quarta-feira, 7 de março de 2012

AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 140

Por: Luiz Fontes

28ª Estação – Benê-Jaacã (parte 2)

TEXTOS: Nm 33:31; II Tm 2:2; I Tm 1:2, 18; II Tm 1:2; II Tm 1:13-14; Gn 25:1-6; Rm 9:7; Hb 11:18; II Tm 2:22, 24-26; II Tm 3:1-5, 10; II Co 3:1-2; II Jo 12; III Jo 13-14; Jo 15:8; At 4:13; 11:26; I Co 11:1; II Co 3:3; II Tm 4:2-5

Vamos dar continuidade ao estudo da estação de Benê-Jaacã, a 28ª estação, conforme Números 33:31. A Bíblia diz que quando o povo de Israel saiu de Moserote, acampou em Benê-Jaacã.

Sabemos que Benê-Jaacã fala-nos dos filhos da inteligência, dos filhos da sabedoria. Vemos aqui que se trata de uma estação muito interessante que nos revela a maneira como o Senhor está nos conduzindo através do processo do verdadeiro significado do discipulado cristão.

Temos visto já em algumas palavras anteriores acerca do testamento que Abraão deixou, assim como o de Pedro. E, agora, estamos vendo o “testamento” de Paulo para Timóteo – a preocupação que o apóstolo tinha em seu coração com relação à continuidade do ministério da palavra por meio de Timóteo, seu filho espiritual. Timóteo. Quero ler com vocês um texto que está em II Timóteo 2:2:

1 Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. 2 E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.”

Amados, quando Paulo escreveu esta carta a Timóteo, tinha em vista a continuidade da obra de Deus. Paulo tinha por Timóteo a consideração de um filho. Fazendo um exame das duas epístolas de Paulo a Timóteo, você verá essa grande ênfase que ele dá à questão relacional entre pai e filho. Por isso, uma pessoa que discipula tem que ser madura, não pode ser uma pessoa infantil, um neófito. Somente alguém que tem amadurecimento espiritual é capaz de discipular a outros. Nós não podemos incentivar os irmãos ao discipulado onde não há maturidade, onde não há profundidade espiritual. Pessoas que não têm profundidade espiritual não têm a menor capacidade de discipular ninguém. Nós precisamos entender esse princípio na Palavra de Deus.

Em I Timóteo 1:2 Paulo diz:

2 a Timóteo, verdadeiro filho na fé, graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Ainda no versículo 18 ele diz:

18 Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate,”.

Avançando para II Timóteo 1:2, está assim:

2 ao amado filho Timóteo, graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.”

E onde já lemos, em II Timóteo 2:2, ele diz:

“Tu, pois, meu filho (...)”.

Vemos, então, que o discipulado tem esse lado paternal. Apesar disso, não podemos esquecer que todo discipulado é a Cristo. Nunca esqueça isso. Você não discipula uma pessoa à denominação, não discipula a você. O discipulado é a Cristo. Por mais que exerçamos, pela Palavra de Deus, pela unção do Espírito Santo, a direção de Deus na formação do caráter espiritual na vida de uma pessoa, nunca devemos conduzi-la levianamente a nós mesmos – sempre a Cristo. O que temos que ter em vista é a vida da obra de Cristo em Pessoa, e não a nós mesmos. Nunca devemos nos impor sobre qualquer pessoa, pois isso não é discipulado, é tirania religiosa. O termo filho, que Paulo usa aqui, é teknon, e significa um relacionamento íntimo e recíproco formado entre duas pessoas pelos laços do amor, da amizade e da confiança.

Veja então o que Paulo diz a seu filho Timóteo: “o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.” (II Tm 2:2). Vejam continuidade aqui. Essa é a obra de Deus, e esse é o verdadeiro discipulado. Em II Timóteo 1:13-14 ele diz:

13 Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. 14 Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós.”

