terça-feira, 20 de julho de 2010

AS 42 JORNADAS NO DESERTO - CAPÍTULO 68

Irmãos o capítulo 68 do estudo das 42 jornadas do povo de Israel pelo deserto é o assunto de estudo essa semana. Que o Senhor fale aos nosso corações, creio que há muito a aprender e que nos ajudará na nossa caminhada espiritual.


TEXTO: Números 11:1-6 – Quibrote – Hataavá – parte 4


Em Números capítulo 11, versículos de 1 ao 4, diz assim:
1 - Queixou-se o povo de sua sorte aos ouvidos do SENHOR; ouvindo-o o SENHOR, acendeu-se-lhe a ira, e fogo do SENHOR ardeu entre eles e consumiu extremidades do arraial.
2 - Então, o povo clamou a Moisés, e, orando este ao SENHOR, o fogo se apagou.
3 - Pelo que chamou aquele lugar Taberá, porque o fogo do SENHOR se acendera entre eles.
4 - E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também disseram: Quem nos dará carne a comer?
5 - Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos.
6 - Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este maná.

Amados irmãos, estudaremos mais um aspecto desta 13ª Jornada – Quibrote-Hataavá. Aqui nós temos a murmuração do povo. Depois de vermos a maneira como Deus ordenara este povo a “caminhar”, nesta sequência Ele ordena que este povo “marche”, porque Deus queria trazer a consciência deste povo à realidade de uma guerra espiritual. Eles deveriam ser vigilantes no que se diz respeito à “marcha”. Eles não poderiam vacilar, não poderiam perder o zelo. Agora, o Senhor está colocando ordem na caminhada e tudo isso tem um aspecto espiritual para nós. Após o Senhor estabelecer a “ordem da marcha”, nós vemos um ambiente muito bonito, todavia e infelizmente, satanás, o inimigo da obra de Deus, começa a provocar o povo contra Deus, contra o Seu trabalhar.
Na passagem descrita nós vemos que havia um “populacho” que estava no meio deles, e este populacho “(...)veio ter grande desejo das comidas dos egípcios(...)”. Eles tornaram a chorar e a clamar: “quem nos dará carne a comer?”. E assim, nós notamos que o Egito ainda estava no coração daquele povo. No meio do povo de Israel havia este populacho, de onde se originou o problema, a murmuração, as lamúrias, as queixas contra Deus. Precisamos ser cuidadosos em relação a este tipo de coisa. Não podemos nos deixar envolver por pessoas estranhas em nosso meio, pessoas que nunca tiveram uma experiência viva de conversão com Deus.
Em Romanos 16:17, Paulo nos admoesta para notarmos bem aqueles que provocam “divisões e escândalos”, que andam em desacordo com a doutrina. Ainda em II Tessalonicenses 3:14, este mesmo servo do Senhor prossegue exortando os irmãos que prestem muita atenção, porque se alguém não anda em obediência a Palavra, a doutrina, essas pessoas precisam ser notadas e nós não podemos nos associar com elas, porque elas precisam sentir vergonha do caminho mau pelo qual têm andado.
Em Filipenses 2:14, Paulo exorta os irmãos em Filipos, para que eles pudessem fazer tudo sem murmuração. Não poderia haver murmuração no caminhar, no andar da Igreja. Às vezes, há pessoas entre nós que não são convertidas, pessoas que a experiência de salvação deles é mais uma experiência “psicológica” não é uma salvação somada com arrependimento.
Olhando para Números, capítulo 11, no episódio de Quibrote- Hataavá, vemos a murmuração, notamos que eles começaram a depreciar o “maná”. Números 11:7 nos mostra o que é o maná: era como uma semente de coentro, com a aparência semelhante a do bdélio. Aquele povo estava menosprezando, desprezando o maná. O maná, do ponto de vista espiritual, não era simplesmente aquilo que Deus estava dando para eles se alimentarem, era o alimento, a provisão de Deus para que aquele povo andasse com Ele, andasse em obediência a Ele, andasse segundo as provisões dEle.
Infelizmente aquele povo não estavam vendo a medida de Deus dentro da própria essência do maná. Este é o retrato fiel da nossa própria situação, pois, amados irmãos, quando consideramos a história da humanidade, desde o princípio ao fim, percebemos que ela, a hitória da humanidade, está marcada pela queda, pelo fracasso, por um coração rebelde.
Neste acontecimento de Números 11, vemos a situação do nosso pobre e miserável coração. Nesta ocasião se descobre inteiramente as inclinações, as manifestações e os desejos do coração humano. A despeito do estado de escravidão em que vivia no Egito, aquele povo ainda suspirava por aquela terra onde viviam escravizados, debaixo de açoites. Esse é um retrato fiel da nossa própria situação, vez que o nosso coração perde o vigor pelas coisas de Deus sempre ele se volta para as coisas do mundo. E em conseqüência a tudo isso, em Números 11:11-15, vemos o abatimento de Moisés. O texto diz assim:

11 - Disse Moisés ao SENHOR: Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei favor aos teus olhos, visto que puseste sobre mim a carga de todo este povo?
12 - Concebi eu, porventura, todo este povo? Dei-o eu à luz, para que me digas: Leva-o ao teu colo, como a ama leva a criança que mama, à terra que, sob juramento, prometeste a seus pais?
13 - Donde teria eu carne para dar a todo este povo? Pois chora diante de mim, dizendo: Dá-nos carne que possamos comer.
14 - Eu sozinho não posso levar todo este povo, pois me é pesado demais.
15 - Se assim me tratas, mata-me de uma vez, eu te peço, se tenho achado favor aos teus olhos; e não me deixes ver a minha miséria.

Precisamos considerar este assunto diante do Senhor. Que o Espírito Santo nos ajude! No Salmo 106:33, diz assim: “pois foram rebeldes ao Espírito de Deus, e Moisés falou irrefletidamente”. Olha este Salmo! Diz que “Moisés falou irrefletidamente”. Isso é muito sério! Porque aqui nós vemos Moisés falar isso para Deus e segundo o salmista estas palavras foram palavras impensadas, irrefletidas. O que podemos aprender com esta notável explosão de abatimento de Moisés, descrita nestes textos? Uma das coisas que nós temos que aprender é que o deserto é o lugar onde se revela o que há no nosso próprio coração! Aqui as falhas são descobertas.
O livro de Números é o livro do deserto. Percebemos que Moisés estava sujeito às mesmas paixões que nós. Parece que o seu coração estava prestes a sucumbir sobre o peso da responsabilidade que estava sobre ele. O fardo que Moisés suportava era pesado demais para os ombros humanos. Mas, será que Deus colocou aquilo sobre Moisés, sem conhecer a estrutura emocional dele? Será que aquele fardo que ele estava suportando era pesado demais como o próprio Moisés afirmara para Deus? Será que Deus o chamou para fazer tudo sozinho? Deus não estava com ele? Deus não era suficiente? Todo poder e graça e sabedoria não provém de Deus? Tudo isso deveria ser descanso para Moisés. Ele não deveria se abater diante daquilo. Quando Deus chama um homem para determinada obra de responsabilidade no serviço, Ele derrama sua graça suficiente para capacitá-lo a servir adequadamente.
Creio que este triste fato, esta triste experiência que Moisés passou ajuda-nos muito nos dias atuais, porque nós somos seres humanos passíveis de abatimento. Mas podemos, pela graça de Deus, olhar essas experiências de consagrados servos de Deus e ver que há lições que precisamos aprender.
Moisés não podia prover a comida para aquela grande multidão. Mas Deus sim! Esse foi um momento sombrio na vida de Moisés. Isso nos reverte para outro servo de Deus: Elias, quando este, em 1 Reis 19:4, se assentou debaixo de um zimbro e “pediu a própria morte”.
Em Mateus capítulo 17, vemos Moisés e Elias no monte da transfiguração, junto com o nosso Senhor Jesus Cristo! Isso nos dá segurança para compreendermos que os pensamentos de Deus não são como os nossos pensamentos. Imagine que um dia, Moisés esteve profundamente abatido. Elias esteve num momento de profunda angústia, no entanto, Deus alcançou nestes homens a sua Obra.
Deus repreende nossos temores pela riqueza da sua graça. Quando nossos pobres corações querem antecipar nossa própria morte, Ele dá vida, vitória, glória e derrama sua superabundante graça, bondade e misericórdia sobre nós.
Quibrote-Hataavá, significa “túmulos de cobiça”. Nesta passagem vemos este episódio de Mois a fonte e a provisão dele.
Também temos que olhar outro aspecto aqui em Quibrote-Hataavá. Em Números 11:31-35 vemos a cobiça daquele povo. O coração deles voltado para o Egito. Diz assim os versículos:

