terça-feira, 20 de março de 2012

UM SÓ DEUS

Por: D. M. Lloyd Jones


Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos”

Ef 4:6

Estas palavras completam a grande declaração do apóstolo iniciada no versículo 4: “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos”. É também o clímax do apelo de Paulo aos cristãos efésios para “se esforçarem para guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. Como vimos, ele lhes dá estas sete razões para fazê-lo, e as divide em três grupos principais. As três primeiras centralizam-se no Espírito Santo; as três seguintes no Filho; e agora chega ao - “um só Deus e Pai de todos”.

Vemos outro exemplo disto no capítulo onze da Epístola aos Roma­nos. Veja Rm 11:36:

“Porque dele (Deus), e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”

O apóstolo não pára no Espírito ou no Filho, como tantos cristãos são tentados a fazer; ele sempre prossegue indo ao Pai. Ele coloca estas verdades numa ordem experimental. Como membros da Igreja, naturalmente pensamos primeiro na obra do Espírito Santo. Mas o Espírito Santo leva-nos ao Filho, pois Ele foi enviado para glorificar o Filho. E o principal desejo e propósito do Filho era glorificar o Pai.

Há uma escola popular de teologia que dá ênfase ao aspecto cristocêntrico da salvação. Num sentido é correto fazê-lo; todavia nunca devemos parar no Filho. Veja 1 Pe 3:18:

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus

O apóstolo está interessado em mostrar que tudo que se relaciona com a nossa salvação sugere o elemento de unidade; e em nenhuma outra parte se vê isso mais claramente do que na doutrina das Pessoas da bendita e santa Trindade. Cada Pessoa da Trindade está interessada em nós e em nossa salvação; cada Uma delas trata de um aspecto particular dessa obra, e cada Uma delas coopera com as Outras. O apóstolo está incentivando os crentes efésios a se lembrarem disto sempre. Vejo cada vez mais que a maioria das dificuldades da vida cristã deve-se ao fato de que somos demasiado subjetivos e passamos muito tempo examinando-nos a nós mesmos e tomando o nosso pulso espiritual, por assim dizer. A cura para muitas doenças e enfermidades da alma está em dar atenção à grande verdade objetiva, à glória da nossa redenção e salvação. Se tão-somente nos déssemos conta de que as três benditas Pessoas de Trindade santa estão íntima e ativamente interessadas em nós e em nossa salvação, toda a nossa situação mudaria completamente. O ensino bíblico concernente à salvação é que, antes mesmo do tempo, num eterno conselho do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a nossa salvação foi planejada e projetada; e na plenitude do tempo ela foi posta em ação. Como membros da Igreja, estamos em relação (relacionamento) com o Espírito e o Filho e o Pai. E esta relação toma inevitável a questão da unidade.

E agora chegamos à verdade particular concernente a “um só Deus e Pai de todos”. Estamos constantemente em perigo de esquecer que a Igreja é, depois de tudo, “a igreja de Deus”. Há um sentido em que a Igreja é a Igreja de Cristo, porém a expressão empregada na Bíblia é “a igreja de Deus”. Veja 1 Co 1:2:

“à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus...”

Veja também 2 Co 1:1:

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto...”

Como será que isto nos ajuda a entender este princípio de unidade? A primeira expressão é, “um só Deus”. Isto quer dizer que, como cristãos, constatamos que existe somente um Deus. O mundo pagão ao qual os cristãos efésios tinham pertencido anteriormente não cria nesta verdade. Como o apóstolo lembra aos Coríntios 8:4:

“todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos;”

Aqui também, no interesse da unidade, o apóstolo está apresentando o argumento do “um só Deus”. A crença numa multiplicidade de deuses sempre leva à divisão. Este adora a Júpiter, aquele a Mercúrio, outro adora ao deus Marte ou a algum outro Deus. Como Paulo viu em Atenas. Paulo ensinava em toda parte, era resultado da obra do diabo; pois há unicamente “um Deus”. E, uma vez que há somente um Deus, tem que haver unidade essencial entre os que crêem nEle. O apóstolo não está só ensinando que há somente um Deus, mas também está acentuando o fato de que Deus é um só. Este é um grande mistério, porém é a essência da doutrina da Trindade. Não cremos que existem três deuses; há um só “Deus em três Pessoas, a bendita Trindade”. Isto explica por que alguns dos judeus a princípio achavam difícil crer no Senhor Jesus Cristo, que Se dizia um com o Pai. Veja Jo 10:30:

Eu e o Pai somos um.”

Não tentem entender isto; ninguém pode entender este mistério último. Contudo é a verdade que encontramos nas Escrituras. Deus é Um - há uma só Deidade. Todavia há três Pessoas na Deidade. Isto não implica três deuses, não triteísmo, e sim monoteísmo - três Pessoas na Deidade Eterna e Una. Reconhecemos o Espírito; reconhecemos o Filho; reconhecemos o Pai; não obstante, dizemos que os três são um só Deus. Lemos que o Espírito está em nós, que Cristo está em nós, que Deus está em nós. Lemos que o Espírito fez certas coisas, lemos noutras partes que Cristo fez as mesmas coisas, e ainda que o Pai fez as mesmas coisas. Essa é apenas uma maneira de salientar esta verdade, que os Três são Um na Deidade eterna - “Deus em três Pessoas, a bendita Trindade”. É Trindade em Unidade, é Triunidade. Isso de novo reforça e acentua o princípio de unidade na Igreja. Assim como as três benditas Pessoas são um só Deus, também nós, que adoramos e pertencemos a Deus, somos igual e necessariamente um só. Portanto, devemos lembrar-nos de “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”.

