples, revela o “engano do nosso próprio coração”, revela as “motivações secretas” e “obstinadas” que nós carregamos dentro de nós mesmos.
Olhe o contexto deste episódio! Nós vimos incredulidade, vimos presunção, e agora vemos um homem pisando a Palavra de Deus, menosprezando a Palavra de Deus. MENOSPREZAR A PALAVRA DE DEUS É MENOSPREZAR O PRÓPRIO DEUS. É aqui que o Espírito Santo deseja nos disciplinar, nos corrigir, para que nós não andemos segundo os “desejos do nosso próprio coração”. Para que não venhamos seguir os nossos “próprios olhos”, mas seguir a Palavra de Deus. Seguir a “voz do Espírito” no nosso “interior”, na nossa. Ter percepção daquilo que agrada e daquilo que não agrada a Deus. Viver uma vida de comunhão com Deus. Só isso poderá nos ajudar, nos corrigir.
Que Deus abundantemente fale ao nosso coração.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
EDIFÍCIO BEM AJUSTADO
Continuação do estudo da epístola de Paulo aos efésios.
Por: D. M Lloyd Jones
CAPÍTULO 32
"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” - Efésios 2:20-22
Passamos agora a mais um estudo desta terceira figura. Tivemos uma visão geral do assunto, mas também observamos que o apóstolo não se contenta só com isso, embora seja importante. Em acréscimo a oferecer-nos uma descrição geral do edifício e, portanto, da natureza e do caráter da unidade própria da Igreja, o apóstolo trata também dos detalhes da planta e das especificações.
Já dedicamos alguma consideração ao fundamento, que é da máxima importância. A primeira coisa que Paulo nos diz é que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina". Não vou retornar a isso, mas certamente nós temos de compreender que o fundamento é de impor¬tância absolutamente central. Nunca devemos sujeitar-nos a correr nenhum risco com um alicerce. O nosso Senhor firmou esse ponto em Sua parábola das duas casas, uma edificada sobre a rocha e a outra edificada sobre a areia. O alicerce é absolutamente vital, e nós já vimos o que é o alicerce da Igreja, e como o próprio Senhor Jesus Cristo é a principal pedra da esquina, interligando as pedras subsidiárias, interli¬gando todas as paredes, e assim suportando e unindo a estrutura inteira.
Agora, tendo feito isso, a próxima coisa da qual o apóstolo trata, a próxima coisa na qual evidentemente estamos interessados, é esta: onde nós entramos nisso tudo? Somos edificados sobre o fundamento, somos partes integrantes das paredes que estão subindo neste processo em que se vai erguendo este grande templo que Deus está construindo para Si e para a Sua habitação, este templo santo no Senhor. Noutras palavras, passamos agora a estudar a nossa parte, o nosso lugar e a nossa posição neste admirável edifício de Deus. O apóstolo regozija-se no fato de que os efésios estão sendo edificados no edifício. A obra tinha começado antes deles entrarem, mas eles são acrescentados a ele, são colocados nele, e assim prossegue a edificação. Outros, muitos outros, entraram daquele tempo em diante. Eu e vocês, como cristãos, estamos nele. Devemos observar com toda a atenção o que o apóstolo nos diz sobre quais as pessoas que são edificadas nele, e como são edificadas. Essas são as duas coisas que importam. Quem são os que têm lugar, posição e parte nesta grande estrutura? Como entraram ali? Como são postos ali? O apóstolo trata de ambas as questões com muita clareza.
“Como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento”
Devemos ter em mente três coisas. Obviamente, cada parte desta estrutura tem que estar numa relação especial com o fundamento. Quase não é preciso dizer isso e, contudo, é um ponto tão importante que eu devo salientá-lo outra vez. Num templo como este que está sendo construído, em qualquer edifício grande e magnífico, sempre tem que haver correspondência entre as diversas partes. Você não pode por material falsificado aqui e ali num edifício perfeito. Se você vai erigir um edifício incomum, um grande e santo templo, cada parte terá que corresponder às demais. E assim é vital que nos lembremos de que nós, como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento, devemos estar verdadeira e correta¬mente relacionados com esse fundamento. Isso é algo de importância crucial. Permitam-me lembrá-los da maneira como o apóstolo expres¬sou essa verdade no capítulo três da Primeira Epístola aos Coríntios. Trata-se de uma palavra particularmente dirigida àqueles de nós que temos o privilégio de pregar e de servir como pastores. Somos edificadores sob Deus, somos Seus colaboradores. E eis o que o apóstolo diz: "Ninguém pode por outro fundamento além do que já está posto". "Mas veja cada um como edifica sobre ele."
Você pode edificar sobre ele, diz o apóstolo, com ouro ou prata ou com metais preciosos. Isso tem valor; mas também há os que querem construir com madeira, feno e palha; e isso não é nada bom. A madeira, o feno e a palha não são coerentes com o fundamento que foi posto. O fundamento é tão precioso, e a principal pedra da esquina é tão preciosa, que nada senão ouro ou prata ou metais preciosos são adequados. Colocar ali madeira, feno e palha é uma indignidade. Não somente isso, diz ele; estas coisas não resistirão, afinal. Esta obra será submetida a prova - "o dia a declarará". E ela será provada pelo fogo. E quando for posto o fogo, a madeira, o feno, a palha e a serragem desaparecerão num momento e não restará nada. Um edifício construído com material de má qualidade nunca passa na prova. Há gente que fica tão ansiosa pela rápida construção de um edifício que não toma cuidado com o que põe nas paredes - qualquer coisa serve para levantá-las, e depois se cobre tudo com um pouco de tinta. Parece maravilhoso, e o ignorante e o inexperiente ficam impressionados. Eles dizem: que maravilhoso! Outros parecem estar construindo tão devagar que as pessoas faltas de discernimento dizem: ele não está fazendo coisa nenhuma. No entanto, "o dia" a declarará. Não estamos construindo para o tempo, mas para a eternidade, e o arquiteto responsável é o próprio Deus, que vê tudo quanto está sendo feito e o provará no fim. Há homens, diz o apóstolo, que parecem ter feito maravilhas, porém quando chegar "o dia", verão que a sua obra foi destruída, e nada restará. Eles mesmos, se são cristãos verdadeiros, serão salvos, apesar de ser destruída a sua obra, mas eles serão salvos "como pelo fogo".
Portanto, diz o apóstolo, veja cada homem como constrói sobre este fundamento. Noutras palavras, o ponto é que o dever deste construtor auxiliar não é simplesmente levantar uma parede, mas certificar-se de que tudo o que vai dentro dela está em harmonia com o fundamento. Ele não deve edificar na Igreja apenas número num papel ou num rol, todavia aqueles que realmente estão firmados no fundamento da fé. O tipo de gente que quer ser cristão só para obter certos benefícios, não pode entrar nesta parede. Somente podem aqueles que compreendem que estão mortos em ofensas e pecados, completamente sem esperança e em desamparo, e que dependem unicamente da graça de Deus em Cristo para a sua salvação; que compreendem que, se Ele não tivesse derra¬mado o Seu sangue por eles e por seus pecados, eles ainda estariam perdidos, e que confiam somente na expiação de Cristo, expiação vicária, sacrificial, perfeita e consumada, e no poder do Espírito Santo - somente estes entram nestas paredes. Não aqueles que meramente foram habituados a freqüentar um local de culto ou que têm moralidade razoável. Tem que haver esta relação definida com o único e exclusivo fundamento.
A nossa relação com a Pedra da esquina.
Passemos à segunda questão. Menciono este ponto separadamente porque o apóstolo lhe dá essa ênfase. Não somente temos que estar relacionados dessa maneira com o fundamento, mas também temos que estar especificamente relacionados com a principal pedra da esqui¬na. Todo verdadeiro membro da Igreja Cristã não está somente relaci¬onado com a fé apostólica, também está numa relação muito definida com o Senhor Jesus Cristo. Vocês se lembram de que começamos com a fé, e com a fé apostólica, com o mínimo de cristianismo irredutível que temos aqui neste capítulo dois desta Epístola aos Efésios. Entretanto não paro nisso, porque dar assentimento intelectual a isso não é suficiente. Se você não der assentimento intelectual a estas verdades, certamente você não estará no edifício. Mas, meramente subscrever estes princípios não basta. Temos que "estar em Cristo". Temos que estar ligados a Cristo. Temos que conhecer esta união vital, esta relação vital com Ele. A principal pedra da esquina mantém todas as partes juntas - razão pela qual o apóstolo vai repetindo: “... no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados...”. O capítulo todo dá ênfase a isso. Fomos vivificados juntamente com Cristo, fomos ressuscitados juntamente com Cristo, e juntos nos assentamos nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Não se pode fugir disso, é algo que não se pode evitar. Não somente cremos e aceitamos a verdade como está em Cristo Jesus, temos que ser incorpo¬rados nEle, temos que estar em união vital com Ele. "Eu sou a videira, vós as varas", disse Ele, e a idéia é a mesma. De modo que, como membros, como partes deste grande edifício, estamos relacionados com o fundamento, e todos nós estamos relacionados com Ele desta maneira mística e vital.
Algumas das outras ilustrações que o apóstolo utiliza expõem isso com maior clareza. A ilustração do corpo, que já vimos de relance, faz isso de maneira ainda mais perfeita. O corpo não é uma junção de partes afixadas umas nas outras. A essência da unidade de um corpo é que a sua unidade é vital e orgânica. Não se forma um corpo afixando os dedos às mãos, as mãos aos punhos, e os punhos aos braços. Ao contrário, eles são vital, íntima e organicamente relacionados. Assim todos nós somos relacionados com Cristo, em Cristo, somos partes dEle, pertencentes a Ele, e somos mantidos juntos por Ele. Isso é também, então, obviamen¬te, uma coisa de fundamental importância.
Nosso relacionamento uns com os outros
Isso nos leva ao terceiro ponto, ponto que devemos considerar em detalhe, qual seja, a nossa relação uns com os outros. Pensem num edifício e nas pedras de um edifício. Estão todas relacionadas com o fundamento, estão todas relacionadas com a principal pedra da esquina, porém também estão relacionadas umas com as outras. Não se pode ter uma parede sem que as suas partes estejam interligadas. Este é um princípio que o apóstolo ilustra com esta afirmação importante e pitoresca que no versículo vinte e um é traduzida pelas palavras "adequada e conjuntamente ajustado" (V A) - "no qual todo o edifí¬cio", ou, como a temos na Versão Revista (inglesa, RV), "no qual todo edifício adequada e conjuntamente ajustado". A frase importante é "adequada e conjuntamente ajustado".
É uma expressão muito interessante. Temo-la aqui com três palavras (em inglês; com duas em português, Almeida), mas na verdade o apóstolo utilizou somente uma palavra no grego. Há outra coisa muito interessante acerca dessa palavra. É uma palavra que só se acha aqui e no versículo dezesseis do capítulo quatro desta Epístola, em toda a Bíblia. Não se acha em nenhum outro lugar. Contudo há ainda outra coisa mais interessante sobre ela. É uma palavra que, obviamente, foi feita, foi inventada e formada pelo próprio apóstolo. Ele não a copiou de ninguém; ele não a tinha visto em lugar algum. Este é o primeiro uso conhecido desta palavra. Dou ênfase a isso pela seguinte razão: obvia¬mente o apóstolo considerava este ponto particular como excepcional¬mente importante, tanto assim que ele cunhou uma palavra para expor a sua idéia. Todavia, apesar de todo o trabalho tomado pelo apostolo, é patética a maneira como algumas traduções atualmente populares omitem completamente o significado exato. Vejam, por exemplo, a Versão Revista Padrão (inglesa, RSV). Ela traduz a palavra simples¬mente por "unido juntamente", deixando completamente de lado o ponto específico da palavra que o apóstolo cunhou. O apóstolo podia ter empregado muitas outras palavras para expor a idéia de “unido junta¬mente". Moffatt chega um pouco mais perto. Ele diz, "caldeado juntamente". Mas até essa tradução é errada, pois não ,se caldeiam pedras juntamente, e toda a concepção e toda a figura do apostolo são em termos de edificar com pedras.