31 - Então, soprou um vento do SENHOR, e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial quase caminho de um dia, ao seu redor, cerca de dois côvados sobre a terra.
32 - Levantou-se o povo todo aquele dia, e a noite, e o outro dia e recolheu as codornizes; o que menos colheu teve dez ômeres; e as estenderam para si ao redor do arraial.
33 - Estava ainda a carne entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, quando se acendeu a ira do SENHOR contra o povo, e o feriu com praga mui grande.
34 - Pelo que o nome daquele lugar se chamou Quibrote-Hataavá, porquanto ali enterraram o povo que teve o desejo das comidas dos egípcios.
35 - De Quibrote-Hataavá partiu o povo para Hazerote e ali ficou.

Veja isso! Chamou aquele lugar Quibrote-Hataavá porque ali foram enterrados, aquelas pessoas que tiveram o desejo das comidas dos egípcios. Irmãos, essa é uma grande lição para cada um de nós. Se permitirmos que habite no nosso coração qualquer desejo pelo mundo com certeza nós seremos condenados com o mundo. Seremos enterrados por estas coisas. A nossa cobiça é como a sepultura onde somos enterrados. Não podemos permitir que o nosso coração nos engane e que sejamos levados a viver uma experiência como esta.
Então veja todo este quadro! Primeiro nós vemos um povo desesperado pelas comidas do Egito. Um povo que não queria Deus, que estava sufocado pela obsessão das coisas do Egito e que tinha um desejo descontrolado pelas coisas do Egito. Irmãos, o Egito, é o mundo! O Egito figura o mundo para nós. Nós não podemos permitir que sejamos vencidos pelas astutas ciladas do Diabo. O nosso coração precisa ser tomado pela Vida de Deus. Nossos desejos precisam ser purificados pelo poder da Palavra, pela presença do Espírito trabalhando em nós. Pelo fruto do Espírito em nós, para que não venhamos viver uma vida que desagrade a Deus como aconteceu aqui em Quibrote-Hataavá. A ira de Deus se acendeu, aquele povo foi julgado e condenado com o mundo, condenado segundo o desejo dos seus corações. Por outro lado nós vemos Moisés abatido por causa desta situação. Nós necessitamos da ajuda do Senhor.
Nós que temos o encargo da Palavra, não podemos permitir que situações como essa venha sufocar-nos, que venha suplantar a nossa dependência de Deus, a nossa confiança e segurança em Deus. Porque a Obra é de Deus! Esse foi o segredo intrínseco do ministério de Cristo Jesus. Sua completa dependência do Pai, sua total confiança e segurança no Pai. A certeza de que era o Pai que estava fazendo a Obra! Nós somos pequenos canais nos quais Deus se move para poder alcançar o Seu Propósito. Quando, através dos nossos próprios esforços, procuramos fazer a Obra de Deus, nos desgastamos, nos frustramos, nos desanimamos e ficamos suscetíveis à queda, ao fracasso e a tantas coisas.
Portanto, amados irmãos, que o Senhor venha nos ajudar através do Seu maravilhoso Espírito. Que Ele possa trabalhar na nossa vida de uma forma poderosa, por meio da Sua Palavra e por meio do Espírito Santo para que nós sejamos cuidadosos quanto ao ministério, para que sejamos cuidadosos em relação ao serviço a Deus.
Nunca julgue que o fardo está pesado demais porque a Obra é de Deus. É Ele e não nós que dá a provisão para o Seu povo. Nós somos apenas instrumentos nas mãos Dele. Toda a glória é para Ele! Aprendamos a confiar que Deus vai suprir toda necessidade. Procuremos desenvolver um relacionamento de dependência, confiança e segurança nas mãos de Deus para que nós não venhamos vacilar.
Outra grande lição que nós aprendemos é que os nossos desejos precisam estar trabalhados pela obra da Cruz, pela Palavra, pela presença do Espírito Santo em nós, para que não venhamos cobiçar as coisas do mundo. Porque essas coisas entristecem a Deus, por essas coisas vem a ira de Deus.
Que esta solene advertência venha nos ajudar a caminhar numa trilha reta cujo alvo é Cristo Jesus. Que Deus nos abençoe e nos guarde por meio da Palavra que está ministrando ao nosso coração.

Por. Ir. Luiz Fontes.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

OS JUDEUS E OS GENTIOS

Irmãos esse é o assunto do estudo da reunião de hoje. Os Judeus e os Gentios.

Que possamos receber do Senhor as verdades espirituais que ele deseja nos comunicar.

