CAPÍTULO 92
Por: Luiz Fontes
Queelata – 19ª estação – parte 2
TEXTO: Números 16; Judas 11
Vamos a mais uma palavra da parte do Senhor acerca de Queelata – 19ª estação. Com a ajuda do Espírito Santo vamos entender toda a situação que envolve esta estação. Nós sabemos que os textos relativos a esta estação ocorrem em Números 16. O versículo 1, diz assim:
Corá, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben.
Aqui podemos ter o vislumbre dessas pessoas, quem eles eram. Veja que a Palavra diz “Corá, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi”. Corá, filho de Isar, Isar filho de Coate, Coate filho de Levi, o qual era o terceiro filho de Jacó e Lia (ver Gn 29:34). Mas dentro do contexto do que estamos estudando aqui Corá era um levita – alguém chamado para servir no encargo da obra do ministério. Depois nós temos Datã e Abirão que eram filhos de Eliabe e Om, filho de Pelete, filho de Rúben. Eliabe e Pelete e Om eram filhos de Rúben. Rúben era filho primogênito de Jacó. E estes eram aciãos e príncipes do conselho de Israel. Devemos notar que a Palavra é muito clara. Veja que eles eram príncipes da congregação, foram eleitos por ela, eram varões de renome. Isso é muito significativo! Porque nós vemos aqui que esses homens eram aciãos, príncipes do conselho de Israel. Essas eram pessoas que tinham autoridade, que exerciam autoridade. Mas que não tinham claro que, autoridade que se exerce, não pode ser exercida como se quer. Não é algo segundo a nossa capacidade, segundo a nossa vontade. Autoridade na vida do povo de Deus deve ser conforme a vontade de Deus.
Na epístola de Judas, versículo 11, temos uma palavra muito importante com relação a tudo isso. Esse é um texto do Novo Testamento que corresponde a essa jornada. Por isso nós temos que ler. Judas 11, diz assim:
Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá.
Veja bem: “revolta de Corá”! Todos nós sabemos que a epístola de Judas está na esfera do contexto da história da Igreja. E quando tomamos esta frase “revolta de Corá”, no original grego, “revolta” é “antilogia”, esse é um vocábulo que ocorre apenas quatro vezes no Novo Testamento. Primeira vez ocorre em Hebreus 6:16, fala de “contenda”. A segunda vez ocorre também em Hebreus 7:27, fala de “dúvida”. Ainda em Hebreus 12:3, fala de “oposição”. E por último aqui em Judas 11, que fala de “revolta”. Então essa palavra fala de contenda, dúvida, oposição, revolta. O que sabemos é que Corá juntou em volta de si um grupo de pessoas de renome em Israel para se levantarem contra a autoridade de Deus na vida de Moisés e Arão. Embora Corá fosse um levita e ministrasse diante de Deus, queria algo mais – poder, influência, reconhecimento. Ele não se contentava com a posição a qual Deus havia dado a ele. O que vemos claramente é que esta revolta de Corá não era diretamente contra Moisés e Arão, era contra Deus, contra a autoridade de Deus na vida de Moisés e Arão. A revolta de Corá levantou 250 homens para a morte. É isso que está em Números 16:35. Agora o que Judas está nos dizendo é que estas mesmas coisas ocorrem na Igreja – porque Judas não menciona isso de uma forma aleatória. O que está explicito aqui é que esta realidade de rebeldia contra a autoridade de Deus na vida daqueles os quais Ele escolhe, se manifesta também dentro do nosso contexto. Irmãos e irmãs, retornando para Números 16, percebemos que aqui nós temos homens de valores, importantes. A tribo de Levi era muito importante, pois tinha o encargo da obra e do ministério no Tabernáculo. A tribo de Rúben tinha preeminência da primogenitura. Sabemos que Rúben perdera, pois maculou o leito do seu pai, mas havia esse respaldo, respeito, não podemos esquecer isso. Mas mesmo assim ainda havia de uma forma clara a exposição na Palavra de Deus que esses homens eram príncipes, anciãos, homens respeitados. Então eles persuadiram uma assembleia, a qual nós chamamos aqui de Queelata, que é o nome desta 19ª estação.
Então em Números 16:2,3 diz:
2 - Levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinqüenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, eleitos por ela, varões de renome, 3 - e se ajuntaram contra Moisés e contra Arão e lhes disseram: Basta! Pois que toda a congregação é santa, cada um deles é santo, e o SENHOR está no meio deles; por que, pois, vos exaltais sobre a congregação do SENHOR?
Será que podemos imaginar o peso dessas palavras? Eles falavam com Moisés e Arão como se fossem eles que os tivessem tirado da terra do Egito. Como se fossem Moisés e Arão que os estivessem guiando durante todo aquele tempo pelo deserto. Agora é muito bom sabermos que eles não puderam prosseguir. Agora o povo está retornando, e é neste retorno que a revolta se inicia. Porque eles achavam culpa em Moisés e Arão, porque eles estão retornando. E nesse retorno a primeira estação é Queelata, porque estão retornando para o Mar Vermelho, não pelo Golfo de Suez, e sim pelo Golfo de Ácaba (ver Dt 2:1). E eles vão rodear a planície, o Monte de Seir, região cuja extensão é de 160 km. Eles ficaram rodeando aqui nesta região em muitas estações. Isto está muito claro para nós. E o que iremos aprender, estudar, aqui é justamente isso. E agora neste momento de incerteza, de uma aparente insegurança (o que não é verdade) esses homens estavam achando que Moisés e Arão estivessem enfraquecidos porque o povo não podia entrar na terra. E eles não entraram na terra por culpa de Moisés e Arão, e sim por causa daqueles 10 espias que inflamaram o povo contra Deus e contra Moisés e Arão, lá em Ritma, quando viram os gigantes e as cidades fortificadas. Não foi isso? Sim, foi isso. É o que nós temos que entender aqui (ver Nm 15). Todas essas estações fazem parte desse contexto aqui de Queelata. Então tudo isso é muito importante.
Agora, Corá juntamente com Datã e Abirão inflamaram 250 pessoas, e se rebelaram contra a Autoridade de Deus na vida de Moisés e Arão. Esses homens estavam equivocados. Estavam olhando os instrumentos de Deus e não discernindo o Deus que está por trás dos Seus instrumentos. Eles estavam se opondo ao próprio Deus quando pretendiam mudar a delegação da Autoridade divina, a qual Deus havia estabelecido. Esse foi um grave erro que eles cometeram!
Precisamos saber que a Autoridade de Deus é algo que flui do Seu trono. O trono de DEUS é a revelação da Sua autoridade, da Sua majestade. DEUS age a partir do Seu trono, e o Seu trono está estabelecido sobre autoridade. Todas as coisas são criadas pela autoridade de DEUS e todas as leis físicas do universo são mantidas através da autoridade. Nós que desejamos servir ao SENHOR necessitamos conhecer a natureza da autoridade de DEUS.
Você se lembra da origem de satanás? Havia um arcanjo, e ele foi transformado em satanás. Por quê? Porque tentou usurpar a autoridade de DEUS. Foi a rebeldia que provocou a queda. Tanto Isaias 14.12-15 como Ezequiel 28.13-17 falam da ascensão e queda de satanás ou de Lúcifer. A primeira passagem, a de Is 14, enfatiza como satanás violou a autoridade de DEUS. A segunda, de Ez 28, enfatiza sua transgressão contra a santidade de DEUS. Então, primeiro satanás procura ferir a questão da Autoridade, para depois tocar na questão da Santidade de Deus. Irmãos e irmãs, vamos extrair algumas lições aqui. Quando servimos a DEUS não devemos desobedecer às autoridades porque isso é um princípio satânico. Como podemos pregar a CRISTO de acordo com o princípio de satanás? Como vamos sustentar o Testemunho de Deus nesse mundo quebrando o princípio de autoridade? É possível em nossa obra permanecermos com CRISTO em doutrina e, ao mesmo tempo, permanecermos com satanás em princípio. Isso é muito perigoso, porque é sutil, não percebemos. Quanto à doutrina nós estamos muito bem, pregamos a doutrina, mas com relação ao princípio da nossa conduta somos rebeldes. Então, é importante permanecermos na doutrina, mas precisamos estar fundamentados no princípio da autoridade. Porque não podemos quebrar o princípio da autoridade, não adianta ser fiel à doutrina se você é rebelde. O Senhor não quer isso para nós. O medo de satanás não é quando pregamos a Palavra, e sim quando nos submetemos à autoridade de DEUS. Satanás sabe que se quebramos princípios a nossa mensagem é diluída, não tem expressão, nossa doutrina não tem eficácia. Quantas pessoas são fieis no caráter da doutrina, mas não têm expressão na sua conduta, isto é, a doutrina não trás expressão naquilo que ele fala. Porque falta a autoridade, não apenas autoridade naquilo que ele fala, mas em não viver no princípio da autoridade. Isso é muito sério!
Veja que esses homens dizem assim: “Basta!” – olhe a palavra que eles dizem. Eles chegam até Moisés e Arão e dizem “Basta!”. Aqui eles querem substituir a teocracia, que é o governo de Deus, pela democracia, ou melhor, pela “carnocracia”, que é o governo da carne, do eu. Temos aqui um ambiente muito perigoso. Moisés e Arão estavam ali, não pela vontade deles, mas pela vontade de Deus. Moisés e Arão sabiam o quanto aquele encargo não era fácil. Desde Êxodo 3, como Moisés resistiu a esse encargo, como durante toda peregrinação falou com Deus acerca do peso desse encargo. Sentia uma enorme dificuldade em face de sua fraqueza e o peso dessa responsabilidade. Ele dependia 100% de Deus. Irmãos e irmãs, tudo isso é muito sério, precisa ser considerado por nós.
Precisamos ver três princípios para uma autoridade delegada para que nós possamos viver uma vida cristã sadia, uma vida de acordo com o caráter de Deus na sua Palavra.
Primeiro ponto a vermos é que ninguém pode constituir se uma autoridade. Um texto para meditarmos está em Romanos 13:1: “não há autoridade que não proceda de Deus”. Só aquilo que procede de DEUS constitui autoridade e se torna digno de obediência. A autoridade delegada expressa somente a autoridade de DEUS. Não podemos gerar a autoridade em nós mesmos. Conhecer a vontade de DEUS é um princípio fundamental para expressar a autoridade de DEUS. Nossa capacidade intelectual não é requisito para expressar a autoridade divina. Somente a compreensão da vontade de DEUS e a obediência a Sua vontade constituem a autoridade espiritual. Precisamos conhecer profundamente a mente de DEUS e seus caminhos, para que venhamos conhecer este assunto de uma maneira muito clara na nossa experiência cristã.
O princípio de DEUS para estabelecer Sua autoridade através de alguém é pelo que essa pessoa tem de conhecimento da vontade de DEUS. Esse é o caminho nobre para entendermos como exercer autoridade espiritual. Por isso que há tanta confusão hoje no meio cristão, por não conhecer a mente de Deus, a vontade de Deus, o plano de Deus, o propósito de Deus. Como está em Juízes 17: “cada um vive como bem entender”.
Segundo princípio - para que nós venhamos compreender o que é autoridade espiritual precisamos anular toda vontade da nossa alma. Em Mt 16.25,26, diz assim:
25 - Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. 26 - Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?
Aqui DEUS nos chama para expressar a Sua autoridade e não para substituí-LO. Negar a nós mesmos e anular a nossa própria vontade. Esse anular significa o caminho do quebrantamento. Toda nossa vida almática deve experimentar o quebrantamento. Foi por esse caminho que os apóstolos trilharam com o propósito de expressar a autoridade de DEUS. O quebrantamento gera em nós o temor de DEUS. Jamais poderemos usurpar o lugar que pertence a CRISTO na Sua Igreja. Precisamos ser esmagados no nosso ego para que tenhamos uma vida livre do controle da alma, da nossa mente, vontade, emoção, que são as faculdades da alma. Para não permitir que nosso ponto de vista venha sobrepujar os nossos irmãos. Enquanto não formos anulados na nossa vida, na nossa alma, não experimentaremos a autoridade delegada de DEUS fluindo na nossa vida. A autoridade de DEUS flui para cada um de nós, isto é, através de mim, de você para outros. A diferença está no que DEUS é e não no que eu sou. Isso tem que ser prático, claro e vivo na nossa experiência cristã.
E, por último, para entendermos o que é autoridade espiritual delegada, expressada, precisamos compreender que a vida cristã é ascensional e relacional. Esta é uma exigência, um princípio fundamental para aqueles que estão exercendo autoridade delegada por DEUS. Está é uma vida de íntima comunhão com DEUS. Quem não tem comunhão com DEUS não conhece a DEUS. Somente aqueles que vivem uma vida de íntima comunhão com DEUS podem ministrar aos irmãos, pode ministrar na Igreja. Por ser representativa na sua natureza, a autoridade só pode ser expressa por aqueles que vivem na presença de DEUS. Por isso Moisés em Ex 33.1-3 sabia que seria melhor permanecer naquele deserto do que possuir a terra de Canaã sem a presença de DEUS. Veja que o governo de Saul foi marcado pela rebelião a DEUS, porque, embora tenha governado quarenta anos, nunca se preocupou em trazer a arca para Jerusalém. A Arca estava fora de Jerusalém. A arca era a expressão do testemunho da presença de DEUS. Saul nunca se preocupou. Foi Davi quem trouxe a Arca lá da casa de Abinadabe para Jerusalém. Precisamos entender que no governo da casa de DEUS, quando a comunhão cessa, a autoridade é interrompida.
Que Deus nos ajude e nos faça aprender Sua Palavra e sua Vontade. Que Ele nos abençoe.
Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. Hebreus 4:12
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
ESTUDO SOBRE A EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS
CAPÍTULO 3 - "OS DOIS MISTÉRIOS"
Por: D.M. Lloyd Jones
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação como acima em pouco vos escrevi; pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um só corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder." – Efésios 3:2-7
Ao darmos continuidade ao nosso estudo desta frase que vai do versículo 2 ao versículo 7, lembramos que estamos interessados em suas declarações, não simplesmente porque fazem parte da exposição desta grande Epístola, mas porque elas têm uma significação prática muito importante para nós. Estamos vivendo num mundo em que muitos cristãos estão sofrendo agudamente porque são cristãos. No caso de alguns deles, sua fé pode ficar abalada, e a nossa fé pode ficar abalada por causa daquilo que eles têm que suportar. Na verdade, poderá vir o dia em que nós, cristãos, talvez tenhamos que suportar provações semelhantes neste país. O apóstolo nos ensina como estar preparados para essa eventualidade. Todavia, mesmo sem isto, que poderá ser mais proveitoso do que meditar na grandeza desta plano de salvação? Somente quanto compreendermos isto é que louvaremos a Deus como devemos, e Lhe prestaremos culto como se espera que o façamos.
O apóstolo está lembrando a estes cristãos efésios a extraordinária maneira pela qual Deus planejara levar-lhes o evangelho. Paulo os faz lembrar-se de que ele, dentre todos os homens, recebera o grande privilégio de pregar-lhes em Éfeso; ele, apóstolo de igual nível e posição dos outros apóstolos, apesar de nunca ter estado com o Senhor nos dias da Sua carne como eles, e apesar de não ter recebido sua comissão da parte do Senhor enquanto Ele estivera na terra, como acontecera com os outros apóstolos. Não obstante, acrescenta ele, fora¬-lhe dada uma revelação especial no caminho de Damasco e, portanto, ele é um apóstolo da mesma categoria dos outros, e nisto se gloria.
Passamos agora à questão quanto à natureza deste mistério que lhe fora revelado. Nesta longa frase o apóstolo emprega a palavra "misté¬rio" duas vezes, nos versículos 3 e 4; primeiro, "como me foi este mistério manifestado pela revelação" - depois, na Versão Autorizada inglesa há uma afirmação entre parênteses. Infelizmente, outras ver¬sões, entre elas a Versão de Almeida, tanto a Edição Revista e Corrigida como a Edição Revista e Atualizada no Brasil, não utilizam os parên¬teses, e isto confunde a questão. A Versão Autorizada acertadamente começa com parêntese ("como acima em pouco vos escrevi;" - quer dizer, "quando reexaminais isso" - "pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo"). A seguir, depois de fechar o parêntese, o trecho continua: "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens". Fica claro que a expressão entre parênteses é definidamente um parêntese. A afirmação principal é: "Como me foi este mistério manifestado pela revelação, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo". As palavras entre parênteses são uma afirmação subsidiária ("como acima em pouco vos escrevi."), Paulo se refere aí, não alguma outra suposta Epístola, e sim ao que já disse nos capítulos 1 e 2. Hoje expressaríamos isto com as palavras: "Como eu disse acima, como vocês poderão reler". O apóstolo os faz lembrar-se de que ele já lhes indicou algo da sua "compreensão do mistério de Cristo".
Está bem claro que o apóstolo está empregando a palavra mistério com relação a duas coisas diferentes. Já definimos “mistério” como tendo o sentido de algo que a mente humana não pode alcançar por seus próprios esforços desassistidos, e que só pode ser revelado pelo Espírito. Não significa algo nebuloso ou incerto sobre o qual nunca se pode ter idéia clara; porém algo que, sem a iluminação e a revelação do Espírito Santo, nunca poderemos compreender. Ele utiliza o termo em dois sentidos. O mistério a que se refere no parêntese, no versículo 4, é "o mistério de Cristo". Podemos denominá-lo mistério geral. Mas o que ele está realmente interessado em desenvolver é outro mistério, o mistério que ele descreve nos versículos 5 e 6. Este é um mistério que "noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros". Este é o mistério particular.
Este esclarecimento é essencial, pois, se não estivermos cientes da distinção, provavelmente ficaremos atrapalhados e confusos quanto à declaração inteira. Mais uma vez é interessante observar, não somente como funciona a mente deste grande apóstolo, mas também seu espírito. Ao que parece, é como se houvesse certas coisas que o apóstolo não pode deixar de fazer. Embora isto cause estrago em seu estilo literário (como vimos), parece que ele é totalmente incapaz de controlar-se. Assim, conquanto esteja primordialmente interessado em expor o mistério particular, não pode conter-se de dizer uma palavra sobre o mistério geral.
Começamos, pois, com o mistério geral, o mistério a que ele se refere no versículo 4 e que descreve como o "mistério de Cristo". Ele se refere àquilo que já esteve expondo a estes efésios. Vocês não precisam ficar na incerteza, parece dizer ele, quanto ao meu conheci¬mento desta mensagem a mim confiada; já lhes disse o bastante, já lhes escrevi o bastante para que tenham certeza. O "mistério de Cristo" é simplesmente outra maneira de referir-se a toda a mensagem do evangelho, ou a toda a verdade concernente ao Senhor Jesus Cristo; pois, na realidade, Ele é o evangelho. O evangelho está todo "nEle". Noutras palavras, o apóstolo está se referindo à mensagem a ele confiada, mensagem que ele já tinha pregado oralmente a estas pessoas. E essa mensagem é Cristo, o mistério de Cristo. Ninguém pode ler os escritos de Paulo sem ver que é sempre este o seu grande tema e a sua consumidora paixão. Leiam as epístolas de Paulo e vão pondo no papel todas as referências que ele faz a Cristo, ao Senhor Jesus Cristo, a Cristo meu Senhor, e assim por diante. É surpreendente e espantoso. Como alguém já o expressou, Paulo era um homem "intoxicado de Cristo". Não admira que ele diga: "Para mim o viver é Cristo" - Cristo é o princípio, o fim, o centro, a alma, tudo! Sua mensagem era que tudo que Deus tem para o homem está em Cristo, e em nenhum outro lugar. Assim o vemos escrever em sua Epístola aos Colossenses estas palavras: "Em quem (em Cristo) estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" (2:3). Tudo está em Cristo; e em nenhum outro lugar. Portanto, Paulo não pode passar a tratar do mistério particular sem dizer uma palavra acerca deste grande mistério geral.
O mesmo elo de ligação se vê na Primeira Epístola de Paulo a Timóteo, uma epístola particularmente prática e pastoral em que ele instrui Timóteo sobre a ordenação de presbíteros e diáconos, e sobre outras questões. O capítulo três é uma das passagens mais práticas de todos os seus escritos; mas aqui de novo ele é arrastado pelo seu tema dominante. Preocupa-o que Timóteo saiba conduzir-se "na casa de Deus, que é a igreja de Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade". A seguir, repentinamente: "E sem dúvida alguma grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória" (3:16). "Grande é o mistério da piedade!".
Paulo não pode deixar de fazer esta declaração porque a vinda de Cristo ao mundo é a coisa mais tremenda, mais emocionante, mais grandiosa e mais gloriosa que já aconteceu na história. O mistério é a espantosa maneira pela qual Deus enviou a salvação aos homens; é a maneira pela qual Ele o fez; é tudo quanto aconteceu com o Senhor Jesus Cristo e por meio dEle. Que mistério! Quem jamais teria tido um simples vislumbre dele, quem jamais o teria conhecido, não fora a iluminação, a revelação que só o Espírito Santo pode dar!