De fato, a palavra utilizada pelo apóstolo significa "harmoniosa¬mente ajustadas juntas" - pensando nas pedras do edifício. É um duplo composto, três palavras colocadas juntas e feitas uma só. A palavra fundamental significa "ligar" ou "juntar", e isto em Si já sugere a idéia de vir junto. No entanto, depois ele acrescenta a isso, o prefixo syn, que significa simplesmente "junto com", a mesma idéia que temos em "sinfonia" e em qualquer dos seus compostos. Juntar, junto - junto, juntar. Ora, a própria palavra "juntar" sugere a idéia de "junto" ou "juntos", mas o apóstolo diz "junto-juntar" para assegurar-se de que captamos o significado. E depois ele acrescentou a estas duas uma terceira palavra, que realmente significa “coligir” ou “reunir” ou "selecionar". Esta terceira palavra muitas vezes é utilizada para ajustar palavras juntas ou juntar palavras para formar uma frase completa. Quando alguém está falando ou escrevendo, certas palavras se lhe insinuam. Ele escolhe uma e rejeita a outra. Depois ele faz a mesma coisa com a próxima palavra, rejeita uma e escolhe outra. Depois ele aplica todas as palavras escolhidas à formação de uma frase. A palavra que o apóstolo utilizou deixa entrever esse processo. Assim temos "juntos¬-juntar-escolher" (selecionar). E ele coloca estas três palavras juntas para formar um vocábulo que na Versão Autorizada (inglesa) é traduzida por "adequada e conjuntamente ligado" (na Versão de Almeida é traduzida por "bem ajustado").
Obviamente, há uma doutrina profunda aqui. O apóstolo jamais se daria ao trabalho de formar uma palavra como esta, de inventar uma palavra, se não quisesse ser bastante claro nas idéias que estava transmitindo. Espero que possamos compreender a sua figura. Ah, vivemos dias em que os edifícios são de tijolos e não de pedras, e, portanto, alguns sejam demasiado jovens para entender a figura do apóstolo como deviam. Afastem da mente a idéia de um edifício de tijolos. Pensem antes num grande e maciço edifício de pedras. Obser¬vem aquele homem, ou melhor, aqueles homens que estão erigindo este edifício. Vocês já viram um verdadeiro artesão, o antigo tipo de pedreiro, no seu trabalho? Alguma vez vocês o viram levantar uma parede? Já o viram tirar uma pedra de uma pilha, olhá-la e tornar a olhá-la e, vendo que não é adequada, jogá-la fora e apanhar outra que ele apara e depois a coloca na posição certa? Esta é a figura que o apóstolo está usando; "bem ajustado", "adequada e conjuntamente ajustado" - pedras individuais sendo acrescentadas e colocadas na posição certa numa parede. Quais serão as idéias que o apóstolo comunica mediante essa linguagem, mediante essa expressão pictórica?
“A idéia da escolha”
O primeiro ponto é a idéia de escolha. Repito, quem já viu um verdadeiro construtor sabe exatamente o que isso significa. Lembremos que estamos considerando o nosso lugar e a nossa posição como membros da Igreja de Cristo. Estamos examinando a nós mesmos como partes desta grande parede, deste grande edifício que está sendo erigido para a construção de um templo, uma habitação para Deus. Como Deus habitava no templo antigo, na glória da Shekinah, no "lugar santíssimo", Ele habita e habitará por toda a eternidade na Igreja, em Seu povo. E eu e você estamos nessa Igreja. Como chegamos ali? Aqui está o primeiro ponto, a questão da escolha. É uma questão muito individual, esta. Vejam aquele pedreiro, aquele construtor. Ele levantou uma parede até certo nível; porém quer levantá-la mais, e no momento precisa de uma pedra particularmente grande para ocupar certa posição. Ele dispõe de uma pilha de pedras ali trazidas para o seu uso. Ele corre os olhos sobre elas. Ah, diz ele, esta serve. Tira a pedra da pilha, examina-a, mas finalmente decide que ela não serve. Tem que devolvê-Ia à pilha. Pega outra, e talvez tenha que pegar várias, e rejeitá-las; então finalmente acha a que serve e a coloca.
Tudo isso está envolvido. Há uma seleção pessoal e particular. Cada pedra é selecionada e colocada individualmente na posição. Isso de produção em massa não existia quando a construção era feita desse jeito, nos tempos antigos. Quando se constrói com tijolos, um é tão bom como qualquer outro. Entretanto não é assim com o tipo de edifício no qual o apóstolo estava pensando. Não foi assim que o antigo templo de Jerusalém foi construído, e é essa a figura que Paulo tem em mente. Não, ali há uma seleção deliberada, pessoal, particular e individual. E, graças a Deus, isso caracteriza todo aquele que se torna cristão. Não existe produção em massa na Igreja Cristã. Alguns parecem pensar que existe, mas não existe, e não pode existir. Graças a Deus, num mundo em que o individual está perdendo valor cada vez mais, ele fica bem no centro nestas questões.
Examinemos a questão de outro ângulo, mediante uma mudança da ilustração. Há somente um modo de entrar no reino de Deus, e esse é por uma catraca. Não é uma porta ampla, é uma catraca - "estreita é a porta"; "apertado é o caminho"; um por um. Não se pode entrar em multidão no reino dos céus; trata-se de uma transação individual entre Deus e a alma. A regeneração é individualista. E essa é a base da fé cristã; é o princípio essencial no que diz respeito às paredes deste edifício, deste templo de Deus. As pessoas não se salvam em famílias, menos ainda em grupos ou classes ou nações. Um por um, um é tomado e outro é rejeitado!
Todo esse assunto é também exposto pelo apóstolo no uso que faz da figura da madeira, do feno e da palha, em 1 Coríntios, capítulo 3. O nosso Senhor deixou isso claro em Sua parábola da rede que é lançada ao mar e recolhe grande número, uma grande multidão de peixes; mas depois é feito um exame, e os bons são mantidos e os maus são jogados fora. Eles ficam na rede por um momento, porém não são mantidos, são devolvidos ao mar. O construtor apanha uma pedra. Vai colocá-la na parede? Parece que ele vai usá-la. Mas não. Lá vai ela de volta, jogada fora, rejeitada. Nem tudo que parece certo a mim e a vocês é certo aos olhos de Deus. É um pensamento terrível este, mas a Bíblia o ensina em toda parte. No Dia do Juízo haverá muitos que pensavam que estavam no edifício, no entanto Cristo lhes dirá: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Trata-se de uma seleção individual, envolve uma escolha, e uma rejeição. Esse é o primeiro ponto.
“As pedras não são idênticas”
O segundo ponto é que as pedras deste edifício não são todas idênticas. Dêem uma olhada nalgum magnífico edifício de pedra e façam uma atenta busca desse ponto. As pedras não são iguais nem no tamanho, nem na forma, nem em nenhuma outra coisa. São todas diferentes e, contudo, estão harmoniosamente ajustadas e unidas, e fazem parte de uma parede magnífica. Umas são muito grandes, outras são pequenas, outras são de tamanho médio. Elas diferem no tamanho, na forma e em muitos outros aspectos. Torno a dizer, graças a Deus por isso. Esse também é um ponto muito importante, que, ao que me parece, é ignorado e esquecido hoje. Tive o privilégio de estar presente numa discussão de pastores e clérigos há não muito tempo, na qual uma questão muito pertinente foi levantada por um participante. Ele pergun¬tou: por que será que o cristianismo atual só parece atrair um tipo particular de gente? E acrescentou: é evidente que não estamos sensi¬bilizando as classes trabalhadoras, assim chamadas. Só estamos sensi¬bilizando uma certa classe, uma camada da sociedade. Por que será? Em minha opinião era uma questão muito profunda. Minha resposta foi que há algo radicalmente errado em nossa concepção fundamental da Igreja. Atrair classes é o tipo de coisa ligada à psicologia, mas é contrário ao gênio do cristianismo. A glória do cristianismo é que ele sensibiliza todos os tipos, espécies e condições de homens. Este elemento de variedade e variação, e de falta de mesmice, é sumamente interessante. A característica essencial de uma parede de pedra em distinção de uma parede de tijolo é que as pedras variam de tamanho, porém são ajustadas juntamente para compor o modelo. Não há nenhuma uniformidade monótona e insípida na Igreja. É uma característica das seitas que todos os seus seguidores tendem a ser sempre idênticos. Na Igreja Cristã há diversidade na unidade. Portanto, sempre devemos olhar com suspeita qualquer tipo de ensino que leve a uma espécie de mesmice nos resultados. Há certas pessoas que, só pelo modo de falar e pelas frases que empregam, quase contam a você onde foram convertidas. São produzidas em massa, são todas a mesma coisa. Falam as mesmas coisas, e as falam da mesma maneira, e fazem as mesmas coisas. São como uma série de selos postais. Não é esse o princípio que o apóstolo está enunciando aqui. Nunca fomos destinados a ser desse jeito, fomos destinados a ser diferentes. Todos na mesma parede, sim, mas muito diferentes uns dos outros - alguns grandes, alguns médios, alguns pequenos; alguns com esta forma, alguns com outra, porém todos igualmente na parede. Essa é a verdadeira unidade, não a uniformidade monótona e insípida que vemos hoje em muitos aspectos da vida, e, lamentavelmente, na Igreja. Permitam-me expressá-lo com simplici¬dade e clareza dizendo isto: como cristãos, não fomos destinados a ser iguais. As nossas características individuais devem permanecer. Alguns de nós nascemos veementes; bem, fomos destinados a ser veementes. Outros nascem tranqüilos e fleumáticos, que continuem sendo assim. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa tentar ser veemente ou sangüínea. E, contudo, acontece com freqüência; todos procurando ser iguais. Não é o que se espera de nós. Ah, você dirá, mas eu sempre gosto do cristão alegre e animado. Bem, eu nem sempre! Há ocasiões e circunstâncias que esse tipo de cristão me deprime terrivelmente. A risada forçada! A jovialidade afetada! Há vezes em que dou graças a Deus pelo indivíduo sério, de aparência sóbria, que me assegura que está tendo uma interior e profunda visão de vida, e que tem algum conhecimento do que o apóstolo quis dizer quando declarou: "Neste tabernáculo, gememos carregados" (2 Coríntios 5:4).
Nem todos fomos destinados a pregar. Mas há um ensino hoje que quase parece dizer que fomos. Assim que a pessoa é convertida, tem que dar o seu testemunho, e então pregar. Contudo nem todos nós fomos destinados a pregar. Nem todos fomos destinados a ir para algum campo missionário estrangeiro. Nem todos fomos destinados a ser obreiros de tempo integral na causa de Deus. Há pessoas que procuram passar a idéia de que fomos. Em suas conferências eles pressionam os jovens, fazen¬do-os sentir que quase estarão pecando se não se apresentarem como voluntários para as missões estrangeiras. Mas esse ensino é muito falso. Não fomos destinados a ser iguais. Todos nós temos o nosso papel a desempenhar, a nossa função a realizar; esta não é a mesma em cada caso. Aí está a pedra grande, que suporta um peso tremendo. Ali está a pedra pequena - é igualmente importante, ajusta-se àquele ponto ao qual nenhuma outra coisa se ajustaria.
Livremo-nos, pois, da idéia de que todos nós temos que ser iguais, e procuremos descobrir o que Deus quer fazer conosco e o que Deus quer que nós sejamos. A história da Igreja dá eloqüente testemunho do fato de que, às vezes, um cristão obscuro e desconhecido, de quem a Igreja pouco ouvira falar, que passava o tempo em oração e intercessão, fez muito mais do que os grandes pregadores populares que edificaram com muita madeira, feno e palha, que não subsistirão no Dia do Juízo. Aprendamos a ver estas coisas espiritualmente. Alguns de nós, como cristãos, talvez sejam chamados simplesmente para serem bondosos com as pessoas, para serem amigáveis e compreensivos, para fazerem pouco mais que sentar-se e ouvi-las. Você pode ajudar tremendamente as pessoas apenas ouvindo-as e deixando que descarreguem os seus corações. Mas há alguns de nós que somos tão ativos e ocupados, e falamos tanto, que nunca damos às pessoas oportunidade para falarem; nunca temos tempo para ouvi-las e, portanto, não as ajudamos.