Meus queridos, será que somos capazes de ver o zelo de Pulo por Timóteo? O que fica claro, evidente aqui, é que nada deveria se perder – tudo aquilo que foi investido na vida de Timóteo através de Paulo pela unção, direção e poder do Espírito Santo. Timóteo tinha que manter com diligência a sã doutrina, aquilo que foi depositado nele. E deveria ser transmitido às gerações seguintes.

Agora, veja um detalhe muito interessante aqui que corrobora com aquilo que Abraão fez com relação a Isaque e aos demais filhos que ele teve. Nós já estudamos isso. Em Gênesis 25:1-6, temos os filhos de Abraão com Quetura, e também Ismael, filho de Agar. E a Bíblia diz que a esses filhos Abraão deu presentes, mas a Isaque ele deu tudo. Por que Abraão fez isso? Não eram todos seus filhos? Naturalmente, sim. Mas Isaque era o filho da promessa, aquele pelo qual Deus iria mover seu propósito. Através de Isaque Deus continuaria em Seu propósito, em Seu plano, em Sua vontade. A Bíblia diz que “em Isaque a descendência de Abraão seria chamada”. Em Romanos 9:7 e Hebreus 11:18, podemos entender isso melhor. Deus continuaria por meio de Isaque, e não por meio dos demais filhos de Abraão.

Gênesis 25:6 diz que Abraão, além de dar presentes aos filhos das concubinas, ainda em vida os separou de seu filho Isaque, enviando-os para a terra oriental. Será que podemos notar o zelo de Abraão com relação a Isaque, o cuidado que ele tem aqui com Isaque? Ele não queria que seu filho se misturasse com seus irmãos, pois estes não tinham a promessa, suas motivações não eram puras. Esse detalhe é muito importante, pois Paulo age da mesma forma com Timóteo. II Timóteo 2:22 diz:

22 Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor.”

Veja o zelo de Paulo. Por um lado, ele diz “foge das paixões da mocidade” – por um lado ele tinha que fugir –; por outro lado, ele tinha que “seguir com aqueles que invocam o Senhor com um coração puro”. Para que pudesse seguir a justiça, a fé e o amor, Timóteo deveria estar em paz com aqueles que invocam o Senhor com um coração puro. Ele não iria e nem poderia andar sozinho, deveria estar com essas pessoas.

Avançando um pouco mais em II Timóteo 3:1-5, perceberemos isso de uma forma muito clara. Diz assim:

1 Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, 2 pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3 desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, 4 traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, 5 tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.”

Vejam que a frase “tendo aparência de piedade” demonstra que todas essas pessoas citadas aqui por Paulo são encontradas na própria vida da Igreja. Essas pessoas, esses caluniadores, desobedientes, ingratos, ímpios, sem afeição natural, têm aparência de piedade, terão aparência de piedade, aparência de vida cristã, de temor a Deus, porém, negando a essência, a vida e o poder da piedade. E sabe o que Paulo diz? “Foge destes”. Foge destes homens. Paulo está dizendo a Timóteo: evita mesclar-se com pessoas infiéis, que não são sérias com Deus, porque Deus vai julgar essas pessoas. Mantenha distância, Timóteo. Isso é o verdadeiro discipulado bíblico, é formação espiritual.

Amados, como nós precisamos ser sérios com as coisas de Deus. Como precisamos cuidar daqueles que o Senhor tem nos confiado. Como precisamos cuidar uns dos outros. Como precisamos permitir que o Senhor aprofunde Sua obra em nós, para que possamos fazer discípulos de todas as nações. Não apenas ir e pregar o Evangelho – o que é um mandamento do Senhor, e nós devemos pregar o Evangelho. Mas também ir e fazer discípulos de todas as nações. Precisamos compreender que o Senhor tem que avançar não apenas em nós, mas avançar além de nós, levando-nos a investirmos em outras pessoas aquilo que Ele depositou em nós. É isso o que aprendemos aqui em Benê-Jaacã.