Vamos examiná-lo de novo. Nasce um bebê em Belém e é posto numa manjedoura. Isso acontece muitas vezes. O nascimento de um bebê! Milhares de bebês nascem diariamente. Mas "O Bebê de Belém" é o maior mistério que o mundo já conheceu porque aquela criança, aquele bebê, é o eterno Filho de Deus. O mistério está em que resultou em “duas naturezas numa pessoa!” Ele é Deus, Ele é homem. Há estas duas naturezas nEle e, todavia, Ele não é duas pessoas é uma. "Não entendo isso", dirá alguém. Naturalmente que não, e não se espera que entenda! Se você pensa que a sua mente é suficientemente grande para captar e apanhar esse conceito, será melhor pensar de novo. Este é "o mistério da piedade". Este homem, o apóstolo Paulo, que provavel¬mente o penetrou mais profundamente que todos quantos já viveram, simplesmente recua e diz: "Grande é o mistério da piedade". Este lhe foi revelado, de modo que ele sabe que há duas naturezas numa só Pessoa. Agora ele sabe quem é essa pessoa; não por um processo dele próprio, mas, como ele nos diz, pela revelação vinda mediante o Espírito Santo. De fato o Filho mesmo lho dissera quando, no caminho de Damasco, perguntara: "Quem és tu, Senhor?" - "Eu sou Jesus a quem tu persegues”. Esse é o mistério de Cristo! Este é o meio divino de salvação. Deus é Todo-poderoso, o eterno e sempiterno Deus, para quem as nações são “como o pó miúdo das balanças", são vaidades, são menores e mais leves que a vaidade. Foi Ele que do nada fez tudo e disse: "Haja luz, e houve luz". Assim teríamos pensado que, quando Ele' desejasse salvar o homem e o mundo, tornaria a proferir alguma palavra grandiosa que faria o universo inteiro balançar e tremer. Teríamos esperado alguma dramática exibição de poder pelo qual Deus salvaria os homens e destruiria o mal. Mas Deus não agiu dessa maneira. Seu meio de salvação acha-se neste mistério de Cristo num, num frágil bebê. Não há nada que seja mais fraco ou mais frágil; nada que seja menor, nada que seja mais indefeso. Esse é o método de Deus!
Depois considere tudo que aconteceu a Ele e com Ele. Procure contemplar todo o processo da encarnação. Considere como Ele Se despojou da insígnia da Sua eterna glória para nascer como um bebê. Depois continue a pensar em Sua humilhação e em tudo que Ele suportou e sofreu; e então a morte, o sepultamento, a ressurreição e a ascensão. Esse é o caminho da salvação estabelecido por Deus! Esse é o modo como Deus trata as críticas condições do homem, o problema humano! Esse é o meio pelo qual Deus reconciliou conSigo os homens e pelo qual produzirá finalmente ordem e glória do caos das coisas como estas são agora! Esse é o mistério ao qual Paulo está se referindo! Esse é o mistério, a compreensão que lhe fora dada do mistério de Cristo!
Deixem-me fazer uma pergunta: "o mistério de Cristo" é o interesse mais absorvente da sua vida? O "mistério de Cristo" é, para vocês, a coisa mais comovente do mundo? Está ele no centro das suas vidas, ocupa ele a parte suprema dos seus corações, o ponto central das suas meditações? Nas Escrituras Cristo está sempre nessa posição central. Os nossos hinos mais grandiosos olham para Ele, contemplam-nO e, com Paulo, expressam grande admiração face ao mistério. O mistério de Cristo! Este nada dizia aos judeus e aos gentios. Esta é a última Coisa em que Paulo jamais teria pensado ou imaginado. Mas é fato, é evangelho. É o que pessoalmente Cristo tornara conhecido a Paulo na estrada de Damasco e o comissionara para pregar aos judeus e aos gentios, dizendo-lhe que somente nEle se Pode obter a remissão dos pecados, a vida eterna e a esperança da glória eterna.
Creio que já não estamos tão surpresos como talvez estávamos quanto à razão pela qual Paulo fez este parêntese, deixando de lado o estilo. Muitas vezes achei que grande parte da explicação do trágico estado da Igreja moderna está no fato de que já não temos parênteses! Somos perfeitos demais, a nossa forma literária é soberba; o ensaio pode ser belo, mas falta vida, falta realização. Somos demasiadamente auto-controlados; e isto é porque não temos Visto “o mistério de Cristo". Graças a Deus pelos parênteses que nos lembram "o mistério de Cristo"!
Devemos agora dirigir a atenção ao mistério particular. O mistério particular a que o apóstolo começou a referir-se no versículo 3, é por ele retomado agora no versículo 5 - "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da prol?essa em Cristo pelo evangelho". Esta porção se refere à matéria particular das relações entre judeus e gentios na Igreja cristã. Diz-nos o apóstolo noutro lugar que se gloria no fato de que ele é, em particular, “o apostolo dos gentios", e se gloria nesse encargo. Ele se refere a isso nesta altura porque está escrevendo aos cristãos efésios, que tinham sido pagãos, e o seu objetivo, como eu já disse, é habilitá-los a dar-se conta da maravilha e do portento da sua salvação.
Mas nós temos nosso próprio motivo para dar cuidadosa atenção a esta declaração particular. Digo com a maior franqueza que preferiria não tratar deste assunto, porém o trabalho da pregação não é só exortar e consolar, e sim também instruir; e é só quando compreendemos as doutrinas com as nossas mentes que podemos viver verdadeiramente a vida cristã e desfrutá-la, como é o seu propósito para nós. Sei que há aqueles que usam certas "Bíblias" com notas que dão muita ênfase a esta declaração particular, e dela constroem toda uma perspectiva e esquema de ensino. Refiro-me ao ensino comumente conhecido como dispensacionalismo e sei que há sempre o perigo, quando vemos notas na Bíblia, de crer inconscientemente que as notas são inspiradas como o texto. Temos a tendência de as engolir e tomá-las como autênticas. Portanto, somos Impulsionados a ver essa declaração a partir desse ponto de vista particular.
O ensino dispensacionalista afirma que todas as promessas que se acham no Velho Testamento foram feitas aos judeus somente, e a estes se aplicam; Isto e, não se aplicam à Igreja; afirma-se que a Igreja Cristã é algo que "entra" - este é o termo que empregam - como uma espécie de "parêntese". Os dispensacionalistas sustentam que quando o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo, veio para oferecer o reino dos céus aos judeus, e foi somente porque os judeus o recusaram que a idéia da Igreja foi introduzida. Se os judeus tivessem aceitado o reino dizem eles, nunca teria existido Igreja Cristã nenhuma. No entanto tendo os judeus rejeitado o reino, a Igreja foi introduzida como urna nova dispensação, como uma espécie de parêntese. A Igreja terá fim e, então, mais uma vez haverá uma restauração dos judeus como nação, e Cristo estabelecera Seu reino entre eles. Traçam uma aguda linha de divisão entre a Igreja e o reino. Dizem eles que os judeus ainda constituem um povo separado e especial, e que as profecias do Velho Testamento só se aplicam a eles.
O significado disto para a nossa posição hoje é que aqueles que acreditam no ensino dos dispensacionalistas estão ocupados demais pregando sermões e fazendo discursos sobre o Egito e sobre o que está acontecendo na Palestina e no Oriente Próximo. Alguns têm até a pretensão de que podem predizer o que vai acontecer, e quando. Encontraram isso tudo nas Escrituras, dizem eles. Por esta razão fazem grande uso da declaração particular que estamos examinando. Salientam que o apóstolo diz: "Como me foi este mistério manifestado, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens", e param nisso. Depois dão prosseguimento, argumentando que estas palavras deixam perfeitamente claro que o "mistério" pertencente à Igreja não foi conhecido sob a antiga dispensação; na verdade, enquanto não foi revelado ao apóstolo Paulo. De fato alguns se aventuram a afirmar que em parte alguma o Velho Testamento ensina que os gentios seriam salvos.
Há só uma resposta a tal ensinamento. Se os seus expositores lessem o Velho Testamento sem preconceito, veriam muitas referências à matéria em discussão entre nós. A promessa foi feita a Abraão, como Paulo no-lo faz recordar no capítulo três de Gálatas: "Todas as nações serão benditas em ti" (3:8). Em Isaías há referências às "ilhas", aos "gentios" etc. Essa é a resposta pura e simples. Mas há outras respostas, e mais importantes, a modo de réplica aos que dizem que a Igreja, como tal, não foi conhecida sob a antiga dispensação. Aqui vai uma citação das notas de uma bem conhecida "Bíblia". “A Igreja corporativamente não está na visão dos profetas do Velho Testamento”, e depois, entre parênteses, para provar seu ponto de vista, "(Efésios 3: 1-6):'. Efésios 3: 1-6, segundo essa afirmação, indica que a Igreja, corporativamente, não está na visão do profeta do Velho Testamento. Essa citação acha¬-se na introdução dos livros proféticos do Velho Testamento naquelas Notas particulares. Talvez eu deva acrescentar, para tomar completa a minha exposição, que há um sistema de ultra-dispensacionalismo associado ao nome do Dr. Bullinger, o qual vai tão longe que chega a dizer que é somente nas Epístolas que temos realmente o evangelho do Novo Testamento aplicável a nós. O Dr. Bullinger ensinava que os Evangelhos nada têm a ver conosco, que eles eram só para os judeus; é aqui no capítulo 3 de Efésios que temos a mensagem para esta era, para judeus e gentios na Igreja.
Qual será a resposta a este ensino? Certamente a doutrina concernente à Igreja foi claramente ensinada por nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Considere o que transpirou em Cesaréia de Filipe, quando o Senhor disse a Pedro: "Sobre esta rocha edificarei a minha igreja". As famosas Notas têm que admitir que de fato Ele disse isso, mas afirmam que Ele não desenvolveu a idéia. O fato, porém, é que Ele o disse; assim, esta verdade concernente à Igreja não foi revelada somente a Paulo; já havia sido revelada. O Senhor a ensinara. Além disso, Pedro, pregando no dia de Pentecoste disse: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe". É uma clara referência aos gentios. Do mesmo modo, é óbvio que Pedro e João compreenderam este principio quando reconheceram que os samaritanos, que não eram judeus, também tinham recebido os benefícios da salvação, pelo que impuse¬ram as mãos sobre eles para que recebessem o Espírito Santo. De novo Pedro, no dramático acontecimento que ocorreu antes de sua ida à casa de Cornélio, foi levado a ver a mesma verdade. Foi necessária uma visão oriunda do céu para fazer Pedro enxergá-la. Como judeu, ele não podia entender isto. A despeito do fato de que ele era um homem salvo e de que passara pela experiência do Pentecoste, a idéia de que os gentios haveriam de tomar-se co-herdeiros com os judeus era, em sua opinião, impossível. Mas com a visão que teve, e havendo testemunha¬do o cair do Espírito Santo sobre Cornélio e sua casa, ele viu esta verdade uma vez e para sempre, e assim admitiu os gentios na Igreja. Ele foi criticado por fazê-lo e se defendeu, como se nos diz nos capítulos 11 e 15 do livro de Atos dos Apóstolos. Fica, pois, claro que, antes de Paulo haver-se tomado apóstolo aos gentios, esta verdade já fora pregada.
No entanto, esta verdade realmente se encontra no Velho Testamen¬to. Há passagens, como Ezequiel capítulo 36 e outras, que mostram este retrato da Igreja. E como Paulo argumenta no capítulo três de Gálatas, na promessa a Abraão ela está perceptivelmente implícita. Quão importante é dar-nos conta do perigo de começar com uma teoria e impô-la às Escrituras! Eis o que de fato diz o apóstolo: "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens" - e então vem não um ponto final, e sim uma vírgula - "como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas". O apóstolo não está dizendo que o mistério nunca fora revelado antes. O que ele está dizendo é que ele não fora revelado antes “como", "na medida em que", agora foi revelado. Lá estava em embrião; agora está em plena florescência e desenvolvimento. Lá estava em sombra, como uma sugestão; agora está plenamente revelado. A expressão é, "como agora tem sido revelado...”. Como são extraordinárias as sutilezas da mente humana, mesmo quando cristã, mesmo após ter recebido o Espírito Santo! Não é questão de desonestidade. Estou apenas indicando que as nossas mentes são falíveis e que, portanto, temos que ser cuidadosos quando estudamos as Escrituras para não suceder que elaboremos um sistema completo de doutrina baseados num texto ou numa compreen¬são errônea de um texto.
O mistério agora feito claro e simples não é apenas o fato de que é para os gentios serem salvos, mas que é para os gentios e os judeus estarem juntos na Igreja Cristã - em estreitas relações uns com os outros. Paulo não está dizendo que agora se deve permitir que os gentios se tornem judeus prosélitos. Nisso os judeus já criam; na verdade eles tinham praticado o proselitismo. Muitos gentios chega¬ram a ver a verdade de Deus nas Escrituras do Velho Testamento, e os judeus os instruíam e os circuncidavam e, assim, eles se tomavam judeus prosélitos. Permitia-se que o gentio entrasse, mas somente como prosélito; não era ainda um judeu completo. Não obstante, o mistério que fora feito claro para Paulo e para os demais apóstolos era que os gentios agora tinham ingressado, não como acréscimo, nem como prosélitos, mas haviam entrado nesta nova realidade, a Igreja, exatamente da mesma maneira como o judeu. Ele está afirmando que agora a Igreja é o reino, que aquilo que a nação judaica era no Velho Testamento, a Igreja é agora; e que aquela distinção antiga não existe mais. Noutras palavras, ele está dizendo que se cumpriu a profecia do Senhor registrada em Mateus 21 :43: "Portanto eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos". O apóstolo Pedro repete isto a seu modo aplicando-o à Igreja, consti¬tuída de judeus e gentios, as próprias palavras que Deus empregara, mediante Moisés, referentes à nação de Israel, em Êxodo, capítulo 19: "Vós sois o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido" (ou "um povo peculiar"). A Igreja é a forma atual do reino.
O ponto defendido pelo apóstolo é que a velha distinção entre os judeus e os gentios foi abolida uma vez por todas. Ele já mostrou isso no capítulo dois, afirmando que "a parede de separação que estava no meio" já não existe, que Cristo a demoliu e criou "um novo homem, fazendo a paz". A antiga distinção se foi. A maneira particular como Paulo o afirma é sumamente interessante. Ele o expressa empregando a palavra "companheiro" três vezes (vs. 3 - 6 Infelizmente a Versão Autorizada (em inglês) e a Versão de Almeida omitem isto e dizem: "co-herdeiro, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa". Todavia, na verdade Paulo disse: "companheiros herdeiros, compa¬nheiros membros do corpo, companheiros participantes da promessa" (ou "co-herdeiros, co-membros do corpo, co-participantes da promes¬sa").
Os gentios, diz ele, devem ser co-herdeiros com os judeus, o que significa que todas as promessas feitas por Deus aos judeus no Velho Testamento estão agora acessíveis aos gentios. O judeu é participante com o gentio, ambos no mesmo nível - igualmente o gentio com o judeu. Não há diferença. Ambos são co-herdeiros e, por assim dizer, têm o mesmo lugar na vontade de Deus; ambos recebem os mesmos benefícios. Isto se refere à nova aliança que Deus tinha prometido. Ele dissera que ia fazer uma nova aliança, não semelhante à que fizera quando os tirara do Egito. Esta é: "Dos vossos pecados e das vossas iniqüidades não me lembrarei mais"; "Serei para vós Deus, e vós sereis para mim um povo". Entretanto isto não é mais somente para os judeus; é também para os gentios; é para mim e para você. Estamos na vontade de Deus, somos herdeiros junto com os judeus, a velha nação, o antigo povo de Deus, nesta admirável promessa dos benefícios da nova aliança.
A segunda expressão é "co-membros do corpo". Poderíamos ter pensado que "co-herdeiros" diz-nos tudo e que não há nada que possa ir alem. Talvez se possa explicar este elemento adicional com uma ilustração. Imaginemos um homem que só tem um filho, mas também um criado da família que está com ele, digamos, há quarenta anos, e que ele passou a considerar quase como filho. Assim, quando ele faz o seu testamento, declara que todos os seus bens deverão ser repartidos entre o seu filho e o seu fiel criado. Um criado pode se tomar co-herdeiro, porém continua sendo criado. Isto não faz dele um membro da família: não significa que ele tem o mesmo sangue; não significa que houve mudança na relação essencial. Por isso o apóstolo acrescenta a "co¬-herdeiros" o termo "co-membros do corpo". É isto que põe abaixo todas as tentativas para fazer perpetuar a distinção entre os judeus e os gentios. Não é, diz Paulo, que os gentios são apenas acrescentados superficialmente a alguma coisa; eles são interligados de forma com¬pacta, unidos como juntas neste corpo. Já não há distinção; não há superioridade, nem inferioridade. O sistema dispensacionalista afirma que há, que existe um "povo celestial" e um "povo terrenal", e que os judeus serão trazidos de volta e que tornarão a receber um lugar muito especial numa era futura. Este ensino é uma negação do que nos é dito na passagem em foco, negação de que tudo isso terminou para sempre, de que há um só corpo, e que o Judeu e o gentio são partes (juntas) Igualmente Implantadas no corpo.
O apóstolo dá mais um passo ainda, dizendo que somos "co-¬participantes da promessa". A luz doutras partes das Escrituras, isto significa duas coisas. Em Gálatas 3: 14 lemos: "Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito". Esta é também chamada "a promessa do Pai", e isso passa como um fio de ouro através do Velho Testamento. É o que aconteceu no dia de Pentecoste que Pedro explicou assim: "Isto é o que foi dito pelo profeta Joel", A promessa do Pai é o derramamento do Espírito e os resultados dele decorrentes. Vocês são co-participantes da promessa, diz Paulo aos efésios, vocês receberam a plenitude do Espírito exatamente como os judeus. Mas eu acredito que as palavras têm mais um sentido. Outra grande promessa foi a da ressurreição e do glorioso reino do Filho de Deus. Paulo afirma isto com muita clareza em Atos 26:6-8, ao fazer a sua defesa perante o rei Agripa e Festo. "E agora", diz ele, "pela esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. À qual as nossas doze tribos esperam chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?" A promessa é que o Messias viria e venceria a morte e o túmulo, e traria à luz a vida e a imortalidade. É a promessa da ressurreição, da ressurreição final, e da vinda do reino glorioso, "novos céus e nova terra, em que habita a justiça". Isso era uma coisa que o judeu pregava acima de tudo mais. Ele teve que sofrer muito em sua vida neste mundo, mas olhava para além disso tudo, como se nos diz em Hebreus, capítulo 11 - ele aguardava o cumprimento daquela promessa, a ressurreição e a vida gloriosa. Primeiro essa promessa estava restrita ao judeu; o gentio estava sem esperança, sem Deus no mundo, como Paulo já dissera no capítulo 2, versículo 12; mas agora diz ele que os gentios são co-participantes da promessa de Deus em Cristo pelo evangelho.
Para nós isto significa que podemos aguardar anelantes a ressurreição do corpo, um corpo glorificado. Podemos aguardar anelantes nossa morada numa nova terra sob novos céus, em que habita a justiça; co¬-participantes da promessa, "Cristo em vós, a esperança da glória".
Esses são os dois mistérios que o apóstolo nos diz que lhe foram dados, para os pregar: o mistério geral, o mistério de Cristo; e o mistério particular de que o propósito de Deus agora é manifesto e está em operação na Igreja; e de que a Igreja é a forma final deste propósito, até completar-se. O judeu e o gentio estão juntos em Cristo, compartem as bênçãos de Deus agora e participarão dos benefícios da glória eterna e sempiterna. Estarão sempre surpresos e maravilhados por toda a eternidade ante a graça de Deus que fez isto possível, que nEle nos juntou e que a nós e aos judeus fez co-herdeiros, co-membros do corpo e co-participantes de tão bem-aventurada esperança.
Por: D.M. Lloyd Jones
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação como acima em pouco vos escrevi; pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um só corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder." – Efésios 3:2-7
Ao darmos continuidade ao nosso estudo desta frase que vai do versículo 2 ao versículo 7, lembramos que estamos interessados em suas declarações, não simplesmente porque fazem parte da exposição desta grande Epístola, mas porque elas têm uma significação prática muito importante para nós. Estamos vivendo num mundo em que muitos cristãos estão sofrendo agudamente porque são cristãos. No caso de alguns deles, sua fé pode ficar abalada, e a nossa fé pode ficar abalada por causa daquilo que eles têm que suportar. Na verdade, poderá vir o dia em que nós, cristãos, talvez tenhamos que suportar provações semelhantes neste país. O apóstolo nos ensina como estar preparados para essa eventualidade. Todavia, mesmo sem isto, que poderá ser mais proveitoso do que meditar na grandeza desta plano de salvação? Somente quanto compreendermos isto é que louvaremos a Deus como devemos, e Lhe prestaremos culto como se espera que o façamos.
O apóstolo está lembrando a estes cristãos efésios a extraordinária maneira pela qual Deus planejara levar-lhes o evangelho. Paulo os faz lembrar-se de que ele, dentre todos os homens, recebera o grande privilégio de pregar-lhes em Éfeso; ele, apóstolo de igual nível e posição dos outros apóstolos, apesar de nunca ter estado com o Senhor nos dias da Sua carne como eles, e apesar de não ter recebido sua comissão da parte do Senhor enquanto Ele estivera na terra, como acontecera com os outros apóstolos. Não obstante, acrescenta ele, fora¬-lhe dada uma revelação especial no caminho de Damasco e, portanto, ele é um apóstolo da mesma categoria dos outros, e nisto se gloria.