Pode-se deduzir disto certas conclusões práticas. O fim e objetivo da salvação é trazer-nos a Deus. O objetivo da salvação não é levar- nos ao Senhor Jesus Cristo. O Senhor Jesus Cristo veio a este mundo e fez tudo que fez para trazer-nos a Deus”, a Deus o Pai. Vimos a Deus por meio do Senhor Jesus Cristo; mas a finalidade de tudo é “trazer-nos a Deus”. Assim como o pecado é aquilo que nos separa de Deus, a salvação é aquilo que nos traz de volta a Deus. O grande fim e objetivo da salvação não é somente que sejamos felizes e tenhamos certas experiências e certos benefícios. Ela faz isso, é certo, mas se eu não compreender que o principal fim da minha salvação é reconciliar-me com Deus, trazer-me a Deus e habilitar-me a compare­cer na presença de Deus, não a terei entendido verdadeiramente. Veja 1 Pedro 3:18:

“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados... para conduzir-vos a Deus;”

Sendo este o grande fim e objetivo da salvação, todos nós, que somos cristãos, devemos, portanto e evidentemente, vir juntos ao mesmo Deus; e se viermos ao mesmo Deus, não poderá haver divisões. A fé e doutrina cristã começa com Deus, e tudo leva a Deus - “um só Deus”. Todos nós temos um e o mesmo objeto de culto. Veja Ef 2 :18:

“porque, por ele, (Cristo) ambos (judeu e gentio) temos acesso ao Pai em um Espírito.”

O judeu era anteriormente um adorador de Deus, enquanto que o gentio era um adorador de uma das divindades pagãs; mas agora tudo isso passou e tanto o judeu como o gentio têm “acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (ou “por um mesmo Espírito”). Se compreendêssemos isto, a unidade seria totalmente inevitável. Paulo nos lembra que todos nós estamos adorando este único Deus, e quando nos apercebemos da presença de Deus, todas as distinções e cismas se desvanecerão e desaparecerão imediatamente. Na presença da glória de Deus, tudo mais empalidece, reduzindo-se à insignificância, e “nos absorvemos em encanto, amor e louvor”. Um só Deus! Nós O adoramos, ao Deus único, e o fazemos todos juntos. Não há necessidade de argumentar acerca da unidade; a percepção da presença de Deus cria unidade. Além disso, podemos e devemos lembrar-nos de que todos nós estamos indo a este único Deus, ao mesmo Deus. Todos vamos encontrar e ver o mesmo Deus. Bem-aventurado os limpos de coração, porque eles verão a Deus.” Estamos indo para o mesmo lar eterno.

Contudo, o apóstolo não nos deixa nisso; diz ele: “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos”. Quando ele diz, “Um só Deus e Pai de todos”, não quer dizer todas as coisas - a criação, o universo, o cosmos e tudo o que ele contém - mas todas as pessoas. Há os que se dispõe a dizer que, Deus é o Pai de todos, afirmam eles, e nós, como cristãos, não devemos restringir a paternidade de Deus unicamente a nós. O apóstolo está escrevendo acerca da Igreja; não está escre­vendo acerca do mundo. Está escrevendo aos que pertencem a um “corpo”, aos que estão “em Cristo”; está escrevendo a cristãos, aos quais exorta a se esforçarem para “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. Ele não está pensando no mundo em geral, porém nos que foram recolhidos do mundo e incorporados no corpo de Cristo, e que são membros do Seu corpo místico. O termo “todoscobre todos os cristãos, e ninguém mais. Não só isso, pois a última frase aí, “e em todos”, basta para firmar a questão uma vez por todas. Deus está somente “no” crente, “no” cristão. Contudo, podemos ir adiante e dar uma conclusiva prova afinal. O versículo seguinte - o verso 7 - estabelece a nossa argumentação além de toda e qualquer dúvida, no sentido de que o apóstolo está falando acerca da Igreja - “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo” - e ele passa a tratar da distribuição de dons e trabalhos dentro do corpo, da Igreja. Assim, desde o início ele está limitando a sua atenção à Igreja, ao povo cristão, e não está dizendo coisa alguma sobre os de fora. Deus é o criador de todos, e nesse aspecto há uma espécie de paternidade geral; mas a paternidade de Deus, como exposta aqui, limita-se aos que estão em Cristo e na Igreja. Devemos crer na paternidade de Deus, no caso de todos os que pertencem a Cristo. Veja Ef 1:3:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo...”

Toda a sua argumentação é que, mediante Cristo, Deus Se tornou nosso Pai também. Veja ainda Ef 3:15,16:

“Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família...”

Se tão-somente víssemos e entendêssemos pelo Espírito que somos filhos de Deus, isto revoluci­onaria todo o nosso modo de pensar e de viver. É isso que realmente significa ser cristão. O cristão é alguém que nasceu de novo, nasceu do Espírito, nasceu de Deus. Este princípio da vida divina e eterna foi posto nele; portanto, ele é o filho de Deus. Deus é seu Pai. Veja Jo 20 17:

“Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.”

Como cristão, somos todos filhos de Deus, filhos do mesmo Pai, pertencentes à mesma família. Pertencemos à família da qual Paulo nos lembrara no fim do capítulo dois, onde ele diz: “Já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus”. Fomos adotados na família de Deus, e Ele enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: “Aba, Pai(Gl 4:6). Se retomássemos a estas centralidades, se tão-somente nos déssemos conta do sentido, desta particular declaração de que Deus é nosso Pai, de que pertence­mos à Sua família, e de que Ele cuida de nós como Seus filhos queridos e bem-amados, toda a nossa perspectiva mudaria e a unidade se seguiria inevitavelmente, como a noite segue-se ao dia.