Estudando essas estações aqui, Hasmona, Moserote, Benê-Jaacã, aprendemos justamente isto: que agora uma nova geração está surgindo no deserto e que é ela que vai conquistar Canaã. Nós não podemos levar para a sepultura tudo aquilo que foi depositado em nós. Então, temos que avançar.

Quero ler um texto que está em II Coríntios 3:1-2 que diz:

1 Começamos, porventura, outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? Ou temos necessidade, como alguns, de cartas de recomendação para vós outros ou de vós? 2 Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens,”.

Meus amados, creio que todos nós sabemos que Paulo foi grandemente usado por Deus para levar o Evangelho aos irmãos da Acaia, especialmente aqui em Corinto. Mas sabemos que alguns obreiros haviam passado por esta região da Acaia, onde estava a cidade de Corinto. E esses irmãos, como, por exemplo, Apolo, que não eram conhecidos de algumas igrejas, de algumas localidades, deveriam estar munidos de cartas para serem apresentados a essas igrejas. Essas cartas eram cartas de recomendação dos santos. Agora, você entende o que Paulo está dizendo, que ele mesmo não necessitava de cartas para chegar até eles? Paulo não tinha nenhuma necessidade de que outras igrejas o recomendassem, fizessem alguma recomendação à igreja de Corinto concernente a Paulo, pois os próprios coríntios eram a credencial apostólica de Paulo. Foi ali que Paulo permaneceu por cerca de dezoito meses, pregando o Evangelho.

Você pode notar no âmbito espiritual que aqui não estamos mais no nível de cartas escritas em papel, mas no nível do discipulado? O texto aqui fala de impressão viva. Quando estudamos as Epístolas de João, a segunda e a terceira, vemos o apóstolo João terminando-as de maneira singular. Primeiro, II João 12:

12 Ainda tinha muitas coisas que vos escrever; não quis fazê-lo com papel e tinta, pois espero ir ter convosco, e conversaremos de viva voz, para que a nossa alegria seja completa.”

João diz que tinha muitas coisas que escrever aos irmãos, porque muitas coisas ele havia deixado como depósito divino. Mas ele não queria escrever, e sim falar. É importante escrever, mas falar face a face é muito mais importante, produz efeitos mais profundos, duradouros. É importante escrever, sim, mas estar face a face é muito mais significativo.

Amados irmãos, sabemos que essas cartas são de grande importância para nós hoje. Mas em nosso contexto temos que entender o significado prático de estabelecermos relacionamentos onde investimos do Senhor naqueles que Ele tem nos confiado. Lendo a III Epístola de João, versículos 13 e 14, vemos que ele diz a mesma coisa:

13 Muitas coisas tinha que te escrever; todavia, não quis fazê-lo com tinta e pena, 14 pois, em breve, espero ver-te. Então, conversaremos de viva voz. A paz seja contigo. Os amigos te saúdam. Saúda os amigos, nome por nome.”

João nos mostra um nível mais elevado da edificação. É importante escrever, mas podemos avançar mais profundamente em nossa relação cristã. E João nos mostra aqui uma maneira de avançarmos em um plano mais alto do relacionamento espiritual. Lá em II Coríntios 3:2 Paulo diz:

“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração”.

Paulo quer escrever uma carta viva, escrever mediante o Espírito Santo. O importante não é o papel em si, mas o coração deles. O aspecto espiritual das palavras de Paulo e de João é que mais do que cartas, aqueles irmãos deveriam andar na mesma conduta, tendo a mesma vocação. Em João 15:8 podemos meditar um pouco nas palavras do nosso Senhor Jesus:

8 Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos.”