Passamos agora à questão quanto à natureza deste mistério que lhe fora revelado. Nesta longa frase o apóstolo emprega a palavra "misté¬rio" duas vezes, nos versículos 3 e 4; primeiro, "como me foi este mistério manifestado pela revelação" - depois, na Versão Autorizada inglesa há uma afirmação entre parênteses. Infelizmente, outras ver¬sões, entre elas a Versão de Almeida, tanto a Edição Revista e Corrigida como a Edição Revista e Atualizada no Brasil, não utilizam os parên¬teses, e isto confunde a questão. A Versão Autorizada acertadamente começa com parêntese ("como acima em pouco vos escrevi;" - quer dizer, "quando reexaminais isso" - "pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo"). A seguir, depois de fechar o parêntese, o trecho continua: "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens". Fica claro que a expressão entre parênteses é definidamente um parêntese. A afirmação principal é: "Como me foi este mistério manifestado pela revelação, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo". As palavras entre parênteses são uma afirmação subsidiária ("como acima em pouco vos escrevi."), Paulo se refere aí, não alguma outra suposta Epístola, e sim ao que já disse nos capítulos 1 e 2. Hoje expressaríamos isto com as palavras: "Como eu disse acima, como vocês poderão reler". O apóstolo os faz lembrar-se de que ele já lhes indicou algo da sua "compreensão do mistério de Cristo".
Está bem claro que o apóstolo está empregando a palavra mistério com relação a duas coisas diferentes. Já definimos “mistério” como tendo o sentido de algo que a mente humana não pode alcançar por seus próprios esforços desassistidos, e que só pode ser revelado pelo Espírito. Não significa algo nebuloso ou incerto sobre o qual nunca se pode ter idéia clara; porém algo que, sem a iluminação e a revelação do Espírito Santo, nunca poderemos compreender. Ele utiliza o termo em dois sentidos. O mistério a que se refere no parêntese, no versículo 4, é "o mistério de Cristo". Podemos denominá-lo mistério geral. Mas o que ele está realmente interessado em desenvolver é outro mistério, o mistério que ele descreve nos versículos 5 e 6. Este é um mistério que "noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros". Este é o mistério particular.
Este esclarecimento é essencial, pois, se não estivermos cientes da distinção, provavelmente ficaremos atrapalhados e confusos quanto à declaração inteira. Mais uma vez é interessante observar, não somente como funciona a mente deste grande apóstolo, mas também seu espírito. Ao que parece, é como se houvesse certas coisas que o apóstolo não pode deixar de fazer. Embora isto cause estrago em seu estilo literário (como vimos), parece que ele é totalmente incapaz de controlar-se. Assim, conquanto esteja primordialmente interessado em expor o mistério particular, não pode conter-se de dizer uma palavra sobre o mistério geral.
Começamos, pois, com o mistério geral, o mistério a que ele se refere no versículo 4 e que descreve como o "mistério de Cristo". Ele se refere àquilo que já esteve expondo a estes efésios. Vocês não precisam ficar na incerteza, parece dizer ele, quanto ao meu conheci¬mento desta mensagem a mim confiada; já lhes disse o bastante, já lhes escrevi o bastante para que tenham certeza. O "mistério de Cristo" é simplesmente outra maneira de referir-se a toda a mensagem do evangelho, ou a toda a verdade concernente ao Senhor Jesus Cristo; pois, na realidade, Ele é o evangelho. O evangelho está todo "nEle". Noutras palavras, o apóstolo está se referindo à mensagem a ele confiada, mensagem que ele já tinha pregado oralmente a estas pessoas. E essa mensagem é Cristo, o mistério de Cristo. Ninguém pode ler os escritos de Paulo sem ver que é sempre este o seu grande tema e a sua consumidora paixão. Leiam as epístolas de Paulo e vão pondo no papel todas as referências que ele faz a Cristo, ao Senhor Jesus Cristo, a Cristo meu Senhor, e assim por diante. É surpreendente e espantoso. Como alguém já o expressou, Paulo era um homem "intoxicado de Cristo". Não admira que ele diga: "Para mim o viver é Cristo" - Cristo é o princípio, o fim, o centro, a alma, tudo! Sua mensagem era que tudo que Deus tem para o homem está em Cristo, e em nenhum outro lugar. Assim o vemos escrever em sua Epístola aos Colossenses estas palavras: "Em quem (em Cristo) estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" (2:3). Tudo está em Cristo; e em nenhum outro lugar. Portanto, Paulo não pode passar a tratar do mistério particular sem dizer uma palavra acerca deste grande mistério geral.
O mesmo elo de ligação se vê na Primeira Epístola de Paulo a Timóteo, uma epístola particularmente prática e pastoral em que ele instrui Timóteo sobre a ordenação de presbíteros e diáconos, e sobre outras questões. O capítulo três é uma das passagens mais práticas de todos os seus escritos; mas aqui de novo ele é arrastado pelo seu tema dominante. Preocupa-o que Timóteo saiba conduzir-se "na casa de Deus, que é a igreja de Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade". A seguir, repentinamente: "E sem dúvida alguma grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória" (3:16). "Grande é o mistério da piedade!".
Paulo não pode deixar de fazer esta declaração porque a vinda de Cristo ao mundo é a coisa mais tremenda, mais emocionante, mais grandiosa e mais gloriosa que já aconteceu na história. O mistério é a espantosa maneira pela qual Deus enviou a salvação aos homens; é a maneira pela qual Ele o fez; é tudo quanto aconteceu com o Senhor Jesus Cristo e por meio dEle. Que mistério! Quem jamais teria tido um simples vislumbre dele, quem jamais o teria conhecido, não fora a iluminação, a revelação que só o Espírito Santo pode dar!
Vamos examiná-lo de novo. Nasce um bebê em Belém e é posto numa manjedoura. Isso acontece muitas vezes. O nascimento de um bebê! Milhares de bebês nascem diariamente. Mas "O Bebê de Belém" é o maior mistério que o mundo já conheceu porque aquela criança, aquele bebê, é o eterno Filho de Deus. O mistério está em que resultou em “duas naturezas numa pessoa!” Ele é Deus, Ele é homem. Há estas duas naturezas nEle e, todavia, Ele não é duas pessoas é uma. "Não entendo isso", dirá alguém. Naturalmente que não, e não se espera que entenda! Se você pensa que a sua mente é suficientemente grande para captar e apanhar esse conceito, será melhor pensar de novo. Este é "o mistério da piedade". Este homem, o apóstolo Paulo, que provavel¬mente o penetrou mais profundamente que todos quantos já viveram, simplesmente recua e diz: "Grande é o mistério da piedade". Este lhe foi revelado, de modo que ele sabe que há duas naturezas numa só Pessoa. Agora ele sabe quem é essa pessoa; não por um processo dele próprio, mas, como ele nos diz, pela revelação vinda mediante o Espírito Santo. De fato o Filho mesmo lho dissera quando, no caminho de Damasco, perguntara: "Quem és tu, Senhor?" - "Eu sou Jesus a quem tu persegues”. Esse é o mistério de Cristo! Este é o meio divino de salvação. Deus é Todo-poderoso, o eterno e sempiterno Deus, para quem as nações são “como o pó miúdo das balanças", são vaidades, são menores e mais leves que a vaidade. Foi Ele que do nada fez tudo e disse: "Haja luz, e houve luz". Assim teríamos pensado que, quando Ele' desejasse salvar o homem e o mundo, tornaria a proferir alguma palavra grandiosa que faria o universo inteiro balançar e tremer. Teríamos esperado alguma dramática exibição de poder pelo qual Deus salvaria os homens e destruiria o mal. Mas Deus não agiu dessa maneira. Seu meio de salvação acha-se neste mistério de Cristo num, num frágil bebê. Não há nada que seja mais fraco ou mais frágil; nada que seja menor, nada que seja mais indefeso. Esse é o método de Deus!
Depois considere tudo que aconteceu a Ele e com Ele. Procure contemplar todo o processo da encarnação. Considere como Ele Se despojou da insígnia da Sua eterna glória para nascer como um bebê. Depois continue a pensar em Sua humilhação e em tudo que Ele suportou e sofreu; e então a morte, o sepultamento, a ressurreição e a ascensão. Esse é o caminho da salvação estabelecido por Deus! Esse é o modo como Deus trata as críticas condições do homem, o problema humano! Esse é o meio pelo qual Deus reconciliou conSigo os homens e pelo qual produzirá finalmente ordem e glória do caos das coisas como estas são agora! Esse é o mistério ao qual Paulo está se referindo! Esse é o mistério, a compreensão que lhe fora dada do mistério de Cristo!
Deixem-me fazer uma pergunta: "o mistério de Cristo" é o interesse mais absorvente da sua vida? O "mistério de Cristo" é, para vocês, a coisa mais comovente do mundo? Está ele no centro das suas vidas, ocupa ele a parte suprema dos seus corações, o ponto central das suas meditações? Nas Escrituras Cristo está sempre nessa posição central. Os nossos hinos mais grandiosos olham para Ele, contemplam-nO e, com Paulo, expressam grande admiração face ao mistério. O mistério de Cristo! Este nada dizia aos judeus e aos gentios. Esta é a última Coisa em que Paulo jamais teria pensado ou imaginado. Mas é fato, é evangelho. É o que pessoalmente Cristo tornara conhecido a Paulo na estrada de Damasco e o comissionara para pregar aos judeus e aos gentios, dizendo-lhe que somente nEle se Pode obter a remissão dos pecados, a vida eterna e a esperança da glória eterna.
Creio que já não estamos tão surpresos como talvez estávamos quanto à razão pela qual Paulo fez este parêntese, deixando de lado o estilo. Muitas vezes achei que grande parte da explicação do trágico estado da Igreja moderna está no fato de que já não temos parênteses! Somos perfeitos demais, a nossa forma literária é soberba; o ensaio pode ser belo, mas falta vida, falta realização. Somos demasiadamente auto-controlados; e isto é porque não temos Visto “o mistério de Cristo". Graças a Deus pelos parênteses que nos lembram "o mistério de Cristo"!
Devemos agora dirigir a atenção ao mistério particular. O mistério particular a que o apóstolo começou a referir-se no versículo 3, é por ele retomado agora no versículo 5 - "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da prol?essa em Cristo pelo evangelho". Esta porção se refere à matéria particular das relações entre judeus e gentios na Igreja cristã. Diz-nos o apóstolo noutro lugar que se gloria no fato de que ele é, em particular, “o apostolo dos gentios", e se gloria nesse encargo. Ele se refere a isso nesta altura porque está escrevendo aos cristãos efésios, que tinham sido pagãos, e o seu objetivo, como eu já disse, é habilitá-los a dar-se conta da maravilha e do portento da sua salvação.
Mas nós temos nosso próprio motivo para dar cuidadosa atenção a esta declaração particular. Digo com a maior franqueza que preferiria não tratar deste assunto, porém o trabalho da pregação não é só exortar e consolar, e sim também instruir; e é só quando compreendemos as doutrinas com as nossas mentes que podemos viver verdadeiramente a vida cristã e desfrutá-la, como é o seu propósito para nós. Sei que há aqueles que usam certas "Bíblias" com notas que dão muita ênfase a esta declaração particular, e dela constroem toda uma perspectiva e esquema de ensino. Refiro-me ao ensino comumente conhecido como dispensacionalismo e sei que há sempre o perigo, quando vemos notas na Bíblia, de crer inconscientemente que as notas são inspiradas como o texto. Temos a tendência de as engolir e tomá-las como autênticas. Portanto, somos Impulsionados a ver essa declaração a partir desse ponto de vista particular.
O ensino dispensacionalista afirma que todas as promessas que se acham no Velho Testamento foram feitas aos judeus somente, e a estes se aplicam; Isto e, não se aplicam à Igreja; afirma-se que a Igreja Cristã é algo que "entra" - este é o termo que empregam - como uma espécie de "parêntese". Os dispensacionalistas sustentam que quando o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo, veio para oferecer o reino dos céus aos judeus, e foi somente porque os judeus o recusaram que a idéia da Igreja foi introduzida. Se os judeus tivessem aceitado o reino dizem eles, nunca teria existido Igreja Cristã nenhuma. No entanto tendo os judeus rejeitado o reino, a Igreja foi introduzida como urna nova dispensação, como uma espécie de parêntese. A Igreja terá fim e, então, mais uma vez haverá uma restauração dos judeus como nação, e Cristo estabelecera Seu reino entre eles. Traçam uma aguda linha de divisão entre a Igreja e o reino. Dizem eles que os judeus ainda constituem um povo separado e especial, e que as profecias do Velho Testamento só se aplicam a eles.
O significado disto para a nossa posição hoje é que aqueles que acreditam no ensino dos dispensacionalistas estão ocupados demais pregando sermões e fazendo discursos sobre o Egito e sobre o que está acontecendo na Palestina e no Oriente Próximo. Alguns têm até a pretensão de que podem predizer o que vai acontecer, e quando. Encontraram isso tudo nas Escrituras, dizem eles. Por esta razão fazem grande uso da declaração particular que estamos examinando. Salientam que o apóstolo diz: "Como me foi este mistério manifestado, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens", e param nisso. Depois dão prosseguimento, argumentando que estas palavras deixam perfeitamente claro que o "mistério" pertencente à Igreja não foi conhecido sob a antiga dispensação; na verdade, enquanto não foi revelado ao apóstolo Paulo. De fato alguns se aventuram a afirmar que em parte alguma o Velho Testamento ensina que os gentios seriam salvos.
Há só uma resposta a tal ensinamento. Se os seus expositores lessem o Velho Testamento sem preconceito, veriam muitas referências à matéria em discussão entre nós. A promessa foi feita a Abraão, como Paulo no-lo faz recordar no capítulo três de Gálatas: "Todas as nações serão benditas em ti" (3:8). Em Isaías há referências às "ilhas", aos "gentios" etc. Essa é a resposta pura e simples. Mas há outras respostas, e mais importantes, a modo de réplica aos que dizem que a Igreja, como tal, não foi conhecida sob a antiga dispensação. Aqui vai uma citação das notas de uma bem conhecida "Bíblia". “A Igreja corporativamente não está na visão dos profetas do Velho Testamento”, e depois, entre parênteses, para provar seu ponto de vista, "(Efésios 3: 1-6):'. Efésios 3: 1-6, segundo essa afirmação, indica que a Igreja, corporativamente, não está na visão do profeta do Velho Testamento. Essa citação acha¬-se na introdução dos livros proféticos do Velho Testamento naquelas Notas particulares. Talvez eu deva acrescentar, para tomar completa a minha exposição, que há um sistema de ultra-dispensacionalismo associado ao nome do Dr. Bullinger, o qual vai tão longe que chega a dizer que é somente nas Epístolas que temos realmente o evangelho do Novo Testamento aplicável a nós. O Dr. Bullinger ensinava que os Evangelhos nada têm a ver conosco, que eles eram só para os judeus; é aqui no capítulo 3 de Efésios que temos a mensagem para esta era, para judeus e gentios na Igreja.
Qual será a resposta a este ensino? Certamente a doutrina concernente à Igreja foi claramente ensinada por nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Considere o que transpirou em Cesaréia de Filipe, quando o Senhor disse a Pedro: "Sobre esta rocha edificarei a minha igreja". As famosas Notas têm que admitir que de fato Ele disse isso, mas afirmam que Ele não desenvolveu a idéia. O fato, porém, é que Ele o disse; assim, esta verdade concernente à Igreja não foi revelada somente a Paulo; já havia sido revelada. O Senhor a ensinara. Além disso, Pedro, pregando no dia de Pentecoste disse: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe". É uma clara referência aos gentios. Do mesmo modo, é óbvio que Pedro e João compreenderam este principio quando reconheceram que os samaritanos, que não eram judeus, também tinham recebido os benefícios da salvação, pelo que impuse¬ram as mãos sobre eles para que recebessem o Espírito Santo. De novo Pedro, no dramático acontecimento que ocorreu antes de sua ida à casa de Cornélio, foi levado a ver a mesma verdade. Foi necessária uma visão oriunda do céu para fazer Pedro enxergá-la. Como judeu, ele não podia entender isto. A despeito do fato de que ele era um homem salvo e de que passara pela experiência do Pentecoste, a idéia de que os gentios haveriam de tomar-se co-herdeiros com os judeus era, em sua opinião, impossível. Mas com a visão que teve, e havendo testemunha¬do o cair do Espírito Santo sobre Cornélio e sua casa, ele viu esta verdade uma vez e para sempre, e assim admitiu os gentios na Igreja. Ele foi criticado por fazê-lo e se defendeu, como se nos diz nos capítulos 11 e 15 do livro de Atos dos Apóstolos. Fica, pois, claro que, antes de Paulo haver-se tomado apóstolo aos gentios, esta verdade já fora pregada.
No entanto, esta verdade realmente se encontra no Velho Testamen¬to. Há passagens, como Ezequiel capítulo 36 e outras, que mostram este retrato da Igreja. E como Paulo argumenta no capítulo três de Gálatas, na promessa a Abraão ela está perceptivelmente implícita. Quão importante é dar-nos conta do perigo de começar com uma teoria e impô-la às Escrituras! Eis o que de fato diz o apóstolo: "O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens" - e então vem não um ponto final, e sim uma vírgula - "como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas". O apóstolo não está dizendo que o mistério nunca fora revelado antes. O que ele está dizendo é que ele não fora revelado antes “como", "na medida em que", agora foi revelado. Lá estava em embrião; agora está em plena florescência e desenvolvimento. Lá estava em sombra, como uma sugestão; agora está plenamente revelado. A expressão é, "como agora tem sido revelado...”. Como são extraordinárias as sutilezas da mente humana, mesmo quando cristã, mesmo após ter recebido o Espírito Santo! Não é questão de desonestidade. Estou apenas indicando que as nossas mentes são falíveis e que, portanto, temos que ser cuidadosos quando estudamos as Escrituras para não suceder que elaboremos um sistema completo de doutrina baseados num texto ou numa compreen¬são errônea de um texto.
O mistério agora feito claro e simples não é apenas o fato de que é para os gentios serem salvos, mas que é para os gentios e os judeus estarem juntos na Igreja Cristã - em estreitas relações uns com os outros. Paulo não está dizendo que agora se deve permitir que os gentios se tornem judeus prosélitos. Nisso os judeus já criam; na verdade eles tinham praticado o proselitismo. Muitos gentios chega¬ram a ver a verdade de Deus nas Escrituras do Velho Testamento, e os judeus os instruíam e os circuncidavam e, assim, eles se tomavam judeus prosélitos. Permitia-se que o gentio entrasse, mas somente como prosélito; não era ainda um judeu completo. Não obstante, o mistério que fora feito claro para Paulo e para os demais apóstolos era que os gentios agora tinham ingressado, não como acréscimo, nem como prosélitos, mas haviam entrado nesta nova realidade, a Igreja, exatamente da mesma maneira como o judeu. Ele está afirmando que agora a Igreja é o reino, que aquilo que a nação judaica era no Velho Testamento, a Igreja é agora; e que aquela distinção antiga não existe mais. Noutras palavras, ele está dizendo que se cumpriu a profecia do Senhor registrada em Mateus 21 :43: "Portanto eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos". O apóstolo Pedro repete isto a seu modo aplicando-o à Igreja, consti¬tuída de judeus e gentios, as próprias palavras que Deus empregara, mediante Moisés, referentes à nação de Israel, em Êxodo, capítulo 19: "Vós sois o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido" (ou "um povo peculiar"). A Igreja é a forma atual do reino.
O ponto defendido pelo apóstolo é que a velha distinção entre os judeus e os gentios foi abolida uma vez por todas. Ele já mostrou isso no capítulo dois, afirmando que "a parede de separação que estava no meio" já não existe, que Cristo a demoliu e criou "um novo homem, fazendo a paz". A antiga distinção se foi. A maneira particular como Paulo o afirma é sumamente interessante. Ele o expressa empregando a palavra "companheiro" três vezes (vs. 3 - 6 Infelizmente a Versão Autorizada (em inglês) e a Versão de Almeida omitem isto e dizem: "co-herdeiro, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa". Todavia, na verdade Paulo disse: "companheiros herdeiros, compa¬nheiros membros do corpo, companheiros participantes da promessa" (ou "co-herdeiros, co-membros do corpo, co-participantes da promes¬sa").
Os gentios, diz ele, devem ser co-herdeiros com os judeus, o que significa que todas as promessas feitas por Deus aos judeus no Velho Testamento estão agora acessíveis aos gentios. O judeu é participante com o gentio, ambos no mesmo nível - igualmente o gentio com o judeu. Não há diferença. Ambos são co-herdeiros e, por assim dizer, têm o mesmo lugar na vontade de Deus; ambos recebem os mesmos benefícios. Isto se refere à nova aliança que Deus tinha prometido. Ele dissera que ia fazer uma nova aliança, não semelhante à que fizera quando os tirara do Egito. Esta é: "Dos vossos pecados e das vossas iniqüidades não me lembrarei mais"; "Serei para vós Deus, e vós sereis para mim um povo". Entretanto isto não é mais somente para os judeus; é também para os gentios; é para mim e para você. Estamos na vontade de Deus, somos herdeiros junto com os judeus, a velha nação, o antigo povo de Deus, nesta admirável promessa dos benefícios da nova aliança.
A segunda expressão é "co-membros do corpo". Poderíamos ter pensado que "co-herdeiros" diz-nos tudo e que não há nada que possa ir alem. Talvez se possa explicar este elemento adicional com uma ilustração. Imaginemos um homem que só tem um filho, mas também um criado da família que está com ele, digamos, há quarenta anos, e que ele passou a considerar quase como filho. Assim, quando ele faz o seu testamento, declara que todos os seus bens deverão ser repartidos entre o seu filho e o seu fiel criado. Um criado pode se tomar co-herdeiro, porém continua sendo criado. Isto não faz dele um membro da família: não significa que ele tem o mesmo sangue; não significa que houve mudança na relação essencial. Por isso o apóstolo acrescenta a "co¬-herdeiros" o termo "co-membros do corpo". É isto que põe abaixo todas as tentativas para fazer perpetuar a distinção entre os judeus e os gentios. Não é, diz Paulo, que os gentios são apenas acrescentados superficialmente a alguma coisa; eles são interligados de forma com¬pacta, unidos como juntas neste corpo. Já não há distinção; não há superioridade, nem inferioridade. O sistema dispensacionalista afirma que há, que existe um "povo celestial" e um "povo terrenal", e que os judeus serão trazidos de volta e que tornarão a receber um lugar muito especial numa era futura. Este ensino é uma negação do que nos é dito na passagem em foco, negação de que tudo isso terminou para sempre, de que há um só corpo, e que o Judeu e o gentio são partes (juntas) Igualmente Implantadas no corpo.