DEUS ABENÇOE A TODOS

CAPÍTULO 14

"Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens."
– Efésios 2:11
Este versículo é o começo de uma declaração que tem continuidade no versículo doze: "Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo". Mas agora chamo a atenção para o versículo onze somente.
Chegamos aqui a uma nova seção da declaração que o apóstolo Paulo faz neste capítulo dois desta Epístola. Há uma definida interrup¬ção aqui, e o apóstolo toma uma nova ideia e um novo pensamento. É importante, pois, que tenhamos claro em nossas mentes o seu argumento e o que ele pretende fazer.
O grande objetivo da Epístola é explicar e expor o grandioso propósito de Deus durante a presente era. Vem na forma de sumário no versículo dez do capítulo primeiro – assim, Deus se propusera "tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra". Esse é o grande propósito de Deus durante a presente dispensação, o grandioso propósito de Deus em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Cristo veio a este mundo – falando em termos do Seu supremo objetivo – a fim de reunir, de colocar de novo sob o Seu comando todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. O apóstolo está interessado em explicar e expor isso aos membros da igreja de Éfeso e às outras igrejas às quais esta carta deveria ser enviada. Vimos também que o apóstolo logo passa a dizer que este propósito de Deus, grandioso e final, já está sendo posto em operação, que a própria Igreja é uma ilustração dessa verdade, no sentido de que os efésios, juntamente com outros gentios, tinham sido introduzidos na Igreja, como os judeus. Tendo dito isso, o apóstolo passa a dizer a estes efésios que a coisa mais importante para eles era que tivessem iluminados os olhos do seu entendimento.
Paulo quer que os efésios conheçam particularmente "a sobre excelente grandeza do poder de Deus para com eles". Portanto neste segundo capítulo (da Epístola) ele expõe e demonstra para eles esse grande poder. Ele ilustra para eles o que está querendo dizer. É admirável, é espantoso, que estes efésios, estes gentios, sejam membros da Igreja Cristã, lado a lado com os judeus. E só existe uma coisa que tornou isso possível, esta sobreexcelente grandeza do poder de Deus. É o mesmo poder que Deus manifestou ressuscitando o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.
1) Havia dois obstáculos principais entre os gentios e sua vinda para Deus
1.1) O primeiro obstáculo era o seu estado e condição em pecado
Como isso é demonstrado? Desta maneira: havia dois obstáculos principais entre estes e sua vinda para Deus, a fim de serem cristãos e membros da Igreja. O primeiro obstáculo era o seu estado e condição em pecado. O apóstolo trata disso nos dez primeiros versículos deste capítulo. Já estivemos tratando disso, não o olvidemos. Ele os faz lembrar-se do que eles eram. Mas agora são cristãos. Que foi que os mudou, que foi que os trouxe daquilo para isto? Há só uma resposta: é o poder de Deus – nada menos que isso. Lá estava aquele terrível obstáculo – e continua sendo o grande obstáculo entre todos os homens e Deus – a morte do pecado. Nada, senão o poder de Deus, poderia ter lidado com tal situação.
1.2) O segundo obstáculo era a sua posição, ou o seu "status", na economia de Deus
No entanto, havia um segundo obstáculo, mais uma coisa que se interpunha entre estes gentios e a qualidade de membros da Igreja de Cristo e o conhecimento de Deus. Que seria? Era a sua posição, ou o seu "status", na economia de Deus, e especialmente em termos da sua relação com a lei de Deus. É a esse assunto que o apóstolo se dedica neste versículo onze, continuando até o versículo doze do capítulo três.
Aí está, obviamente, outra questão vitalmente importante. Como esse primeiro obstáculo ainda opera, assim também este segundo obstáculo continua operando. Portanto, não estamos empenhados num estudo acadêmico, puramente objetivo, de algo que era real há dois mil anos. É real hoje como então. As Escrituras são sempre relevantes e contemporâneas, elas falam de nós e de todos os demais. Daí então, é de vital interesse que entendamos o ensino do apóstolo neste ponto.
Proponho-me a tratar disso apenas de maneira geral no momento, pois quero fazer uma introdução geral da seção toda. O apóstolo está desejoso de que estes efésios captem e apreendam verdadeiramente quão tremenda coisa era eles se tornarem cristãos e serem membros da Igreja Cristã. O segundo meio de que se utilizou para conseguir que eles enxergassem isso é o seguinte: "... lembrai-vos", diz ele, "de que vós noutro tempo" – e em seguida vem a descrição. É assim que ele a introduz. Será somente quando eles se lembrarem disso, e somente quando se derem conta de qual é a verdade a seu respeito, que eles poderão realmente começar a entender a grandeza do poder de Deus. Vocês jamais poderão aperceber-se da grandiosidade do poder de Deus, enquanto não se aperceberem da grandiosidade dos obstáculos que aquele poder venceu. Há muitos hoje que não veem nada na salvação cristã, que não ficam admirados face a ela, e que pensam que, provavel¬mente, Paulo era um psicopata, porque ele entrava em êxtase quando contemplava as glórias da salvação. Eles não veem nada disso; para eles não há no cristianismo nada que cause admiração, que cause espanto. Por quê? Porque nunca se deram conta do problema, porque ignoram o pecado e nada sabem da ira de Deus. Não se dão conta da natureza destes obstáculos e dificuldades. O apóstolo tinha consciência disso; e ele quer que os efésios também a tenham. O seu método para essa finalidade é lembrá-los do que eles eram e fazê-los ver como Deus venceu este segundo obstáculo. Isto, num sentido, é tão esplêndido e maravilhoso como o modo pelo qual Ele venceu o primeiro.
1.3) Naqueles tempos antigos o mundo estava dividido em dois principais grupos, judeus e gentios
Qual é o segundo obstáculo? Permitam-me expressá-lo assim: naqueles tempos antigos o mundo estava dividido em dois principais grupos, judeus e gentios. A divisão parecia absoluta, e qualquer conversa sobre reconciliação parecia descomunal e impossível. Judeu e gentio! Os judeus e os "cães"! Mas, por outro lado, os gentios tinham a sua classificação, particularmente os gregos. Para eles o mundo todo estava dividido em gregos e bárbaros – o povo inteligente, os filósofos, os gregos, de um lado; os ignorantes, os iletrados, os bárbaros de outro. Essa era a situação, e parecia completamente impossível que estes dois segmentos, estes segmentos em conflito e que se desprezavam um ao outro tão fortemente, se juntassem e se reconciliassem, muito menos que fossem vistos ajoelhar-se juntos, cultuando e adorando o mesmo Deus e o mesmo Senhor. Todavia aconteceu, diz Paulo. O espantoso é que isso é verdade. Estes efésios foram introduzidos e igualmente são membros da Igreja. Este é o fato espantoso que nada menos que "a sobreexcelente grandeza do poder de Deus" poderia fazer acontecer.
Pois bem, essa é a mensagem. A maneira pela qual o apóstolo a expressa é extremamente interessante. Vejam o versículo onze, que estamos considerando. É onde ele introduz o assunto. Vocês notaram o modo como ele o faz? Pessoas há que com frequência acham este versículo difícil, e o é até que se veja exatamente o que ele significa. Na primeira leitura parece impossível. Vejam-no de novo: "Portanto, (vós efésios), lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne" – e então esta longa declaração, "e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens".