O apóstolo não deixa isto como uma declaração geral; vai adiante, às particularidades, acrescentando: “O qual é sobre todos, e por todos, e em todos”. Este acréscimo não é mero floreio retórico nem vão acúmulo de palavras. Se eles captassem isto, solucionaria os seus problemas e os ajudaria a guardar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Significa que Deus está acima de todos. É uma referência à supremacia de Deus o Pai, à posição exaltada do Pai, ao fato de que, na “governo” da Trindade, Deus o Pai é supremo. Na obra de salvação o Filho subordinou-Se ao Pai, embora sendo co-igual e co-eterno com Ele; e o Espírito subordinou-Se ao Filho e ao Pai. O Pai está “acima de todos”; a Ele pertence a supremacia final. Ele está pensando em termos da Igreja. E quando ele diz que Deus, o único Pai, é sobre todos, está querendo dizer sobre todos na Igreja e para a Igreja dos redimidos. A Igreja é o Seu grande propósito e desígnio. O Pai concebeu a Igreja, planejou-a, projetou-a.Segundo o beneplácito de sua vontade” - a vontade de Deus. O apóstolo já estivera dizendo e expondo isto no primeiro capítulo: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (versículo 3). Aí é onde ele começa, e aí é onde nós devemos começar em nosso pensamento.

O grande e eterno Deus, em Sua glória, infinidade e inefabilidade, “propusera em si mesmo” cuidar de mim e de vocês e redimir-nos, tirar-nos do domínio do pecado, de satanás e do inferno, colocar-nos “no corpo de Cristo5' e adotar-nos para a Sua família. O próprio Deus o Pai o fez. “Segundo o seu benefício, que propusera em si mesmo”. É neste sentido que Deus o Pai está "sobre todos” ou “acima de todos”. O propósito é exposto claramente em Ef 1:10:

“De tornar a congregar em Cristo todas as coisas...”

Dessas coisas o apóstolo nos está lembrando aqui, no capítulo 4, ao tratar da questão da unidade. Seu argumento é que há “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos”, e, sendo sobre todos, o Seu plano e propósito é reunir, juntar em um só todas as coisas em Cristo. Não haverá necessidade de argumentar ou apelar acerca da unidade, se perceber que o propósito de Deus o Pai, o qual é sobre todos, é reunir, tornar a juntar em um só, aquilo que foi dividido e separado pelo pecado. A desunião e o cisma ser-nos-ão completamente impossíveis se nos regozijarmos nessa verdade; jamais deveríamos permitir-nos estar numa posição na qual causamos divisão.

Paulo diz, porém, em segundo lugar, que Deus não somente é “sobre todos”, mas também é “por todos”, ou “produz energia” em todos. Noutras palavras, Paulo está dizendo que Deus permeia toda a vida da Igreja e a sustenta. É a energia de Deus que trouxe à existência a Igreja, mantém em existência a Igreja e a manterá existindo até à consumação final. O seu desejo quanto a eles é que se apercebam da sobreexcelente grandeza do poder de Deus, “a energia da força do seu poder” (Ef 1:18-20), para com os todos os que crêem. Este é o poder que os havia tirado das trevas e da morte para a luz e a vida, quando eles estavam mortos em ofensas e pecados”. Vê-se a energia de Deus na santificação, como em todas as partes da nossa salvação. Ele é “sobre todos”; Ele é “por todos”.

Finalmente, Ele é “em todos vós”. Significa nada menos que o fato de que Deus o Pai, como Deus o Filho e Deus o Espírito Santo, está em todos nós. A Igreja é habitação de Deus. Veja Jo 14:23:

“se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada

Ele habita nela, e, portanto, em nós. “Um só Deus e Pai, o qual é sobre todos, por todos, e em todos.” Você tem contemplado esta grande verdade? Você tem considera­do o fato de que a Trindade esta interessados em sua redenção? Você entendeu que somente a percep­ção disso no faz um? “Senhor abre os nossos olhos...”

segunda-feira, 12 de março de 2012

AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 141

Por: Luiz Fontes

29ª Estação – Hor-Hagidgade (parte 1)

TEXTOS: Nm 33:32; Dt 10:67; Gl 4:19; 6:17; Hb 4:12

Números 33:32 diz:

32 partiram de Benê-Jaacã e acamparam-se em Hor-Hagidgade”.

Segundo a versão Reina Valéria, esse texto está assim:

“Saíram de Beenê-Jaacã e acamparam-se no monte Gidgade.”

Quanto a isso, não há aqui nenhuma dificuldade. Nós vamos fazer uma análise mais detalhada deste nome, desta estação, e acredito que isso vai nos ajudar a entender. Precisamos dar continuidade à sequência do estudo destas estações para que venhamos compreender cada detalhe. Então, como vocês puderam notar, na versão atualizada de João Ferreira de Almeida diz que eles acamparam em Hor-Hagidgade. Mas na versão Rainha Valéria está escrito Gidgade. Trata-se do mesmo lugar. A questão é entendermos como ocorreu essa mudança relacionada à questão das traduções do original hebraico.

Primeiro, há algo muito interessante aqui, porque esta é a última sessão que corresponde à última parte dessas estações. Sabemos que a primeira das quatro sessões dessas peregrinações inicia-se em Ramessés e vai até Elim. Ela representa as experiências iniciais do povo de Deus, aquela primeira fase da vida cristã. E aqui nós temos Israel como exemplo para nós. No Novo Testamento nós vemos o ensino de que essas jornadas de Israel no deserto foram um exemplo para nós, a Igreja do Senhor Jesus. Então, não estamos lendo o Antigo Testamento como uma história. Estamos diante de exemplos dados a nós por Deus tendo em vista as realidades espirituais inerentes ao Novo Testamento.