Procuremos captar bem este princípio vital - que há esta grande variedade e variação nas pedras que devem estar no mesmo edifício, no mesmo templo santo do Senhor, neste edifício de Deus. Você pode não ser grande e importante; bem, não se glorie no fato de não ser, porém lembre-se de que o fato de não o ser não significa que você não está no edifício. Ele sabe. Ele nos vê a todos. Voltemos a 1 Coríntios, capítulo 12, e vejamos como o apóstolo desenvolveu ali este princípio minuci¬osamente, em termos do corpo. O corpo completo não é o olho, não é o ouvido, não é a mão, não é o pé. Todas estas diferentes partes estão no mesmo corpo, embora alguns sejam mais elegantes que outros. Todavia ele acentua que as nossas partes menos elegantes são tão indispensáveis como as mais elegantes. Portanto, não caiamos na tolice de desejar que todos sejamos iguais e idênticos. Não pensemos em termos de produção em massa ou em termos de tijolos. Pensemos numa parede de pedra, e demos graças a Deus que, seja o que for que sejamos, Ele nos tomou e colocou na parede do Seu edifício, e que Ele tanto nos conhece como conhece a pedra grande, bem proporcionada e sólida. É maravilhoso para mim, estupendo o fato, de que somos colocados ali um por um, e que o cristão mais humilde é objeto de conhecimento de Deus como o é o maior e mais poderoso santo, que Ele vê o lugar exato para nós na parede e nos coloca ali; e nos coloca ali exatamente da mesma maneira como coloca todos os demais.
Não tentemos, pois, atalhar ou violar o plano de Deus, o método de Deus e a Sua maneira de edificar. Procuremos estar cientes deste terrível perigo psicológico com que se defronta a Igreja hoje - a idéia de produção em massa, sempre levando ao mesmo resultado e produzindo o mesmo tipo particular. É uma coisa grave quando a Igreja só produz certo tipo de cristão e somente apela a certo tipo ou classe de pessoa. Quando este evangelho é pregado corretamente, ele toca todos os segmentos da sociedade. A história da Igreja o comprova. O perigo hoje é entender que todos nós devemos ser meramente pessoas finas, tranqüilas e respeitáveis, pessoas que ainda se apegam à moralidade própria, e que a Igreja só deve consistir de tais pessoas - somente pessoas da classe média. Jamais houve tal propósito. Reconsideremos a nossa pregação, o nosso ensino, e especialmente os nossos métodos, para não acontecer que inconscientemente deslizemos para a prática do método psicológico e, com isso, nos persuadamos de que estamos construindo um edifício maravilhoso, para somente descobrir no fim que não acrescentamos nada ao templo de Deus, e ver-nos no "grande dia" com muito pouca coisa para mostrar do nosso esforço e de todo o nosso entusiasmo. Esse é o segundo ponto.
Preparo e adaptação
Permitam-me acrescentar apenas uma palavra como nosso terceiro princípio: é a questão de preparo e adaptação. Só posso fazer uma introdução disso aqui, porquanto é um grande tema. Teremos que entrar em detalhes posteriormente. Eu disse a vocês que o construtor, o pedreiro, em dado ponto precisa de uma pedra de certo tamanho ou forma e, olhando para o monte de pedras, enxerga uma que parece servir e a retira. Ah, diz ele, esta vai servir. Tendo rejeitado algumas, ele diz: agora esta vai servir direitinho. Mas não tão direitinho, porque esta pedra vai ter que ser preparada e adaptada ao material que já fora posto ali. Há pedras embaixo e nos lados. Esta é a pedra certa em geral, porém terá que ser adaptada às que estão nos lados e por baixo, e depois ainda terá que ser colocada alguma coisa em cima. Vocês já viram um pedreiro fazendo o seu serviço? Em minha adolescência eu vi isso muitas vezes, e sempre me fascinou. Ele apanhava a pedra e depois, com seus diversos tipos de martelo, tirava pedaços dela. Ele a aparava, modelava-a, dava¬-lhe forma, e lhe tirava lascas. Aí tentava colocá-la. Depois tornava a tirá-la porque não estava bem ajustada. Tirava outro pedaço, talvez com o cinzel e o martelo. E assim ele ia trabalhando nela até ficar bem certa. Depois a colocava, e se afastava para olhar. Satisfeito, punha a argamas¬sa, pegava outra pedra e fazia o mesmo trabalho. Pois bem, é isso que o apóstolo quer dizer com "bem ajustado" ou "adequada e conjunta¬mente ajustado". Algo terá que acontecer conosco, antes de podermos estar adequadamente ajustados ao conjunto. O construtor não lança as pedras juntas de qualquer maneira. Não, há uma maravilhosa simetria em tudo isso. Observem os edifícios, e vocês verão isso. E, natural¬mente, é óbvio que o trabalho de aparar, cortar e cinzelar é mais necessário em alguns casos do que noutros. Mas todos nós precisamos disso. E o temos. E enquanto isso não acontecer conosco, jamais faremos parte da parede em construção.
Ao que me parece, não há nada mais fascinante na longa história da Igreja e do seu povo do que ver em operação e na prática este princípio. Houve homens que precisaram de muito trabalho de aparelhagem e de modelagem, e o tiveram. Depois disso tornaram-se pedras enormes. Houve outros que pareciam estar quase totalmente prontos como estavam. Pouca coisa foi necessária fazer com eles. Vocês devem ter visto isso em sua experiência pessoal, ao observarem diferentes cristãos. O que importa não é a quantidade, o princípio é que sempre há necessidade desse procedimento e desse processo, em maior ou menor medida.
Como se faz? Pela pregação e pelo ensino. É esse o dever geral da pregação e do ensino; é modelar-nos, preparar-nos. Todos nós temos estes estranhos ângulos e arestas e, como somos por natureza, não nos ajustamos à construção. Estas coisas têm que ser podadas. Angulosidades, grosserias, gente grosseira na Igreja! Todos nós somos grosseiros, em certo sentido, uns mais, outros menos. Somos pedras rudemente talha¬das quando saímos da pedreira, como que arrancadas dela mediante uma explosão. Temos mais ou menos a forma geral certa, mas é necessário muito trabalho com o cinzel antes de nos adequarmos bem aos nossos lugares particulares na construção. E enquanto não formos aparelhados, não seremos colocados nela. Como nos inclinamos a esquecer isso! Se lermos o Novo Testamento, se dermos ouvido à pregação e ao ensino, veremos a absoluta necessidade e urgência desta preparação. Há os que dizem: sou deste tipo de pessoa. Sou daquele tipo de pessoa. Sempre tenho que dizer o que tenho na cabeça. Se todos fossem assim, que tipo de igreja vocês teriam? Que espécie de edifício vocês teriam, se todas as pedras fossem pontudas e difíceis assim? Seria impossível, vocês não poderiam construir; estas arestas têm que ser debastadas. Pois bem, é aí que entra a disciplina pessoal. Temos que ser menos difíceis, como pessoas. Temos que ajustar-nos - adequada e conjuntamente ajustados.
Devemos esquecer-nos de nós mesmos e pensar na parede, no edifício, e compreender juntos que é o Senhor quem decide onde devemos estar, o que devemos ser e que funções nos cabe desempenhar. E, acredite-me, se você está neste edifício, ou vai estar, terá que ser aparelhado e amoldado. É o edifício de Deus, lembremo-nos, e se eu e você não aplicarmos o ensino, as instruções e a mensagem das Escrituras como devemos, Deus terá outro meio de fazê-lo. Leia o capítulo doze da Epístola aos Hebreus, e verá o que estou querendo dizer. "O Senhor corrige a quem ama" (12:6, ARA). Se os apelos e argumentos do evangelho não o levam a disciplinar-se, e se você não se livrar dessas arestas e irregularidades, Ele tem um cinzel poderoso e um poderoso martelo, e Ele as arrancará de você. Todos nós temos algum conheci¬mento disso em nossas experiências pessoais. Ele nos humilha, Ele nos derruba, e Ele tem muitas maneiras de fazê-lo por meio de enfermidade ou doença, ou morte, ou tristeza, ou fracasso, ou incompreensão; mil e uma coisas. E Ele o faz. Graças a Deus que Ele o faz. Pois, se Ele não fizesse isso conosco, nenhum de nós chegaria a estar preparado para estar nessa parede. É a quem o Senhor ama que Ele castiga. Se Ele não o ama, Ele não Se importará com você, Ele o jogará fora, e lá você poderá ficar com todas as suas angulosidades e anomalias pelo resto da sua vida, dizendo: eu sou deste tipo de pessoa! Muito bem! Seja esse tipo de pessoa! Saiba, contudo, que você não está no templo santo do Senhor, e nunca estará, enquanto for desse jeito. Esta é uma questão muito grave e solene, uma questão de importância eterna para nós. Temos que ser amoldáveis, e que ajustar-nos uns aos outros, se é que desejamos estar neste templo santo. Assim, se nós não compreendermos este princípio, não virmos a importância desta preparação vital, e não nos submetermos a ela, seremos rejeitados, e se não compreendermos isso no tempo, certamente o compreenderemos na eternidade.
Por: D. M Lloyd Jones
CAPÍTULO 32
"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” - Efésios 2:20-22
Passamos agora a mais um estudo desta terceira figura. Tivemos uma visão geral do assunto, mas também observamos que o apóstolo não se contenta só com isso, embora seja importante. Em acréscimo a oferecer-nos uma descrição geral do edifício e, portanto, da natureza e do caráter da unidade própria da Igreja, o apóstolo trata também dos detalhes da planta e das especificações.
Já dedicamos alguma consideração ao fundamento, que é da máxima importância. A primeira coisa que Paulo nos diz é que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina". Não vou retornar a isso, mas certamente nós temos de compreender que o fundamento é de impor¬tância absolutamente central. Nunca devemos sujeitar-nos a correr nenhum risco com um alicerce. O nosso Senhor firmou esse ponto em Sua parábola das duas casas, uma edificada sobre a rocha e a outra edificada sobre a areia. O alicerce é absolutamente vital, e nós já vimos o que é o alicerce da Igreja, e como o próprio Senhor Jesus Cristo é a principal pedra da esquina, interligando as pedras subsidiárias, interli¬gando todas as paredes, e assim suportando e unindo a estrutura inteira.
Agora, tendo feito isso, a próxima coisa da qual o apóstolo trata, a próxima coisa na qual evidentemente estamos interessados, é esta: onde nós entramos nisso tudo? Somos edificados sobre o fundamento, somos partes integrantes das paredes que estão subindo neste processo em que se vai erguendo este grande templo que Deus está construindo para Si e para a Sua habitação, este templo santo no Senhor. Noutras palavras, passamos agora a estudar a nossa parte, o nosso lugar e a nossa posição neste admirável edifício de Deus. O apóstolo regozija-se no fato de que os efésios estão sendo edificados no edifício. A obra tinha começado antes deles entrarem, mas eles são acrescentados a ele, são colocados nele, e assim prossegue a edificação. Outros, muitos outros, entraram daquele tempo em diante. Eu e vocês, como cristãos, estamos nele. Devemos observar com toda a atenção o que o apóstolo nos diz sobre quais as pessoas que são edificadas nele, e como são edificadas. Essas são as duas coisas que importam. Quem são os que têm lugar, posição e parte nesta grande estrutura? Como entraram ali? Como são postos ali? O apóstolo trata de ambas as questões com muita clareza.