O apóstolo dá mais um passo ainda, dizendo que somos "co-¬participantes da promessa". A luz doutras partes das Escrituras, isto significa duas coisas. Em Gálatas 3: 14 lemos: "Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito". Esta é também chamada "a promessa do Pai", e isso passa como um fio de ouro através do Velho Testamento. É o que aconteceu no dia de Pentecoste que Pedro explicou assim: "Isto é o que foi dito pelo profeta Joel", A promessa do Pai é o derramamento do Espírito e os resultados dele decorrentes. Vocês são co-participantes da promessa, diz Paulo aos efésios, vocês receberam a plenitude do Espírito exatamente como os judeus. Mas eu acredito que as palavras têm mais um sentido. Outra grande promessa foi a da ressurreição e do glorioso reino do Filho de Deus. Paulo afirma isto com muita clareza em Atos 26:6-8, ao fazer a sua defesa perante o rei Agripa e Festo. "E agora", diz ele, "pela esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. À qual as nossas doze tribos esperam chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?" A promessa é que o Messias viria e venceria a morte e o túmulo, e traria à luz a vida e a imortalidade. É a promessa da ressurreição, da ressurreição final, e da vinda do reino glorioso, "novos céus e nova terra, em que habita a justiça". Isso era uma coisa que o judeu pregava acima de tudo mais. Ele teve que sofrer muito em sua vida neste mundo, mas olhava para além disso tudo, como se nos diz em Hebreus, capítulo 11 - ele aguardava o cumprimento daquela promessa, a ressurreição e a vida gloriosa. Primeiro essa promessa estava restrita ao judeu; o gentio estava sem esperança, sem Deus no mundo, como Paulo já dissera no capítulo 2, versículo 12; mas agora diz ele que os gentios são co-participantes da promessa de Deus em Cristo pelo evangelho.
Para nós isto significa que podemos aguardar anelantes a ressurreição do corpo, um corpo glorificado. Podemos aguardar anelantes nossa morada numa nova terra sob novos céus, em que habita a justiça; co¬-participantes da promessa, "Cristo em vós, a esperança da glória".
Esses são os dois mistérios que o apóstolo nos diz que lhe foram dados, para os pregar: o mistério geral, o mistério de Cristo; e o mistério particular de que o propósito de Deus agora é manifesto e está em operação na Igreja; e de que a Igreja é a forma final deste propósito, até completar-se. O judeu e o gentio estão juntos em Cristo, compartem as bênçãos de Deus agora e participarão dos benefícios da glória eterna e sempiterna. Estarão sempre surpresos e maravilhados por toda a eternidade ante a graça de Deus que fez isto possível, que nEle nos juntou e que a nós e aos judeus fez co-herdeiros, co-membros do corpo e co-participantes de tão bem-aventurada esperança.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
ESTUDO DAS JORNADAS

AS 42 JORNADAS NO DESERTO -
CAPÍTULO 91
POR: Luiz Fontes
TEXTO: Números 33:22 – 19ª Estação – Queelata – parte 1
Números 33:22 diz:
“partiram de Rissa e acamparam-se em Queelata.”
Esta é a 19ª estação. No aspecto histórico, em Deuteronômio 2:1 vemos essa jornada de forma implícita. Olhe o que diz o texto:
“Depois, viramo-nos, e seguimos para o deserto, caminho do mar Vermelho como o SENHOR me dissera, e muitos dias rodeamos a montanha de Seir”.
Olhe para esta frase: “muitos dias”. Ela descreve o momento em que eles começam a peregrinação de 38 anos, desde que desobedeceram a Deus e não quiseram entrar na terra de Canaã. Você se lembra quando eles estiveram em Ritma? Quando aqueles dez espias incitaram o povo à incredulidade? E assim o povo se levantou contra Moisés e Arão e desejaram voltar para o Egito. É isso que nós vimos em Ritma. Sabemos que essa atitude trouxe uma grande indignação da parte de Deus contra o pecado da incredulidade praticado por eles. E daí por diante, vemos que Deus rejeita aquela geração.
Agora Ele ordena que eles voltem pelo golfo de Ácaba, quando diz: “seguimos para o deserto, caminho do mar Vermelho”. Eles estão voltando agora para o golfo de Ácaba, até que esta velha geração morresse no deserto. Ainda no versículo 1 de Deuteronômio diz assim: “rodeamo-nos”. Essa é uma palavra que nós temos que notar. Este “rodear” é em torno do Monte Seir. Essa região era ocupada pelos descendentes de Esaú. Tinha uns 160 Km de extensão e ficava ao sul de Moabe. Moabe é a região da Jordânia hoje. Então nós sabemos que neste monte houve várias jornadas. E a primeira dessas jornadas é Queelata. É a primeira das jornadas nessa região. Aqui iremos estudar um fato muito triste. Talvez de todos os acontecimentos que ocorreram nestas 42 jornadas, os acontecimentos aqui de Queelata sejam os mais tristes que eles tiveram que enfrentar. Essa é a jornada mais triste! Muitas coisas posteriores que ocorreram tiveram como base os acontecimentos dessa jornada.
Nós vamos estudar Números 16. Porque em Números 16 estão os textos correspondentes a esta jornada, onde podemos ver as passagens relativas a Queelata. Nós vamos estudar as lições estritamente solenes no que concerne a nossa vida cristã prática hoje, o que o nosso querido Pai deseja nos falar sobre esses assuntos. Nunca devemos esquecer que estamos lendo o Antigo Testamento tendo os olhos no Novo Testamento. Nós não podemos ler o Antigo Testamento somente como história, senão que temos que ler o Velho Testamento com o Novo Testamento. Porque o Novo Testamento ensina que todas estas jornadas, essas estações, “foram escritas como exemplo para nós”. E aqui nós podemos ver isso! Ver que enquanto lemos essas jornadas de Israel, aqui em Números 33, vemos exemplos para nós que somos a Igreja do Senhor Jesus. Quando consideramos os episódios aqui, podemos ver a era da Igreja, a era da graça, em que se dão os mesmos acontecimentos. Quando lemos a Epístola de Judas, no versículo 11, percebemos justamente isso.
Então, antes de lermos os textos correspondentes a estas estação é importante ressaltar que algumas estações onde eles passavam eram lugares conhecidos. Sabemos que em muitas dessas estações havia habitantes. Mas outros lugares, outras estações, eram apenas deserto. E o nome que estas estações receberam foi devido às experiências que eles ali tiveram. Por exemplo, aqui em Queelata, o nome está relacionado com a experiência e não com o lugar em si. O nome Queelata sintetiza o que aconteceu aqui em Números 16. A palavra Queelata, no hebraico, significa “assembléia”. Mas aqui, segundo a realidade do contexto, podemos ver o quê? Uma assembléia em crise. Quando estudamos essa palavra Queelata na Septuaginta – a versão dos setenta –, descobrimos que essa palavra Queelata é a palavra para Igreja no Novo Testamento. Isso é muito interessante! Quando eu falo Septuaginta estou falando daquela tradução do Torá, isto é, do hebraico antigo para o grego. Essa versão foi feita no século III antes de Cristo. Ela foi encomendada por Ptolomeu II, que viveu entre os anos 287 e 247. Ele foi rei do Egito. Ele pediu que fosse feito um exemplar dessa tradução da Bíblia para que fosse colocada na recém inaugurada biblioteca de Alexandria. Então a tradução ficou conhecida como: “Septuaginta” ou “Os Setenta”, palavra latina que significa “setenta”. Ou ainda com o prefixo LXX. Porque setenta e dois rabinos trabalharam nela e, segundo contam alguns eruditos, eles teriam acabado a tradução em setenta e dois dias. Esta versão Septuaginta foi usada como base para diversas traduções da Bíblia.
Então, no original grego esse termo Queelata, no hebraico, corresponde a “ekklesia” no Novo Testamento. A palavra “ekklesia” fala de: ajuntamento, reuniões. Em Atos dos Apóstolos, capítulo 19, versículos 23 a 41, nós temos aquele episódio lá em Éfeso, quando aquelas pessoas comercializavam no templo da deusa Diana, depois que Paulo e seus companheiros chegaram ali pregando o evangelho do reino. Nós sabemos que a mensagem do evangelho provocou uma revolução naquela cidade e também grande colapso nesta idolatria comercial. Então levantaram uma grande sedição contra Paulo e aqueles que o acompanhavam e os levaram para um grande teatro, onde toda a multidão gritava: “Grande é a Diana dos efésios”. E no versículo 32, do capítulo 19 de Atos, diz assim:
“Uns, pois, gritavam de uma forma; outros, de outra; porque a assembléia caíra em confusão. E, na sua maior parte, nem sabiam por que motivo estavam reunidos”.
Esse termo “assembléia” aqui no grego é “ekklesia”. O significado desse termo no Novo testamento fala de uma “união, de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público; qualquer ajuntamento ou multidão de homens reunidos por acaso”. Então isso significa uma “assembléia” ou a palavra grega “ekklesia” que é o termo usado para “Igreja” no Novo Testamento. Essa palavra vem de dois vocábulos: o primeiro é “ek”, que significa por para fora, cortar fora; e a segunda é “klesia”, uma derivação do verbo kaleo, que significa “chamar”, de onde vem a expressão “parakaleo” ou “parakleto” que se refere ao Espírito Santo, aquele que chama para o lado. Então essa palavra “ekklesia” indica que nós somos um povo “cortado, amputado, que foi cortado do mundo”. Lembra de quando o Senhor Jesus disse em João 15:5:
“Eu sou a videira, vós, os ramos”.
O Senhor usou essa figura para mostrar a identificação Dele com a Igreja. Nós somos os ramos, ele é a videira. Ele diz que nós estaríamos Nele. Isso é muito importante. Quando Ele diz “Eu sou a videira”, nós sabemos que a videira é a árvore toda. E nós, onde ficamos na videira? Nós somos os ramos, ou seja, nós somos a videira também. Isso é muito interessante! Essa união mística entre Cristo e nós é que é “Igreja” no contexto bíblico do Novo Testamento. Então nós temos que entender a palavra no seu sentido natural, no sentido “lato”, e aquilo que a Bíblia impõe como revelação, como conteúdo, como verdade, como realidade espiritual. Temos que ver isso com muito cuidado.
Em Números 23:9, quando Balaão iria amaldiçoar o povo de Deus, há uma grande ilustração para compreendermos o que de fato significa ser Igreja, ser membro deste corpo místico de Cristo Jesus. Diz assim:
“Pois do cimo das penhas vejo Israel e dos outeiros o contemplo: eis que é povo que habita só e não será reputado entre as nações”.
Vemos aqui que Balaão sobe pela primeira vez no monte. Ele foi contratado, por dinheiro, para amaldiçoar o povo de Deus. Era um profeta mercenário. A Bíblia diz que Balaão sobe no monte e vai amaldiçoar o povo de Deus. Quando ele vai amaldiçoar, o Espírito de Deus desce sobre ele e, nas três tentativas, não consegue. Primeiro ele acha que o lugar é que está errado. Vai, tenta e sobe em outro lugar. Sobe depois no outro lado do monte. Em seguida ele acha que o sacrifico é que está errado. Na verdade, era ele que estava errado. Infelizmente Balaão não via isso. Então prossegue na tentativa de oferecer um sacrifício melhor e, nas três vezes em que ele quer amaldiçoar, ele abençoa. Na primeira vez, diz assim: “Eis que este povo habitará só, e entre as nações não será contado entre o povo”. Vejam que Balaão diz que Israel era um povo separado. Esse povo não é contado. Meus irmãos, que linda aplicação espiritual isso tem ao nosso viver cristão prático. Nós só temos uns aos outros, como Igreja, para contarmos. Somos um povo que não é contado neste mundo; não somos um povo contado com o povo desta terra. Somos um povo amputado do mundo, somos cortados do mundo. Esse é o sentido espiritual do que significa ser Igreja. Você não pode pegar apenas o sentido lato da palavra, mas a verdade ilustrada pela própria Bíblia para poder explicar uma palavra no seu âmbito espiritual. É o que estamos vendo aqui. Somos um povo separado, exclusivo, um povo exclusivamente de Cristo. Nós precisamos dar valor à eclesia, ao corpo de Cristo, porque fomos amputados do mundo, somos um povo que habita só. Nós só vivemos para Cristo; vivemos uns com os outros. Isso é Igreja, essa é a verdade de Cristo e a Igreja. Quando você compreende isso, você sabe o que é Igreja.
Em 1Coríntios 12:12 diz assim:
“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo”.
Aqui nós temos uma definição mística do que é a Igreja. De quem Paulo está falando aqui? Ora, se você lê o texto claramente, você sabe que ele está falando do corpo de Cristo, que é a Igreja de Cristo. Mas, veja que ele diz: “(...) todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo”. Precisamos atentar mais microscopicamente para esse versículo. Quando Paulo diz “assim também”, ele usa dois advérbios: “assim”, fala de natureza igual; “também”, fala de inclusão. Depois nós temos ainda o substantivo masculino quando ele diz “com respeito”: o significado aqui é aquilo que motiva, aquilo que é a causa, a razão. Então vemos que Cristo é a causa da inclusão, de todos nós fazermos parte do Seu corpo. Isso é Igreja, aqui está a definição da Igreja.
Essa é a verdade que encontramos. E é sobre esta base que estaremos estudando acerca de Queelata. Nós precisamos encontrar o nosso lugar nesta estação, encontrar o lugar da nossa edificação, aquilo que Deus quer corrigir em nós. Porque o Senhor quer nos mostrar algo extremamente sério em relação à vida da Igreja. O que aconteceu aqui em Números 16 é muito presente no tocante a nossa própria vida hoje. Vamos estudar o versículo 11 de Judas, vamos poder nos inteirar da seriedade, da gravidade de toda essa situação dentro de nosso contexto. Porque nós somos a Igreja. O significado de ser Igreja é algo muito sério. Precisamos descobrir a essência da identidade e do caráter da Igreja, e como tudo isso envolve o próprio Deus, o próprio Cristo, a própria obra do Espírito Santo. Não podemos viver uma vida cristã equivocada, uma vida que não esteja compatível com a palavra de Deus. Temos que entender isso, porque esta estação vai tratar de rebelião, da questão de confusão, de crise espiritual; vamos tratar aqui da questão da usurpação do poder, da autoridade espiritual mal compreendida. São esses assuntos que iremos estudar. Espero que o Senhor fale ao seu coração. Que Ele venha mostrar para você verdadeiramente, pela Sua palavra, o verdadeiro sentido espiritual de Queelata, essa 19ª estação onde o povo de Israel esteve. A tragédia que ocorreu aqui e porque muitas verdades espirituais ainda não foram manifestadas profundamente em nossa vida – por causa do nosso próprio andar, por causa da maneira como nós temos nos relacionado com as coisas espirituais.
Que Deus, pelo Seu Santo Espírito venha falar a cada um de nós a Sua palavra.
CONTINUAÇÃO DO ESTUDO DA EPÍSTOLA DE PAULO AOS EFÉSIOS
CAPÍTULO 2
"O MISTÉRIO DE CRISTO"
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação como acima em pouco vos escrevi; pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder." – Efésios 3:2-7
Ponderaremos agora as palavras que se acham nos versículos 2 a 7, e devemos ver isto como um todo, porque é unicamente uma frase com muitas subdivisões; e há um sentido em que, se temos de entender corretamente qualquer das suas partes individuais, precisamos ter alguma concepção da declaração toda. É o início de uma longa digressão que continua até o fim do versículo 13. Vimos que o objetivo da mesma era ajudar estes efésios, que estavam aflitos pelo fato de quê o apóstolo era prisioneiro. Ele queria que eles vissem as coisas de tal modo que não somente não desfalecessem ante o fato - como o diz o versículo 13 - mas que até se gloriassem nisso. Ele mesmo está se gloriando nisso, e aqui prossegue para mostrar-lhes que eles também deveriam gloriar-se no seu aprisionamento.
O apóstolo começa a fazê-lo no versículo 2: "eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada", Poder-se-ia traduzir: "Supondo-se que sabeis", ou "tomando como certo que estais cientes do fato" de que estou nesta condição especial com respeito a vocês. Alguns comentaristas vêem-se em dificuldade com esta expressão: "Se é que tendes ouvido", como se o apóstolo estivesse em dúvida sobre isso. No entanto não é uma expressão de dúvida; é uma maneira de dizer: "supondo-se, naturalmente, que sabeis", "tomando como certo". Mesmo assim, embora pressupondo que o sabem, o apóstolo põe-se a falar daquilo. Aqui de novo está uma das lições que jamais devemos deixar de aplicar quando lemos as Escrituras. Vocês sabem tudo sobre isto, diz o apóstolo, mas outra vez vou fazê-los recordá-lo. A quintessência do bom ensinar é a repetição. Todos nós pensamos e supomos que sabemos certas coisas, porém quando somos examinados a respeito delas, muitas vezes descobrimos que não as sabemos. Não só isso; conquanto possamos sabê-las teoricamente, de um modo ou de outro ao ver-nos em dificuldade ou com problemas, falhamos na aplicação do conhecimento. É, pois, necessário que nos façam recordá-las. É o que o apóstolo faz aqui. Eles sabiam tudo isso - o próprio apóstolo lhes falara a respeito, outros lhes tinham falado - entretanto desde que estavam perturbados por ele estar na prisão, era preciso fazê-los lembrar-se disso de novo. Ele o faz com muita deliberação, pois eles estavam entendendo mal as suas tribulações porque na verdade não tinha entendido a lição. Contudo, ao mesmo tempo, não se pode ler esta digressão sem sentir gue o apóstolo alegra-se em repassar mais uma vez a grande história. E tão gloriosa, tão magnífica! Há certas coisas que não se pode contar em demasia, tão magníficas elas são.
O objetivo de Paulo era levar os cristãos efésios a verem que somente quando compreendessem o que Deus fizera por eles por meio dele, como apóstolo de Cristo, é que não só não ficariam escandaliza¬dos com o seu aprisionamento, mas na verdade acabariam louvando a Deus, apercebidos da perfeição dos Seus inescrutáveis caminhos. Naturalmente a mesma coisa continua sendo aplicável a nós. Além de toda dúvida, não há nada que dê tanta consolação e segurança à fé, não há nada que nos cause tanta alegria na vida cristã, como simplesmente postar-nos a contemplar, e compreender nalguma medida o grandioso plano, esquema e propósito da redenção de Deus. É isso que o apóstolo descerra aqui para estes efésios e, por meio deles, descerra para nós. Ele lhes está oferecendo uma rápida descrição de como foi que o evangelho chegou a eles, pagãos como eram. Ele os faz lembrar-se de que levavam vida ímpia, adorando uma multiplicidade de deuses, e particularmente em Éfeso adorando a grande deusa Diana, fazendo imagens e ídolos e, naturalmente, vivendo no baixíssimo nível moral que sempre caracte¬riza o paganismo e o politeísmo. Tais foram eles outrora, porém agora são santos da Igreja de Deus, e juntamente com os judeus convertidos adoram a Deus. Esse fato é mais que surpreendente, é quase inacreditável. Mas a grande interrogação é: como foi que isto veio a acontecer? O apóstolo passa a dizer-lhes, e especialmente o faz na longa frase que começa aqui no versículo 2 e que vai até o fim do versículo 7.
Ao examinarmos este assunto, lembremo-nos de que não se trata apenas de uma questão de interesse acadêmico, ou de interesse pela história do apóstolo Paulo. Talvez alguns indaguem se a nossa pesquisa traz algum proveito num mundo tão cheio de problemas e dificuldades, e perguntam que é que isso tem a ver conosco. A resposta é que o apóstolo trata aqui de questões absolutamente fundamentais para toda a posição cristã. Ao mesmo tempo ele tem coisas para dizer aqui, que me parecem sumamente relevantes e importantes quando considerados em relação ao interesse atual pelo ecumenismo e por uma possível grande Igreja mundial, incluindo até o catolicismo romano, que poderia opor-se ao comunismo e à perspectiva ateísta em geral. O apóstolo nos apresenta aqui certos princípios cardeais cuja negligência nos levará a grave erro. Noutras palavras, quando Paulo relata aqui uma parte de sua história pessoal, também nos está instruindo no ensino do Novo Testamento com relação à Igreja, a certos encargos na Igreja e a toda a natureza da verdade cristã.