A vida do Senhor Jesus, quando Ele viveu aqui na terra, era uma vida frutífera. E Ele diz que Deus, o Pai, é glorificado no Filho se nós tivermos uma vida frutífera, como a vida de Cristo. A verdadeira característica dos discípulos do Senhor Jesus é a de uma vida frutífera. Essas palavras do Senhor Jesus corroboram com aquilo que Paulo diz em II Coríntios 3:2: “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens”. O que Paulo nos diz aqui é que todas as pessoas que nos ouvem, que nos veem, em nosso trabalho, no serviço aos santos, em nossa casa, no trabalho secular, na escola, verão que somos pessoas que andam com Deus. As pessoas estão lendo Deus em nossas vidas, estão ouvindo Deus em nossas vidas. Você se lembra de Atos dos Apóstolos 4:13? Aqueles fariseus, os sacerdotes, ao verem a intrepidez de Pedro e João, ficaram sabendo que eram homens iletrados, mas ficaram admirados, pois reconheceram que eles haviam estado como o Senhor Jesus. Sabemos que o Senhor Jesus não escreveu nenhuma carta, mas aqueles discípulos eram cartas vivas do Senhor Jesus.

Em Antioquia os discípulos de Cristo foram denominados, pela primeira vez, de cristãos (At 11:26). Então, fazer discípulos é produzir cartas vivas de Cristo para que sejam lidas e ouvidas. Não fazemos discípulos para nós, pois não somos o modelo. O modelo, o padrão, é Cristo. Quando Paulo diz, em I Coríntios 11:1 “Sede meus imitadores”, ele deixa claro que imitá-lo é seguir os passos de Cristo. Porque é isso que Paulo está dizendo. Veja que na continuação de II Coríntios 3, no versículo 3 ele diz:

3 estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações.”

Nesse texto Paulo nos dá o fundamento para a formação de discípulos: “não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, escrevendo nos corações”. Foi neste nível que Paulo investiu na vida de Timóteo. Ele diz a Timóteo em II Timóteo 3:10:

10 Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança,”.

Amados, observem que esse versículo se inicia com “Tu, porém”. Há aqui um contraste. Lendo os versículos de 1 a 9 desse capítulo percebemos claramente que Paulo adverte Timóteo acerca dos homens maus. O contexto desses versículos podem ser vistos em II Timóteo 2:24-26. E vejam que Paulo está falando sobre o servo do Senhor. E depois ele inicia o capítulo 3, indo do versículo 1 até o 5, aqueles textos que já lemos, onde ele diz que nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, etc. Nós vimos tudo isso. E aqui Paulo diz a Timóteo que não se misture com estes homens, que ele seja diferente, uma carta viva, lida e ouvida por todas as pessoas. Isso porque muitas pessoas têm a aparência de piedade, porém, Timóteo deveria ser cuidadoso, mantendo distância destes, seguindo de perto o ensino daquilo que aprendeu de Paulo: o procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança. Paulo coloca a Timóteo a integridade da sua doutrina. A sua conduta, propósito, fé. Timóteo havia visto como Paulo havia se conduzido. Paulo era autêntico, por isso ele se expressava de uma maneira tão clara a Timóteo.

Amados, precisamos entender que na vida da Igreja os motivos puros devem ser evidenciados. No contexto religioso, degradado, as pessoas fazem as coisas por rivalidade, vanglória, pretexto e ambição. Por isso esse assunto do discipulado é sempre voltado para o homem. E nós não podemos ser levianos, precisamos ser sérios com aquilo que o Senhor está nos confiando.

Avançando um pouco mais, a II Timóteo 4:2-5, vemos que Paulo diz:

2 prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. 3 Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; 4 e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. 5 Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.”

Vejam que no versículo 5 mais uma vez Paulo usa a frase “Tu, porém”. E o contexto nos mostra a linha de contraste que deve haver entre Timóteo e os falsos obreiros. Nos versículos 2 e 3 Paulo diz: 2 prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. 3 Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina”.

Então, irmãos, este é o princípio que aprendemos aqui em Benê-Jaacã: precisamos realmente fazer discípulos a Cristo, levar as pessoas a desfrutarem de Cristo Jesus, da sabedoria e da vida de Cristo Jesus que há em nós como depósito divino.