“Como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento”
Devemos ter em mente três coisas. Obviamente, cada parte desta estrutura tem que estar numa relação especial com o fundamento. Quase não é preciso dizer isso e, contudo, é um ponto tão importante que eu devo salientá-lo outra vez. Num templo como este que está sendo construído, em qualquer edifício grande e magnífico, sempre tem que haver correspondência entre as diversas partes. Você não pode por material falsificado aqui e ali num edifício perfeito. Se você vai erigir um edifício incomum, um grande e santo templo, cada parte terá que corresponder às demais. E assim é vital que nos lembremos de que nós, como partes individuais deste grande templo de Deus, devemos corresponder ao fundamento, devemos estar verdadeira e correta¬mente relacionados com esse fundamento. Isso é algo de importância crucial. Permitam-me lembrá-los da maneira como o apóstolo expres¬sou essa verdade no capítulo três da Primeira Epístola aos Coríntios. Trata-se de uma palavra particularmente dirigida àqueles de nós que temos o privilégio de pregar e de servir como pastores. Somos edificadores sob Deus, somos Seus colaboradores. E eis o que o apóstolo diz: "Ninguém pode por outro fundamento além do que já está posto". "Mas veja cada um como edifica sobre ele."
Você pode edificar sobre ele, diz o apóstolo, com ouro ou prata ou com metais preciosos. Isso tem valor; mas também há os que querem construir com madeira, feno e palha; e isso não é nada bom. A madeira, o feno e a palha não são coerentes com o fundamento que foi posto. O fundamento é tão precioso, e a principal pedra da esquina é tão preciosa, que nada senão ouro ou prata ou metais preciosos são adequados. Colocar ali madeira, feno e palha é uma indignidade. Não somente isso, diz ele; estas coisas não resistirão, afinal. Esta obra será submetida a prova - "o dia a declarará". E ela será provada pelo fogo. E quando for posto o fogo, a madeira, o feno, a palha e a serragem desaparecerão num momento e não restará nada. Um edifício construído com material de má qualidade nunca passa na prova. Há gente que fica tão ansiosa pela rápida construção de um edifício que não toma cuidado com o que põe nas paredes - qualquer coisa serve para levantá-las, e depois se cobre tudo com um pouco de tinta. Parece maravilhoso, e o ignorante e o inexperiente ficam impressionados. Eles dizem: que maravilhoso! Outros parecem estar construindo tão devagar que as pessoas faltas de discernimento dizem: ele não está fazendo coisa nenhuma. No entanto, "o dia" a declarará. Não estamos construindo para o tempo, mas para a eternidade, e o arquiteto responsável é o próprio Deus, que vê tudo quanto está sendo feito e o provará no fim. Há homens, diz o apóstolo, que parecem ter feito maravilhas, porém quando chegar "o dia", verão que a sua obra foi destruída, e nada restará. Eles mesmos, se são cristãos verdadeiros, serão salvos, apesar de ser destruída a sua obra, mas eles serão salvos "como pelo fogo".
Portanto, diz o apóstolo, veja cada homem como constrói sobre este fundamento. Noutras palavras, o ponto é que o dever deste construtor auxiliar não é simplesmente levantar uma parede, mas certificar-se de que tudo o que vai dentro dela está em harmonia com o fundamento. Ele não deve edificar na Igreja apenas número num papel ou num rol, todavia aqueles que realmente estão firmados no fundamento da fé. O tipo de gente que quer ser cristão só para obter certos benefícios, não pode entrar nesta parede. Somente podem aqueles que compreendem que estão mortos em ofensas e pecados, completamente sem esperança e em desamparo, e que dependem unicamente da graça de Deus em Cristo para a sua salvação; que compreendem que, se Ele não tivesse derra¬mado o Seu sangue por eles e por seus pecados, eles ainda estariam perdidos, e que confiam somente na expiação de Cristo, expiação vicária, sacrificial, perfeita e consumada, e no poder do Espírito Santo - somente estes entram nestas paredes. Não aqueles que meramente foram habituados a freqüentar um local de culto ou que têm moralidade razoável. Tem que haver esta relação definida com o único e exclusivo fundamento.
A nossa relação com a Pedra da esquina.
Passemos à segunda questão. Menciono este ponto separadamente porque o apóstolo lhe dá essa ênfase. Não somente temos que estar relacionados dessa maneira com o fundamento, mas também temos que estar especificamente relacionados com a principal pedra da esqui¬na. Todo verdadeiro membro da Igreja Cristã não está somente relaci¬onado com a fé apostólica, também está numa relação muito definida com o Senhor Jesus Cristo. Vocês se lembram de que começamos com a fé, e com a fé apostólica, com o mínimo de cristianismo irredutível que temos aqui neste capítulo dois desta Epístola aos Efésios. Entretanto não paro nisso, porque dar assentimento intelectual a isso não é suficiente. Se você não der assentimento intelectual a estas verdades, certamente você não estará no edifício. Mas, meramente subscrever estes princípios não basta. Temos que "estar em Cristo". Temos que estar ligados a Cristo. Temos que conhecer esta união vital, esta relação vital com Ele. A principal pedra da esquina mantém todas as partes juntas - razão pela qual o apóstolo vai repetindo: “... no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados...”. O capítulo todo dá ênfase a isso. Fomos vivificados juntamente com Cristo, fomos ressuscitados juntamente com Cristo, e juntos nos assentamos nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Não se pode fugir disso, é algo que não se pode evitar. Não somente cremos e aceitamos a verdade como está em Cristo Jesus, temos que ser incorpo¬rados nEle, temos que estar em união vital com Ele. "Eu sou a videira, vós as varas", disse Ele, e a idéia é a mesma. De modo que, como membros, como partes deste grande edifício, estamos relacionados com o fundamento, e todos nós estamos relacionados com Ele desta maneira mística e vital.
Algumas das outras ilustrações que o apóstolo utiliza expõem isso com maior clareza. A ilustração do corpo, que já vimos de relance, faz isso de maneira ainda mais perfeita. O corpo não é uma junção de partes afixadas umas nas outras. A essência da unidade de um corpo é que a sua unidade é vital e orgânica. Não se forma um corpo afixando os dedos às mãos, as mãos aos punhos, e os punhos aos braços. Ao contrário, eles são vital, íntima e organicamente relacionados. Assim todos nós somos relacionados com Cristo, em Cristo, somos partes dEle, pertencentes a Ele, e somos mantidos juntos por Ele. Isso é também, então, obviamen¬te, uma coisa de fundamental importância.
Nosso relacionamento uns com os outros
Isso nos leva ao terceiro ponto, ponto que devemos considerar em detalhe, qual seja, a nossa relação uns com os outros. Pensem num edifício e nas pedras de um edifício. Estão todas relacionadas com o fundamento, estão todas relacionadas com a principal pedra da esquina, porém também estão relacionadas umas com as outras. Não se pode ter uma parede sem que as suas partes estejam interligadas. Este é um princípio que o apóstolo ilustra com esta afirmação importante e pitoresca que no versículo vinte e um é traduzida pelas palavras "adequada e conjuntamente ajustado" (V A) - "no qual todo o edifí¬cio", ou, como a temos na Versão Revista (inglesa, RV), "no qual todo edifício adequada e conjuntamente ajustado". A frase importante é "adequada e conjuntamente ajustado".
É uma expressão muito interessante. Temo-la aqui com três palavras (em inglês; com duas em português, Almeida), mas na verdade o apóstolo utilizou somente uma palavra no grego. Há outra coisa muito interessante acerca dessa palavra. É uma palavra que só se acha aqui e no versículo dezesseis do capítulo quatro desta Epístola, em toda a Bíblia. Não se acha em nenhum outro lugar. Contudo há ainda outra coisa mais interessante sobre ela. É uma palavra que, obviamente, foi feita, foi inventada e formada pelo próprio apóstolo. Ele não a copiou de ninguém; ele não a tinha visto em lugar algum. Este é o primeiro uso conhecido desta palavra. Dou ênfase a isso pela seguinte razão: obvia¬mente o apóstolo considerava este ponto particular como excepcional¬mente importante, tanto assim que ele cunhou uma palavra para expor a sua idéia. Todavia, apesar de todo o trabalho tomado pelo apostolo, é patética a maneira como algumas traduções atualmente populares omitem completamente o significado exato. Vejam, por exemplo, a Versão Revista Padrão (inglesa, RSV). Ela traduz a palavra simples¬mente por "unido juntamente", deixando completamente de lado o ponto específico da palavra que o apóstolo cunhou. O apóstolo podia ter empregado muitas outras palavras para expor a idéia de “unido junta¬mente". Moffatt chega um pouco mais perto. Ele diz, "caldeado juntamente". Mas até essa tradução é errada, pois não ,se caldeiam pedras juntamente, e toda a concepção e toda a figura do apostolo são em termos de edificar com pedras.
De fato, a palavra utilizada pelo apóstolo significa "harmoniosa¬mente ajustadas juntas" - pensando nas pedras do edifício. É um duplo composto, três palavras colocadas juntas e feitas uma só. A palavra fundamental significa "ligar" ou "juntar", e isto em Si já sugere a idéia de vir junto. No entanto, depois ele acrescenta a isso, o prefixo syn, que significa simplesmente "junto com", a mesma idéia que temos em "sinfonia" e em qualquer dos seus compostos. Juntar, junto - junto, juntar. Ora, a própria palavra "juntar" sugere a idéia de "junto" ou "juntos", mas o apóstolo diz "junto-juntar" para assegurar-se de que captamos o significado. E depois ele acrescentou a estas duas uma terceira palavra, que realmente significa “coligir” ou “reunir” ou "selecionar". Esta terceira palavra muitas vezes é utilizada para ajustar palavras juntas ou juntar palavras para formar uma frase completa. Quando alguém está falando ou escrevendo, certas palavras se lhe insinuam. Ele escolhe uma e rejeita a outra. Depois ele faz a mesma coisa com a próxima palavra, rejeita uma e escolhe outra. Depois ele aplica todas as palavras escolhidas à formação de uma frase. A palavra que o apóstolo utilizou deixa entrever esse processo. Assim temos "juntos¬-juntar-escolher" (selecionar). E ele coloca estas três palavras juntas para formar um vocábulo que na Versão Autorizada (inglesa) é traduzida por "adequada e conjuntamente ligado" (na Versão de Almeida é traduzida por "bem ajustado").
Obviamente, há uma doutrina profunda aqui. O apóstolo jamais se daria ao trabalho de formar uma palavra como esta, de inventar uma palavra, se não quisesse ser bastante claro nas idéias que estava transmitindo. Espero que possamos compreender a sua figura. Ah, vivemos dias em que os edifícios são de tijolos e não de pedras, e, portanto, alguns sejam demasiado jovens para entender a figura do apóstolo como deviam. Afastem da mente a idéia de um edifício de tijolos. Pensem antes num grande e maciço edifício de pedras. Obser¬vem aquele homem, ou melhor, aqueles homens que estão erigindo este edifício. Vocês já viram um verdadeiro artesão, o antigo tipo de pedreiro, no seu trabalho? Alguma vez vocês o viram levantar uma parede? Já o viram tirar uma pedra de uma pilha, olhá-la e tornar a olhá-la e, vendo que não é adequada, jogá-la fora e apanhar outra que ele apara e depois a coloca na posição certa? Esta é a figura que o apóstolo está usando; "bem ajustado", "adequada e conjuntamente ajustado" - pedras individuais sendo acrescentadas e colocadas na posição certa numa parede. Quais serão as idéias que o apóstolo comunica mediante essa linguagem, mediante essa expressão pictórica?
“A idéia da escolha”
O primeiro ponto é a idéia de escolha. Repito, quem já viu um verdadeiro construtor sabe exatamente o que isso significa. Lembremos que estamos considerando o nosso lugar e a nossa posição como membros da Igreja de Cristo. Estamos examinando a nós mesmos como partes desta grande parede, deste grande edifício que está sendo erigido para a construção de um templo, uma habitação para Deus. Como Deus habitava no templo antigo, na glória da Shekinah, no "lugar santíssimo", Ele habita e habitará por toda a eternidade na Igreja, em Seu povo. E eu e você estamos nessa Igreja. Como chegamos ali? Aqui está o primeiro ponto, a questão da escolha. É uma questão muito individual, esta. Vejam aquele pedreiro, aquele construtor. Ele levantou uma parede até certo nível; porém quer levantá-la mais, e no momento precisa de uma pedra particularmente grande para ocupar certa posição. Ele dispõe de uma pilha de pedras ali trazidas para o seu uso. Ele corre os olhos sobre elas. Ah, diz ele, esta serve. Tira a pedra da pilha, examina-a, mas finalmente decide que ela não serve. Tem que devolvê-Ia à pilha. Pega outra, e talvez tenha que pegar várias, e rejeitá-las; então finalmente acha a que serve e a coloca.