A primeira coisa que ele diz aos crentes efésios é que, no momento, ele está na prisão por ser um apóstolo dedicado a servi-los: "Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação...”. Ele prossegue dizendo que este mesmo "mistério" foi "revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas (do Senhor), do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder" (versículos 2 a 7). Aqui começamos a olhar para a extraordinária provisão que Deus fez para nós e para a nossa salvação. Triste é dar-nos conta de quão poucas vezes paramos para meditar em tudo isto! É-nos dito com muita freqüência nas Escrituras que Deus planejou e quis a nossa redenção "antes da fundação do mundo", porém quantas vezes contemplamos isso pormenoriza¬damente? Quantas vezes meditamos nesse grande plano-mestre de Deus, e compreendemos como cada parte e parcela foi planejada e predeterminada, e como, na plenitude do tempo, Deus o pôs em ação? Deus tivera este grande propósito de unir gentios e judeus e de enviar esta mensagem de salvação por todo o mundo. Para que isto aconteces¬se, como o apóstolo nos dirá no capítulo 4, Deus fez surgir a Igreja. Há "um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus de Pai e todos" (versículos 5 e 6). Também "deu dons aos homens", incluindo-se vários encargos: "deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo" (versículos 11 e 12). Que perfeição de plano! Tudo isto foi ordenado por Deus, diz o apóstolo, e como uma parte disto, ele foi chamado por Deus para ser apóstolo. Observem a bela linguagem com a qual ele o expressa: "a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada". Deus, diz o apóstolo, confiou-me uma tarefa como um despenseiro desta Sua maravilhosa graça. Deus me designou para ser um dos defensores e guardiães deste precioso favor que Ele está manifestando para a humanidade no Filho do Seu amor, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Vemos agora por que o apóstolo não pede desculpas por repetir estas coisas. Jamais olvidou o espanto e a maravilha disto - que ele, que fora blasfemo e perseguidor, que odiara a Cristo e Sua Causa, e que pensava estar prestando serviço a Deus quando perseguia a Igreja Cristã - que a ele tivesse sido dada de fato esta dignidade, esta honra, este privilégio de ser chamado pelo próprio Deus para ser um apóstolo desta mensagem, um mordomo desta verdade, alguém chamado para propagar as estupendas boas novas vindas ao mundo por meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Noutras palavras, a sua reivindicação é que, como em toda parte nos diz em seus escritos, ele é um apóstolo no sentido mais completo do termo. É tão apóstolo como Pedro, Tiago, João e todos os demais. Ele, que fora tão oposto ao evangelho, é um dos principais arautos do evangelho. "Esta graça me foi dada", diz ele. Devemos examinar o que ele inclui nesta definição, nesta designação.
Um apóstolo era alguém que fora muito definida e especificamente chamado pelo próprio Deus, em particular pelo Senhor Jesus Cristo. Se vocês lerem as diversas Epístolas de Paulo no Novo Testamento e derem bastante atenção às introduções por ele escritas, verão que, quase invariavelmente, ele se refere a si mesmo como alguém que foi "chamado para ser apóstolo", expressão que se traduz melhor, "um chamado apóstolo". Ninguém poderia ser apóstolo, a não ser que fosse chamado desta maneira única e especial. Noutras palavras, um apósto¬lo, é alguém não nomeado pela Igreja. Ninguém pode nomear ou criar um apóstolo. Uma parte essencial da definição de apóstolo é que de maneira única, especial e direta, ele é "chamado de Deus". Paulo transmite isso aqui, na expressão: "a graça de Deus, que para convosco me foi dada"; o dom foi-me dado, a honra foi-me conferida.
Temos outro exemplo desta ênfase na carta aos gálatas: "Paulo apóstolo" - depois, entre parênteses, "não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos" (1: 1). Observem o modo como Paulo o coloca, e como é importante a negativa - "não da parte dos homens, nem por homem algum". Não se pode ser apóstolo "de" homens nem "por" homens, Ele dá ênfase à declaração por este bom motivo, que, perambulando pelas igrejas naqueles primeiros dias, havia certos falsos apóstolos, homens que diziam, "Eu sou apóstolo", e que insta¬vam com as pessoas a que não dessem ouvidos à pregação do apóstolo, que segundo eles, não era apóstolo. Eles alegavam que eram os verdadeiros apóstolos, ensinavam às pessoas que precisavam circun¬cidar-se e submeter-se a certos ritos, e que o evangelho da salvação gratuita não era verdadeiro. O apóstolo sempre os denunciava como falsos apóstolos. Eram "anticristos", como lhes chama o apóstolo João; nunca foram chamados por Deus; foram nomeados por si mesmos ou por outros homens; eram" de" homens, e "por" homens, e não por Jesus Cristo e Deus o Pai.
Mas Paulo sustenta que ele é um verdadeiro apóstolo: "Esta graça", diz ele, "foi-me dada". Que expressão! O próprio ofício constitui uma graça; é uma dispensação da graça; todavia também inclui a idéia de que quando Deus chamava um homem para ser apóstolo, por Sua graça o equipava para ser apóstolo. Dava-lhe certos dons. Invariavelmente havia certos "sinais" e "marcas" de apóstolo. Ao verdadeiro apóstolo sempre era dada a graça e o poder de operar "milagres, prodígios e sinais". Homem nenhum era apóstolo, se não era capaz de produzir esta autenticação. Há muitas referências a isto nas Escrituras do Novo Testamento. Um dos "selos", "marcas", "sinais" de um apóstolo era que tivesse este poder sobrenatural, miraculoso. Assim, quando lemos o livro de Atos dos Apóstolos, encontramos expressões como esta: "Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias". Maravi¬lhas extraordinárias! Eram tão numerosas que o povo se levantava, cheio de espanto e admiração. De fato isto acontecera nesta mesma cidade de Éfeso quando Paulo estivera lá, e se originou grande tumulto, como se pode ler no capítulo 19 do livro de Atos.
Acima disso tudo, e muito mais importante para o nosso propósito imediato, está o fato de que um apóstolo era um homem a quem Deus dera, de maneira muito especial, a mensagem de salvação. Paulo declara: "Uma dispensação da graça de Deus me foi dada". Os apóstolos foram os "despenseiros", os guardiães, os defensores do mistério da fé. Há vários outros lugares nas epístolas em que o apóstolo diz a mesma coisa. Lemos, por exemplo, na Primeira Epístola aos Coríntios: "Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus" (4:1). Isso tudo é de tremenda importância para nós. Já nos foi dito pelo apóstolo, no fim do capítulo 2, que a Igreja de Deus está estabelecida "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas" (versículo 20). Aqui o apóstolo nos ajuda a entender isto. Deus toma estes homens, estes homens especiais, e os faz despenseiros, guardiães, administradores da mensagem da Sua mara¬vilhosa graça redentora.
Vemos aí o desenrolar do plano de redenção. Deus o Pai o pensou; Ele o planejou. Na "plenitude do tempo" Ele enviou Seu unigênito Filho ao mundo para realizar a obra absolutamente necessária. Se o Filho não tivesse vindo, ensinado e morrido, se não tivesse levado sobre Si os pecados dos homens e seu castigo, se não tivesse ressusci¬tado e retomado ao céu, a salvação jamais teria sido possível. A graça de Deus vem por intermédio do Senhor Jesus Cristo. Depois Deus enviou O Espírito Santo no dia de Pentecoste para que esta graça que fora preparada fosse administrada, nos fosse dispensada. Não haveria proveito em providenciá-la, a não ser que fosse preparado o canal pelo qual viesse até nós individualmente, para que pudéssemos recebê-la e desfrutá-la. O Espírito Santo faz isto dando esta habilitação e este entendimento, este poder e capacidade àqueles homens que Deus chamou e designou para serem os defensores, guardiães e despenseiros dela.
No início do livro de Atos dos Apóstolos pode-se ver claramente este plano e propósito de Deus. Nosso bendito Senhor ressurgira dos mortos e Se manifestara durante quarenta dias aos Seus discípulos. Eles conheciam os fatos acerca da Sua vida, morte e ressurreição, entretanto ainda não estavam em condições de ir e pregar. Não poderiam fazê-lo enquanto não recebessem a plenitude, o batismo do Espírito Santo (Atos 1:8). Mas depois podiam, e o fizeram. Cheios do Espírito de Deus, foram e pregaram esta mensagem do evangelho.
É isso que Paulo quer dizer quando fala que uma dispensação, uma administração deste admirável mistério da graça de Deus lhes fora dada. Deus o enchera do Espírito, capacitara-o a compreender. Deus o enviara a pregar e lhe dera poder para pregar, e para atestar a verdade com a realização de milagres. No tempo devido ele viera aos efésios e lhes pregara, e os que creram foram acrescentados à Igreja. E agora ele lhes diz que por isso está na prisão.
Que coisa tremenda! Estes crentes efésios, na maioria provavelmente simples e comuns escravos, tinham sido incluídos neste plano esquema eterno de Deus. Vocês percebem a dolorosa situação a que Deus chegou a fim de que eu e vocês fôssemos resgatados e redimidos, e nos tornássemos santos e finalmente, viéssemos a passar a eternidade em Sua gloriosa presença? Agora, pois, diz Paulo aos efésios, não desfaleçam por causa das minhas tribulações, não pensem muito em minhas cadeias na prisão; pensem antes nesta coisa esplêndida que Deus fez - "uma dispensação da graça de Deus me foi dada para convosco"! Ele me deu essa dispensação no caminho de Damasco, quando me disse que me chamou para ser um "ministro e testemunha". Fui designado e comissionado para pregar aos judeus e aos gentios. Pensem nisso, diz o apóstolo; vejam este grande propósito de Deus! Não desperdicem a sua compaixão por mim; glorio-me no fato de que estou sofrendo pelo nome de Cristo, e gostaria que vocês se gloriassem nisso também.
Algo lhe foi confiado, diz o apóstolo. Ele foi feito despenseiro. O quadro é familiar. Um grande homem, dono de um castelo e de grandes possessões, não pode fazer tudo sozinho; o que ele faz é nomear mordomos. Coloca um a cargo disto, outro a cargo daquilo. São responsáveis perante ele e a favor dele administram os seus negócios de acordo com as diferentes "dispensações" a eles confiadas. Portanto, Paulo foi feito despenseiro. Mas despenseiros de quê? Ele lhe chama "mistério" - "Como me foi este ministério manifestado pela revela¬ção" - e o repete - "como acima em pouco vos escrevi; pelo que quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo".
Quando lemos estas epístolas do Novo Testamento, freqüentemente encontramos esta palavra "mistério"; é, pois, essencial que entendamos o que o apóstolo quer dizer com ela. Muitos há que ensinam que este termo "mistério" significa que a mensagem cristã, a fé cristã, é uma coisa vaga, indefinida, nebulosa, uma coisa que de modo nenhum pode ser definida; noutras palavras, asseveram que o cristianismo não passa de uma forma de misticismo. Neste ponto vemos a relevância prática desta porção das Escrituras para a nossa presente situação. A tendência geral do "pensamento moderno" é desacreditar a definição, a doutrina, o dogma e toda formulação teológica. Afirma-se que as definições da fé dividem os cristãos e, como a única coisa que importa é estarmos todos unidos, não devemos dar ouvidos a definições precisas. Na verdade, muitos vão mais longe a e afirmam que, por sua própria natureza, o cristianismo é uma coisa que escapa à definição. Não devemos tentar definir o cristianismo, dizem eles, porque ele é uma experiência mística maravilhosa, é um mistério. Não podemos dizer o que ele é, mas podemos ser iniciados nele; não podemos declará-lo no papel, mas podemos senti-lo e experimentá-lo. No momento em que tentarmos dizer o que ele é, e defini-lo - dizermos que é isto, que não é aquilo - vocês o estarão destruindo, porque nesse caso o cristianis¬mo deixará de ser um mistério. Daí interpretam a palavra "mistério" no sentido de "misticismo", ou quase "nebulosidade", algo vago e indefi¬nido, algo que não se pode expressar mediante proposições. Contudo o certo é que o apóstolo Paulo, nesta passagem e em toda parte, nega essa interpretação. O que ele diz é que o mistério lhe foi "revelado". Não é uma coisa vaga e indefinida, e sim uma mensagem que lhe foi tomada simples e clara.
"Mistério", no sentido do Novo Testamento, é um termo técnico pertencente a uma verdade que, em vista do seu caráter, jamais poderá ser alcançada; não se pode chegar a ela por meio do intelecto humano desassistido, nem por meio da capacidade humana pura e simples. É algo claro em si mesmo, mas devido o homem ser o que é - finito e pecaminoso - não pode chegar a ele nem compreendê-lo com o seu intelecto desassistido. A exposição clássica disto acha-se na Primeira Epístola aos Coríntios, onde o apóstolo o definiu uma vez por todas. "Todavia", diz ele, "falamos sabedoria entre os perfeitos; não porém a sabedoria deste mundo, nem, dos príncipes deste mundo que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no¬-l.as revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus"(2:6-10).
A sabedoria que falamos, diz Paulo, não é "a sabedoria deste mundo", é a "sabedoria oculta", a "sabedoria de Deus oculta em mistério". O homem natural, mesmo que seja um príncipe, não a compreenda, não pode alcançá-la; seu intelecto não é adequado. "Mas Deus no-la revelou pelo seu Espírito". Vê-se que o "mistério" não é uma coisa vaga, indefinida, nebulosa; é clara e definida, entretanto sem ajuda o homem nunca a pode alcançar. Ele tem que "recebê-la" de Deus; é preciso que a sua mente seja iluminada e aberta pelo Espírito Santo para entendê-la e, como parte da vocação do pregador, expô-la. Portanto, o que o apóstolo está dizendo aqui é que Deus o comissionara como guardião, mordomo, depositário de um discernimento e conhe¬cimento deste estupendo mistério. Daí estar ele agora habilitado para transmiti-lo, explicá-lo e expô-lo aos outros. Era essa a sua ocupação e o seu privilégio como apóstolo.
Diz ele também que se tratava de algo que lhe foi revelado: "como me foi este mistério manifestado pela revelação”. Com que constância ele nos inculca isto! Repetidamente ele declara que não tinha chegado a este conhecimento por sua própria capacidade ou entendimento. Por exemplo, ao dirigir-se ao rei Agripa e ao governador Festo numa famosa ocasião, ele diz: "Bem tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus Nazareno devia eu praticar muitos atos" (Atos 26:9). Esse era o pensamento de Paulo como homem natural. E teria continuado a fazer a mesma coisa até a morte, denunciando o evangelho de Cristo, odiando-o, perseguindo-o, se tivesse continuado a pensar consigo mesmo em termos do seu próprio entendimento. Mas algo lhe aconte¬cera. Saí pela estrada de Damasco, diz ele, coma intenção de extermi¬nar os cristãos daquela cidade, "respirando ainda ameaças, e mortes" contra eles, quando de repente, por volta do meio dia, vi uma luz nos céus, luz mais brilhante do que o sol, e ouvi uma voz. Foi o Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, que me apareceu. E noutras palavras Ele me disse: "Eu te apareci, Saulo, com o fim de dizer-te certas coisas". Revelou-me o mistério concernente a Si próprio e ao Seu grande propósito, e me deu esta dispensação, fez de mim um apóstolo, e me disse que estava prestes a me enviar aos Judeus e aos gentios.
Não há como exagerar a ênfase a este aspecto da verdade. Retomemos à Epístola aos Gálatas e observemos como o apóstolo, tendo-o afirma¬do no primeiro versículo da sua carta, repete-o nos versículos 11 e 12: "Faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo". Eles não devem dar ouvidos a nenhum outro ensino, e não devem permitir que míngüem ou nada perverta a sua fé, porque o que ele lhes pregara, tinha recebido, não de algum homem, nem o tinha aprendido de alguém, nem mesmo dos apóstolos mas o aprendera do próprio Senhor Jesus Cristo quando Ele lhe aparecera na estrada de Damasco. Recebera-o por revelação direta. Também Cristo lhe aparecera noutra ocasião, quando ele estava no templo de Jerusalém, e ainda noutra ocasião, quando ele estava em Corinto. O "mistério" chegara a ele "por revelação". Não se tratava de uma mensagem que ele estava originando; foi-lhe dada diretamente pelo Senhor. Sua autoridade não é outra se não a do Senhor da glória. Apegai-vos a este evangelho, diz ele aos efésios. O que faz de mim um apóstolo é que eu recebi isso tudo mediante esta direta revelação do Senhor Jesus Cristo.
Observem que ele escreve a mesma coisa acerca de todos os "seus santos apóstolos e profetas". Lembra ele aos efésios que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas", no sentido de que foi aos apóstolos e aos profetas que Deus revelou o mistério (2:20). Os maiores homens do mundo não puderam compreendê-lo. Olhavam para Jesus de Nazaré e nada viam, senão um homem, um carpinteiro; não viam que Ele era o Filho de Deus. Esta verdade tem que ser revelada como "o mistério de Cristo". Eles não o conseguiam ver; não lhes foi revelado. Cristo mesmo dissera: “Graças te dou ó Pai Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve" (Mateus 11:25-26). Deus revelou esta verdade aos apóstolos e aos profetas uma vez e para sempre.
É evidente que os profetas não eram apóstolos. Os apóstolos eram uns poucos escolhidos, doze, incluindo-se Paulo. Os profetas eram homens aos quais foi dado um entendimento especial da verdade que fora revelada, e podiam ensiná-la aos outros. Assim, o que temos no Novo testamento é o ensino dos apóstolos e dos profetas. A Igreja Primitiva, conduzida pelo Espírito Santo, não admitia nenhum livro do cânon do Novo Testamento se não se provasse que havia sido escrito por um apóstolo, ou que o fora sob a influência de um apóstolo. Nada que não venha com a autoridade apostólica é canônico. Temos a mensagem apostólica, a revelação do mistério, aqui na Palavra de Deus.
Procuremos aprender de tudo isto certas lições vitais para nós. A primeira é a natureza gloriosa daquilo que Deus fez por nós mediante o evangelho da redenção. Acaso não nos vem algo da sua glória com renovado vigor quando nos damos conta de que o Todo-poderoso e eterno Deus tanto Se afanou com aqueles escravos de Éfeso, aqueles pagãos que Vieram a conhecer esta verdade e se tomaram filhos de Deus? Que plano perfeito! Tudo de graça, tudo de Deus. Não foi Saulo de Tarso que decidiu fazer-se cristão e ir pregar em Éfeso. "Uma dispensação" desta graça maravilhosa "me foi dada", afirmava ele. O Senhor tinha olhado para ele no caminho de Damasco e tinha Se apoderado dele, porque o escolhera para ser um despenseiro deste mistério. A graça de Deus, a bondade, a misericórdia, a compaixão de Deus! Que verdade estupenda! Receio que nós, cristãos modernos, não contemplamos o plano de salvação como o faziam nossos pais. Refiro¬-me aos pais de um, dois e especialmente três séculos atrás, e aos grandes pais protestantes do século dezesseis. Eles se deleitavam em contemplar este grandioso plano de redenção. Quando eu e você o fizermos, seremos levados a gloriar-nos e a triunfar nele, como Paulo queria que estes efésios fizessem.
No entanto, além disso, aprendemos uma lição sobre a natureza e caráter de um apóstolo. Porventura já não percebemos que o ofício de apóstolo é algo inteiramente único, que um apóstolo era alguém chamado diretamente pelo Senhor, que ele tinha que ser uma testemu¬nha da ressurreição de Cristo, que lhe foi dada uma singular inspiração e autoridade, e que lhe foi dado poder para atestar a sua vocação com milagres, sinais e prodígios? Estaríamos vendo o caráter singular de um apóstolo, vendo que um apóstolo pertence ao alicerce da Igreja, e unicamente ao alicerce?
Uma verdade clara nas Escrituras é que não pode haver repetição do ofício de apóstolo, e que falar em "sucessão apostólica" é simplesmen¬te negar o ensino escriturístico. Não pode haver nenhum sucessor dos apóstolos; a verdade foi revelada uma vez e para sempre. Não temos necessidade de revelação adicional, pois a verdade foi revelada aos apóstolos e aos profetas. Uma vez que eles a transmitiram e a pregaram, e a sua mensagem foi escrita, nós a temos. Está, pois, implícito na definição de um apóstolo que ele é um homem que recebeu a revelação de maneira única e, portanto, é óbvio que não pode ter nenhum sucessor. Noutras palavras, nossa luta com a igreja católica romana e seus adeptos não é política, é escriturística; eles negam as Escrituras. Um alicerce é feito uma vez e para sempre: "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas".
Igualmente, espero que tenhamos visto algo da natureza da verdade cristã. Não é um conhecimento comum. Não é algo que o intelecto desassistido pode entender e receber. Sem a iluminação que somente o Espírito Santo pode dar, as verdades do evangelho permanecem tão escuras e ocultas para nós como o eram para "os príncipes deste mundo", quando o Senhor da glória estava concretamente entre os homens. "Mas Deus no-las revelou pelo seu espírito". "Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus" (1 Coríntios 2: 10, 12). Esta não é uma verdade comum. Seja qual for a capacidade do nosso intelecto, seja qual for o nosso brilhantismo, não será suficiente. Todos nós temos que nos tornar "como crianças". Precisamos da inspiração, da bênção e da unção do Espírito, antes de podermos receber e compreender a verdade divina.
Por último, somos inteiramente dependentes das Escrituras. Não temos nenhuma verdade salvadora fora do que nelas encontramos. E obviamente, à luz do que vimos dizendo, nada pode ser acrescentado às Escrituras, jamais. Mais uma vez vemos onde nos separamos da igreja católica romana que, às vezes explícita, às vezes implicitamente, alega ter recebido revelação adicional. Todavia é claro que não pode haver revelação adicional, porque a revelação vem somente por meio dos apóstolos e dos profetas, e atualmente não existe apóstolo, e por definição não pode existir. Assim, estamos inteiramente limitados às Escrituras, e não podemos acrescentar-lhes nada. Tampouco podemos tirar delas alguma coisa. Não nos cabe escolher e retirar porções delas. Não podemos dizer: creio nisto e rejeito aquilo; gosto muito do ensino de Jesus, porém não acredito em milagres. Admiro a maneira como Ele morreu, mas não acredito que Ele nasceu de uma virgem, ou que ressuscitou da tumba. No momento em que começarmos a fazer isso, estaremos negando a revelação. Estaremos dizendo que o nosso intelecto desassistido é capaz de julgar a revelação e de peneirar e encontrar o que é verdadeiro e o que é falso. Isso é negar totalmente o princípio da revelação, do apostolado e desta obra singular do Espírito Santo.