Significa isto: Paulo começa fazendo-os lembrar-se de que de fato eles eram "gentios na carne". Era um simples fato da história, um fato literal, sólido, que como gentios eles não tinham sido circuncidados. Portanto, eram "gentios na carne". "Na carne" aqui não é um contraste com "no espírito", porque, se fosse, o apóstolo pareceria estar dizendo: é verdade que vocês eram gentios na carne, porém, naturalmente, no espírito vocês estavam bem. Não é nada disso que ele quer dizer. Eis o que ele quer dizer: é um duro fato de que vocês eram gentios na carne; não tinham a marca, o sinal, o símbolo de serem judeus – vocês não tinham sido circuncidados. Mas ele não abandona o ponto aí. Poderia fazê-lo, entretanto sai numa espécie de digressão que termina no fim do versículo, e depois volta ao ponto de origem, no princípio do versículo 12. Mas a digressão vem carregada de interesse. "Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne", éreis chamados incircuncisão pelos que a si mesmos se intitulavam ou se chamavam circuncisão, circuncisão na carne, feita pelas mãos. A dificuldade era que os judeus se haviam agarrado a isso, que era realmente um fato, e o tinham transformado num problema. Visto que tinham entendido mal o ensino das suas próprias Escrituras, passaram a pensar que a única coisa que realmente importava era o sinal na carne. Estavam considerando isso de maneira material, carnal, e para eles nada importava, senão a circuncisão qua1 circuncisão. Para eles isso era tudo, era da máxima importância, e nada mais importava. Eles tinham entendido errada¬mente o propósito todo, até mesmo a circuncisão propriamente dita; com isso criaram esta grande barreira, este grande obstáculo no mundo antigo. O apóstolo faz a sua colocação com estas palavras: vocês eram gentios na carne. Sim, e por aquelas pessoas que se diziam A Circuncisão vocês eram apelidados e descritos como A Incircuncisão. Os que falam somente em termos da carne e daquilo que é feito pelas mãos dos homens, pensando unicamente nesse nível, põem-se à parte e dizem: "Nós somos A Circuncisão, e aqueles outros são A Incircuncisão".
Este é um ponto muito importante que vocês devem observar quando leem as Epístolas do Novo Testamento. Vejam, por exemplo, o que Paulo escreve aos filipenses (3:3): "A circuncisão somos nós" – ¬nós, os cristãos! – "que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne". É exatamente o mesmo ponto. Noutras palavras, para termos um verdadeiro entendimento destas Epístolas paulinas, temos que entender o ponto que ele está defendendo neste versículo. Não somente era um fato e uma verdade que os gentios não tinham sido circuncidados; desafortunadamente, os judeus tinham exagerado esse fato, e tinham feito daquilo uma parede de separação que parecia completamente irremovível.
Pois bem, essa pequena exposição é vital para ter-se entendimento de tudo o que temos para dizer. Havia dois aspectos deste segundo obstáculo que Deus tinha que vencer antes de os efésios poderem tornar¬-se cristãos. Primeiramente havia a atitude dos judeus para com os gentios. E depois, em segundo lugar, havia a atitude de Deus para com os gentios. A atitude de Deus tinha que manifestar-se porque, afinal de contas, eles não tinham sido circuncidados, não eram da semente de Abraão. Mas, antes de passarmos a isso, temos que examinar esta atitude judaica, esta "circuncisão e incircuncisão", esta divisão. Há, creio eu, um elemento próximo do sarcasmo na maneira pela qual o apóstolo se expressa – "éreis... chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam (ou se intitulam) circuncisão feita pela mão dos homens". Vocês podem observar a ênfase que ele dá. O grande ponto que ele defende é que Deus venceu este obstáculo duplo. Ambas estas dificul¬dades foram sobrepujadas por Cristo e pelo que Ele fez. A atitude do judeu para com o gentio foi corrigida, se o judeu se tornou cristão; e a atitude de Deus para com eles também mudou. Assim, toda a questão da lei foi solucionada por nosso Senhor e Salvador. Esse é o argumento real e concreto do apóstolo.
1.4) A relevância disso tudo hoje
Permitam-me agora mostrar-lhes a relevância disso tudo hoje, porque continua sendo verdadeiro. Estamos vivendo numa era e num tempo em que há muito pensamento e muita concentração precisamente sobre este problema. O mundo está cheio de divisões e conflitos. Todos nós sabemos destes fatos; vemo-los entre nações – a tensão entre os Estados Árabes e Israel, entre o Oriente e o Ocidente, e todas as diversas subdivisões e ramificações. Divisões! – a Cortina de Ferro2, a Cortina de Bambu, e assim por diante! Contudo, essa verdade não diz respeito somente à esfera das nações e das relações internacionais; aplica-se igualmente ao que ocorre dentro das nações: classes, grupos e várias outras divisões. O mundo, em certo sentido, está repleto desta coisa toda. Assim como o mundo antigo estava dividido da maneira que vimos, assim também o mundo moderno está dividido desses vários modos. E acontece a mesma coisa com a Igreja Cristã: seitas, denominações, grupos e divisões, e barreiras. Que pena! E tudo isso está ocupando muito pensamento e muita atenção no presente. Fala-se disso interminavel¬mente, escreve-se interminavelmente sobre isso. Todo mundo está preocupado em conseguir entendimento, em obter unidade, e em tratar desse problema nestas diversas esferas. E, todavia, não pareceria que grande parte dessa conversa, desses escritos e dessas atividades é completamente vã e inútil? Parece não levar a nada; e a questão é: por quê? A resposta está no que Paulo ensina nesta passagem; pois a sua afirmação aqui, como em toda a sua Epístola, é que a única unidade digna de que dela se fale só é possível sob certas condições. A Igreja Primitiva, que consistia de judeus e gentios, foi a demonstração da verdadeira unidade. Eles foram aproximados e reunidos, dirigiam-se juntos em oração ao mesmo Pai graças ao Espírito, estavam na mesma Igreja, eram concidadãos, na verdade eram membros da mesma família. Esse é o único caminho, e todo e qualquer outro caminho que se tente não levará a nada. Para mim, uma das maiores tragédias da hora presente, especi¬almente na esfera da Igreja, é que a maior parte do tempo parece que é tomada pelos líderes para a pregação sobre unidade, em vez de pregarem o evangelho, o qual, unicamente, pode produzir unidade. O tempo é gasto com falas e conferências, interminavelmente – conferências nas quais eles "averiguam as suas dificuldades". Jamais se conseguirá unidade dessa maneira. Unicamente o evangelho produzirá unidade. E enquanto houver desacordo sobre o evangelho, será desperdício de fôlego e de energia falar sobre qualquer outro caminho para a unidade. Essa é a mensagem desta seção, como eu a vejo; e não se aplica somente à Igreja, mas também se aplica ao mundo de fora.
2) Duas questões principais que terão que ser consideradas antes de haver alguma espe¬rança de unidade e de solução dos problemas e dificuldades
Qual é o ensino, então? Permitam-me resumi-lo da seguinte maneira: o apóstolo queria fazer-nos ver que existem duas questões principais que terão que ser consideradas antes de haver alguma espe¬rança de unidade e de solução dos problemas e dificuldades. Quais são?
2.1) A primeira é que temos de compreender a causa da dificuldade
A primeira é que temos de compreender a causa da dificuldade. E preciso afirmar isso constante e interminavelmente nos dias atuais! Muito do que debalde se fala e se escreve sobre unidade e entendimento hoje deve-se inteiramente a uma só coisa, a saber, que os que o fazem nunca encararam a causa da dificuldade. É preciso ter o diagnóstico antes de fazer o tratamento. Quem se apressa a fazer tratamento sem saber com segurança qual é o diagnóstico, simplesmente não sabe o que faz. Positivamente está se arriscando. Medicar os sintomas ignorando a doença, a causa em suas raízes, é pura loucura. É porque as pessoas simplesmente não reconhecem a causa como esta passagem a ensina, que todas as suas tentativas são comprovadamente inúteis.
2.2) As diferenças tinham¬-se tornado barreiras