Tudo isso está envolvido. Há uma seleção pessoal e particular. Cada pedra é selecionada e colocada individualmente na posição. Isso de produção em massa não existia quando a construção era feita desse jeito, nos tempos antigos. Quando se constrói com tijolos, um é tão bom como qualquer outro. Entretanto não é assim com o tipo de edifício no qual o apóstolo estava pensando. Não foi assim que o antigo templo de Jerusalém foi construído, e é essa a figura que Paulo tem em mente. Não, ali há uma seleção deliberada, pessoal, particular e individual. E, graças a Deus, isso caracteriza todo aquele que se torna cristão. Não existe produção em massa na Igreja Cristã. Alguns parecem pensar que existe, mas não existe, e não pode existir. Graças a Deus, num mundo em que o individual está perdendo valor cada vez mais, ele fica bem no centro nestas questões.
Examinemos a questão de outro ângulo, mediante uma mudança da ilustração. Há somente um modo de entrar no reino de Deus, e esse é por uma catraca. Não é uma porta ampla, é uma catraca - "estreita é a porta"; "apertado é o caminho"; um por um. Não se pode entrar em multidão no reino dos céus; trata-se de uma transação individual entre Deus e a alma. A regeneração é individualista. E essa é a base da fé cristã; é o princípio essencial no que diz respeito às paredes deste edifício, deste templo de Deus. As pessoas não se salvam em famílias, menos ainda em grupos ou classes ou nações. Um por um, um é tomado e outro é rejeitado!
Todo esse assunto é também exposto pelo apóstolo no uso que faz da figura da madeira, do feno e da palha, em 1 Coríntios, capítulo 3. O nosso Senhor deixou isso claro em Sua parábola da rede que é lançada ao mar e recolhe grande número, uma grande multidão de peixes; mas depois é feito um exame, e os bons são mantidos e os maus são jogados fora. Eles ficam na rede por um momento, porém não são mantidos, são devolvidos ao mar. O construtor apanha uma pedra. Vai colocá-la na parede? Parece que ele vai usá-la. Mas não. Lá vai ela de volta, jogada fora, rejeitada. Nem tudo que parece certo a mim e a vocês é certo aos olhos de Deus. É um pensamento terrível este, mas a Bíblia o ensina em toda parte. No Dia do Juízo haverá muitos que pensavam que estavam no edifício, no entanto Cristo lhes dirá: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Trata-se de uma seleção individual, envolve uma escolha, e uma rejeição. Esse é o primeiro ponto.
“As pedras não são idênticas”
O segundo ponto é que as pedras deste edifício não são todas idênticas. Dêem uma olhada nalgum magnífico edifício de pedra e façam uma atenta busca desse ponto. As pedras não são iguais nem no tamanho, nem na forma, nem em nenhuma outra coisa. São todas diferentes e, contudo, estão harmoniosamente ajustadas e unidas, e fazem parte de uma parede magnífica. Umas são muito grandes, outras são pequenas, outras são de tamanho médio. Elas diferem no tamanho, na forma e em muitos outros aspectos. Torno a dizer, graças a Deus por isso. Esse também é um ponto muito importante, que, ao que me parece, é ignorado e esquecido hoje. Tive o privilégio de estar presente numa discussão de pastores e clérigos há não muito tempo, na qual uma questão muito pertinente foi levantada por um participante. Ele pergun¬tou: por que será que o cristianismo atual só parece atrair um tipo particular de gente? E acrescentou: é evidente que não estamos sensi¬bilizando as classes trabalhadoras, assim chamadas. Só estamos sensi¬bilizando uma certa classe, uma camada da sociedade. Por que será? Em minha opinião era uma questão muito profunda. Minha resposta foi que há algo radicalmente errado em nossa concepção fundamental da Igreja. Atrair classes é o tipo de coisa ligada à psicologia, mas é contrário ao gênio do cristianismo. A glória do cristianismo é que ele sensibiliza todos os tipos, espécies e condições de homens. Este elemento de variedade e variação, e de falta de mesmice, é sumamente interessante. A característica essencial de uma parede de pedra em distinção de uma parede de tijolo é que as pedras variam de tamanho, porém são ajustadas juntamente para compor o modelo. Não há nenhuma uniformidade monótona e insípida na Igreja. É uma característica das seitas que todos os seus seguidores tendem a ser sempre idênticos. Na Igreja Cristã há diversidade na unidade. Portanto, sempre devemos olhar com suspeita qualquer tipo de ensino que leve a uma espécie de mesmice nos resultados. Há certas pessoas que, só pelo modo de falar e pelas frases que empregam, quase contam a você onde foram convertidas. São produzidas em massa, são todas a mesma coisa. Falam as mesmas coisas, e as falam da mesma maneira, e fazem as mesmas coisas. São como uma série de selos postais. Não é esse o princípio que o apóstolo está enunciando aqui. Nunca fomos destinados a ser desse jeito, fomos destinados a ser diferentes. Todos na mesma parede, sim, mas muito diferentes uns dos outros - alguns grandes, alguns médios, alguns pequenos; alguns com esta forma, alguns com outra, porém todos igualmente na parede. Essa é a verdadeira unidade, não a uniformidade monótona e insípida que vemos hoje em muitos aspectos da vida, e, lamentavelmente, na Igreja. Permitam-me expressá-lo com simplici¬dade e clareza dizendo isto: como cristãos, não fomos destinados a ser iguais. As nossas características individuais devem permanecer. Alguns de nós nascemos veementes; bem, fomos destinados a ser veementes. Outros nascem tranqüilos e fleumáticos, que continuem sendo assim. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa tentar ser veemente ou sangüínea. E, contudo, acontece com freqüência; todos procurando ser iguais. Não é o que se espera de nós. Ah, você dirá, mas eu sempre gosto do cristão alegre e animado. Bem, eu nem sempre! Há ocasiões e circunstâncias que esse tipo de cristão me deprime terrivelmente. A risada forçada! A jovialidade afetada! Há vezes em que dou graças a Deus pelo indivíduo sério, de aparência sóbria, que me assegura que está tendo uma interior e profunda visão de vida, e que tem algum conhecimento do que o apóstolo quis dizer quando declarou: "Neste tabernáculo, gememos carregados" (2 Coríntios 5:4).
Nem todos fomos destinados a pregar. Mas há um ensino hoje que quase parece dizer que fomos. Assim que a pessoa é convertida, tem que dar o seu testemunho, e então pregar. Contudo nem todos nós fomos destinados a pregar. Nem todos fomos destinados a ir para algum campo missionário estrangeiro. Nem todos fomos destinados a ser obreiros de tempo integral na causa de Deus. Há pessoas que procuram passar a idéia de que fomos. Em suas conferências eles pressionam os jovens, fazen¬do-os sentir que quase estarão pecando se não se apresentarem como voluntários para as missões estrangeiras. Mas esse ensino é muito falso. Não fomos destinados a ser iguais. Todos nós temos o nosso papel a desempenhar, a nossa função a realizar; esta não é a mesma em cada caso. Aí está a pedra grande, que suporta um peso tremendo. Ali está a pedra pequena - é igualmente importante, ajusta-se àquele ponto ao qual nenhuma outra coisa se ajustaria.
Livremo-nos, pois, da idéia de que todos nós temos que ser iguais, e procuremos descobrir o que Deus quer fazer conosco e o que Deus quer que nós sejamos. A história da Igreja dá eloqüente testemunho do fato de que, às vezes, um cristão obscuro e desconhecido, de quem a Igreja pouco ouvira falar, que passava o tempo em oração e intercessão, fez muito mais do que os grandes pregadores populares que edificaram com muita madeira, feno e palha, que não subsistirão no Dia do Juízo. Aprendamos a ver estas coisas espiritualmente. Alguns de nós, como cristãos, talvez sejam chamados simplesmente para serem bondosos com as pessoas, para serem amigáveis e compreensivos, para fazerem pouco mais que sentar-se e ouvi-las. Você pode ajudar tremendamente as pessoas apenas ouvindo-as e deixando que descarreguem os seus corações. Mas há alguns de nós que somos tão ativos e ocupados, e falamos tanto, que nunca damos às pessoas oportunidade para falarem; nunca temos tempo para ouvi-las e, portanto, não as ajudamos.
Procuremos captar bem este princípio vital - que há esta grande variedade e variação nas pedras que devem estar no mesmo edifício, no mesmo templo santo do Senhor, neste edifício de Deus. Você pode não ser grande e importante; bem, não se glorie no fato de não ser, porém lembre-se de que o fato de não o ser não significa que você não está no edifício. Ele sabe. Ele nos vê a todos. Voltemos a 1 Coríntios, capítulo 12, e vejamos como o apóstolo desenvolveu ali este princípio minuci¬osamente, em termos do corpo. O corpo completo não é o olho, não é o ouvido, não é a mão, não é o pé. Todas estas diferentes partes estão no mesmo corpo, embora alguns sejam mais elegantes que outros. Todavia ele acentua que as nossas partes menos elegantes são tão indispensáveis como as mais elegantes. Portanto, não caiamos na tolice de desejar que todos sejamos iguais e idênticos. Não pensemos em termos de produção em massa ou em termos de tijolos. Pensemos numa parede de pedra, e demos graças a Deus que, seja o que for que sejamos, Ele nos tomou e colocou na parede do Seu edifício, e que Ele tanto nos conhece como conhece a pedra grande, bem proporcionada e sólida. É maravilhoso para mim, estupendo o fato, de que somos colocados ali um por um, e que o cristão mais humilde é objeto de conhecimento de Deus como o é o maior e mais poderoso santo, que Ele vê o lugar exato para nós na parede e nos coloca ali; e nos coloca ali exatamente da mesma maneira como coloca todos os demais.
Não tentemos, pois, atalhar ou violar o plano de Deus, o método de Deus e a Sua maneira de edificar. Procuremos estar cientes deste terrível perigo psicológico com que se defronta a Igreja hoje - a idéia de produção em massa, sempre levando ao mesmo resultado e produzindo o mesmo tipo particular. É uma coisa grave quando a Igreja só produz certo tipo de cristão e somente apela a certo tipo ou classe de pessoa. Quando este evangelho é pregado corretamente, ele toca todos os segmentos da sociedade. A história da Igreja o comprova. O perigo hoje é entender que todos nós devemos ser meramente pessoas finas, tranqüilas e respeitáveis, pessoas que ainda se apegam à moralidade própria, e que a Igreja só deve consistir de tais pessoas - somente pessoas da classe média. Jamais houve tal propósito. Reconsideremos a nossa pregação, o nosso ensino, e especialmente os nossos métodos, para não acontecer que inconscientemente deslizemos para a prática do método psicológico e, com isso, nos persuadamos de que estamos construindo um edifício maravilhoso, para somente descobrir no fim que não acrescentamos nada ao templo de Deus, e ver-nos no "grande dia" com muito pouca coisa para mostrar do nosso esforço e de todo o nosso entusiasmo. Esse é o segundo ponto.