Quão importante, pois, é esta digressão para nós! Estamos encerra¬dos na Bíblia e em seu ensino. Nada sei fora dela. Nada posso acrescentar-lhe, nada posso tirar dela; tomo-a como nos foi dada com a autoridade dos apóstolos. Contudo, se este ponto de vista é rejeitado e a pessoa diz: isto é o que eu penso, é nisto que eu creio. Replico: você não tem direito de falar desta maneira; mas se você prefere fazê-lo, então, de acordo com esta autorizada palavra dos apóstolos, a autori¬zada Palavra de Deus, você está nas trevas, não recebeu a iluminação; você permanece fora da Vida de Deus e sem nenhuma experiência da Sua graça e da Sua bênção em Cristo, nosso Senhor.
A mensagem de Paulo a estes efésios é: sou um apóstolo chamado foi-me confiada uma dispensação da graça de Deus, e eu a lhes tenho transmitido. Vocês a têm, vocês são cristãos. Por isso estou sofrendo. Mas, esqueçam isso; pensem na glória, maravilha e prodígio daquilo que Deus providenciou para vocês em Seu infinito amor e bondade e no que vocês se tornaram como resultado da Sua maravilhosa graça.
POR: D.M. Lloyd Jones
"O MISTÉRIO DE CRISTO"
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação como acima em pouco vos escrevi; pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder." – Efésios 3:2-7
Ponderaremos agora as palavras que se acham nos versículos 2 a 7, e devemos ver isto como um todo, porque é unicamente uma frase com muitas subdivisões; e há um sentido em que, se temos de entender corretamente qualquer das suas partes individuais, precisamos ter alguma concepção da declaração toda. É o início de uma longa digressão que continua até o fim do versículo 13. Vimos que o objetivo da mesma era ajudar estes efésios, que estavam aflitos pelo fato de quê o apóstolo era prisioneiro. Ele queria que eles vissem as coisas de tal modo que não somente não desfalecessem ante o fato - como o diz o versículo 13 - mas que até se gloriassem nisso. Ele mesmo está se gloriando nisso, e aqui prossegue para mostrar-lhes que eles também deveriam gloriar-se no seu aprisionamento.
O apóstolo começa a fazê-lo no versículo 2: "eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada", Poder-se-ia traduzir: "Supondo-se que sabeis", ou "tomando como certo que estais cientes do fato" de que estou nesta condição especial com respeito a vocês. Alguns comentaristas vêem-se em dificuldade com esta expressão: "Se é que tendes ouvido", como se o apóstolo estivesse em dúvida sobre isso. No entanto não é uma expressão de dúvida; é uma maneira de dizer: "supondo-se, naturalmente, que sabeis", "tomando como certo". Mesmo assim, embora pressupondo que o sabem, o apóstolo põe-se a falar daquilo. Aqui de novo está uma das lições que jamais devemos deixar de aplicar quando lemos as Escrituras. Vocês sabem tudo sobre isto, diz o apóstolo, mas outra vez vou fazê-los recordá-lo. A quintessência do bom ensinar é a repetição. Todos nós pensamos e supomos que sabemos certas coisas, porém quando somos examinados a respeito delas, muitas vezes descobrimos que não as sabemos. Não só isso; conquanto possamos sabê-las teoricamente, de um modo ou de outro ao ver-nos em dificuldade ou com problemas, falhamos na aplicação do conhecimento. É, pois, necessário que nos façam recordá-las. É o que o apóstolo faz aqui. Eles sabiam tudo isso - o próprio apóstolo lhes falara a respeito, outros lhes tinham falado - entretanto desde que estavam perturbados por ele estar na prisão, era preciso fazê-los lembrar-se disso de novo. Ele o faz com muita deliberação, pois eles estavam entendendo mal as suas tribulações porque na verdade não tinha entendido a lição. Contudo, ao mesmo tempo, não se pode ler esta digressão sem sentir gue o apóstolo alegra-se em repassar mais uma vez a grande história. E tão gloriosa, tão magnífica! Há certas coisas que não se pode contar em demasia, tão magníficas elas são.
O objetivo de Paulo era levar os cristãos efésios a verem que somente quando compreendessem o que Deus fizera por eles por meio dele, como apóstolo de Cristo, é que não só não ficariam escandaliza¬dos com o seu aprisionamento, mas na verdade acabariam louvando a Deus, apercebidos da perfeição dos Seus inescrutáveis caminhos. Naturalmente a mesma coisa continua sendo aplicável a nós. Além de toda dúvida, não há nada que dê tanta consolação e segurança à fé, não há nada que nos cause tanta alegria na vida cristã, como simplesmente postar-nos a contemplar, e compreender nalguma medida o grandioso plano, esquema e propósito da redenção de Deus. É isso que o apóstolo descerra aqui para estes efésios e, por meio deles, descerra para nós. Ele lhes está oferecendo uma rápida descrição de como foi que o evangelho chegou a eles, pagãos como eram. Ele os faz lembrar-se de que levavam vida ímpia, adorando uma multiplicidade de deuses, e particularmente em Éfeso adorando a grande deusa Diana, fazendo imagens e ídolos e, naturalmente, vivendo no baixíssimo nível moral que sempre caracte¬riza o paganismo e o politeísmo. Tais foram eles outrora, porém agora são santos da Igreja de Deus, e juntamente com os judeus convertidos adoram a Deus. Esse fato é mais que surpreendente, é quase inacreditável. Mas a grande interrogação é: como foi que isto veio a acontecer? O apóstolo passa a dizer-lhes, e especialmente o faz na longa frase que começa aqui no versículo 2 e que vai até o fim do versículo 7.
Ao examinarmos este assunto, lembremo-nos de que não se trata apenas de uma questão de interesse acadêmico, ou de interesse pela história do apóstolo Paulo. Talvez alguns indaguem se a nossa pesquisa traz algum proveito num mundo tão cheio de problemas e dificuldades, e perguntam que é que isso tem a ver conosco. A resposta é que o apóstolo trata aqui de questões absolutamente fundamentais para toda a posição cristã. Ao mesmo tempo ele tem coisas para dizer aqui, que me parecem sumamente relevantes e importantes quando considerados em relação ao interesse atual pelo ecumenismo e por uma possível grande Igreja mundial, incluindo até o catolicismo romano, que poderia opor-se ao comunismo e à perspectiva ateísta em geral. O apóstolo nos apresenta aqui certos princípios cardeais cuja negligência nos levará a grave erro. Noutras palavras, quando Paulo relata aqui uma parte de sua história pessoal, também nos está instruindo no ensino do Novo Testamento com relação à Igreja, a certos encargos na Igreja e a toda a natureza da verdade cristã.
A primeira coisa que ele diz aos crentes efésios é que, no momento, ele está na prisão por ser um apóstolo dedicado a servi-los: "Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação...”. Ele prossegue dizendo que este mesmo "mistério" foi "revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas (do Senhor), do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder" (versículos 2 a 7). Aqui começamos a olhar para a extraordinária provisão que Deus fez para nós e para a nossa salvação. Triste é dar-nos conta de quão poucas vezes paramos para meditar em tudo isto! É-nos dito com muita freqüência nas Escrituras que Deus planejou e quis a nossa redenção "antes da fundação do mundo", porém quantas vezes contemplamos isso pormenoriza¬damente? Quantas vezes meditamos nesse grande plano-mestre de Deus, e compreendemos como cada parte e parcela foi planejada e predeterminada, e como, na plenitude do tempo, Deus o pôs em ação? Deus tivera este grande propósito de unir gentios e judeus e de enviar esta mensagem de salvação por todo o mundo. Para que isto aconteces¬se, como o apóstolo nos dirá no capítulo 4, Deus fez surgir a Igreja. Há "um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus de Pai e todos" (versículos 5 e 6). Também "deu dons aos homens", incluindo-se vários encargos: "deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo" (versículos 11 e 12). Que perfeição de plano! Tudo isto foi ordenado por Deus, diz o apóstolo, e como uma parte disto, ele foi chamado por Deus para ser apóstolo. Observem a bela linguagem com a qual ele o expressa: "a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada". Deus, diz o apóstolo, confiou-me uma tarefa como um despenseiro desta Sua maravilhosa graça. Deus me designou para ser um dos defensores e guardiães deste precioso favor que Ele está manifestando para a humanidade no Filho do Seu amor, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Vemos agora por que o apóstolo não pede desculpas por repetir estas coisas. Jamais olvidou o espanto e a maravilha disto - que ele, que fora blasfemo e perseguidor, que odiara a Cristo e Sua Causa, e que pensava estar prestando serviço a Deus quando perseguia a Igreja Cristã - que a ele tivesse sido dada de fato esta dignidade, esta honra, este privilégio de ser chamado pelo próprio Deus para ser um apóstolo desta mensagem, um mordomo desta verdade, alguém chamado para propagar as estupendas boas novas vindas ao mundo por meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Noutras palavras, a sua reivindicação é que, como em toda parte nos diz em seus escritos, ele é um apóstolo no sentido mais completo do termo. É tão apóstolo como Pedro, Tiago, João e todos os demais. Ele, que fora tão oposto ao evangelho, é um dos principais arautos do evangelho. "Esta graça me foi dada", diz ele. Devemos examinar o que ele inclui nesta definição, nesta designação.
Um apóstolo era alguém que fora muito definida e especificamente chamado pelo próprio Deus, em particular pelo Senhor Jesus Cristo. Se vocês lerem as diversas Epístolas de Paulo no Novo Testamento e derem bastante atenção às introduções por ele escritas, verão que, quase invariavelmente, ele se refere a si mesmo como alguém que foi "chamado para ser apóstolo", expressão que se traduz melhor, "um chamado apóstolo". Ninguém poderia ser apóstolo, a não ser que fosse chamado desta maneira única e especial. Noutras palavras, um apósto¬lo, é alguém não nomeado pela Igreja. Ninguém pode nomear ou criar um apóstolo. Uma parte essencial da definição de apóstolo é que de maneira única, especial e direta, ele é "chamado de Deus". Paulo transmite isso aqui, na expressão: "a graça de Deus, que para convosco me foi dada"; o dom foi-me dado, a honra foi-me conferida.
Temos outro exemplo desta ênfase na carta aos gálatas: "Paulo apóstolo" - depois, entre parênteses, "não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos" (1: 1). Observem o modo como Paulo o coloca, e como é importante a negativa - "não da parte dos homens, nem por homem algum". Não se pode ser apóstolo "de" homens nem "por" homens, Ele dá ênfase à declaração por este bom motivo, que, perambulando pelas igrejas naqueles primeiros dias, havia certos falsos apóstolos, homens que diziam, "Eu sou apóstolo", e que insta¬vam com as pessoas a que não dessem ouvidos à pregação do apóstolo, que segundo eles, não era apóstolo. Eles alegavam que eram os verdadeiros apóstolos, ensinavam às pessoas que precisavam circun¬cidar-se e submeter-se a certos ritos, e que o evangelho da salvação gratuita não era verdadeiro. O apóstolo sempre os denunciava como falsos apóstolos. Eram "anticristos", como lhes chama o apóstolo João; nunca foram chamados por Deus; foram nomeados por si mesmos ou por outros homens; eram" de" homens, e "por" homens, e não por Jesus Cristo e Deus o Pai.
Mas Paulo sustenta que ele é um verdadeiro apóstolo: "Esta graça", diz ele, "foi-me dada". Que expressão! O próprio ofício constitui uma graça; é uma dispensação da graça; todavia também inclui a idéia de que quando Deus chamava um homem para ser apóstolo, por Sua graça o equipava para ser apóstolo. Dava-lhe certos dons. Invariavelmente havia certos "sinais" e "marcas" de apóstolo. Ao verdadeiro apóstolo sempre era dada a graça e o poder de operar "milagres, prodígios e sinais". Homem nenhum era apóstolo, se não era capaz de produzir esta autenticação. Há muitas referências a isto nas Escrituras do Novo Testamento. Um dos "selos", "marcas", "sinais" de um apóstolo era que tivesse este poder sobrenatural, miraculoso. Assim, quando lemos o livro de Atos dos Apóstolos, encontramos expressões como esta: "Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias". Maravi¬lhas extraordinárias! Eram tão numerosas que o povo se levantava, cheio de espanto e admiração. De fato isto acontecera nesta mesma cidade de Éfeso quando Paulo estivera lá, e se originou grande tumulto, como se pode ler no capítulo 19 do livro de Atos.
Acima disso tudo, e muito mais importante para o nosso propósito imediato, está o fato de que um apóstolo era um homem a quem Deus dera, de maneira muito especial, a mensagem de salvação. Paulo declara: "Uma dispensação da graça de Deus me foi dada". Os apóstolos foram os "despenseiros", os guardiães, os defensores do mistério da fé. Há vários outros lugares nas epístolas em que o apóstolo diz a mesma coisa. Lemos, por exemplo, na Primeira Epístola aos Coríntios: "Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus" (4:1). Isso tudo é de tremenda importância para nós. Já nos foi dito pelo apóstolo, no fim do capítulo 2, que a Igreja de Deus está estabelecida "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas" (versículo 20). Aqui o apóstolo nos ajuda a entender isto. Deus toma estes homens, estes homens especiais, e os faz despenseiros, guardiães, administradores da mensagem da Sua mara¬vilhosa graça redentora.
Vemos aí o desenrolar do plano de redenção. Deus o Pai o pensou; Ele o planejou. Na "plenitude do tempo" Ele enviou Seu unigênito Filho ao mundo para realizar a obra absolutamente necessária. Se o Filho não tivesse vindo, ensinado e morrido, se não tivesse levado sobre Si os pecados dos homens e seu castigo, se não tivesse ressusci¬tado e retomado ao céu, a salvação jamais teria sido possível. A graça de Deus vem por intermédio do Senhor Jesus Cristo. Depois Deus enviou O Espírito Santo no dia de Pentecoste para que esta graça que fora preparada fosse administrada, nos fosse dispensada. Não haveria proveito em providenciá-la, a não ser que fosse preparado o canal pelo qual viesse até nós individualmente, para que pudéssemos recebê-la e desfrutá-la. O Espírito Santo faz isto dando esta habilitação e este entendimento, este poder e capacidade àqueles homens que Deus chamou e designou para serem os defensores, guardiães e despenseiros dela.
No início do livro de Atos dos Apóstolos pode-se ver claramente este plano e propósito de Deus. Nosso bendito Senhor ressurgira dos mortos e Se manifestara durante quarenta dias aos Seus discípulos. Eles conheciam os fatos acerca da Sua vida, morte e ressurreição, entretanto ainda não estavam em condições de ir e pregar. Não poderiam fazê-lo enquanto não recebessem a plenitude, o batismo do Espírito Santo (Atos 1:8). Mas depois podiam, e o fizeram. Cheios do Espírito de Deus, foram e pregaram esta mensagem do evangelho.
É isso que Paulo quer dizer quando fala que uma dispensação, uma administração deste admirável mistério da graça de Deus lhes fora dada. Deus o enchera do Espírito, capacitara-o a compreender. Deus o enviara a pregar e lhe dera poder para pregar, e para atestar a verdade com a realização de milagres. No tempo devido ele viera aos efésios e lhes pregara, e os que creram foram acrescentados à Igreja. E agora ele lhes diz que por isso está na prisão.
Que coisa tremenda! Estes crentes efésios, na maioria provavelmente simples e comuns escravos, tinham sido incluídos neste plano esquema eterno de Deus. Vocês percebem a dolorosa situação a que Deus chegou a fim de que eu e vocês fôssemos resgatados e redimidos, e nos tornássemos santos e finalmente, viéssemos a passar a eternidade em Sua gloriosa presença? Agora, pois, diz Paulo aos efésios, não desfaleçam por causa das minhas tribulações, não pensem muito em minhas cadeias na prisão; pensem antes nesta coisa esplêndida que Deus fez - "uma dispensação da graça de Deus me foi dada para convosco"! Ele me deu essa dispensação no caminho de Damasco, quando me disse que me chamou para ser um "ministro e testemunha". Fui designado e comissionado para pregar aos judeus e aos gentios. Pensem nisso, diz o apóstolo; vejam este grande propósito de Deus! Não desperdicem a sua compaixão por mim; glorio-me no fato de que estou sofrendo pelo nome de Cristo, e gostaria que vocês se gloriassem nisso também.
Algo lhe foi confiado, diz o apóstolo. Ele foi feito despenseiro. O quadro é familiar. Um grande homem, dono de um castelo e de grandes possessões, não pode fazer tudo sozinho; o que ele faz é nomear mordomos. Coloca um a cargo disto, outro a cargo daquilo. São responsáveis perante ele e a favor dele administram os seus negócios de acordo com as diferentes "dispensações" a eles confiadas. Portanto, Paulo foi feito despenseiro. Mas despenseiros de quê? Ele lhe chama "mistério" - "Como me foi este ministério manifestado pela revela¬ção" - e o repete - "como acima em pouco vos escrevi; pelo que quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo".
Quando lemos estas epístolas do Novo Testamento, freqüentemente encontramos esta palavra "mistério"; é, pois, essencial que entendamos o que o apóstolo quer dizer com ela. Muitos há que ensinam que este termo "mistério" significa que a mensagem cristã, a fé cristã, é uma coisa vaga, indefinida, nebulosa, uma coisa que de modo nenhum pode ser definida; noutras palavras, asseveram que o cristianismo não passa de uma forma de misticismo. Neste ponto vemos a relevância prática desta porção das Escrituras para a nossa presente situação. A tendência geral do "pensamento moderno" é desacreditar a definição, a doutrina, o dogma e toda formulação teológica. Afirma-se que as definições da fé dividem os cristãos e, como a única coisa que importa é estarmos todos unidos, não devemos dar ouvidos a definições precisas. Na verdade, muitos vão mais longe a e afirmam que, por sua própria natureza, o cristianismo é uma coisa que escapa à definição. Não devemos tentar definir o cristianismo, dizem eles, porque ele é uma experiência mística maravilhosa, é um mistério. Não podemos dizer o que ele é, mas podemos ser iniciados nele; não podemos declará-lo no papel, mas podemos senti-lo e experimentá-lo. No momento em que tentarmos dizer o que ele é, e defini-lo - dizermos que é isto, que não é aquilo - vocês o estarão destruindo, porque nesse caso o cristianis¬mo deixará de ser um mistério. Daí interpretam a palavra "mistério" no sentido de "misticismo", ou quase "nebulosidade", algo vago e indefi¬nido, algo que não se pode expressar mediante proposições. Contudo o certo é que o apóstolo Paulo, nesta passagem e em toda parte, nega essa interpretação. O que ele diz é que o mistério lhe foi "revelado". Não é uma coisa vaga e indefinida, e sim uma mensagem que lhe foi tomada simples e clara.
"Mistério", no sentido do Novo Testamento, é um termo técnico pertencente a uma verdade que, em vista do seu caráter, jamais poderá ser alcançada; não se pode chegar a ela por meio do intelecto humano desassistido, nem por meio da capacidade humana pura e simples. É algo claro em si mesmo, mas devido o homem ser o que é - finito e pecaminoso - não pode chegar a ele nem compreendê-lo com o seu intelecto desassistido. A exposição clássica disto acha-se na Primeira Epístola aos Coríntios, onde o apóstolo o definiu uma vez por todas. "Todavia", diz ele, "falamos sabedoria entre os perfeitos; não porém a sabedoria deste mundo, nem, dos príncipes deste mundo que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no¬-l.as revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus"(2:6-10).
A sabedoria que falamos, diz Paulo, não é "a sabedoria deste mundo", é a "sabedoria oculta", a "sabedoria de Deus oculta em mistério". O homem natural, mesmo que seja um príncipe, não a compreenda, não pode alcançá-la; seu intelecto não é adequado. "Mas Deus no-la revelou pelo seu Espírito". Vê-se que o "mistério" não é uma coisa vaga, indefinida, nebulosa; é clara e definida, entretanto sem ajuda o homem nunca a pode alcançar. Ele tem que "recebê-la" de Deus; é preciso que a sua mente seja iluminada e aberta pelo Espírito Santo para entendê-la e, como parte da vocação do pregador, expô-la. Portanto, o que o apóstolo está dizendo aqui é que Deus o comissionara como guardião, mordomo, depositário de um discernimento e conhe¬cimento deste estupendo mistério. Daí estar ele agora habilitado para transmiti-lo, explicá-lo e expô-lo aos outros. Era essa a sua ocupação e o seu privilégio como apóstolo.
Diz ele também que se tratava de algo que lhe foi revelado: "como me foi este mistério manifestado pela revelação”. Com que constância ele nos inculca isto! Repetidamente ele declara que não tinha chegado a este conhecimento por sua própria capacidade ou entendimento. Por exemplo, ao dirigir-se ao rei Agripa e ao governador Festo numa famosa ocasião, ele diz: "Bem tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus Nazareno devia eu praticar muitos atos" (Atos 26:9). Esse era o pensamento de Paulo como homem natural. E teria continuado a fazer a mesma coisa até a morte, denunciando o evangelho de Cristo, odiando-o, perseguindo-o, se tivesse continuado a pensar consigo mesmo em termos do seu próprio entendimento. Mas algo lhe aconte¬cera. Saí pela estrada de Damasco, diz ele, coma intenção de extermi¬nar os cristãos daquela cidade, "respirando ainda ameaças, e mortes" contra eles, quando de repente, por volta do meio dia, vi uma luz nos céus, luz mais brilhante do que o sol, e ouvi uma voz. Foi o Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, que me apareceu. E noutras palavras Ele me disse: "Eu te apareci, Saulo, com o fim de dizer-te certas coisas". Revelou-me o mistério concernente a Si próprio e ao Seu grande propósito, e me deu esta dispensação, fez de mim um apóstolo, e me disse que estava prestes a me enviar aos Judeus e aos gentios.