Que Deus, de uma forma poderosa, fale ao seu coração.

domingo, 4 de março de 2012

UMA SÓ FÉ

Por: D.M Lloyd Jones


“Um só Senhor, (uma só fé), um só batismo."

Ef 4:5

Chegamos agora à subseqüente expressão da definição da unidade da Igreja, dada pelo apóstolo - “uma só fé”. E esta fé única está em conexão com “um só Senhor”. Ele não coloca “uma só fé” com a obra do Espírito ou com o Pai, mas com o Senhor.

Há os que acham que esta fé única se refere à nossa fé subjetiva, àquela qualidade em nós, àquela capacidade em nós que nos habilita a crer. Parece-me que esta é uma impossível explica­ção desta declaração, e por esta boa razão que, num sentido, ela já está coberta pela expressão “um só Senhor”. Mas há uma objeção ainda mais séria. O apóstolo está se esforçando para dar provas absolutas da unidade dos crentes, de modo que, sempre que formos assaltados por dúvidas, possamos ter certeza que nos mantenha firmes. Pois bem, sempre que queiramos demonstrar ou provar algo, jamais devemos apelar para o que é subjetivo, porque o subjetivo é pessoal e não se pode definir. Todavia, o apóstolo nos está dando provas objetivas, algo que está fora de nós e que podemos aplicar a nós, e pelas quais, portanto, podemos testar-nos a nós mesmos. Assim, eu argumento que “uma só fé” não pode ser considerada subjetivamente, pois fazer isso a retira da categoria de um teste objetivo. Tudo o que temos considerado até aqui é estritamente objetivo.

Há os que dizem que essa fé objetiva a que se refere Paulo é uma completa confissão ou um compêndio da fé. Aos olhos desses mestres, “uma só fé” significa que os cristãos adotam e subscrevem uma das grandes confissões de fé, como a de Westminster, ou os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, ou o Catecismo de Heidelberg. Fé aqui, dizem eles, significa um esboço completo do que cremos, um comple­to compêndio de teologia. Mais uma vez, esta não me parece uma possível explicação de “uma só fé”.

Parece-me, pois, que não devemos tomar a expressão “uma só fé” no sentido de acordo em detalhe acerca de todas as coisas, acordo quanto a um completo compêndio de teologia ou doutrina. O apóstolo utiliza a expressão “uma só fé” como um argumento em prol da unidade, e diz que todos eles sabem o que é essa fé. Para ele é um teste objetivo que pode ser aplicado, é algo tão definido como “um só Senhor”, “um só Espírito” e “um só Deus”, e todas as outras afirma­ções. “Uma só fé” é claramente algo que podemos e devemos definir, e sobre o que devemos dizer que todos os cristãos devem estar de acordo. Que é que isto significa?

Minha opinião é que, embora não seja um completo sistema de teologia, é algo que com muita freqüência é tratado no Novo Testa­mento, algo sobre o que devemos ter claro entendimento. O que defendo é que se refere à própria essência do evangelho, àquilo que os apóstolos foram especificamente chamados para pregar, em sua obra de evangelização. É de fato a grande mensagem do evangelho concernente à salvação ou justificação somente pela fé. Opino que é a única exposição possível e satisfatória da expressão “uma só fé” é dizer que o apóstolo está se referindo à fé justificadora; e que esta não é somente uma fé, mas também a única fé.

É costume referir-se a Paulo como o grande apóstolo da fé, e ele o é. Esta era a mensagem confiada a ele, e que ele expunha igualmente aos judeus e aos gentios. Veja na Epístola aos Romanos 1:16-17:

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê... Porque nele (no evange­lho) se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé

Essa é a mensagem, e essa, eu sugiro, é a “uma só fé” a que se refere em Efésios 4:5. Na verdade, os que estão familiarizados com a Epístola aos Romanos sabem que os quatro primeiros capítulos dessa Epístola são inteiramente dedicados a esta grande mensagem da justificação - ou salvação, ou justiça - pela fé. Esta, diz ele, é a nova mensagem. Ele vai adiante e faz uma exposição vigorosa deste princípio, desta doutrina da justificação unicamente pela fé. Isso é “uma só fé”.