Preparo e adaptação
Permitam-me acrescentar apenas uma palavra como nosso terceiro princípio: é a questão de preparo e adaptação. Só posso fazer uma introdução disso aqui, porquanto é um grande tema. Teremos que entrar em detalhes posteriormente. Eu disse a vocês que o construtor, o pedreiro, em dado ponto precisa de uma pedra de certo tamanho ou forma e, olhando para o monte de pedras, enxerga uma que parece servir e a retira. Ah, diz ele, esta vai servir. Tendo rejeitado algumas, ele diz: agora esta vai servir direitinho. Mas não tão direitinho, porque esta pedra vai ter que ser preparada e adaptada ao material que já fora posto ali. Há pedras embaixo e nos lados. Esta é a pedra certa em geral, porém terá que ser adaptada às que estão nos lados e por baixo, e depois ainda terá que ser colocada alguma coisa em cima. Vocês já viram um pedreiro fazendo o seu serviço? Em minha adolescência eu vi isso muitas vezes, e sempre me fascinou. Ele apanhava a pedra e depois, com seus diversos tipos de martelo, tirava pedaços dela. Ele a aparava, modelava-a, dava¬-lhe forma, e lhe tirava lascas. Aí tentava colocá-la. Depois tornava a tirá-la porque não estava bem ajustada. Tirava outro pedaço, talvez com o cinzel e o martelo. E assim ele ia trabalhando nela até ficar bem certa. Depois a colocava, e se afastava para olhar. Satisfeito, punha a argamas¬sa, pegava outra pedra e fazia o mesmo trabalho. Pois bem, é isso que o apóstolo quer dizer com "bem ajustado" ou "adequada e conjunta¬mente ajustado". Algo terá que acontecer conosco, antes de podermos estar adequadamente ajustados ao conjunto. O construtor não lança as pedras juntas de qualquer maneira. Não, há uma maravilhosa simetria em tudo isso. Observem os edifícios, e vocês verão isso. E, natural¬mente, é óbvio que o trabalho de aparar, cortar e cinzelar é mais necessário em alguns casos do que noutros. Mas todos nós precisamos disso. E o temos. E enquanto isso não acontecer conosco, jamais faremos parte da parede em construção.
Ao que me parece, não há nada mais fascinante na longa história da Igreja e do seu povo do que ver em operação e na prática este princípio. Houve homens que precisaram de muito trabalho de aparelhagem e de modelagem, e o tiveram. Depois disso tornaram-se pedras enormes. Houve outros que pareciam estar quase totalmente prontos como estavam. Pouca coisa foi necessária fazer com eles. Vocês devem ter visto isso em sua experiência pessoal, ao observarem diferentes cristãos. O que importa não é a quantidade, o princípio é que sempre há necessidade desse procedimento e desse processo, em maior ou menor medida.
Como se faz? Pela pregação e pelo ensino. É esse o dever geral da pregação e do ensino; é modelar-nos, preparar-nos. Todos nós temos estes estranhos ângulos e arestas e, como somos por natureza, não nos ajustamos à construção. Estas coisas têm que ser podadas. Angulosidades, grosserias, gente grosseira na Igreja! Todos nós somos grosseiros, em certo sentido, uns mais, outros menos. Somos pedras rudemente talha¬das quando saímos da pedreira, como que arrancadas dela mediante uma explosão. Temos mais ou menos a forma geral certa, mas é necessário muito trabalho com o cinzel antes de nos adequarmos bem aos nossos lugares particulares na construção. E enquanto não formos aparelhados, não seremos colocados nela. Como nos inclinamos a esquecer isso! Se lermos o Novo Testamento, se dermos ouvido à pregação e ao ensino, veremos a absoluta necessidade e urgência desta preparação. Há os que dizem: sou deste tipo de pessoa. Sou daquele tipo de pessoa. Sempre tenho que dizer o que tenho na cabeça. Se todos fossem assim, que tipo de igreja vocês teriam? Que espécie de edifício vocês teriam, se todas as pedras fossem pontudas e difíceis assim? Seria impossível, vocês não poderiam construir; estas arestas têm que ser debastadas. Pois bem, é aí que entra a disciplina pessoal. Temos que ser menos difíceis, como pessoas. Temos que ajustar-nos - adequada e conjuntamente ajustados.
Devemos esquecer-nos de nós mesmos e pensar na parede, no edifício, e compreender juntos que é o Senhor quem decide onde devemos estar, o que devemos ser e que funções nos cabe desempenhar. E, acredite-me, se você está neste edifício, ou vai estar, terá que ser aparelhado e amoldado. É o edifício de Deus, lembremo-nos, e se eu e você não aplicarmos o ensino, as instruções e a mensagem das Escrituras como devemos, Deus terá outro meio de fazê-lo. Leia o capítulo doze da Epístola aos Hebreus, e verá o que estou querendo dizer. "O Senhor corrige a quem ama" (12:6, ARA). Se os apelos e argumentos do evangelho não o levam a disciplinar-se, e se você não se livrar dessas arestas e irregularidades, Ele tem um cinzel poderoso e um poderoso martelo, e Ele as arrancará de você. Todos nós temos algum conheci¬mento disso em nossas experiências pessoais. Ele nos humilha, Ele nos derruba, e Ele tem muitas maneiras de fazê-lo por meio de enfermidade ou doença, ou morte, ou tristeza, ou fracasso, ou incompreensão; mil e uma coisas. E Ele o faz. Graças a Deus que Ele o faz. Pois, se Ele não fizesse isso conosco, nenhum de nós chegaria a estar preparado para estar nessa parede. É a quem o Senhor ama que Ele castiga. Se Ele não o ama, Ele não Se importará com você, Ele o jogará fora, e lá você poderá ficar com todas as suas angulosidades e anomalias pelo resto da sua vida, dizendo: eu sou deste tipo de pessoa! Muito bem! Seja esse tipo de pessoa! Saiba, contudo, que você não está no templo santo do Senhor, e nunca estará, enquanto for desse jeito. Esta é uma questão muito grave e solene, uma questão de importância eterna para nós. Temos que ser amoldáveis, e que ajustar-nos uns aos outros, se é que desejamos estar neste templo santo. Assim, se nós não compreendermos este princípio, não virmos a importância desta preparação vital, e não nos submetermos a ela, seremos rejeitados, e se não compreendermos isso no tempo, certamente o compreenderemos na eternidade.
AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 84
Por: Luiz Fontes
17ª Estação – Libna (parte 4)
Textos: Nm 33:20; Nm 14:30 e 15:2; Ef 2:1-5
Estamos estudando a 17ª jornada da peregrinação do povo de Israel pelo deserto. O texto correspondente a essa estação – Libna – é Nm 33:20. Sabemos que eles passaram por Libna assim que saíram de Rimom-Perez.
Já aprendemos que Libna significa “brancura”, “aquilo que é branco”. Outra coisa que aprendemos também é que em sua passagem por Ritma, ficou evidenciado a incredulidade, a falta de fé, a falta de confiança daquele povo para com Deus. Em Rimom-Perez pudemos ver sua presunção, sua autoconfiança – como, além de incrédulos, eles eram pessoas cheias de si mesmas. E vimos que Deus tratou com eles, mas, de uma forma tão graciosa, também se revelou àquele povo. Deus revelou-se para aquela nação como o Deus cheio de graça e de misericórdia. Embora Ele discipline o pecador (porque Ele não compactua com o pecado; Ele trata conosco), Deus, de forma tão maravilhosa, revelou os meios para que o homem pudesse ser purificado do seu pecado, da sua iniquidade (Nm 15).
Em Nm 15:2 Deus diz para os filhos de Israel:
“Quando entrardes nas terras das vossas habitações, que Eu vos hei de dar”.
Esse texto é muito sugestivo, porque no versículo 30 de Nm 14 Deus diz assim:
“Não entrareis na terra”.
Por um lado, o Senhor diz: “Não entrareis”; por outro, Ele diz: “Entrareis”. No aspecto espiritual, isso é muito interessante! Significa que com a incredulidade eles jamais poderiam entrar. Enquanto ficassem confiando em si mesmos, eles jamais poderiam entrar. Há O meio de o homem entrar. E quando estudamos a palavra de Deus vemos isso de forma tão magnífica! Descobriremos a provisão de Deus em Cristo. O capítulo 15 do livro de Números revela para nós a provisão de Deus em Cristo.
Meu irmão e minha irmã, se você abre a sua Bíblia em Efésios 2, você vê que nos versículos de 1 a 3 Paulo diz:
“1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”
Você vê que Paulo diz que “nós éramos por natureza como filhos da ira, como os demais”. Ele vai dizendo todas essas coisas concernentes ao que vimos em Ritma e também em Rimom-Perez – a questão da nossa vida de incredulidade, da vida sem Deus, da vida cheia de autoconfiança, soberba, orgulho e pecado. Só que, quando inicia o versículo 4 de Efésios 2, ele insere uma frase muito rica: “Mas Deus”. Essa frase é formada por uma conjunção adversativa que, após uma negativa, estabelece a verdade sobre determinado assunto. Essa frase revela para nós aquilo que em si, de si e por si é o Evangelho. Essa conjunção adversativa, mas, é usada nesse contexto para indicar um contraste e também uma conexão.
Vejamos o que Paulo diz em At 13:26-30:
“26 Irmãos, descendência de Abraão e vós outros os que temeis a Deus, a nós nos foi enviada a palavra desta salvação. 27 Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se lêem todos os sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias; 28 e, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. 29 Depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo. 30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos”.
Aqui em Antioquia Paulo está dando testemunho acerca daquilo que os judeus fizeram contra a pessoa do Senhor Jesus. Esses são os versículos 26 a 29. Agora olhem o versículo 30:
“30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos”.
Mais uma vez nós vemos essa frase, que é uma chave que abre para nós a revelação daquilo que é o Evangelho de Cristo. Assim também vemos em Efésios 2:4:
“4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia (...)”
No versículo 5 ele diz:
“5 e estando nós mortos em nossos delitos (...)”
O que é isso? É Ritma, é Rimom-Perez. São as duas estações anteriores: incredulidade, presunção, orgulho, cegueira. Tudo isso caracteriza uma vida morta.
“5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos”.
Consideremos então essa frase – “Mas Deus”. Ela revela para nós o único caminho pelo qual o homem pode, de fato, ser salvo. Em meio àquelas trevas do pecado, em meio às trevas da presunção, do orgulho, da incredulidade, Deus estava oferecendo para aquele povo o meio de salvação. E a salvação é “Mas Deus”. A salvação não começa em nós. A salvação não começa com a nossa decisão. Ela começa com a determinação de Deus em salvar o homem. E assim, o apóstolo diz:
“4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou,
5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos”.
Podemos notar três palavras nesses versículos 4 e 5 de Ef 2: misericórdia, amor e graça.
A misericórdia está relacionada a nossa condição presente, isto é, o estado de decadência em que o homem se encontra, sem Deus. É justamente isso que encontramos nessas duas jornadas – Ritma e Rimom-Perez. Um estado de completa ignorância e de incredulidade.
Quando chegamos a esta outra palavra – ao amor de Deus –, somos conduzidos pelo Seu Espírito a mergulhar naquilo que é mais profundo em Deus, naquilo que jamais poderemos compreender por nós mesmos. O amor de Deus é algo infinito, incalculável, e o homem jamais chegará à compreensão total desse amor divino. Paulo toca justamente isso. E esse amor, que é a expressão mais profunda do Ser de Deus, foi derramado por nós lá na Cruz do Calvário. Paulo vem nos mostrar, nos revelar, essa grandeza, porque se trata de algo impressionante. Eu e você temos que ver tudo isso, ver que Deus nos Salvou por causa do Seu amor, do Seu amor por nós – esse amor que Ele exerceu por nós.
Percebemos então que o apóstolo vai empilhando: misericórdia, amor, e depois, graça! Paulo não se contém em dizer apenas uma verdade. Ele vai empilhando verdade sobre verdade, para nos conduzir a essa visão majestosa do supremo propósito de Deus. E nesse sentido ele insere mais um termo – graça. Esse termo sugere que Deus, de Si e por Si, faz algo para o homem. Ele faz aquilo que é impossível ao homem fazer de si mesmo e para si mesmo. Graça é uma palavra muito importante, talvez uma das mais difíceis de se estudar na Bíblia Sagrada, devido a sua profundidade. Mas, aqui nessa Epístola aos Efésios, o Espírito Santo vem nos mostrar a graça de Deus de uma forma tão gloriosa, revelando Deus fazendo algo para o homem. Isso significa que Deus, por meio do Seu Espírito, em Cristo Jesus, está Se manifestando, Se dispensando, Se doando ao homem. Ele está vindo, no estado mais decadente do homem, para poder alcançá-lo, resgatá-lo, livrá-lo da condenação do inferno.