Aqui o apóstolo fala sobre a causa, sobre a moléstia. Vejam este caso dos judeus, como ele o coloca no versículo onze. Podemos expressá-lo da seguinte forma, como um postulado: a divisão do mundo antigo era devida a uma só coisa, e essa era que as diferenças tinham¬-se tornado barreiras, as diferenças tinham-se tornado uma "parede de separação que estava no meio". As diferenças existem, e menosprezá¬-las é tolice. As diferenças são fatos. E mesmo quando se tem verdadeira unidade, permanecem as diferenças. Todavia a tragédia é que os homens exageram as diferenças e as transformam em barreiras, em obstáculos, em "cortinas", em paredes de separação no meio. Era exatamente o que aqueles judeus estiveram fazendo. A ordenação de Deus era que houvesse judeus e gentios. Deus é que tinha formado a nação dos judeus. Havia uma real diferença. Os judeus eram circuncisos, os outros não. Mas isso não era para ser uma barreira. Deus não criou uma nação para não se importar com as outras; Ele criou a nação dos judeus para falar por meio deles ao mundo inteiro. Entretanto o judeu o tinha entendido erroneamente. Ele transformara essa diferença numa barreira, manti¬nha-se separado e desprezava os demais. A Circuncisão – A Incircuncisão!
3) Como isto se desenvolve e a que leva?
3.1) Primeiramente leva ao orgulho
Como isto se desenvolve e a que leva? Segundo o apóstolo, parece que o faz da seguinte maneira: primeiramente leva ao orgulho. É certamente um fato que o problema em foco é causado pelo orgulho, pelo ego. Esta é a causa fundamental de toda divisão, de toda barreira, de todo obstáculo. Essa é a causa de todas as barreiras de separação que se interpõem. É a causa basilar de tudo quanto divide as pessoas. O orgulho e o ego! O orgulho cega, o orgulho é um espírito poderoso que nos dirige, nos subjuga e nos domina. Sob a influência do orgulho a pessoa não pensa direito, torna-se preconceituosa. Não é capaz de ver coisa alguma como verdadeiramente é. O preconceito é uma das maiores maldições da vida, e geralmente tem a sua base e as suas raízes no orgulho. Tem o poder de cegar completamente a gente. Como funciona? Primeira¬mente impede-nos de ver os dois lados de uma questão. Para quem é governado pelo preconceito, não existe um segundo lado, há somente um, não há outro. Ele está completamente cego. Ora, essa era a atitude do judeu: "A Circuncisão", "A Incircuncisão"! Ele não admitia os gentios, ele voltava as costas para eles. Não seria essa a essência de todas as contendas?
3.2) Um falso conceito de nós mesmos
Depois, outro modo de funcionar do preconceito é este: sempre nos leva a ter um falso conceito de nós mesmos. O preconceito, e o orgulho que leva ao preconceito, não somente impedem a pessoa de ver que há outro lado; também produzem nela um conceito próprio inteiramente falso. Dessa maneira, o preconceito sempre exagera o que há de verdade a seu respeito. Era uma ordenança de Deus que o judeu fosse circuncidado, porém o judeu exagerava isso ao ponto de dizer que só havia uma verdadeira nação na terra, a nação judaica. Os outros povos eram "cães". Ele exagerava o que era verdade a seu respeito. Ele pensava que simplesmente porque era judeu, necessariamente estava em boas rela¬ções com Deus, e não precisava de mais nada. Por isso os judeus crucificaram o Filho de Deus, porque Ele lhes mostrou que isso não era verdade.
3.3) Incapazes de ver e perceber que o que quer que sejamos, e o que quer que tenhamos, não se devem a nós, mas foi Deus quem nos deu
Outra coisa que o preconceito faz é tornar-nos incapazes de ver e perceber que o que quer que sejamos, e o que quer que tenhamos, não se devem a nós, mas foi Deus quem nos deu. Os judeus tinham esquecido completamente que a circuncisão era um dom de Deus. "Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém" (João 8:33), disseram os judeus a Cristo certa ocasião. Pobres tolos cegos! Como se pudessem responder por si! Todos nós tendemos a fazer a mesma coisa. Vejam como os homens se gabam da sua capacidade. Que direito tem o homem de gabar-se da sua capacidade? Foi ele que a produziu? Foi ele que a gerou? Não, ele nasceu com ela, foi-lhe dada por Deus. Todos estes dons nos são dados por Deus. Um homem se orgulha da sua aparência. Ele é responsável por tê-la? Ele a produziu? Não obstante, é isso que o orgulho faz, como vocês veem. Exagera o que temos, e afirma que nós o produzimos. E não se apercebe, com humildade, de que é tudo dado por Deus e vem das Suas generosas mãos. São estas as sementes da desunião, da guerra e do derramamento de sangue.
3.4) Um falso conceito dos outros
Ademais, o preconceito faz que tenhamos um falso conceito dos outros. Visto que nos faz exagerar o que temos, faz-nos também diminuir o que eles têm. Vocês o reconhecem atuando em sua própria vida, não reconhecem? Como sempre aumentamos o que é do nosso lado e tiramos do outro! Relutamos em reconhecer a bondade quando ela está nos outros: não queremos reconhecê-la. E porque não queremos, não a reconhecemos. De fato, subtraímos, tiramos até não deixar nada. O judeu estava convencido de que não havia nada de valor nos gentios; nem lhes pareciam humanos; eram "cães". Exatamente da mesma maneira o grego, com a sua cultura, considerava os outros como bárbaros, iletrados. O preconceito não se limita a diminuir e a subtrair os valores alheios, mas também passa a desprezar os outros. Pensem nas "castas inferiores e fora da lei", de Kipling, em expressões como "não britânico", "forasteiros", "Herrenvolk"3, "nativos". Aí vocês têm a fonte de muitas contendas e dificuldades. É porque essa mentalidade foi tão propensa a predominar no século passado que o mundo se defronta com tantos problemas hoje, e particularmente este nosso país, talvez. Mas é a mesma coisa com os indivíduos. É o que se dá com todos os que se deixam governar pelo orgulho e pelo ego. É como se desenvolve e funciona – exagero do que nos é lisonjeiro, diminuição e desprezo dos outros. "Chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam (se intitulam) circuncisão feita pela mão dos homens"! Não admira que Paulo tenha sido um tanto sarcástico. Ele queria ridicularizar a coisa, e assim a retratou dessa maneira, para que todos vissem como é horrível e torpe.
4) Uma segunda grande causa de divisão, a saber, um errôneo juízo de valores
Ora, existe uma segunda grande causa de divisão, a saber, um errôneo juízo de valores. Tendo já feito referência a isto em princípio, permitam-me agora dar-lhes os detalhes. Toda a tragédia do judeu, naquele tempo, foi que ele omitiu o ponto essencial. Faltou-lhe um real juízo de valores. Ele achava que o que importava era a circuncisão. O que Paulo e outros tinham para ensinar-lhes era que o que importa é a circuncisão do espírito; que a pessoa pode ser circuncidada na carne e, ao mesmo tempo, estar condenada e perdida; que o homem que está em boas relações com Deus é o que foi circuncidado no espírito; e que isso é tão possível para o gentio como para o judeu. Mas o judeu tinha parado na carne; seu senso de valores estava errado, ele tinha interpretado mal a circuncisão. A circuncisão era meramente um sinal externo de um estado interno, espiritual. Era o que a circuncisão fora destinada a ser, porém, o judeu tinha ficado cego para isso.
4.1) Ênfase dada às aparências, às exterioridades
Notem as duas coisas que Paulo acentua: "na carne", e "feita pela mão dos homens". "Incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens." Com a expressão "a carne" aqui, ele se refere à ênfase dada às aparências, às exterioridades e àquilo que é puramente físico. Nacionalidade! É puramente da carne. É um cabal acidente nascer numa nação, e não noutra. Certamente é um fato a existência de diferentes nações e nacionalidades; mas nós nos inclinamos a fazer exatamente o que os judeus fizeram, transformamos estas coisas em barreiras. Porque sucedeu que eu nasci em determinada nação, essa é a nação. Outro homem diz exatamente a mesma coisa acerca da sua nação. Isso é tomar uma coisa que é legítima na carne, entretanto exagerá-la até se tornar algo tremendo. Nacionalidade! As pessoas lutam por isso, dão a vida por isso, matam outras pessoas por isso. Nacionalidade! Nascimento! Família! Sangue! Como exageramos e inflamos estas coisas! Como desprezamos outras pessoas! Como estas coisas criam barreiras! O povo atribui mais significação à simples linhagem dos homens do que ao seu espírito, à sua alma, ao seu caráter, ao seu entendimento. Aquelas coisas são barreiras literais na vida; muitos são postos no ostracismo por esses motivos. A cor da pele! Pura questão da carne, mas é o tipo de coisa que leva àquela horrível frase – "castas inferiores e fora da lei". Que lástima! A alma, a mente, o espírito, não são levados em consideração. A avaliação é puramente em termos da carne. Capacidade, dinheiro, escola e instrução, posição na vida – são as coisas que têm causado divisões, disputas, miséria e infelicidade no mundo atual, e todas elas pertencem à carne.