A Epístola aos Gálatas é exclusivamente dedicada ao mesmo tema. Essa Epístola foi necessária porque certas pessoas tinham descido de Jerusalém e estiveram pertubando a vida das igrejas da Galácia, dizendo que o apóstolo Paulo estava certo em pregar a doutrina da justificação pela fé, porém estava errado quando falava em justificação pela fé somente. Eles diziam aos gálatas que, num sentido, eles eram cristãos, mas que, se desejavam ser cristãos verdadeiros, eles, como gentios, deviam sujeitar-se à circuncisão. O apóstolo escreve a sua Epístola para mostrar que, se alguém faz tal acréscimo à fé, “caiu da graça” e “tem outro evangelho, que não é evangelho”. De fato ele lhes diz que tivera até que corrigir o apóstolo Pedro sobre essa questão. Paulo declara que teve que “resistir-lhe na cara” (a Pedro) em Antioquia, e o levara a ver de novo que o princípio da fé é o centro e a glória do evangelho cristão - “uma só fé”.

Mas talvez a exposição mais clara dessa verdade seja a que se acha no décimo capítulo da Epístola aos Romanos 10:8, veja:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos

Esta expressão, “a palavra da fé”, refere-se ao que ele já dissera no versículo 6. A afirmação é acentuada pelo contraste com o que diz a Lei. Veja ainda Rm 10:9:

“Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos”.

“A palavra da fé” é a palavra da “justificação pela fé”. É a palavra acerca da fé como o princípio justificador, a palavra da fé no sentido de que “O justo viverá da fé”(VA e Almeida, Atualizada, O justo viverá por fé”).

Devemos agora ir adiante e ampliar a definição e a descrição desta “uma só fé”. É muito importante que o façamos, pois esta é a única fé. Esta é a “” que revelada de novo e restaurada na Reforma Protestante. Esta foi a “” pregada pelos pais protestantes; esta é a “” pela qual eles morreram alegremente na fogueira. Foi esta a grande mensagem de Lutero, a justificação unicamente pela fé - “sola fide”. Essa é “a palavra da fé”; não fé em geral, porém esta mensagem peculiar, específica, sobre o método da justificação. Esta é a “uma só fé”. Repito que não estamos tratando de um compêndio da fé. Não estou afirmando que, se você não subscrever cada detalhe desse tipo de confissão de fé, você não é cristão. Essa é a maneira de produzir divisões. Estou interessado somente na “uma só fé”, que é o que importa. É concernente à justiça que vem de Deus. Não é algo feito pelos homens, e sim o que Deus fez. Esta é a mensagem; e isto é cristianismo. No quarto capítulo da Epístola aos Romanos (versículo 5) ele faz uma das mais espantosas afirmações por ele feitas:

“Mas aquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça

O fato de que “Deus justifica o ímpio” prova, sem sombra de dúvida, que se trata de um ato de Deus. Este é o meio pelo qual Deus faz qualquer de nós justo e aceitável aos Seus santos olhos. É o meio pelo qual nos tornamos retos para com Deus e reconciliados com Deus, e ficamos sabendo que Deus é o nosso Pai. Ele nos declara justos, Ele proclama que somos justos. E o faz em Cristo.

A analogia freqüentemente usada é esta: um prisioneiro no banco dos réus, e o juiz sentado à mesa do tribunal. Há o conselho de denúncia, a lei de Deus, apoiada pela própria consciência do homem. O prisioneiro não guardou a lei. Essa é a comunicação, a causa contra ele. E o Juiz declara que considera o crimino­so, o réu, livre da acusação que fora proferida contra ele. Ele o proclama justo aos seus olhos, afirma que não tem nada contra ele e o absolve da culpa e da vergonha. Ele diz: declaro você justo, e o considero como se você nunca tivesse sido culpado. A justificação é uma ação de Deus, uma ação legal, uma ação forense. Absolutamente independente de nós.