Assim, as primeiras jornadas representam o primeiro nível espiritual, quando somos como crianças espirituais e aprendemos as primeiras lições da fé cristã. Depois nós temos a segunda sessão que se inicia no Mar Vermelho e vai até Rissa. Nessas estações somos conduzidos a aprender lições mais profundas. Saímos da infância espiritual e avançamos a uma maturidade onde aprendemos lições que nos conduzem a um plano mais elevado em relação à vocação cristã. Aqui começamos a entender o propósito da nossa vocação, o propósito da salvação. Em seguida temos a terceira etapa que começa em Queelata e vai até Mítica, onde são estudadas as estações relativas à liderança cristã, à questão do governo espiritual de Deus por meio do Seu povo. Essas estações são fundamentais para a compreensão do governo de Deus através da vida da Igreja – o que de fato, espiritualmente, é a liderança cristã; princípio de autoridade espiritual no corpo de Cristo, que é a Sua igreja. Depois vamos para Hasmona, que é uma estação de transição, e a partir daqui começa um processo de transição, onde a velha geração começa a dar lugar a uma geração que foi gerada no deserto. Essa geração foi gerada nos campos de Moabe para cruzar o Jordão para entrar na terra prometida.

Tudo isso é muito importante. Essas jornadas que iniciam em Hasmona, as estações que representam essa transição, representam também a vida espiritual num plano mais elevado. Elas nos mostram o caminho do discipulado, a necessidade de deixarmos uma herança para aqueles que vão prosseguir no propósito eterno de Deus, aqueles que vão continuar na responsabilidade de preparar o caminho para a volta do Senhor Jesus.

Então, meus amados irmãos e irmãs, tendo já estudado as lições relativas a Hasmona, Moserote e Benê-Jaacã, chegamos agora à experiência do monte Gidgade (ou, como nós vimos em Números 33:32, Hor-Hagidgade). Mas há ainda um detalhe que precisamos ver sobre essa palavra. Vamos ler Deuteronômio 10:6-7 para que sejamos ajudados a ver mais claramente a questão geográfica, cronológica e também etimológica desta palavra. Vejamos esses textos:

6 Partiram os filhos de Israel de Beerote-Benê-Jaacã para Mosera. Ali faleceu Arão e ali foi sepultado. Eleazar, seu filho, oficiou como sacerdote em seu lugar. 7 Dali partiram para Gudgoda e de Gudgoda para Jotbatá, terra de ribeiros de águas.”

Prestem atenção aqui a essa palavra Gudgoda, porque é a mesma palavra para descrever o nome Gidgade ou Hor-Hagidgade. Prestem muita atenção em tudo isso. O que se chama Hor-Hagidgade em Números, em Deuteronômio é Gudgoda. Não é que sejam dois nomes distintos, pois a palavra Hor-Hagidgade é a mesma palavra Gudgoda, e também a mesma palavra para descrever o monte Gidgade que nós vemos na versão Rainha Valéria, em espanhol. Mas analisando o hebraico vemos que se escrevem da mesma maneira. Essas pronúncias devem-se ao trabalho dos massoretas. Preciso fazer para vocês uma abordagem acerca do trabalho dos massoretas – quem eles eram, o papel que exerceram na história da teologia cristã, especialmente nos escritos antigos.

Os massoretas eram escribas judeus que se dedicaram em guardar e preservar as escrituras que atualmente constituem o Antigo Testamento. Às vezes o termo é usado para falar dos comentaristas hebraicos dos textos sagrados. Esses massoretas substituíram os escribas por volta do ano 500 d.C. até o ano 1.000. A maioria desses estudiosos, desses copistas, permanecia no anonimato, pois muitos não podiam saber quem de fato eram eles, uma vez que eles trabalhavam com muito zelo, com muito cuidado. Mas quando você vasculha a história, descobre que o nome de uma família de massoretas ficou muito bem registrado na história, a família de Bem Asher, a partir da Bíblia, escrita originalmente em hebraico, em geral o Antigo Testamento, que foi copiado com fidelidade pelos escribas judeus do século VI ao X d.C. Esses estudiosos, esses copistas, foram chamados de massoretas.

Durante séculos o hebraico foi escrito apenas com consoantes, o que fazia com que as vogais fossem supridas pelo leitor. Mas quando você estuda a época dos massoretas fica sabendo que a pronúncia correta do hebraico estava se perdendo porque muitos judeus já não eram fluentes nesse idioma. Surgiram, então, um grupo de massoretas na Babilônia, em Israel, que criaram sinais que eram colocados junto com as consoantes para indicar a acentuação e a pronúncia correta das vogais. Pelo menos três sistemas foram elaborados, mas o mais prestigioso foi o dos massoretas em Tiberíades, junto ao mar da Galileia, onde morava a família Bem Asher. Essa família foi tomada de um grande zelo em relação aos escritos antigos. Somente dessa família certas fontes listam cinco gerações de massoretas. Esses homens estavam na vanguarda dos que aperfeiçoavam os símbolos de escrita que melhor expressariam o que eles entendiam ser a pronúncia correta do texto bíblico em hebraico. Para formular esses símbolos eles tiveram que definir a base do sistema gramatical na língua hebraica. Assim, não havia um sistema definido de regras para a gramática da língua hebraica por escrito. Por isso, é cabível dizer que esses massoretas estiveram entre os primeiros gramáticos da língua hebraica. Nós precisamos saber isso. Todos nós cristãos que amamos a Palavra de Deus, que consideramos a Palavra de Deus e desejamos estudá-la com zelo, precisamos saber dessas verdades. O último massoreta de que se tem conhecimento foi Aarão. Ele foi o último massoreta da tradição da família Bem Asher. Foi o primeiro a escrever e copiar essas informações. Creio que isso vai nos ajudar a compreender o que de fato está acontecendo aqui no nosso estudo.