Desafortunadamente, quando se chega aos domínios da religião, vê-se a mesma coisa. Nada causa tanta divisão como a concentração em meras exterioridades da religião. Os que mais perseguiram o nosso Senhor e que finalmente foram responsáveis por Sua morte foram os saduceus e os fariseus. Por quê? Porque só estavam interessados nas exterioridades, nas formas, nas cerimônias e nos rituais, ignorando completamente o espírito. E ainda continua sendo assim. Concentração nas formas, em belos cultos, liturgias, cerimônias, vestes e coisas desse tipo relacionadas com o culto de Deus estão dividindo as pessoas. É simplesmente a velha prática dos judeus repetida na sua forma moderna; o que pertence à carne é agarrado até vir a ser uma barreira.
Vejam, porém, por um momento a outra frase. Não somente "a carne", mas também "feita pela mão dos homens", diz Paulo, isto é, puramente humana. Quais são as coisas que estão causando divisão na Igreja hoje? Por que não nos sentamos todos juntos à mesa da comu¬nhão? Ah, diz um, você não pode vir à mesa e comer do pão e beber do vinho se não foi confirmado, se certas mãos não foram impostas sobre a sua cabeça. "Feita pela mão dos homens", vocês veem! Não importa se a pessoa nasceu de novo e tem em si o Espírito de Deus e se está vivendo como um santo a vida cristã. Não participará porque ela não foi confirmada. 4Que valor há em falar em unidade e em re-união, que vale ter grandes conferências e dar-lhes grande publicidade, se os próprios líderes de tais conferências ainda agem em termos dessas barreiras? É irreal, quase chego a dizer que é desonesto. Mas outros dizem: você não virá à mesa se não foi batizado de um modo particular. É o modo como você foi batizado que importa, e você é excluído da mesa do Senhor simplesmente por causa da quantidade de água com a qual foi batizado. "Feita pela mão dos homens"! E há outros círculos que não o admitirão à participação do pão e do vinho por causa de detalhes e minúcias semelhantes. É uma repetição da maneira de ver dos escribas, dos fariseus, dos saduceus e dos doutores da lei. Estas coisas pertencem meramente à periferia. Estamos dispostos a conceder que haja diferen¬ças de opinião sobre estas questões, porém elas jamais deveriam chegar ao centro, jamais deveriam tornar-se barreiras, jamais deveriam inter¬por-se como paredes de separação. Nunca se recuse a vir à mesa do Senhor com outra pessoa por nenhuma dessas razões.
Vocês verão tradições similares também em questões de governo e ordem da Igreja. Há os que são muito mais leais à tradição de sua denominação particular do que ao Senhor Jesus Cristo. É geralmente por acidente que eles pertencem à denominação, é simplesmente porque os seus pais pertenciam a ela, e porque foram criados nela; mas lutam por ela, brigam por causa dela. Isso vem a ser a coisa importante e vital. De algum modo, Cristo e a Sua verdade são inteiramente esquecidos e não são mencionados. "Feita pela mão dos homens", tradições humanas, lealdade a formas, tradicionalismo! São estas as coisas que levam a separações e desuniões.
5) Qual a cura?
São estas, pois, as causas. Qual a cura? O apóstolo a expõe claramente aqui. Unicamente Cristo pode curar, e a razão disso é que é necessária uma mudança do coração. Não basta apenas apelar para a boa vontade, para a bondade, para o amigável e para a fraternidade. Simples¬mente não funciona, e não funcionará; de fato nunca funcionou. Tampouco é suficiente apenas apelar em geral para que os homens e as mulheres apliquem o ensino de Cristo. Esse é o apelo popular hoje. Venham, dizem eles, vamos tornar e aplicar os ensinamentos de Cristo. Alguns pensam que, se você fizesse isso, se este país fizesse isso, de algum modo até a guerra seria banida e não haveria mais problema. A resposta a isso é, de novo, que não é verdade, simplesmente não é fato. Já foi tentado. Foi tentado nas escolas onde não acreditam mais na disciplina. Foi tentado nas prisões, onde também ninguém mais crê realmente na disciplina. E vocês veem os resultados, vocês veem o aumento da barbárie e do destemor de Deus. Mais importante que isso, porém, é algo que vai contra as Escrituras, não é bíblico, não é ensino de Deus, ensino que mostra que, enquanto o homem não vier estar "sob a graça", terá que ser mantido "sob a lei". A natureza humana é má e sempre se expressará, pelo que você tem de refreá-la, você tem que dominá-la. Quando há feras selvagens em volta de você, você tem que estar preparado para enfrentá-las. A ideia de que, se você for falar suavemente com pessoas que têm a mentalidade de Hitler elas lhes darão ouvidos e deixarão de ser agressivas, é quase patética e fátua demais, nem merecendo consideração.
5.1) Há somente um método, o método de Cristo
Não, há somente um método, o método de Cristo. Ele nos diz a verdade sobre nós. Ele faz que nos encaremos a nós mesmos. Face a face com Ele, vejo a minha total inutilidade, a minha indignidade, a minha miséria. Quando contemplo a face de Cristo, vejo que não tenho nada do que me gabar. Esqueço tudo o que tenho exagerado, todas as coisas em que tenho confiado. Aqui não sou nada, sou um mendigo. Cristo faz¬-me ver a verdade sobre mim. Você jamais conseguirá unidade entre os homens, enquanto eles não virem a verdade acerca deles próprios. Ele faz-me ver também que a mesma coisa vale realmente para todos os outros; que vale para aquela outra pessoa de quem não gosto, e vale para a outra nação; que somos todos iguais, que somos um no pecado, um no fracasso; que estamos todos debaixo da ira de Deus; que as coisas cuja importância nós temos exagerado são trivialidades. "Não há um justo, nem um sequer"; somos todos réus condenados diante de um Deus santo. Ele a todos nos humilha até ao pó. Ele já demoliu a maior parte das diferenças.
Depois Ele nos mostra que todos nós necessitamos da mesma graça, da mesma misericórdia, do mesmo amor. E juntos recebemos estas bênçãos e todos juntos as compartilhamos. Prestamos culto à mesma Pessoa e nos regozijamos na mesma salvação. Tendo compreendido isso tudo, daí em diante a minha lealdade não é a mim, e sim a Ele; e a do outro homem não é a si, mas a Ele. Assim nos esquecemos um do outro e não mais somos desconfiados, invejosos e contenciosos; vamos juntos a Ele, e juntos entoamos o Seu louvor.
Esse é o método segundo o qual Cristo o faz. Não é a aplicação do espírito de Cristo feita pelo homem. É a colocação do Espírito de Cristo dentro do homem. O homem não regenerado é incapaz de aplicar o princípio e o espírito de Cristo; ele nem quer fazê-lo. Um homem pode persuadir-se por algum tempo de que deseja fazê-lo, porém, outros não querem, e então vêm divisões, distinções e guerras. Há uma única esperança – que homens e mulheres nasçam de novo, que sejam reconciliados pelo sangue de Cristo, que Deus os perdoe, que Deus lhes dê nova natureza e novo coração, e implante neles um novo Espírito. E ao compartirem este Espírito, eles Lhe prestarão culto e O louvarão e se gloriarão nEle; agora eles já não se gloriam em si mesmos, nem em suas nações, nem em coisa alguma, a não ser no fato de que o Senhor Jesus Cristo foi crucificado por eles, e que por Ele eles foram crucificados para o mundo e o mundo foi crucificado para eles.
Esta é a única base da unidade. Não a organização, nem nenhuma outra coisa, mas a humildade do novo homem em Cristo, a vida dominada por Cristo, a vida centralizada em Cristo. Eis o que derruba todas as paredes interpostas: "de ambos os povos fez um" em Cristo. Queira Deus abrir os nossos olhos para isto em todas as nossas relações pessoais. Queira Deus abrir os olhos da Igreja para isto. Que o mundo veja que só há uma esperança de paz verdadeira, vir reunir-se aos pés do Príncipe da paz, o Rei da justiça.