No entanto, como Deus faz isso? Façamos de fato a pergunta que Paulo faz em Romanos, capítulo 3, versículos 25 e 26: como Deus pode fazer isso? Pois Deus é santo, justo, reto e puro. Veja Tiago 1:17: Ele é o:

“Pai das luzes, em quem não há mudança, nem sobra de variação

Deus deixou claro que, por causa do Seu caráter, do Seu ser, da Sua santidade, da Sua retidão, justiça e eqüidade, o pecado tem que ser punido. Portanto, como é que Deus pode justificar o ímpio? Como é que Ele pode fazer esse pronunciamento com relação a algum pecador? A grande resposta é dada numa passagem maravilhosa da Epístola aos Romanos 3:21 a 31.

“Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus... justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo...”

Deus “propôs Cristo para propiciação pelos nossos pecados”. Quer dizer que Deus tomou os nossos pecados e os colocou sobre Cristo, e os puniu. Tratou deles em Seu próprio Filho na cruz do Monte Calvário. Esta é a “” que todos nós devemos ter e crer, a saber, que:

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados”

E mais:

“o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”.

Esse é o método de reconciliação, essa é a mensagem de reconciliação que nos foi transmitida. O próprio coração da mensagem cristã é que Deus tomou os nossos pecados e os imputou a Jesus Cristo. “Imputar” significa considerá-los, colocá-los na conta de alguém. É como se um homem rico fosse a uma loja ou armazém e dissesse: “Quero que mande as seguintes mercadorias a tal endereço, mas não lhes mande a conta; ponha na minha conta; impute isso a mim”. Deus tomou os nossos pecados e os imputou a Cristo, colocou-os na Sua conta e os puniu nEle. Deus feriu o Seu próprio Filho por causa dos nossos pecados. Cristo sofreu o nosso castigo. Veja 1 Pe 2:24:

“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas pisaduras fostes sarados”

Mas Deus fez também algo mais; Ele pôs a justiça de Cristo em nossa conta. O Senhor Jesus Cristo nunca pecou; Ele obedeceu a Lei de Deus em todos os pormenores. O Pai ficou satisfeito com Ele; Ele nasceu cheio de retidão, guardou perfeitamente a Lei e agradou a Deus em tudo, prestando uma obediência perfeita. O que Deus faz é tomar a justiça de Cristo e pô-la em nossa conta. A nossa injustiça foi posta sobre Ele; a justiça dEle é posta sobre nós.

A palavra da fé que pregamos é que a nossa salvação é, toda ela, ação de Deus por meio deste único Senhor Jesus Cristo. É por isso que “uma só fésegue-se a “um só Senhor”. Não contribuímos com nada para tudo isso. Os nossos feitos, as nossa ações não desempenham parte alguma, a nossa bondade não entra, pois não é bondade aos olhos de Deus, é apenas como “esterco” e refugo aos olhos de Deus. A nossa busca não ajuda, a nossa capacidade não ajuda, nada em nós ajuda, em absoluto. É tudo de Deus, é tudo de graça, é tudo feito por Deus, do princípio ao fim. Deus enviou Cristo, pelo Espírito, para tirar-nos os trapos e vestir-nos com o manto da perfeita justiça de Cristo. Deus agora olha para nós e vê, não os nossos pecados, porém a justiça de Cristo. Ele nos vê “em Cristo”. O nosso nascimento natural não faz nenhuma diferença, a nossa nacionalidade não entra nisso. O grau do arrependimento que experimentamos não importa. Se fizermos do nosso arrependimento um ato meritório, estaremos negando a fé. O que somos, ou o que fizemos ou não fizemos, não conta; nada em nós conta; a nossa justiça está toda em Cristo, e pela fé, somente pela fé. O apóstolo já nos dissera em Ef 2:8:

“Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”.