Então, sabemos que foi a parir da época dos massoretas que se iniciou a colocação dos sinais vocálicos nas letras hebraicas. Por isso é que às vezes aparecem escritos como Gudgoda em um texto e Hor-Hagidgade ou monte Gidgade em outros. Mas amados irmãos e irmãs, a expressão Gudgoda, que é a que nós vamos considerar, nos mostra uma chave para a nossa experiência espiritual, para o estudo dessa estação. O que significa essa palavra – Gudgoda? Se a estudarmos na Bíblia veremos com propriedade que ela significa:

ð lugar cortante; penetrar; incisão. Gudigoda nos revela uma obra mais profunda.

Quando estudamos Beenê-Jaacã, vimos a questão de fazer discípulos. Somos ensinados pela Palavra de Deus a fazer discípulos. Não a fazer discípulos a nós, mas fazer discípulos a Cristo, tendo Cristo como padrão, como modelo. Não podemos enterrar todo o depósito de Deus em nossa própria vida, de modo algum. Não podemos encerrar a obra de Deus na nossa vida. Nossa vida não é um fim, nossa vida é um meio. E nós temos que ser zelosos quanto a isso, porque se não somos cuidadosos podemos deixar perder-se aquilo que Deus tem depositado na nossa própria vida. Precisamos compreender que o cristão maduro procura ser um discipulador – procura investir em outros para que Deus possa continuar, através de outros, aquilo que Deus começou na vida dele. Nós temos vários exemplos disso na Bíblia. O cristão maduro tem uma visão clara acerca disso. Moisés, por exemplo, foi para Josué um discipulador e não o formou para si, mas investiu na vida de Josué o depósito de Deus para que em Josué Deus pudesse continuar a mesma obra. A obra não é nossa, a obra é de Deus.

Vejamos também o que Paulo foi para Timóteo. Paulo fez um investimento muito alto na vida de Timóteo. Ele investiu da sua própria vida na vida de Timóteo para que Timóteo pudesse crescer, avançar, prosseguir na direção da vontade de Deus no mesmo ministério. Paulo chega a dizer para Timóteo que transmitisse a outros aquilo que Timóteo recebera dele. A obra de Deus não pode morrer, não pode parar em nós.

Olhemos ainda a vida de João Marcos. Você conhece a vida de João Marcos, sabe que ele foi aquele jovem que se apartou de Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária. Mas Pedro tomou João Marcos como filho. Lá em sua primeira carta ele chama João Marcos de filho – “Meu filho” (I Pe 5:13). Os grandes eruditos e estudiosos da Bíblia dizem que o Evangelho de Marcos é o Evangelho de Pedro. E se você fizer um estudo profundo e apurado daquele Evangelho verá claramente a ênfase sobre o ministério de Pedro. Tudo isso é muito curioso, porque Pedro investiu na vida de João Marcos e ele pôde deixar de ser um jovem covarde, inseguro, para se tornar um cooperador entre os apóstolos. Paulo chega a pedir, perto da sua morte, para que lhe trouxessem João Marcos, pois este lhe era útil.

Então, em todos esses exemplos temos uma geração sendo formada para dar continuidade à obra de Deus. Nós precisamos ser zelosos com o propósito de Deus; precisamos entender que Deus está escrevendo Sua história a partir da nossa vida. Essa estação nos revela um avanço, um trabalhar mais profundo do verdadeiro significado espiritual daquilo que significa o discipulado. É um avançar para dentro, é um trabalhar dentro de nós. A vida cristã é profunda, a vida cristã não é medíocre, a vida cristã não é superficial. Tem que haver uma incisão, tem que haver um corte, tem que haver um aprofundamento, tem que haver um trabalhar dentro de nós. Precisamos trazer em nós as marcas do caráter do Evangelho de Cristo. É isso que essa estação nos mostra. Deve estar visível na nossa vida o trabalhar de Deus, a expressão de Deus. Nós não podemos deixar que a nossa história se finde, se apague na sepultura. Deus deseja avançar além da nossa vida. Deus deseja aprofundar em nós. Tem que haver uma expressão clara de que Deus está prevalecendo, de que Deus está avançando. É o que vamos aprender nessa estação. Houve aqui um trabalhar mais profundo, houve um corte. Algo tem que penetrar, tem que haver marcas, tem que haver estigma na nossa própria vida.

Paulo disse em Gálatas 6:17:

“trago em meu corpo as marcas de Cristo.

Quais são as marcas que existem na nossa vida? O que pode ser visto em nós? O que pode ser claro na nossa vida em termos de expressão cristã?

Paulo também disse lá na epístola aos Gálatas 4:19:

“Filhinhos, por quem de novo sofro dores de parto, até ser Cristo formado em vós”.