1 Porque, como. Em latim no original. Nota do tradutor.

2 Esta obra, no original inglês, foi publicada em 1972 (I a edição). Nota do tradutor.

3 Povo ou nação superior. Em alemão no original. Nota do tradutor.

4 Certamente isto se aplica à profissão de fé feita por adultos batizados na infância, como também ao batismo de adultos. Nota do tradutor.

Por; D.M. Martin LLoyd Jones

segunda-feira, 12 de julho de 2010

JORNADA NO DESERTO – 67

Irmãos, essa semana estudaremos a mensagem 67 do estudo das 42 Jornadas do povo de Israel no deserto. Que o Senhor nos ajude a ver as verdades espirituais contidas nesse estudo.
DEUS abencoe a todos nós.

Números, capítulo 33, versículo 16 diz: “Partiram do deserto do Sinai e acamparam-se em Quibrote-Hataavá”.

Meus amados irmãos e irmãs, o Senhor nos tem dado o privilégio de meditar sobre esta maravilhosa estação, a 13ª, que é Quibrote-Hataavá. O estudo de hoje, dentro desse contexto, está em Números capítulo 11. O Senhor já tem nos dado algumas lições preciosas no capítulo 10 e também aqui no capítulo 11 de Números. Ao estudar todo esse maravilhoso assunto que envolve Quibrote-Hataavá você vê primeiro a ordem que Deus estabelece sobre o seu povo, a ordem da marcha. Nós já vimos como Deus colocou todos os agrupamentos, como tudo funcionava, cada estandarte, tanto o que era levado por Judá, bem como o que era levado por Rúbem, também pelo arraial dos filhos de Efraim e por último o estandarte de Dã. Todos esses estandartes, cada um deles tinha um grupo de tribos que o acompanhavam. Deus determinou que fosse assim, que seu povo andasse agora em marcha porque esse era um povo que havia sido escravo no Egito, e enquanto escravos, eles não tinham ordem, não tinham princípios e Deus está estabelecendo o princípio da caminhada, da marcha. Agora eles tinham que ter esse caráter de um exército. O Senhor está mostrando algumas lições preciosas para nós, pois assim também é a nossa vida. No capítulo 6, da Epístola aos Efésios, a partir do versículo 10 nós vemos o quadro da nossa própria realidade espiritual hoje, estamos numa guerra onde não lutamos contra a carne e o sangue, mas contra as potestades e principados, dominadores desse mundo tenebroso e hostes espirituais da maldade. Precisamos entender que esse é o combate do Senhor e nós somos os soldados de Cristo.
Ao focar Quibrote-Hataavá, observa-se um cenário maravilhoso que Deus estabeleceu para a ordem da caminhada, entretanto quando chegamos ao capítulo 11 vemos que primeiro tudo estava bonito, tudo estava em ordem, e infelizmente satanás, o inimigo da obra de Deus, começou a trazer desordem entre o povo. Segundo o texto que iremos ler, o povo começou a murmurar, sendo a murmuração um falatório depreciativo e infundado.
Em Números, capítulo 11, versículos de 1 a 6 diz: “Queixou-se o povo de sua sorte aos ouvidos do Senhor; ouvindo o Senhor, acendeu-se-lhe a ira, e fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu extremidades do arraial. Então, o povo clamou a Moisés, e, orando este ao SENHOR, o fogo se apagou. Pelo que chamou aquele lugar Taberá, porque o fogo do SENHOR se acendeu entre eles. E o populacho que estava entre eles veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembremo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas, dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos se não este maná”.
É interessante olhar para tudo isso, note que no meio do povo de Israel havia um populacho, é importante perceber que todo esse cenário revelado nesse texto tem muito a ver com a nossa vida, com a própria realidade cristã hoje, um coração dividido, um coração que diz amar a Deus mas está preso as coisas do mundo, um coração que de todo não está rendido aos pés do Senhor.
O primeiro ponto que destacaremos é sobre um populacho que havia entre eles. Pessoas que se queixaram contra Deus depois que Ele estabeleceu uma ordem das marchas e o modo adequado deles andarem. Da mesma maneira, devemos ter o cuidado, em nossa vida cristã, para não nos deixar envolver por pessoas que estão entre nós, que passaram por uma experiência psicológica de salvação e não por uma realidade salvadora, pessoas que ainda não foram regeneradas.
Esta salvação é puramente um entretenimento religioso que as pessoas cultivam na sua vida. Isso não tem testemunho pela Palavra de Deus. Se olharmos no Novo Testamento veremos essa realidade entre aqueles irmãos. Observe o cuidado de Paulo quando escreve aos Romanos, no capítulo 16, versículo 17: “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles”. Em II Tessalonicenses, capítulo 3 e versículo 14, Paulo prossegue dizendo: “Caso alguém não preste obediência a nossa palavra dada por esta epístola, notai-o; nem vos associeis com ele, para que fique envergonhado”. Filipenses 2:14 diz: “Fazei tudo sem murmuração nem contendas”. Em I João 2:19 ele corrobora com essa mesma verdade que falou o apóstolo Paulo, dizendo: “Eles saíram do nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos”.
Às vezes, há entre nós pessoas que ainda não são convertidas. Como já temos falado, é natural que o diabo use essas pessoas para provocarem todo tipo de discordância na obra de Deus. Tais pessoas não são cristãs, não compreendem o valor das coisas espirituais, nunca entenderam a esfera da vida celeste.
Faz-se necessário a análise da natureza dessa murmuração referida em Números, capítulo 11, porque eles reclamaram do alimento que Deus disponibilizara para eles, ou seja, o maná não estava saciando o apetite deles. Mas como não estava saciando? É lógico que deveria estar saciando, pois aquele maná era uma dádiva de Deus. A Bíblia descreve de uma forma linda como Deus derramava este maná: primeiro Ele derramava sobre a terra uma relva para que o maná não tocasse o chão e por cima daquela relva caia aquele maná que era como uma folha de coentro e ele tinha um gosto de mel. Alguma mulheres pegavam aquele maná e faziam bolos. O problema não é que eles estavam com fome, e sim porque eles estavam com desejo. Aqui não é uma questão de necessidade, é uma questão de carnalidade, é o verdadeiro retrato de pessoas que saíram do mundo e o mundo não saiu delas. Observe que o versículo 4 diz que o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo. Vale reafirmar que não era fome, era desejo.
Quando Eva olhou para aquele fruto que Deus os havia proibido de comer, ela teve desejo. Se a nossa vontade não for toda ela tratada e centrada na cruz de Cristo, sempre iremos viver para nós mesmos, sempre iremos viver para a nossa própria satisfação, nunca teremos um viver adequado, nunca viveremos para a glória de Deus, nunca teremos uma vida para a satisfação de Deus, buscando apenas uma vida cristã para a nossa satisfação, pensando em nós mesmos.
Notemos que no momento da murmuração eles começam a menosprezar o maná que Deus lhes havia dado. Enquanto o povo depreciava e queixava-se deste alimento, está escrito em Nm 11:7 o valor que o mesmo tinha. Comer o maná significava que eles estava se alimentando daquilo que Deus dava. Não somente estavam se alimentando para satisfazer as suas necessidades, mas significava que eles também estavam se alimentando da vontade de Deus, porque era desejo dEle que comessem do maná. Da mesma forma, também não era da vontade de Deus que Adão e Eva comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se continuassem obedecendo a Deus, poderiam ter crescido em vida e assim seriam conformados a imagem de Cristo. Nesta situação também Deus deu o maná como uma prova para este povo andar na vontade dEle.
Até quando este povo iria suportar permanecer se alimentando daquele maná? Porque alimentar do maná era se alimentar das provisões de Deus. Como o nosso coração nos engana, quantas vezes nós temos trocado as provisões de Deus pela nossa própria força? Pelos nossos desejos? Pela nossa própria vontade? Muitas vezes ele não pode realizar algo em nós porque nosso coração está completamente fechado quanto à vontade dEle. Nosso coração não deseja a vontade de Deus, pois ele, o nosso coração, é um inferno em miniatura, não ama as coisas espirituais, não ama obedecer, é um rebelde em toda a sua essência.
Necessitamos de uma obra profunda em nós, amados, quando vemos a história da humanidade, desde o princípio ao fim, aqui, ali, em toda a parte, o que podemos ver é justamente isso: o homem tem o coração marcado e caracterizado pelo fracasso. Nessa passagem, o pobre e miserável coração humano é desvendado inteiramente por meio da murmuração. Os desejos e suas inclinações são manifestos. Veja que aquele povo, a despeito da escravidão em que viviam no Egito, ainda suspiravam por aquela terra em que viviam escravizados. Seus filhos eram escravos, suas esposas eram escravas. Os olhos do coração daquele povo estavam voltados para as comidas do Egito. Você não os vê lembrando das chicotadas que recebiam dos seus exatores, nem do trabalho forçado que exerciam, a não ser da satisfação da sua cobiça oferecida pelo Egito, que representa o mundo.
Essa é a realidade patente e clara que nós vemos. Isso é tão triste, pois revela a nossa vida. Quantas vezes temos valorizado as coisas mundanas dessa vida em face às coisas espirituais! Às vezes temos depreciado, menosprezado as coisas espirituais e desejado alcançar as coisas deste mundo!
Será que a vida cristã não tem perdido o sabor dentro de você? Será que você não tem vivido uma vida cristã insípida? Que Deus nos ajude, que Ele nos leve a fazer uma profunda reflexão sobre a nossa vida. Que possamos perceber o que de fato tem controlado nossos desejos e emoções.
Amados, que os nossos afetos e o desejo do nosso coração, que a nossa emoção sejam tratadas pela obra do Espírito Santo em nós através da Palavra. Que haja em nós um coração verdadeiramente convertido, porque quando a Salvação entra em nós, Deus nos dá um novo coração. A grande prova que não somos convertidos é quando o nosso coração não está caminhando para Deus e sim para as coisas do mundo. O cristianismo tem estado diluído, as pessoas tem banalizado a graça de Deus, as principais doutrinas cristãs não está tendo sentido na vida das pessoas.
Meus amados, que Deus nos ajude a ver a condição do nosso coração que está sendo exposto pela Palavra de Deus diante do próprio Deus. Que nós sejamos ajudados. Que você possa se render a Deus e se entregar a Ele para que Ele continue perseverando em você uma obra profunda, que Deus não desista de trabalhar em você. Que você reflita sobre isto, que o Espírito Santo te ajude.