Esta justiça de Cristo nos é dada, e passa a ser nossa, mediante a instrumentalidade da fé, que também é dom de Deus. Dessa maneira fica mais claro que o apóstolo menciona “uma só fé”. Neste ponto em particular ele está interessado no princípio essencial da unidade, e isto nos ajuda a ver esta unidade.

Na verdade diz o apóstolo que este sempre foi o único meio de salvação. Ele mostra, em Romanos, como Abraão foi justificado aos olhos de Deus, e isso pela fé, não por suas obras. Ele prossegue e mostra que Davi tinha ensinado a mesma verdade, dizendo: Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade” (Salmo 32:2). A imputação foi também o método de Deus na antiga dispensação. O décimo primeiro capítulo da Epístola aos Hebreus ensina que isto vai mais longe, no passado, chegando a Abel, Enoque e Noé. Sempre foi este o método de Deus. É errado pensar que havia um meio de salvação no Velho Testamento, e agora outro, no Novo. Não! Deus sempre justificou os homens pela fé. Abraão foi declarado justo por Deus, mediante a fé. É “uma só fé”; esta foi sempre a única fé.

Não importa se somos bárbaros, citas, homens ou mulheres, escravos ou livres. Todos viemos pelo mesmo caminho, e este é sempre o caminho da fé. Somos todos culpados perante Deus: “Não há um justo, nem um sequer”, “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Devemos esquecer judeu e gentio e todas as outras distinções. Há somente um caminho da salvação, o caminho da fé. Se havermos de ser cristãos, temos que tornar-nos cristãos do mesmo modo. Se você foi “bom” ou “mal” em sua vida passada, não importa. Se você foi criado num lar religioso e sempre foi à igreja, ou se a sua criação e a sua vida passada foi ímpia, é igualmente irrelevante. Tudo está em Cristo, não há nada em nós. É isto que nos faz todos um.

Vejam, diz o apóstolo, que não quebrem a unidade, vejam que a preservem. Há, infelizmente, muitas maneiras pelas quais podemos romper a unidade com relação a esta fé. Uma delas é introduzir algo nosso. A nossa “vida virtuosa” e as nossas “boas obras”, estaremos dizendo que somos melhores do que os outros (ver Lc 18:10-14). Começamos a gabar-nos do que estamos fazendo ou do que somos, com isso, desacreditando a fé e causando divisão. Qualquer jactância acerca das nossas boas obras, das nossas vidas, da nossa piedade, e até da nossa , é negação do princípio de fé. Estamos divididos em nossos conceitos sobre profecia, em nossas idéias concernentes ao batismo, e sobre muitas outras coisas. Se nos jactarmos do nosso entendimento e nos orgulharmos dele, e desprezarmos o homem que sabe menos, estaremos rompendo a unidade e violando o princípio de fé. Você sabe que não pode apoiar-se em nada que haja em você; que não há nada em você que conte, que tudo está em Cristo; Você está se apoiando em seus antecedentes? No fato de que os seus pais podem ter sido cristãos, e que você foi sempre educado num lar piedoso e numa atmosfera piedosa; que você sempre freqüentou igreja, que você não cometeu adultério ou assassínio ou quaisquer pecados grosseiros, que você sempre procura fazer o bem? Se a sua resposta for positiva, você está fora da “uma só fé”, e está fora de Cristo. Isaías dia que toda a sua justiça não passa de: (64:6).

trapo da imundícia

A mensagem da salvação é sobre “a justiça de Deus pela fé”, “de fé em fé”, “O justo viverá pela fé”. A “uma só fé” é a fé que reconhece esta verdade, dá graças a Deus por ela, regozija-se nela. É a fé que, com o apóstolo Paulo, diz: “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gálatas 6:14).

Conceda-nos Deus que todos nós tenhamos a “uma só fé”. A “uma só fé”, a fé justificadora. Isso, e somente isso, é essencial.

“Nada trago nas mãos, só me apego à Tua cruz”