“Cristo formado em nós”. Esta incisão, este trabalhar profundo, esta expressão. Essa deve ser a característica prática, essencial da vida cristã. Essa é a realidade viva daquilo que significa ser cristão. Nós não podemos ser negligentes quanto a isso, não podemos ser tão superficiais quanto a isso, porque a vida cristã tem que ter essa característica, tem que ter essa realidade. E vemos aqui, em Gudgoda, incisãoum corte, uma aprofundamento. A Palavra de Deus é uma espada que corta profundamente (Hb 4:12). Ela penetra profundamente, trabalhando Cristo em nós, trabalhando a Cruz, porque a Cruz e a Palavra são as duas ferramentas do Espírito Santo para moldar o nosso caráter, para moldar a nossa vida. A Cruz e a Palavra. Isso é extremamente significativo, claro e prático na nossa experiência cristã. Tem que ser, porque toda a obra de Deus é caracterizada pela Palavra e a Cruz. Aqui nós vemos os dois aspectos: a espada viva e eficaz, penetrando, trabalhando, formando, gerando Cristo em nossa vida, pois nós não podemos viver uma vida cristã superficial, nós não podemos passar a vida toda na superficialidade. Nós não podemos passar a vida toda mendigando. Temos que viver a vida cristã no plano mais elevado. Nós temos que viver a vida cristã mais profunda.

Agora, saímos da esfera do discipulado para o discipulador. Agora vamos ter que fazer discípulos. Agora você vai ter que ter essa marca, essa característica da expressão de Cristo ser formado na sua vida, de Cristo ter uma expressão viva no seu falar e no seu andar. Você tem que viver esse padrão, tem que viver nesse nível, porque é isso que se exige de nós.

Que Deus venha de uma forma poderosa falar ao seu coração. Que Deus venha revelar a você aquilo que Ele está fazendo com você, aquilo que Ele reivindica na sua vida, aquilo que Ele quer de você. Que DEUS fale a nós; que a Sua Palavra tenha total preeminência de trabalhar Ele mesmo em cada um de nós.

domingo, 11 de março de 2012

UM SÓ BATISMO



Por: D.M Lloyd Jones



“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo.”

Ef 4:5

Chegamos agora à terceira afirmação deste segundo grupo de afirmações centralizadas no nosso Senhor - “um só batismo”. O apóstolo não o faz de maneira casual ou acidental. Ele selecionou as questões particulares para provar conclusivamente aos efésios a natureza da unidade da Igreja, a inevitabilidade dessa unidade e, portanto, a importância do seu esforço para a manterem. É a própria Pessoa de Cristo que recebe ênfase em “um só Senhor”, ao passo que “uma só fé” dá ênfase à fé concernente em particular à justificação, o meio pelo qual Deus torna o Seu povo justo e o declara justo.

A própria menção desta expressão, “um só batismo”, levanta uma dúvida na mente de muitos, quanto a como este “um só batismo” promove unidade, porque é um fato notório que toda a questão do batismo levou muitas vezes à discussão, à divisão e à separação. E, todavia, o apóstolo inclui “um só batismo” com o fim de mostrar a inevitabilidade da unidade. Daí, seja qual for a nossa interpretação da expressão, “um só batismo”, terá que mostrar a inevitabilidade da unidade. Assim, não estamos discutindo meramente o batismo em geral; precisamos discutir este “um só batismo” de tal modo que ilustre claramente, mais que nunca, a unidade particular que prevalece nos membros do corpo de Cristo.

Através dos séculos houve aqueles que ensinavam que este “um só batismoobviamente se refere ao que eles gostavam de chamar “regeneração batismal”. O batismo, ensinam eles, é o instrumento da regeneração, de modo que quando alguém é batizado ele recebe, por esse ato, nova vida e é regenerado. Assim, em sua cerimônia ou ministração de batismo eles dizem daquele que batizaram: Agora esta criança é regenerada”. Querem dizer que a criança foi regenerada por aquilo que lhe fizeram. Este ensino prevalece em vários segmentos da Igreja; não se limita aos católicos romanos. Os católicos romanos consideram o batismo como algo que opera por si e de si. Como resultado da oração do sacerdote, a água passa a conter graça, graça regeneradora, e, portanto, a criança nasce de novo. Outros que não vão tão longe assim acreditam que, de um modo ou outro, o ato do batismo toma regenerada a pessoa que é batizada.

Há outros que explicam essa expressão em termos do modo do batismo. Naturalmente isto significa “batismo de adultos por imersão na água”. Interpretá-la desse jeito obviamente tem causado divisão na Igreja. Não podemos, pois, aceitar a idéia de que é apenas uma referência ao modo do batismo, pois isso não mostra a inevitabilidade deste princípio de unidade.

Uma terceira interpretação fala de “um só batismo” como uma referência ao rito do batismo. Alegam que há o rito do batismo e, assim, o apóstolo estava simplesmente se referindo ao fato de que, quando as pessoas se tornavam cristãs, eram batizadas, e que essa era a sua iniciação no corpo visível da Igreja. Como veremos, há algo que se pode dizer em favor desta terceira idéia, mas temos que ser cuidadosos, porque sempre há o perigo de fazer do batismo algo essencial para a salvação. Mesmo que rejeitemos a doutrina da regeneração batismal, que evidentemente não é ensinada em parte alguma das Escrituras, há o perigo de fazermos do próprio rito um elemento essencial. Certa­mente não devemos fazer isso nunca. Não devemos dizer que o batismo, em qualquer forma ou modo, é vital e essencial para a salvação, e que um homem não pode ser salvo, a não ser que seja batizado. Tome-se o caso do ladrão moribundo na cruz, ao lado do nosso Senhor. Segura­mente ninguém duvida da sua salvação, da sua conversão, da sua regeneração; todavia, ele não foi batizado. Tem havido outros que chegaram a ver a verdade em seus leitos de morte e nunca foram batizados. O batismo não é essencial para a salvação; assim é que não pode ser que o apóstolo estivesse dando ênfase ao rito em si.