Mais uma vez, notamos esta frase: “Mas Deus”. Com essas duas palavras, chegamos à introdução da mensagem cristã, à mensagem peculiar e específica que a fé cristã tem para nos oferecer. Num sentido, essas palavras contêm em si e por si a totalidade daquilo que é o Evangelho de Cristo. Vejam que essa palavra “mas” introduz um ponto de transição entre o estado decaído e desesperador em que o homem vivia, sem Deus, e a esperança e consolação no Evangelho.
Em seguida, vemos estas três palavras: misericórdia, amor e graça. A misericórdia manifesta-se por causa da pobreza da nossa condição; a graça fala da glória radiante da posição que temos em Cristo. O sentimento que Deus tem para conosco quando somo pecadores é misericórdia. E a obra que Ele realiza para nos tornar Seus filhos é graça. A misericórdia vem do amor e resulta em graça. Trata-se de um detalhe muito importante que temos que ver, juntando Nm 15 com Ef 2:1-5. Fazendo isso, teremos um deslumbre glorioso acerca desses assuntos. Subitamente, o Espírito Santo usa Moisés para escrever esse capítulo 15 de Números, em uma situação de profundas trevas, na qual Deus resgata o homem, mostrando o caminho da redenção. Vemos aqui que não há méritos ou bondade residentes em nós que levem Deus a nos perdoar. Temos que considerar isso hoje, pois somos perdoados porque Deus, na Sua livre graça, enviou Seu único e amado Filho a este mundo de pecado, de horror e vergonha, enviou-O à Cruz, para morrer por nós.
Is 53:6 diz que o Senhor fez cair sobre o Seu Filho a iniquidade de todos nós. Isso significa que Deus fez cair sobre Seu Filho a Sua ira – a ira contra os nossos pecados, a ira contra o pecado. A ira de Deus é uma doutrina que está em toda a Bíblia. Trata-se de um fato e ninguém poderá contestá-la. Todos nós estamos envolvidos nessa doutrina, e dela depende nosso destino eterno. Nunca entenderemos o amor de Deus enquanto não compreendermos a doutrina da ira de Deus. E você, meu irmão, minha irmã, precisa entender que a ira de Deus é nada mais nada menos do que Sua manifestação, Sua indignação santa, baseada em Sua justiça.
Quando lemos Gn 3:24, vemos que Deus lançou o homem fora do jardim do Éden e colocou ali querubins, com uma espada inflamada, que andavam ao redor para guardar o caminho da árvore da vida. Essa espada inflamada significa a espada da justiça de Deus. É a espada da ira, da punição; é Deus punindo o homem por causa do seu pecado. Podemos ver aqui a ira de Deus contra o pecado, contra a rebelião do homem. No Novo Testamento, do começo ao fim, essa doutrina está claramente exposta. O primeiro pregador acerca do Evangelho do reino foi João Batista e sua mensagem estava baseada na doutrina da ira de Deus. Vemos isso em Mt 3:7, quando diz:
“Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?”
Vejam que é sobre a ira de Deus que João Batista prega. Essa também foi a mensagem do Senhor Jesus. Sua mensagem foi baseada na justiça de Deus, em Sua santa indignação contra o pecado. Em Jo 3:36 Ele diz:
“Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.”
O apóstolo Paulo enfatiza a mesma verdade. De modo claro, em Rm 1:18, ele diz:
“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça.”
Em Ef 5:6 ele disse:
“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.”
A ira de Deus indica que há dentro dEle uma intolerância santa contra a idolatria, a imoralidade, a incredulidade, a injustiça, a perversão do homem, contra o mal. Se pudermos olhar isso na palavra de Deus, veremos que essa é a verdade, não temos como mudá-la. Deus não é complacente com o pecado. Quando ocorre a ira de Deus é porque algo em Seu ser, essencial, moral, é provocado pelo pecado. E aquilo que está dentro dEle deve sair. Aquelas exigências de Sua própria natureza e caráter devem ser preenchidas mediante a ação apropriada de Sua parte.
Quando estudamos a palavra ira, no hebraico, vemos que uma das palavras usadas para ira é Ka’ac. Ela é empregada especialmente pelo profeta Ezequiel, em Ez 16:26:
“Também te prostituíste com os filhos do Egito, teus vizinhos de grandes membros, e multiplicaste a tua prostituição, para me provocares à ira.”
Essa palavra, ira, é Ka’ac. Significa ser completo, terminado, realizado. Sempre em seu contexto ela indica que algo foi terminado; algo que chegou ao fim.
Eu e você precisamos saber que quando Deus se ira, Ele tem que derramar a Sua ira. E ela só cessa, quando for cumprida. E isso Deus realizou em Cristo Jesus. Deus realizou na pessoa do Senhor Jesus toda essa indignação contra os nossos pecados. Ele derramou sobre Seu próprio Filho, a quem Ele tanto ama, a quem Ele ama eternamente. Então, ao estudarmos tudo isso, compreendemos o que de fato aconteceu ali em Rimom-Perez e o que está acontecendo em Libna: Deus revelando o caminho da redenção. Isso nos fala profundamente!
Em Romanos nos deparamos com dois aspectos da nossa salvação: o perdão dos nossos pecados e a libertação do poder do pecado. Precisamos entender a diferença entre pecado e pecados.
Pecado refere-se ao poder dentro de nós que nos motiva a cometer atos pecaminosos. Sabemos que há, dentro de nós, algo que nos motiva, nos obriga a ter certas inclinações espontâneas que desagradam a Deus, que ferem o caráter santo e justo de Deus. E essas ações nos induzem para o caminho da concupiscência. Rm 7:8,16,17:
“8 Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado.”
“16 Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17 Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim.”
Temos então o pecado como uma lei que controla nossos membros. Ainda em Rm 7:23, o apóstolo diz:
“23 mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.”
Existe algo dentro de nós, algo que nos obriga, nos induz ao pecado. Algo que nos leva a pecar. Esse é o pecado, como um hábito, a disposição interior, dentro de nós.
Já os pecados, referem-se aos atos pecaminosos individuais, específicos, que cometemos exteriormente. Está relacionado com nossas ações e são cometidos um após o outro.
Então, na Bíblia, os pecados estão relacionados com a nossa conduta, enquanto o pecado está relacionado com a nossa natureza. Por essa razão, Deus derramou Sua ira contra os nossos pecados e contra nosso pecado, em Seu Filho. O sangue vertido do Seu Filho, na morte, para satisfazer as exigências de Deus, realiza em nós uma obra profunda. É por isso que necessitamos tanto do sangue de Cristo, como também da Cruz de Cristo. O sangue trata com aquilo que fizemos e a Cruz trata com aquilo que somos. O sangue nos purifica da corrupção dos pecados e a Cruz atinge a raiz da nossa capacidade de pecar. É por causa do sangue de Cristo que fomos justificados diante de Deus. Rm 3:23:
“23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”.
Em Rm 5:8-9 Paulo diz:
“8 Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. 9 Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.”
Quando olhamos para a natureza da Queda do homem, vemos que o pecado entra na forma de desobediência para criar, em primeiro lugar, a separação entre Deus e o homem. E ainda o pecado traz ao homem um sentimento de culpa, pois oferece a satanás a possibilidade de nos acusar diante de Deus. E aqui é que nós vemos essa grande obra de salvação que Deus realizou em Cristo ao nosso favor. E essa obra trata com três áreas da nossa vida: o pecado, a culpa e a acusação de satanás. E, pelo sangue de Cristo, Deus tratou com o pecado, com a culpa e com essas acusações de satanás contra nós diante de Deus.
Segundo a Bíblia, a palavra de Deus, o sangue é para expiação. Por isso ele se relaciona com nossa posição diante de Deus. Se desejamos entender o poder do sangue de Cristo, precisamos compreender o que ele significou para Deus. O sangue é, pois, primariamente, para Deus. No Livro de Êxodo 12:13, tem uma frase linda, que diz:
“quando Eu vir o sangue”.
Isso foi dito por Deus quando Ele mandou o povo de Israel sacrificar o cordeiro e colocar o sangue nos umbrais da porta. Aquele sangue nos umbrais, na parte de fora, era para Deus ver. E é isto que Deus vê em nós: a obra de Cristo Jesus. Por isso, estamos perdoados; por isso Deus realizou essa obra de graça, de amor e de misericórdia por nós. Que você possa compreender isso, possa entender essa majestosa, sublime, obra que Deus está fazendo em sua vida – obra que Ele fez e que está fazendo ainda. Estamos agora no processo de conformação. Deus realizou uma obra completa, plena, e essa obra nos vivifica, nos justifica, nos santifica e irá nos glorificar.
Que Deus lhe abençoe com esta rica, santa e poderosa palavra.
17ª Estação – Libna (parte 4)
Textos: Nm 33:20; Nm 14:30 e 15:2; Ef 2:1-5
Estamos estudando a 17ª jornada da peregrinação do povo de Israel pelo deserto. O texto correspondente a essa estação – Libna – é Nm 33:20. Sabemos que eles passaram por Libna assim que saíram de Rimom-Perez.
Já aprendemos que Libna significa “brancura”, “aquilo que é branco”. Outra coisa que aprendemos também é que em sua passagem por Ritma, ficou evidenciado a incredulidade, a falta de fé, a falta de confiança daquele povo para com Deus. Em Rimom-Perez pudemos ver sua presunção, sua autoconfiança – como, além de incrédulos, eles eram pessoas cheias de si mesmas. E vimos que Deus tratou com eles, mas, de uma forma tão graciosa, também se revelou àquele povo. Deus revelou-se para aquela nação como o Deus cheio de graça e de misericórdia. Embora Ele discipline o pecador (porque Ele não compactua com o pecado; Ele trata conosco), Deus, de forma tão maravilhosa, revelou os meios para que o homem pudesse ser purificado do seu pecado, da sua iniquidade (Nm 15).
Em Nm 15:2 Deus diz para os filhos de Israel:
“Quando entrardes nas terras das vossas habitações, que Eu vos hei de dar”.
Esse texto é muito sugestivo, porque no versículo 30 de Nm 14 Deus diz assim:
“Não entrareis na terra”.
Por um lado, o Senhor diz: “Não entrareis”; por outro, Ele diz: “Entrareis”. No aspecto espiritual, isso é muito interessante! Significa que com a incredulidade eles jamais poderiam entrar. Enquanto ficassem confiando em si mesmos, eles jamais poderiam entrar. Há O meio de o homem entrar. E quando estudamos a palavra de Deus vemos isso de forma tão magnífica! Descobriremos a provisão de Deus em Cristo. O capítulo 15 do livro de Números revela para nós a provisão de Deus em Cristo.
Meu irmão e minha irmã, se você abre a sua Bíblia em Efésios 2, você vê que nos versículos de 1 a 3 Paulo diz:
“1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”
Você vê que Paulo diz que “nós éramos por natureza como filhos da ira, como os demais”. Ele vai dizendo todas essas coisas concernentes ao que vimos em Ritma e também em Rimom-Perez – a questão da nossa vida de incredulidade, da vida sem Deus, da vida cheia de autoconfiança, soberba, orgulho e pecado. Só que, quando inicia o versículo 4 de Efésios 2, ele insere uma frase muito rica: “Mas Deus”. Essa frase é formada por uma conjunção adversativa que, após uma negativa, estabelece a verdade sobre determinado assunto. Essa frase revela para nós aquilo que em si, de si e por si é o Evangelho. Essa conjunção adversativa, mas, é usada nesse contexto para indicar um contraste e também uma conexão.
Vejamos o que Paulo diz em At 13:26-30:
“26 Irmãos, descendência de Abraão e vós outros os que temeis a Deus, a nós nos foi enviada a palavra desta salvação. 27 Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se lêem todos os sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias; 28 e, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. 29 Depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo. 30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos”.