Não há como exagerar a ênfase a este aspecto da verdade. Retomemos à Epístola aos Gálatas e observemos como o apóstolo, tendo-o afirma¬do no primeiro versículo da sua carta, repete-o nos versículos 11 e 12: "Faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo". Eles não devem dar ouvidos a nenhum outro ensino, e não devem permitir que míngüem ou nada perverta a sua fé, porque o que ele lhes pregara, tinha recebido, não de algum homem, nem o tinha aprendido de alguém, nem mesmo dos apóstolos mas o aprendera do próprio Senhor Jesus Cristo quando Ele lhe aparecera na estrada de Damasco. Recebera-o por revelação direta. Também Cristo lhe aparecera noutra ocasião, quando ele estava no templo de Jerusalém, e ainda noutra ocasião, quando ele estava em Corinto. O "mistério" chegara a ele "por revelação". Não se tratava de uma mensagem que ele estava originando; foi-lhe dada diretamente pelo Senhor. Sua autoridade não é outra se não a do Senhor da glória. Apegai-vos a este evangelho, diz ele aos efésios. O que faz de mim um apóstolo é que eu recebi isso tudo mediante esta direta revelação do Senhor Jesus Cristo.
Observem que ele escreve a mesma coisa acerca de todos os "seus santos apóstolos e profetas". Lembra ele aos efésios que a Igreja é edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas", no sentido de que foi aos apóstolos e aos profetas que Deus revelou o mistério (2:20). Os maiores homens do mundo não puderam compreendê-lo. Olhavam para Jesus de Nazaré e nada viam, senão um homem, um carpinteiro; não viam que Ele era o Filho de Deus. Esta verdade tem que ser revelada como "o mistério de Cristo". Eles não o conseguiam ver; não lhes foi revelado. Cristo mesmo dissera: “Graças te dou ó Pai Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve" (Mateus 11:25-26). Deus revelou esta verdade aos apóstolos e aos profetas uma vez e para sempre.
É evidente que os profetas não eram apóstolos. Os apóstolos eram uns poucos escolhidos, doze, incluindo-se Paulo. Os profetas eram homens aos quais foi dado um entendimento especial da verdade que fora revelada, e podiam ensiná-la aos outros. Assim, o que temos no Novo testamento é o ensino dos apóstolos e dos profetas. A Igreja Primitiva, conduzida pelo Espírito Santo, não admitia nenhum livro do cânon do Novo Testamento se não se provasse que havia sido escrito por um apóstolo, ou que o fora sob a influência de um apóstolo. Nada que não venha com a autoridade apostólica é canônico. Temos a mensagem apostólica, a revelação do mistério, aqui na Palavra de Deus.
Procuremos aprender de tudo isto certas lições vitais para nós. A primeira é a natureza gloriosa daquilo que Deus fez por nós mediante o evangelho da redenção. Acaso não nos vem algo da sua glória com renovado vigor quando nos damos conta de que o Todo-poderoso e eterno Deus tanto Se afanou com aqueles escravos de Éfeso, aqueles pagãos que Vieram a conhecer esta verdade e se tomaram filhos de Deus? Que plano perfeito! Tudo de graça, tudo de Deus. Não foi Saulo de Tarso que decidiu fazer-se cristão e ir pregar em Éfeso. "Uma dispensação" desta graça maravilhosa "me foi dada", afirmava ele. O Senhor tinha olhado para ele no caminho de Damasco e tinha Se apoderado dele, porque o escolhera para ser um despenseiro deste mistério. A graça de Deus, a bondade, a misericórdia, a compaixão de Deus! Que verdade estupenda! Receio que nós, cristãos modernos, não contemplamos o plano de salvação como o faziam nossos pais. Refiro¬-me aos pais de um, dois e especialmente três séculos atrás, e aos grandes pais protestantes do século dezesseis. Eles se deleitavam em contemplar este grandioso plano de redenção. Quando eu e você o fizermos, seremos levados a gloriar-nos e a triunfar nele, como Paulo queria que estes efésios fizessem.
No entanto, além disso, aprendemos uma lição sobre a natureza e caráter de um apóstolo. Porventura já não percebemos que o ofício de apóstolo é algo inteiramente único, que um apóstolo era alguém chamado diretamente pelo Senhor, que ele tinha que ser uma testemu¬nha da ressurreição de Cristo, que lhe foi dada uma singular inspiração e autoridade, e que lhe foi dado poder para atestar a sua vocação com milagres, sinais e prodígios? Estaríamos vendo o caráter singular de um apóstolo, vendo que um apóstolo pertence ao alicerce da Igreja, e unicamente ao alicerce?
Uma verdade clara nas Escrituras é que não pode haver repetição do ofício de apóstolo, e que falar em "sucessão apostólica" é simplesmen¬te negar o ensino escriturístico. Não pode haver nenhum sucessor dos apóstolos; a verdade foi revelada uma vez e para sempre. Não temos necessidade de revelação adicional, pois a verdade foi revelada aos apóstolos e aos profetas. Uma vez que eles a transmitiram e a pregaram, e a sua mensagem foi escrita, nós a temos. Está, pois, implícito na definição de um apóstolo que ele é um homem que recebeu a revelação de maneira única e, portanto, é óbvio que não pode ter nenhum sucessor. Noutras palavras, nossa luta com a igreja católica romana e seus adeptos não é política, é escriturística; eles negam as Escrituras. Um alicerce é feito uma vez e para sempre: "sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas".
Igualmente, espero que tenhamos visto algo da natureza da verdade cristã. Não é um conhecimento comum. Não é algo que o intelecto desassistido pode entender e receber. Sem a iluminação que somente o Espírito Santo pode dar, as verdades do evangelho permanecem tão escuras e ocultas para nós como o eram para "os príncipes deste mundo", quando o Senhor da glória estava concretamente entre os homens. "Mas Deus no-las revelou pelo seu espírito". "Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus" (1 Coríntios 2: 10, 12). Esta não é uma verdade comum. Seja qual for a capacidade do nosso intelecto, seja qual for o nosso brilhantismo, não será suficiente. Todos nós temos que nos tornar "como crianças". Precisamos da inspiração, da bênção e da unção do Espírito, antes de podermos receber e compreender a verdade divina.
Por último, somos inteiramente dependentes das Escrituras. Não temos nenhuma verdade salvadora fora do que nelas encontramos. E obviamente, à luz do que vimos dizendo, nada pode ser acrescentado às Escrituras, jamais. Mais uma vez vemos onde nos separamos da igreja católica romana que, às vezes explícita, às vezes implicitamente, alega ter recebido revelação adicional. Todavia é claro que não pode haver revelação adicional, porque a revelação vem somente por meio dos apóstolos e dos profetas, e atualmente não existe apóstolo, e por definição não pode existir. Assim, estamos inteiramente limitados às Escrituras, e não podemos acrescentar-lhes nada. Tampouco podemos tirar delas alguma coisa. Não nos cabe escolher e retirar porções delas. Não podemos dizer: creio nisto e rejeito aquilo; gosto muito do ensino de Jesus, porém não acredito em milagres. Admiro a maneira como Ele morreu, mas não acredito que Ele nasceu de uma virgem, ou que ressuscitou da tumba. No momento em que começarmos a fazer isso, estaremos negando a revelação. Estaremos dizendo que o nosso intelecto desassistido é capaz de julgar a revelação e de peneirar e encontrar o que é verdadeiro e o que é falso. Isso é negar totalmente o princípio da revelação, do apostolado e desta obra singular do Espírito Santo.
Quão importante, pois, é esta digressão para nós! Estamos encerra¬dos na Bíblia e em seu ensino. Nada sei fora dela. Nada posso acrescentar-lhe, nada posso tirar dela; tomo-a como nos foi dada com a autoridade dos apóstolos. Contudo, se este ponto de vista é rejeitado e a pessoa diz: isto é o que eu penso, é nisto que eu creio. Replico: você não tem direito de falar desta maneira; mas se você prefere fazê-lo, então, de acordo com esta autorizada palavra dos apóstolos, a autori¬zada Palavra de Deus, você está nas trevas, não recebeu a iluminação; você permanece fora da Vida de Deus e sem nenhuma experiência da Sua graça e da Sua bênção em Cristo, nosso Senhor.
A mensagem de Paulo a estes efésios é: sou um apóstolo chamado foi-me confiada uma dispensação da graça de Deus, e eu a lhes tenho transmitido. Vocês a têm, vocês são cristãos. Por isso estou sofrendo. Mas, esqueçam isso; pensem na glória, maravilha e prodígio daquilo que Deus providenciou para vocês em Seu infinito amor e bondade e no que vocês se tornaram como resultado da Sua maravilhosa graça.
POR: D.M. Lloyd Jones
AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 90
Por: Luiz Fontes
18ª estação – Rissa – parte 06
TEXTO: Números 32: 37-41
Avançamos agora nesta parte final do estudo desta 18ª estação – Rissa. Dissemos bem no início desta estação que Rissa deve ser estudada em duas partes. A primeira parte, vendo o significado do seu nome, tem um aspecto negativo. É justamente o aspecto que nós vimos a partir do versículo 32, de Números capítulo 15, “um homem que estava apanhando lenha no dia de sábado”.
Hoje nós vamos estudar a segunda parte. Não podemos perder de vista que são duas partes que compõem o estudo de Rissa – uma negativa e a outra positiva. Então, ao chegarmos a esta segunda parte, temos que ler Números 15:27-41. Façamos a leitura:
“37 Disse o SENHOR a Moisés: 38 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que nos cantos das suas vestes façam borlas pelas suas gerações; e as borlas em cada canto, presas por um cordão azul. 39 E as borlas estarão ali para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos, após os quais andais adulterando, 40 para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sereis a vosso Deus. 41 Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos ser por Deus. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.”
Aqui nós temos esta outra parte do estudo desta estação. Note que o Senhor ordenou ao povo de Israel que colocassem franjas, “borlas”, azuis para que eles pudessem estar com seus corações nas coisas celestes (Nm 15:38). Eles deveriam colocar essas franjas ou borlas azuis em cada canto, presas a um cordão. E ali estariam essas borlas azuis, revelando para eles o “caráter da vida celeste” que eles teriam que viver. Olhe atentamente ainda para os versículos 39 e 40. Aqui nós teremos um quadro muito mais claro desta exigência do Senhor. O Senhor diz: “para que”. Já mostra a razão, o motivo pelo qual o Senhor está colocando este princípio para eles. Isso deveria provocar neles o quê? “Visão espiritual”! Ele continua: “vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR”, isto é, da Palavra do Senhor. E “os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos.” Isso aqui é o principio espiritual contido nestas franjas azuis. Nós temos que obter aqui, pelo Espírito Santo, uma revelação clara daquilo que Ele está ministrando a nós. Precisamos notar aqui que o termo “coração” é um termo muito comum no Antigo Testamento, assim como no Novo Testamento. Refere-se ao nosso “homem interior”. Frequentemente está relacionado à parte emocional e intelectual do homem. Então, aquelas bordas azuis eram para que eles se lembrassem do caráter de Deus, da vida celeste que eles tinham que viver. Sempre deveriam olhar para cima quando fossem tentados pelo poder sedutor do mundo. Nosso coração é mau, enganoso, incorrigível, por isso não podemos seguir a vontade do nosso coração. Porque, desde que o homem caiu, tem sido escravo dos seus desejos, da sua vontade, das suas emoções. Todos nós que nascemos em Adão nascemos com o nosso espírito morto. Não havia um vida espirtual em nós. Esta vida espiritual só foi nos dada na regeneração. Agora, o nosso espírito reviveu. Nós temos que entender isso, nós temos um espírito que comunga com Deus. Nós temos um espírito onde Ele opera por meio de três faculdades: a comunhão, a intuição ou percepção e a conciência. Quando nós compreendermos isso, quando entendermos essa revelação, iremos perceber o que verdadeiramente o Senhor está nos falando. Qual é a verdade do Senhor dentro de nós?
Amados irmãos, a comunhão uma faculdade do espírito, do espírito vivificado. Fala da comunhão com Deus. É aqui que Deus e o homem se encontram; é aqui que nós temos a clara percepção daquilo que é aprovado ou mesmo reprovado por Deus. A função da comunhão no nosso espírito vem revelar justamente isso. É aqui, nesta faculdade, que nós podemos reter a presença de Deus, ter comunhão com Deus, alimentar-nos de Deus. Comunhão: essa é uma faculdade do espírito.
Depois nós temos a intuição ou percepção. A intuição ou percepção são ações do nosso espírito. É aqui que nós percebemos a presença de Deus, é aqui que nós temos uma visão da interior realidade espiritual.
E também temos a consciência, que é a terceira função do espírito humano. É em nossa consciência que nós temos o conhecimento experimental das verdades espirituais. Nós necessitamos entender isso, porque todas as vezes que erramos em nosso espírito a “voz” da nossa consciência fala a Palavra de Deus, fala a Lei de Deus. É aqui que o Espírito Santo nos convence do pecado, da justiça e do juizo.
Em Romanos 8:2, Paulo diz assim:
“Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte”.
Tudo o que é relativo à nossa consciência tem relação com o Espírito Santo. Paulo nos diz em Romanos 9:1:
“Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência”
Esse texto nos mostra claramente que o Espírito Santo está em nossa consciência. A voz do Espírito é a voz em nossa consciência. Tudo isso é muito importante. Por isso, agora nós temos que entender que não devemos viver governados ou mesmo escravizados pela nossa mente, nossa vontade, emoção. Mente, vontade e emoção devem ser governadas pela vida do Espírito Santo em nosso espírito. Devem ser governadas pela ação do Espírito Santo em nós por meio do nosso espírito. Senão, teremos uma vontade compulsiva pelas coisas que desagradam a Deus. As nossas emoções estarão sempre numa esfera almática, superficial. As nossas emoções sempre estarão relacionadas ao nosso bem estar e nunca àquilo que agrada a Deus. A nossa mente sempre estará voltada para a maquinação daquilo que está relacionado com o nosso próprio ego. Por isso nós necessitamos atentar para isso, porque o Senhor deseja que essas verdades sejam aplicadas a nós na vida cristã prática, a qual nós vivemos hoje.
O que significam essas borlas azuis? Significam que nós devemos ter o nosso coração voltado para aquilo que é celeste. Veja que o Senhor diz “para” – algo que nós temos que entender. “Para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos.” Veja isso! Aqui está a razão!
Em Colossenses 3:1-3, Paulo exorta nesta mesma linha:
“1 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. 2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; 3 porque morrestes (é o morrer do velho homem, do velho Adão; aquela morte participativa, a qual nós morremos com Cristo lá na Cruz do Calvário), e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.”
É isto que o Senhor está falando a nós; esta é a verdade aqui: nós precisamos guardar o nosso coração em Cristo Jesus para que não sejamos governados pela compulsão deste mundo, pelo prazer desta terra. Nós temos que viver uma vida caracterizada pela vida de Cristo em nós. Se essa não é a nossa vida cristã, então nós não temos uma vida cristã para viver.
Em Tiago 4:4, diz assim:
“Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”.
Precisamos notar algo aqui. O termo que Tiago usa para “infiéis”, na língua grega, é “moichos”, que significa “uma mulher infiel”. Na versão corrigida está assim: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?”. Amados, o mundo constitui-se sempre um perigo entre nós e Deus. O mundo é um sistema que visa nos roubar da presença de Deus. Precisamos notar aqui também o verbo “quiser” que está no futuro do subjuntivo na língua grega. Esse verbo é “boulomai”. Na frase “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo”, temos a voz média do verbo primário, que significa “querer deliberadamente, ter um propósito, uma vontade vinculada ao afeto, àquilo que se torna o nosso prazer; meu prazer”. É isso que Tiago está dizendo. Na vida cristã as coisas só têm significado em Deus. Elas só podem ser verdadeiramente plena e absoluta satisfação espiritual se estiverem vinculadas a Deus, se forem para a glória de Deus. Não podemos dar valor às coisas fora de Deus, porque isso constitui a idolatria em nosso próprio coração. E esse é o grande perigo. Por isso que o Senhor está nos exortando aqui em Rissa.
Podemos ver também outras duas palavras aqui: “prostituição” e “idolatria”. Todo esse contexto aqui de Tiago vem focar essa questão, como ele diz, “infiéis”, que é a palavra “adúlteros” ou “adúlteras”. E esse relacionamento produz o quê? Produz idolatria. Em Ezequiel 14:3-7 diz assim:
“3 Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos dentro do seu coração, tropeço para a iniquidade que sempre têm eles diante de si; acaso, permitirei que eles me interroguem? 4 Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniquidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos; 5 para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração (...)”
Veja que é isso que o Senhor está falando aqui em Rissa. O Senhor vai julgar aquilo que está no nosso coração. Aí ele prossegue dizendo:
“(...) porquanto todos se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos. 6 Portanto, dize à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Convertei-vos, e apartai-vos dos vossos ídolos, e dai as costas a todas as vossas abominações, 7 porque qualquer homem da casa de Israel (Israel aqui está no sentido figurativo e espiritual; é uma referência a todos nós membros do Corpo de Cristo) ou dos estrangeiros que moram em Israel que se alienar de mim, e levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tiver tal tropeço para a iniqüidade, e vier ao profeta, para me consultar por meio dele, a esse, eu, o SENHOR, responderei por mim mesmo”.
Amados, a idolatria não é só o que está diante de nós, mas também, aquilo que está dentro de nós. O termo que o Senhor usa aqui para “levantar” fala daquilo que “exaltamos, que damos preeminência dentro de nós”. Então, idolatria não é só uma imagem de escultura, pode ser a sua própria “vida financeira, seu carro, sua casa, seu filho, seu cônjuge”. Isso é muito mais sério! Esse tipo de idolatria é mais perversa, sutil, mais devastadora. Veja como Deus reage a isso. Nosso coração não pode estar focando estas coisas. Quando nós atentamos para isso precisamos ser cuidadosos, porque o Senhor está nos levando para um caminho estreito. Um caminho aonde somente Ele é glorificado. Nós não podemos permitir que o inimigo venha nos arrebatar da presença de Deus, da comunhão com Deus, da vida de Deus. Nós temos que ter os nossos olhos focados no Senhor. Nós temos que ter a nossa vida, toda ela, consagrada a Deus. Temos que viver uma vida que corresponda àquilo que Deus exige de nós pela Sua Palavra. E aquilo que Ele exige de nós pela Sua Palavra foi o que Ele cumpriu em Cristo. E aquilo que Ele cumpriu em Cristo é o que Ele exige de nós. E Cristo é a nossa vida. Nossa vida está escondida na vida de Cristo. E nós temos o Espírito Santo como o nosso “paracleto”, para nos ajudar. Esse é o ponto importante que nós temos aqui. Porque aqui o Senhor nos manda olhar “para cima”, para o “alto”, aonde nós somos atraídos para Ele mesmo.
Que nós possamos atentar para isso, ter o nosso coração focando sempre em Cristo Jesus, Autor e Consumador da nossa fé. Que o nosso coração esteja sempre voltado para Ele, para que o mundo não venha nos arrebatar, não venha nos roubar dEle. Mas que a cada dia nós estejamos caminhando pra Ele, focando naquilo que é celeste. Que aquilo que é celeste possa ser o alvo do nosso coração, da nossa vida. Que Deus nos abençoe poderosamente por meio da Sua Palavra.
18ª estação – Rissa – parte 06
TEXTO: Números 32: 37-41
Avançamos agora nesta parte final do estudo desta 18ª estação – Rissa. Dissemos bem no início desta estação que Rissa deve ser estudada em duas partes. A primeira parte, vendo o significado do seu nome, tem um aspecto negativo. É justamente o aspecto que nós vimos a partir do versículo 32, de Números capítulo 15, “um homem que estava apanhando lenha no dia de sábado”.
Hoje nós vamos estudar a segunda parte. Não podemos perder de vista que são duas partes que compõem o estudo de Rissa – uma negativa e a outra positiva. Então, ao chegarmos a esta segunda parte, temos que ler Números 15:27-41. Façamos a leitura:
“37 Disse o SENHOR a Moisés: 38 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que nos cantos das suas vestes façam borlas pelas suas gerações; e as borlas em cada canto, presas por um cordão azul. 39 E as borlas estarão ali para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos, após os quais andais adulterando, 40 para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sereis a vosso Deus. 41 Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos ser por Deus. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.”
Aqui nós temos esta outra parte do estudo desta estação. Note que o Senhor ordenou ao povo de Israel que colocassem franjas, “borlas”, azuis para que eles pudessem estar com seus corações nas coisas celestes (Nm 15:38). Eles deveriam colocar essas franjas ou borlas azuis em cada canto, presas a um cordão. E ali estariam essas borlas azuis, revelando para eles o “caráter da vida celeste” que eles teriam que viver. Olhe atentamente ainda para os versículos 39 e 40. Aqui nós teremos um quadro muito mais claro desta exigência do Senhor. O Senhor diz: “para que”. Já mostra a razão, o motivo pelo qual o Senhor está colocando este princípio para eles. Isso deveria provocar neles o quê? “Visão espiritual”! Ele continua: “vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR”, isto é, da Palavra do Senhor. E “os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos.” Isso aqui é o principio espiritual contido nestas franjas azuis. Nós temos que obter aqui, pelo Espírito Santo, uma revelação clara daquilo que Ele está ministrando a nós. Precisamos notar aqui que o termo “coração” é um termo muito comum no Antigo Testamento, assim como no Novo Testamento. Refere-se ao nosso “homem interior”. Frequentemente está relacionado à parte emocional e intelectual do homem. Então, aquelas bordas azuis eram para que eles se lembrassem do caráter de Deus, da vida celeste que eles tinham que viver. Sempre deveriam olhar para cima quando fossem tentados pelo poder sedutor do mundo. Nosso coração é mau, enganoso, incorrigível, por isso não podemos seguir a vontade do nosso coração. Porque, desde que o homem caiu, tem sido escravo dos seus desejos, da sua vontade, das suas emoções. Todos nós que nascemos em Adão nascemos com o nosso espírito morto. Não havia um vida espirtual em nós. Esta vida espiritual só foi nos dada na regeneração. Agora, o nosso espírito reviveu. Nós temos que entender isso, nós temos um espírito que comunga com Deus. Nós temos um espírito onde Ele opera por meio de três faculdades: a comunhão, a intuição ou percepção e a conciência. Quando nós compreendermos isso, quando entendermos essa revelação, iremos perceber o que verdadeiramente o Senhor está nos falando. Qual é a verdade do Senhor dentro de nós?