Parece claro, portanto, que devemos rejeitar essas três sugestões. No lugar delas eu sustento que o apóstolo está se referindo àquilo que o batismo representa e significa. Vejam, por exemplo, o que aconteceu no dia de Pentecoste. Quando certas pessoas clamaram e disseram a Pedro: “que faremos, varões irmãos?” A resposta de Pedro foi:

Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”.

Isso era feito em obediência a uma ordem do Senhor. O Batismo e a Ceia do Senhor deviam ser observados; estas são as duas, e as únicas duas ordenanças que reconhecemos, porque são as únicas duas ensinadas nas Escrituras. No entanto, é muito importante compreender que estas são simplesmente representações externas de uma graça interna, invisível e espiritual. O significado é o elemento vital.

Portanto, estou preparado para argumentar que o único sentido concebível que esta expressão pode ter deve estar na esfera dessa representação espiritual que é significada pelo rito externo do batismo, seja qual for a forma ou maneira ou modo que você escolha ou empregue. Não é o modo do batismo que importa, é a realidade significada. Somente esta interpretação é coerente com o princípio da unidade acerca da qual o apóstolo está escrevendo. Quero mostrar que no batismo, seja que você batize uma criança ou um adulto, quer o faça por imersão quer por aspersão, esta unidade é possível - quer dizer, se a pessoa batizada se torna cristã. Estamos rejeitando completamente a opinião de que batizar uma criança faz dela uma cristã; e igualmente esse batismo não faz de um adulto um cristão. O ato do batismo não efetua nada por si mesmo; mas ele representa e significa algo, e é isto que exibe o elemento de unidade.

A primeira coisa a ser acentuada é que o batismo é em um nome somente, em nome do Senhor Jesus Cristo. Estou ciente de que em Mateus 28:19, nos é dito:

“batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo

Isso, porém, não precisa causar nenhuma confusão, porque primariamente o batismo é em nome do Senhor Jesus Cristo e, por meio dEle, em nome do Espírito e do Pai. Coríntios nos oferece um excelente comentário desta matéria, pois ali o apóstolo se ocupa justamente desta questão de divisão, desunião e cisma na Igreja. Veja 1 Co 1:13:

“Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?”

Evidentemente ele lhes está lembrando que eles foram batizados em nome de Cristo. Notem com que cuidado ele coloca esta questão do rito do batismo em seu lugar certo e na perspectiva certa. Mas a frase significante é a pergunta: “Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?” Claro que não. Eles não foram batizados em nome de Paulo ou de Apoio ou de Cefas; cada um deles foi batizado em nome do Senhor Jesus Cristo. Um Senhor, uma fé nesse Senhor, a fé justificadora, e um batismo no mesmo nome. Veja Atos 2:38:

“Cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo

Veja Atos 19:5:

“E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus

Antes eles só tinham conhecido o batismo de João Batista; agora são “batizados em nome do Senhor Jesus”. O nome dEle é o único nome, e o único batismo é em Seu nome. A tragédia é que tantas vezes na Igreja aquilo que é mais importante tem sido esquecido, e os homens têm argumentado, debatido e discutido, e, infelizmente, têm até brigado sobre o modo e o método do batismo e, com isso, têm produzido divisão. Se tão-somente se lembrassem do único nome, teriam dado ênfase ao princípio da unidade.

Passamos agora àquilo que este batismo em nome de Cristo representa realmente. Alguns replicam que ele representa o lavar dos meus pecados, o perdão dos meus pecados. É certo que o batismo representa o lavar dos pecados, todavia, havendo feito isso, vai adiante, para algo infinitamente mais importante. É bom notar que a expressão utilizada é batizado em” ou batizado para”. Isto nos dá a chave para um verdadeiro entendimento deste “um só batismo”. Significa “em referência a Cristo”, ou “para o domínio de Cristo”, ou “para a esfera de influência exercida por Cristo”. Há uma interessante declaração na carta aos Coríntios, que realmente lança muita luz sobre isto. Veja 1 Co 10:1- 2:

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar”

É uma declaração a respeito dos filhos de Israel. Deus tinha enviado Moisés para livrá-los do cativeiro do Egito. Chegaram ao Mar Vermelho, e Deus operou o milagre de dividir as águas do mar, e os filhos de Israel passaram pisando terra seca. É com referência àquele acontecimento que o apóstolo afirma que os filhos de Israel foram batizados em (ou “para”) Moisés”. Eles foram batizados para a liderança, para a esfera de influência de Moisés. Eles se tornaram identificados com Moisés. Eram o povo redimido de Deus, o povo salvo, o povo protegido e identificado com Moisés, a quem Deus enviara para libertá-los. Agora havia uma divisão entre eles e todos os que perten­ciam ao domínio de Faraó. Esta é uma descrição daquilo que é próprio de todos os que estão em Cristo. Portanto, o batismo representa e significa a nossa introdu­ção na esfera e sob a influência do Senhor Jesus Cristo. Significa que anteriormente nós pertencíamos ao mundo, pertencíamos ao domínio do mundo; mas no momento em que nos tornamos cristãos, saímos do domínio do mundo para o domínio de Cristo, e o batismo significa isso. Veja Cl 1:13:

“nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor

Fomos tirados do mundo e postos no reino de Deus, no reino de Cristo. Estamos num novo domínio, numa nova esfera, estamos sob uma influência inteiramente nova. Não somente isso; quando somos batizados estamos confessando Cristo, estamos anunciando que nos sujeitamos a Ele, que Ele Se tornou o nosso Mestre e Senhor. Estamos por completo numa nova esfera e num novo reino; deixamos o mundo e O (Cristo) seguimos. É isso que o batismo representa.