Aqui em Antioquia Paulo está dando testemunho acerca daquilo que os judeus fizeram contra a pessoa do Senhor Jesus. Esses são os versículos 26 a 29. Agora olhem o versículo 30:
“30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos”.
Mais uma vez nós vemos essa frase, que é uma chave que abre para nós a revelação daquilo que é o Evangelho de Cristo. Assim também vemos em Efésios 2:4:
“4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia (...)”
No versículo 5 ele diz:
“5 e estando nós mortos em nossos delitos (...)”
O que é isso? É Ritma, é Rimom-Perez. São as duas estações anteriores: incredulidade, presunção, orgulho, cegueira. Tudo isso caracteriza uma vida morta.
“5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos”.
Consideremos então essa frase – “Mas Deus”. Ela revela para nós o único caminho pelo qual o homem pode, de fato, ser salvo. Em meio àquelas trevas do pecado, em meio às trevas da presunção, do orgulho, da incredulidade, Deus estava oferecendo para aquele povo o meio de salvação. E a salvação é “Mas Deus”. A salvação não começa em nós. A salvação não começa com a nossa decisão. Ela começa com a determinação de Deus em salvar o homem. E assim, o apóstolo diz:
“4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou,
5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos”.
Podemos notar três palavras nesses versículos 4 e 5 de Ef 2: misericórdia, amor e graça.
A misericórdia está relacionada a nossa condição presente, isto é, o estado de decadência em que o homem se encontra, sem Deus. É justamente isso que encontramos nessas duas jornadas – Ritma e Rimom-Perez. Um estado de completa ignorância e de incredulidade.
Quando chegamos a esta outra palavra – ao amor de Deus –, somos conduzidos pelo Seu Espírito a mergulhar naquilo que é mais profundo em Deus, naquilo que jamais poderemos compreender por nós mesmos. O amor de Deus é algo infinito, incalculável, e o homem jamais chegará à compreensão total desse amor divino. Paulo toca justamente isso. E esse amor, que é a expressão mais profunda do Ser de Deus, foi derramado por nós lá na Cruz do Calvário. Paulo vem nos mostrar, nos revelar, essa grandeza, porque se trata de algo impressionante. Eu e você temos que ver tudo isso, ver que Deus nos Salvou por causa do Seu amor, do Seu amor por nós – esse amor que Ele exerceu por nós.
Percebemos então que o apóstolo vai empilhando: misericórdia, amor, e depois, graça! Paulo não se contém em dizer apenas uma verdade. Ele vai empilhando verdade sobre verdade, para nos conduzir a essa visão majestosa do supremo propósito de Deus. E nesse sentido ele insere mais um termo – graça. Esse termo sugere que Deus, de Si e por Si, faz algo para o homem. Ele faz aquilo que é impossível ao homem fazer de si mesmo e para si mesmo. Graça é uma palavra muito importante, talvez uma das mais difíceis de se estudar na Bíblia Sagrada, devido a sua profundidade. Mas, aqui nessa Epístola aos Efésios, o Espírito Santo vem nos mostrar a graça de Deus de uma forma tão gloriosa, revelando Deus fazendo algo para o homem. Isso significa que Deus, por meio do Seu Espírito, em Cristo Jesus, está Se manifestando, Se dispensando, Se doando ao homem. Ele está vindo, no estado mais decadente do homem, para poder alcançá-lo, resgatá-lo, livrá-lo da condenação do inferno.
Mais uma vez, notamos esta frase: “Mas Deus”. Com essas duas palavras, chegamos à introdução da mensagem cristã, à mensagem peculiar e específica que a fé cristã tem para nos oferecer. Num sentido, essas palavras contêm em si e por si a totalidade daquilo que é o Evangelho de Cristo. Vejam que essa palavra “mas” introduz um ponto de transição entre o estado decaído e desesperador em que o homem vivia, sem Deus, e a esperança e consolação no Evangelho.
Em seguida, vemos estas três palavras: misericórdia, amor e graça. A misericórdia manifesta-se por causa da pobreza da nossa condição; a graça fala da glória radiante da posição que temos em Cristo. O sentimento que Deus tem para conosco quando somo pecadores é misericórdia. E a obra que Ele realiza para nos tornar Seus filhos é graça. A misericórdia vem do amor e resulta em graça. Trata-se de um detalhe muito importante que temos que ver, juntando Nm 15 com Ef 2:1-5. Fazendo isso, teremos um deslumbre glorioso acerca desses assuntos. Subitamente, o Espírito Santo usa Moisés para escrever esse capítulo 15 de Números, em uma situação de profundas trevas, na qual Deus resgata o homem, mostrando o caminho da redenção. Vemos aqui que não há méritos ou bondade residentes em nós que levem Deus a nos perdoar. Temos que considerar isso hoje, pois somos perdoados porque Deus, na Sua livre graça, enviou Seu único e amado Filho a este mundo de pecado, de horror e vergonha, enviou-O à Cruz, para morrer por nós.
Is 53:6 diz que o Senhor fez cair sobre o Seu Filho a iniquidade de todos nós. Isso significa que Deus fez cair sobre Seu Filho a Sua ira – a ira contra os nossos pecados, a ira contra o pecado. A ira de Deus é uma doutrina que está em toda a Bíblia. Trata-se de um fato e ninguém poderá contestá-la. Todos nós estamos envolvidos nessa doutrina, e dela depende nosso destino eterno. Nunca entenderemos o amor de Deus enquanto não compreendermos a doutrina da ira de Deus. E você, meu irmão, minha irmã, precisa entender que a ira de Deus é nada mais nada menos do que Sua manifestação, Sua indignação santa, baseada em Sua justiça.
Quando lemos Gn 3:24, vemos que Deus lançou o homem fora do jardim do Éden e colocou ali querubins, com uma espada inflamada, que andavam ao redor para guardar o caminho da árvore da vida. Essa espada inflamada significa a espada da justiça de Deus. É a espada da ira, da punição; é Deus punindo o homem por causa do seu pecado. Podemos ver aqui a ira de Deus contra o pecado, contra a rebelião do homem. No Novo Testamento, do começo ao fim, essa doutrina está claramente exposta. O primeiro pregador acerca do Evangelho do reino foi João Batista e sua mensagem estava baseada na doutrina da ira de Deus. Vemos isso em Mt 3:7, quando diz:
“Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?”
Vejam que é sobre a ira de Deus que João Batista prega. Essa também foi a mensagem do Senhor Jesus. Sua mensagem foi baseada na justiça de Deus, em Sua santa indignação contra o pecado. Em Jo 3:36 Ele diz:
“Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.”
O apóstolo Paulo enfatiza a mesma verdade. De modo claro, em Rm 1:18, ele diz:
“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça.”
Em Ef 5:6 ele disse:
“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.”
A ira de Deus indica que há dentro dEle uma intolerância santa contra a idolatria, a imoralidade, a incredulidade, a injustiça, a perversão do homem, contra o mal. Se pudermos olhar isso na palavra de Deus, veremos que essa é a verdade, não temos como mudá-la. Deus não é complacente com o pecado. Quando ocorre a ira de Deus é porque algo em Seu ser, essencial, moral, é provocado pelo pecado. E aquilo que está dentro dEle deve sair. Aquelas exigências de Sua própria natureza e caráter devem ser preenchidas mediante a ação apropriada de Sua parte.
Quando estudamos a palavra ira, no hebraico, vemos que uma das palavras usadas para ira é Ka’ac. Ela é empregada especialmente pelo profeta Ezequiel, em Ez 16:26:
“Também te prostituíste com os filhos do Egito, teus vizinhos de grandes membros, e multiplicaste a tua prostituição, para me provocares à ira.”
Essa palavra, ira, é Ka’ac. Significa ser completo, terminado, realizado. Sempre em seu contexto ela indica que algo foi terminado; algo que chegou ao fim.
Eu e você precisamos saber que quando Deus se ira, Ele tem que derramar a Sua ira. E ela só cessa, quando for cumprida. E isso Deus realizou em Cristo Jesus. Deus realizou na pessoa do Senhor Jesus toda essa indignação contra os nossos pecados. Ele derramou sobre Seu próprio Filho, a quem Ele tanto ama, a quem Ele ama eternamente. Então, ao estudarmos tudo isso, compreendemos o que de fato aconteceu ali em Rimom-Perez e o que está acontecendo em Libna: Deus revelando o caminho da redenção. Isso nos fala profundamente!
Em Romanos nos deparamos com dois aspectos da nossa salvação: o perdão dos nossos pecados e a libertação do poder do pecado. Precisamos entender a diferença entre pecado e pecados.
Pecado refere-se ao poder dentro de nós que nos motiva a cometer atos pecaminosos. Sabemos que há, dentro de nós, algo que nos motiva, nos obriga a ter certas inclinações espontâneas que desagradam a Deus, que ferem o caráter santo e justo de Deus. E essas ações nos induzem para o caminho da concupiscência. Rm 7:8,16,17:
“8 Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado.”
“16 Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17 Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim.”
Temos então o pecado como uma lei que controla nossos membros. Ainda em Rm 7:23, o apóstolo diz:
“23 mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.”
Existe algo dentro de nós, algo que nos obriga, nos induz ao pecado. Algo que nos leva a pecar. Esse é o pecado, como um hábito, a disposição interior, dentro de nós.
Já os pecados, referem-se aos atos pecaminosos individuais, específicos, que cometemos exteriormente. Está relacionado com nossas ações e são cometidos um após o outro.
Então, na Bíblia, os pecados estão relacionados com a nossa conduta, enquanto o pecado está relacionado com a nossa natureza. Por essa razão, Deus derramou Sua ira contra os nossos pecados e contra nosso pecado, em Seu Filho. O sangue vertido do Seu Filho, na morte, para satisfazer as exigências de Deus, realiza em nós uma obra profunda. É por isso que necessitamos tanto do sangue de Cristo, como também da Cruz de Cristo. O sangue trata com aquilo que fizemos e a Cruz trata com aquilo que somos. O sangue nos purifica da corrupção dos pecados e a Cruz atinge a raiz da nossa capacidade de pecar. É por causa do sangue de Cristo que fomos justificados diante de Deus. Rm 3:23:
“23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”.
Em Rm 5:8-9 Paulo diz:
“8 Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. 9 Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.”
Quando olhamos para a natureza da Queda do homem, vemos que o pecado entra na forma de desobediência para criar, em primeiro lugar, a separação entre Deus e o homem. E ainda o pecado traz ao homem um sentimento de culpa, pois oferece a satanás a possibilidade de nos acusar diante de Deus. E aqui é que nós vemos essa grande obra de salvação que Deus realizou em Cristo ao nosso favor. E essa obra trata com três áreas da nossa vida: o pecado, a culpa e a acusação de satanás. E, pelo sangue de Cristo, Deus tratou com o pecado, com a culpa e com essas acusações de satanás contra nós diante de Deus.
Segundo a Bíblia, a palavra de Deus, o sangue é para expiação. Por isso ele se relaciona com nossa posição diante de Deus. Se desejamos entender o poder do sangue de Cristo, precisamos compreender o que ele significou para Deus. O sangue é, pois, primariamente, para Deus. No Livro de Êxodo 12:13, tem uma frase linda, que diz:
“quando Eu vir o sangue”.
Isso foi dito por Deus quando Ele mandou o povo de Israel sacrificar o cordeiro e colocar o sangue nos umbrais da porta. Aquele sangue nos umbrais, na parte de fora, era para Deus ver. E é isto que Deus vê em nós: a obra de Cristo Jesus. Por isso, estamos perdoados; por isso Deus realizou essa obra de graça, de amor e de misericórdia por nós. Que você possa compreender isso, possa entender essa majestosa, sublime, obra que Deus está fazendo em sua vida – obra que Ele fez e que está fazendo ainda. Estamos agora no processo de conformação. Deus realizou uma obra completa, plena, e essa obra nos vivifica, nos justifica, nos santifica e irá nos glorificar.
Que Deus lhe abençoe com esta rica, santa e poderosa palavra.
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