Amados irmãos, a comunhão uma faculdade do espírito, do espírito vivificado. Fala da comunhão com Deus. É aqui que Deus e o homem se encontram; é aqui que nós temos a clara percepção daquilo que é aprovado ou mesmo reprovado por Deus. A função da comunhão no nosso espírito vem revelar justamente isso. É aqui, nesta faculdade, que nós podemos reter a presença de Deus, ter comunhão com Deus, alimentar-nos de Deus. Comunhão: essa é uma faculdade do espírito.
Depois nós temos a intuição ou percepção. A intuição ou percepção são ações do nosso espírito. É aqui que nós percebemos a presença de Deus, é aqui que nós temos uma visão da interior realidade espiritual.
E também temos a consciência, que é a terceira função do espírito humano. É em nossa consciência que nós temos o conhecimento experimental das verdades espirituais. Nós necessitamos entender isso, porque todas as vezes que erramos em nosso espírito a “voz” da nossa consciência fala a Palavra de Deus, fala a Lei de Deus. É aqui que o Espírito Santo nos convence do pecado, da justiça e do juizo.
Em Romanos 8:2, Paulo diz assim:
“Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte”.
Tudo o que é relativo à nossa consciência tem relação com o Espírito Santo. Paulo nos diz em Romanos 9:1:
“Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência”
Esse texto nos mostra claramente que o Espírito Santo está em nossa consciência. A voz do Espírito é a voz em nossa consciência. Tudo isso é muito importante. Por isso, agora nós temos que entender que não devemos viver governados ou mesmo escravizados pela nossa mente, nossa vontade, emoção. Mente, vontade e emoção devem ser governadas pela vida do Espírito Santo em nosso espírito. Devem ser governadas pela ação do Espírito Santo em nós por meio do nosso espírito. Senão, teremos uma vontade compulsiva pelas coisas que desagradam a Deus. As nossas emoções estarão sempre numa esfera almática, superficial. As nossas emoções sempre estarão relacionadas ao nosso bem estar e nunca àquilo que agrada a Deus. A nossa mente sempre estará voltada para a maquinação daquilo que está relacionado com o nosso próprio ego. Por isso nós necessitamos atentar para isso, porque o Senhor deseja que essas verdades sejam aplicadas a nós na vida cristã prática, a qual nós vivemos hoje.
O que significam essas borlas azuis? Significam que nós devemos ter o nosso coração voltado para aquilo que é celeste. Veja que o Senhor diz “para” – algo que nós temos que entender. “Para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos.” Veja isso! Aqui está a razão!
Em Colossenses 3:1-3, Paulo exorta nesta mesma linha:
“1 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. 2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; 3 porque morrestes (é o morrer do velho homem, do velho Adão; aquela morte participativa, a qual nós morremos com Cristo lá na Cruz do Calvário), e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.”
É isto que o Senhor está falando a nós; esta é a verdade aqui: nós precisamos guardar o nosso coração em Cristo Jesus para que não sejamos governados pela compulsão deste mundo, pelo prazer desta terra. Nós temos que viver uma vida caracterizada pela vida de Cristo em nós. Se essa não é a nossa vida cristã, então nós não temos uma vida cristã para viver.
Em Tiago 4:4, diz assim:
“Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”.
Precisamos notar algo aqui. O termo que Tiago usa para “infiéis”, na língua grega, é “moichos”, que significa “uma mulher infiel”. Na versão corrigida está assim: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?”. Amados, o mundo constitui-se sempre um perigo entre nós e Deus. O mundo é um sistema que visa nos roubar da presença de Deus. Precisamos notar aqui também o verbo “quiser” que está no futuro do subjuntivo na língua grega. Esse verbo é “boulomai”. Na frase “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo”, temos a voz média do verbo primário, que significa “querer deliberadamente, ter um propósito, uma vontade vinculada ao afeto, àquilo que se torna o nosso prazer; meu prazer”. É isso que Tiago está dizendo. Na vida cristã as coisas só têm significado em Deus. Elas só podem ser verdadeiramente plena e absoluta satisfação espiritual se estiverem vinculadas a Deus, se forem para a glória de Deus. Não podemos dar valor às coisas fora de Deus, porque isso constitui a idolatria em nosso próprio coração. E esse é o grande perigo. Por isso que o Senhor está nos exortando aqui em Rissa.
Podemos ver também outras duas palavras aqui: “prostituição” e “idolatria”. Todo esse contexto aqui de Tiago vem focar essa questão, como ele diz, “infiéis”, que é a palavra “adúlteros” ou “adúlteras”. E esse relacionamento produz o quê? Produz idolatria. Em Ezequiel 14:3-7 diz assim:
“3 Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos dentro do seu coração, tropeço para a iniquidade que sempre têm eles diante de si; acaso, permitirei que eles me interroguem? 4 Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniquidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos; 5 para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração (...)”
Veja que é isso que o Senhor está falando aqui em Rissa. O Senhor vai julgar aquilo que está no nosso coração. Aí ele prossegue dizendo:
“(...) porquanto todos se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos. 6 Portanto, dize à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Convertei-vos, e apartai-vos dos vossos ídolos, e dai as costas a todas as vossas abominações, 7 porque qualquer homem da casa de Israel (Israel aqui está no sentido figurativo e espiritual; é uma referência a todos nós membros do Corpo de Cristo) ou dos estrangeiros que moram em Israel que se alienar de mim, e levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tiver tal tropeço para a iniqüidade, e vier ao profeta, para me consultar por meio dele, a esse, eu, o SENHOR, responderei por mim mesmo”.
Amados, a idolatria não é só o que está diante de nós, mas também, aquilo que está dentro de nós. O termo que o Senhor usa aqui para “levantar” fala daquilo que “exaltamos, que damos preeminência dentro de nós”. Então, idolatria não é só uma imagem de escultura, pode ser a sua própria “vida financeira, seu carro, sua casa, seu filho, seu cônjuge”. Isso é muito mais sério! Esse tipo de idolatria é mais perversa, sutil, mais devastadora. Veja como Deus reage a isso. Nosso coração não pode estar focando estas coisas. Quando nós atentamos para isso precisamos ser cuidadosos, porque o Senhor está nos levando para um caminho estreito. Um caminho aonde somente Ele é glorificado. Nós não podemos permitir que o inimigo venha nos arrebatar da presença de Deus, da comunhão com Deus, da vida de Deus. Nós temos que ter os nossos olhos focados no Senhor. Nós temos que ter a nossa vida, toda ela, consagrada a Deus. Temos que viver uma vida que corresponda àquilo que Deus exige de nós pela Sua Palavra. E aquilo que Ele exige de nós pela Sua Palavra foi o que Ele cumpriu em Cristo. E aquilo que Ele cumpriu em Cristo é o que Ele exige de nós. E Cristo é a nossa vida. Nossa vida está escondida na vida de Cristo. E nós temos o Espírito Santo como o nosso “paracleto”, para nos ajudar. Esse é o ponto importante que nós temos aqui. Porque aqui o Senhor nos manda olhar “para cima”, para o “alto”, aonde nós somos atraídos para Ele mesmo.
Que nós possamos atentar para isso, ter o nosso coração focando sempre em Cristo Jesus, Autor e Consumador da nossa fé. Que o nosso coração esteja sempre voltado para Ele, para que o mundo não venha nos arrebatar, não venha nos roubar dEle. Mas que a cada dia nós estejamos caminhando pra Ele, focando naquilo que é celeste. Que aquilo que é celeste possa ser o alvo do nosso coração, da nossa vida. Que Deus nos abençoe poderosamente por meio da Sua Palavra.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
CONTINUAÇÃO DO ESTUDO DAS JORNADAS NO DESERTO

AS 42 JORNADAS NO DESERTO – CAPÍTULO 89
Por: Luiz Fontes
Rissa – 18ª estação – Parte 5
TEXTO: Números 15:32-41; Ec 4:6-8; Hc 3:16-18
Eclesiastes 4:6-8 é um texto que mais uma vez eu quero ler para que o Senhor possa ministrar ao nosso coração aquilo que Ele tem dispensado para esta oportunidade. O texto diz assim:
“6 Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento. 7 Então, considerei outra vaidade debaixo do sol, 8 isto é, um homem sem ninguém, não tem filho nem irmã; contudo, não cessa de trabalhar, e seus olhos não se fartam de riquezas; e não diz: Para quem trabalho eu, se nego à minha alma os bens da vida? Também isto é vaidade e enfadonho trabalho.”
Muito maravilhoso tudo isso. Olhar para esse texto e ver, dentro desse contexto que temos estudado até aqui nesta 18ª estação, o quanto o Senhor deseja nos exortar quanto a nossa própria vida, quanto ao nosso descanso nEle – o nosso “sabaat”. Veja que a pessoa que vemos descrita nesses textos é alguém que nunca se satisfaz com nada, não desfruta o que Deus lhe deu, sempre está insatisfeita com aquilo que possui, nunca se satisfaz com as bênçãos de Deus. É um tipo de pessoa que sempre procura ter mais. Esse tipo de comportamento revela uma compulsão exacerbada pelas coisas da vida. Esse tipo de comportamento revela uma pessoa que nunca compreenderá o meio pelo qual Deus está lhe abençoando, porque pessoas assim nunca se satisfazem com nada, nunca se realizam com nada, nunca conhecem o significado das bênçãos espirituais em sua própria vida. O Senhor Jesus diz lá em Mateus 6:34:
“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”.
Para que possamos ter uma visão desse quadro que o Espírito Santos está pintando para nós, precisamos ler ainda outros textos, outros versículos, que estão em Habacuque 3:16-18. Lendo todos esses textos, Eclesiastes 4:6-8, Mateus 6:34, Habacuque 3:16-18, você vai ter um quadro pintado pelo Espírito Santo diante de você lhe ensinando uma grande verdade. Os textos de Habacuque dizem assim:
“Ouvindo-o eu, o meu ventre se comove, ao seu ruído tremem os meus lábios; entra a podridão nos meus ossos, vacilam os meus passos; em silêncio, pois, aguardarei o dia da angústia que há de vir sobre o povo. Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada e nos currais não haja gado, todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação”.
Meus queridos, é importante vocês olharem para esses textos, especialmente aqui em Habacuque, porque todos nós precisamos saber que Habacuque viveu em uma época terrível. Ele viveu num momento muito difícil. A sua realidade contextual era a realidade da invasão de Jerusalém pela Babilônia. Imaginem quantas notícias terríveis ele ouviu! Era um momento difícil para aquele profeta, parece ter sido o momento onde só havia desespero, perplexidades, insegurança. Era um momento de profunda apostasia, aquele povo não ouviu a palavra do profeta Jeremias, a Palavra que o Senhor ministrou por meio de Jeremias. Durante 40 anos ele pronunciou a sentença do Senhor para tentar corrigir, tentar atrair aquele povo, mas eles não ouviram.
Habacuque está vivendo agora este momento terrível: o momento do juízo de Deus sobre Judá. Quantas notícias terríveis e perversas ele ouviu. Mas, ainda assim, ele diz:
“Ainda que a figueira não floresça, não haja fruto na vide e o produto da oliveira não produza mantimento, as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação”.
Você percebe? Ele diz que seu íntimo se comoveu, sua voz tremeu em seus lábios. Ele sentiu a fraqueza em seus ossos, seus joelhos estavam finos como se ele estivesse a ponto de desmaiar – ele chama isso do dia da angustia. Mas, em meio a tudo isso, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação! Quanto descanso, quanta certeza, quanta confiança Habacuque tinha em Deus. Será que o nosso coração é assim? Será que nós podemos descansar em meio às perplexidades? Será que nós podemos repousar em Deus, sentir nossa vida segura nas mãos dEle, segura nEle? Será que nós temos essa confiança? É isso que Deus espera de nós, porque o contexto desse assunto que nós estamos estudando, lá em Números 15:32, nos mostra que no sábado que era o dia do repouso solene, o dia do desfrutar de Deus, do descansar de Deus, onde o povo tinha de colher o maná dobrado para que não houvesse nenhuma atividade em Israel, havia um homem apanhando lenha, trabalhando para si. E o texto que nós lemos aqui de Eclesiastes nos mostra um homem sem ninguém, um homem que não cessa de trabalhar, seus olhos não se fartam de riqueza, alguém que está preocupado apenas em fartar a sua alma com os bens desta vida. E sabe o que Salomão diz? “Isso é vaidade”. E Salomão era um homem que sabia o que significava o poder da riqueza, a sedução da riqueza; o perigo que isso traz ao nosso coração, à nossa vida, quando não compreendemos o lugar das coisas, o lugar do dinheiro, o lugar da prosperidade; quando não compreendemos o propósito de Deus nessas coisas; quando vivemos para elas; quando não as consagramos para a glória de Deus; quando não entendemos o caminho de Deus nas nossas finanças, no nosso trabalho, na nossa vida; quando deixamos de viver para Deus, preferindo viver para nós, para nossas realizações, para nosso trabalho, para nossos bens. Essa teologia da prosperidade é perversa e perigosa. Precisamos encontrar em Deus e na Sua Palavra o equilíbrio para que vivamos uma vida que agrade a Deus. Isso por que o nosso maior bem é Cristo Jesus. A nossa maior riqueza é a vida de Cristo Jesus no poder do Seu Espírito. Uns vão ter muito, outros vão ter menos, mas o que significa? O que tem muito foi mais ouvido por Deus? Foi mais abençoado por Deus? E aquele que tem menos é espiritualmente pobre também? A nossa espiritualidade é medida pela riqueza que possuímos, por nossa conta bancária? Não, nada disso. Isso é falácia. Nós precisamos encontrar o lugar da riqueza do dinheiro na nossa vida cristã, para que isso não nos consuma a fé, para que isso não vire uma distração, um entretenimento religioso, onde a vida cristã se resume ao ter e nunca ao ser. Que Deus nos ajude.
Voltando aqui para Números 15:34, o Senhor disse que esse homem que estava apanhando lenha no dia de sábado deveria ser colocado para fora e toda a nação de Israel deveria julgá-lo, e ele deveria ser morto, apedrejado. Vimos que todo o povo de Israel deveria estar descansando em Deus, mas esse homem não descansou, ele estava aflito em seu espírito para apanhar lenha no dia de sábado. O Senhor havia dito que eles guardassem o sábado e aqueles que não guardassem o sábado deveriam ser mortos. Há uma consequência séria para uma pessoa que não guarda o repouso do Senhor. Uma pessoa agitada na sua vida natural é uma pessoa que não faz bem ao povo de Deus, não faz bem a si mesmo, pois esse tipo de comportamento produz ventos e tempestades, traz morte. Não ter uma vida de repouso em Cristo Jesus traz morte espiritual. Hebreus 4:1-3 diz assim para nós:
“Portanto, tendo-nos sido deixada a promessa de entrarmos no seu descanso, temamos não haja algum de vós que pareça ter falhado“.
Falhar em quê? Em descansar em Deus, em confiar em Deus, em viver o “sabbat” para Deus.
“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles”
Aqui o escritor está se referindo àqueles israelitas que viveram essa peregrinação em Rissa.
“Mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram”.
Isto é, quantos de nós não somos assim? Quantos de nós não temos compreendido a promessa de Deus em desfrutá-la, em descansar nEle, em confiar nEle? E aqui Ele nos adverte:
“Suceda parecer que alguns de nós tenha falhado”.
E onde é que nós falhamos? Falhamos em não descansar, falhamos em não repousar, falhamos em não confiar, em viver uma vida voltada demasiadamente para nós mesmos. Meus irmãos, Deus deseja, é o seu prazer, abençoar o fruto do nosso trabalho, abençoar a sua vida é um compromisso de Deus em sua Palavra. Muitas vezes nós estamos exageradamente pedindo que Deus abençoe nosso trabalho, nosso comércio, nosso salário, abençoe tudo isso, enquanto nós não vivemos uma vida de fé. Você pensa que viver uma vida de fé para Deus é quando você não tem nada, é quando você não possui nada e você vive como um mendigo pedindo as coisas, como um pedinte? Isso não é vida de fé. A vida de fé é viver, mesmo tendo tudo, mesmo que você tenha o suficiente e mais ainda, a nossa vida de fé é uma vida que todos nós, o povo de Deus, tanto aqueles que possuem muito, como aqueles que possuem pouco, devem viver. E essa medida é igual para todos. O fato de uns irmãos terem a vida financeira próspera não significa que o irmão que tem uma vida inferior no aspecto financeiro também não seja próspero. Porque a nossa prosperidade não está relacionada ao ter e sim ao ser. Não é o quanto eu tenho, mas o quanto eu vivo de Cristo. Muitas pessoas são prósperas, mas na sua prosperidade existe muita inveja, existem muitas decepções, muitas frustrações, muitos problemas. Uma riqueza que não é prosperidade, mas uma riqueza acompanhada de tristeza, de angustia, de perplexidade, de decepções, de desperdícios, de prejuízos. Então você tem que entender a diferença entre ter riqueza e ter prosperidade; entre ser rico e ser próspero. O povo de Deus é um povo próspero, e a nossa prosperidade está relacionada a viver uma vida de fé e não uma vida confiada no nosso saldo bancário. É isso que você precisa ter em conta, é isso que você precisa discernir, é isso que o escritor aos Hebreus está nos falando aqui: “visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que ouviram”.
Nós precisamos viver por uma vida sustentada pelo testemunho da Palavra de Deus. Ele é fiel e vela em cumprir a sua Palavra em nós. Quando você vive a vida cristã no aspecto relacional (e é assim que ela deve ser vivida naturalmente), a benção de Deus é uma resposta a nossa fidelidade, a nossa fé, ao nosso compromisso com Ele. Não é simplesmente viver uma vida como pedintes, mas viver uma vida relacional, uma vida aberta, fanca, honesta, responsável, uma vida que você vive diante de Deus e para a glória de Deus. Não é uma vida que você vive voltado para si, mas uma vida que você vive voltado para Deus. Eu creio que isso é muito importante para todos nós, porque há muita confusão acerca deste assunto. Olhem o versículo três aqui de Hebreus:
“...nós porém que cremos entramos no descanso de Deus conforme tem dito”.
Então, nós que cremos, se vivemos uma vida cristã pela fé, entramos no descanso de Deus, repousamos em Deus. Quando Deus quis introduzir o povo de Israel no Seu repouso, na terra de Canaã, eles não quiseram. Lembram? Foi isso que aconteceu lá em Ritma. Eles não quiseram entrar, e por isso ficaram caídos no deserto. O que foi que os impediu de entrar? A incredulidade. Amados, Deus tem um repouso no qual Ele deseja nos introduzir, mas para possuí-lo precisamos caminhar por fé. Uma definição de incredulidade é a tendência de quem não se deixa facilmente convencer. A incredulidade dos filhos de Israel no deserto fez com que Deus desistisse deles, pois a incredulidade ofende, insulta a Deus.
Vemos então que o verdadeiro significado do sábado no Novo Testamento é descansar em Cristo. Para nós o sábado é o nosso desfrute em Cristo, descansar nEle.No Antigo Testamento o dia que Deus havia determinado para descansar era o sétimo dia, mas no Novo Testamento Deus nos leva a descansar todos os dias, no Seu Filho Jesus.
Veja que em Números 15:36 diz que o povo de Israel levou aquele homem para fora da congregação, fora do arraial, e o apedrejou e ele morreu, porque o Senhor havia ordenado a Moisés. Quando nós não descansamos em Cristo, quando nós não vivemos uma vida no desfrute de Cristo, o resultado é morte. Nesse texto encontramos o significado de Rissa: ruínas, escombros, montão de pedras. Esse julgamento foi executado pela congregação. No Novo Testamento somos conduzidos pelo Espírito Santo ao aspecto espiritual dessa experiência em Rissa. Precisamos julgar os nossos irmãos, mas não a pedradas, e sim reprovando os seus atos pecaminosos, nunca permitindo ser arrastados por eles. Hoje vemos com muita tristeza muitos dos nossos irmãos tão ocupados em suas vidas, sem significado para Deus. E quando as pessoas agem assim, em que se tornam? Em escombros, em ruína. É isso que nós vamos atrair para nós. Se Cristo não for o nosso descanso, o que vamos trazer para o povo de Deus, para o Corpo de Cristo? Ruína. Deus não quer isso para você. Deus quer lapidar você como pedra para que, através de você, Ele possa edificar a Nova Jerusalém, a habitação de Deus. É isso que Ele deseja. Permita ser trabalhado por Cristo Jesus, permita que Deus lhe abençoe através dessa palavra e que Ele ganhe o seu coração e lhe conduza a viver mais e mais uma vida no desfrute de Cristo Jesus.
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