Pensem de novo nos ouvintes de Pedro no dia de Pentecoste. Havia judeus e prosélitos, e outros; eles estavam ouvindo o sermão de um homem cheio do Espírito Santo. Deram o momentoso passo de batizar-se em nome de Jesus Cristo. Sabiam que isso poderia muito bem levá-los a sofrer perseguições. Mas, tendo enxergado a verdade, identificaram-se com Ele, submeteram-se ao batismo e, ao serem batizados, identificaram-se com Cristo e Sua causa. Estavam declarando que Jesus de Nazaré é o Senhor, que no reino espiritual César não é o Senhor, porém Jesus é o Senhor, e não há outro, que Ele é o Messias, o Libertador. Todos nós que dizemos que estamos “em Cristo” estamos procla­mando que abandonamos tudo mais, que unicamente Ele é o nosso Mestre e Senhor, que doravante vamos segui-l0. Ele mesmo disse em Mateus 16:24:

“Se alguém quiser ser meu discípulo, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me

O batismo representa e significa que fizemos isso. A importância disto, com relação à unidade, é óbvia. Antes éramos indivíduos, cada homem exercendo a sua própria vontade e cada qual seguindo o seu caminho; cada homem centralizado em si mesmo e egoísta. Ao nos submetermos ao batismo, negamo-nos a nós mesmos, tomamos a cruz e seguimos a Cristo. Desistimos de nós mesmos, negamo-nos a nós mesmos e estamos olhando e seguindo o único Senhor. Quando o fazemos sinceramente, não pode haver divisão, só terá que haver unidade. O único batismo leva inevitavelmente à unidade.

No entanto, esta verdade maravilhosa ainda não se finda nisso. Há algo mais profundo! Veja Rm 6:3,4:

“Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”

O apóstolo está mostrando aos crentes, que como outrora eles estavam “em Adão”, e ligados a ele, agora estão “em Cristo” e ligados a Cristo. Adão, Deus o fizera chefe e representante de toda a raça humana. Deus lhe disse que, se ele pecasse, seria punido com a expulsão do Jardim, e sofreria a morte. As conse­qüências do pecado de Adão caíram sobre toda a sua posteridade. Todos nós pecamos em Adão, porque todos estávamos “em Adão”. “Em Adão todos morremos.”

A seguir o apóstolo passa a desenvolver e elaborar o seu argumen­to, e a mostrar que “como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados”. Veja 1 Cor. 15:22:

“Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo”.

Você está agora em Cristo, como outrora estava em Adão; e o que Cristo fez, você fez. Podemos afirmar esta verdade da seguinte maneira também: na Primeira Epístola aos Coríntios12:13:

“Pois todos nós fomos batizados em um só espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos

Não sou tão-somente um crente em Cristo, não só tenho aquela fé justificadora que me assegura que os meus pecados estão perdoados porque Deus os puniu em Cristo e imputa a Sua justiça a mim, mas eu estou “em Cristo”, fui batizado pelo Espírito Santo no corpo de Cristo, que é a Igreja. Cada cristão - “todos nós” - foi incorporado em Cristo. Tudo que aconteceu a Cristo, diz o apóstolo, aconteceu conosco. Ele foi crucificado; e fomos crucificados com Ele. Quando Cristo morreu, nós morremos. Fomos sepultados com Ele, o que significa que estamos “mortos para o pecado”. Isto significa que estamos mortos para o reino do pecado, estamos mortos para toda a autoridade do pecado, estamos mortos para “o mundo”. Sintam-no vocês ou não, se estamos em Cristo, essa é a verdade concernente a nós. Diz ainda o apóstolo aos gálatas: (6:14):

“Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”

O pecado sempre leva à divisão e à discórdia. No momento em que o homem pecou e caiu, a discórdia e a desunião entraram no mundo. Vocês vêem Caim chegar a matar o seu irmão. Esse é o efeito do pecado. E assim há discórdia e desunião, rivalidade e conflito. Por causa da natureza adâmica que está no homem, há divisões entre nações, raças, grupos. Mas quando um homem está “em Cristo”, está ligado a Ele; morreu com Ele; o velho homem está morto; ele é um novo homem. E posto que essa é a verdade a respeito de todos os que estão em Cristo, não deveria haver nenhuma divisão, nenhum conflito, nenhuma separação.

Não somos mais criaturas adâmicas. Não devemos estar mais exercendo as nossas vontades separadas, e não deve haver mais divisão, rivalidade, ciúme, inveja. Não devemos começar a dizer: “Eu sou de Paulo, eu sou de Apoio, eu sou de Cefas”. Não devemos gabar-nos de nomes; há somente um nome - “um só Senhor, uma só fé, um só batismo”. Estamos nEle, somos cristãos, somos povo de Cristo. Morremos com Ele, fomos sepultados com Ele. O velho homem e os seus caminhos foram levados ao fim. Também “ressuscitamos com ele”. Recebemos nova vida dEle, através dEle. Embora estivéssemos mortos em ofensas e pecados, fomos vivificados juntamente com Cristo”.

Isto significa que o cristão não é tão-somente um homem que crê no Senhor Jesus Cristo e que Cristo morreu por ele em seus pecados. Entretanto, ele é muito mais do que isso! Ele está “em Cristo”, está ligado a Cristo, e a vida de Cristo está nele. Ele está “em Cristo”, faz parte de Cristo. A vida de Cristo está nele, e é a mesma vida que está em todos os membros. Tudo isso é verdade quanto ao cristão porque ele foi batizado naquele corpo único de Cristo pelo Espírito Santo (1 Co 12:13). Este é o verdadeiro significado de “um só batismo”. Quando todos vivermos à luz disto, não poderá haver divisão.