Por: Luiz Fontes

terça-feira, 6 de julho de 2010

Estudo do livro de Efésios


CAPÍTULO 14

Por: Ir. D. M. Lloyd Jones

OS JUDEUS E OS GENTIOS

"Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens."
– Efésios 2:11

Este versículo é o começo de uma declaração que tem continuidade no versículo doze: "Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo". Mas agora chamo a atenção para o versículo onze somente.
Chegamos aqui a uma nova seção da declaração que o apóstolo Paulo faz neste capítulo dois desta Epístola. Há uma definida interrup¬ção aqui, e o apóstolo toma uma nova ideia e um novo pensamento. É importante, pois, que tenhamos claro em nossas mentes o seu argumento e o que ele pretende fazer.
O grande objetivo da Epístola é explicar e expor o grandioso propósito de Deus durante a presente era. Vem na forma de sumário no versículo dez do capítulo primeiro – assim, Deus se propusera "tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra". Esse é o grande propósito de Deus durante a presente dispensação, o grandioso propósito de Deus em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Cristo veio a este mundo – falando em termos do Seu supremo objetivo – a fim de reunir, de colocar de novo sob o Seu comando todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. O apóstolo está interessado em explicar e expor isso aos membros da igreja de Éfeso e às outras igrejas às quais esta carta deveria ser enviada. Vimos também que o apóstolo logo passa a dizer que este propósito de Deus, grandioso e final, já está sendo posto em operação, que a própria Igreja é uma ilustração dessa verdade, no sentido de que os efésios, juntamente com outros gentios, tinham sido introduzidos na Igreja, como os judeus. Tendo dito isso, o apóstolo passa a dizer a estes efésios que a coisa mais importante para eles era que tivessem iluminados os olhos do seu entendimento.
Paulo quer que os efésios conheçam particularmente "a sobre excelente grandeza do poder de Deus para com eles". Portanto neste segundo capítulo (da Epístola) ele expõe e demonstra para eles esse grande poder. Ele ilustra para eles o que está querendo dizer. É admirável, é espantoso, que estes efésios, estes gentios, sejam membros da Igreja Cristã, lado a lado com os judeus. E só existe uma coisa que tornou isso possível, esta sobreexcelente grandeza do poder de Deus. É o mesmo poder que Deus manifestou ressuscitando o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.
1) Havia dois obstáculos principais entre os gentios e sua vinda para Deus
1.1) O primeiro obstáculo era o seu estado e condição em pecado
Como isso é demonstrado? Desta maneira: havia dois obstáculos principais entre estes e sua vinda para Deus, a fim de serem cristãos e membros da Igreja. O primeiro obstáculo era o seu estado e condição em pecado. O apóstolo trata disso nos dez primeiros versículos deste capítulo. Já estivemos tratando disso, não o olvidemos. Ele os faz lembrar-se do que eles eram. Mas agora são cristãos. Que foi que os mudou, que foi que os trouxe daquilo para isto? Há só uma resposta: é o poder de Deus – nada menos que isso. Lá estava aquele terrível obstáculo – e continua sendo o grande obstáculo entre todos os homens e Deus – a morte do pecado. Nada, senão o poder de Deus, poderia ter lidado com tal situação.
1.2) O segundo obstáculo era a sua posição, ou o seu "status", na economia de Deus
No entanto, havia um segundo obstáculo, mais uma coisa que se interpunha entre estes gentios e a qualidade de membros da Igreja de Cristo e o conhecimento de Deus. Que seria? Era a sua posição, ou o seu "status", na economia de Deus, e especialmente em termos da sua relação com a lei de Deus. É a esse assunto que o apóstolo se dedica neste versículo onze, continuando até o versículo doze do capítulo três.
Aí está, obviamente, outra questão vitalmente importante. Como esse primeiro obstáculo ainda opera, assim também este segundo obstáculo continua operando. Portanto, não estamos empenhados num estudo acadêmico, puramente objetivo, de algo que era real há dois mil anos. É real hoje como então. As Escrituras são sempre relevantes e contemporâneas, elas falam de nós e de todos os demais. Daí então, é de vital interesse que entendamos o ensino do apóstolo neste ponto.
Proponho-me a tratar disso apenas de maneira geral no momento, pois quero fazer uma introdução geral da seção toda. O apóstolo está desejoso de que estes efésios captem e apreendam verdadeiramente quão tremenda coisa era eles se tornarem cristãos e serem membros da Igreja Cristã. O segundo meio de que se utilizou para conseguir que eles enxergassem isso é o seguinte: "... lembrai-vos", diz ele, "de que vós noutro tempo" – e em seguida vem a descrição. É assim que ele a introduz. Será somente quando eles se lembrarem disso, e somente quando se derem conta de qual é a verdade a seu respeito, que eles poderão realmente começar a entender a grandeza do poder de Deus. Vocês jamais poderão aperceber-se da grandiosidade do poder de Deus, enquanto não se aperceberem da grandiosidade dos obstáculos que aquele poder venceu. Há muitos hoje que não veem nada na salvação cristã, que não ficam admirados face a ela, e que pensam que, provavel¬mente, Paulo era um psicopata, porque ele entrava em êxtase quando contemplava as glórias da salvação. Eles não veem nada disso; para eles não há no cristianismo nada que cause admiração, que cause espanto. Por quê? Porque nunca se deram conta do problema, porque ignoram o pecado e nada sabem da ira de Deus. Não se dão conta da natureza destes obstáculos e dificuldades. O apóstolo tinha consciência disso; e ele quer que os efésios também a tenham. O seu método para essa finalidade é lembrá-los do que eles eram e fazê-los ver como Deus venceu este segundo obstáculo. Isto, num sentido, é tão esplêndido e maravilhoso como o modo pelo qual Ele venceu o primeiro.
1.3) Naqueles tempos antigos o mundo estava dividido em dois principais grupos, judeus e gentios
Qual é o segundo obstáculo? Permitam-me expressá-lo assim: naqueles tempos antigos o mundo estava dividido em dois principais grupos, judeus e gentios. A divisão parecia absoluta, e qualquer conversa sobre reconciliação parecia descomunal e impossível. Judeu e gentio! Os judeus e os "cães"! Mas, por outro lado, os gentios tinham a sua classificação, particularmente os gregos. Para eles o mundo todo estava dividido em gregos e bárbaros – o povo inteligente, os filósofos, os gregos, de um lado; os ignorantes, os iletrados, os bárbaros de outro. Essa era a situação, e parecia completamente impossível que estes dois segmentos, estes segmentos em conflito e que se desprezavam um ao outro tão fortemente, se juntassem e se reconciliassem, muito menos que fossem vistos ajoelhar-se juntos, cultuando e adorando o mesmo Deus e o mesmo Senhor. Todavia aconteceu, diz Paulo. O espantoso é que isso é verdade. Estes efésios foram introduzidos e igualmente são membros da Igreja. Este é o fato espantoso que nada menos que "a sobreexcelente grandeza do poder de Deus" poderia fazer acontecer.
Pois bem, essa é a mensagem. A maneira pela qual o apóstolo a expressa é extremamente interessante. Vejam o versículo onze, que estamos considerando. É onde ele introduz o assunto. Vocês notaram o modo como ele o faz? Pessoas há que com frequência acham este versículo difícil, e o é até que se veja exatamente o que ele significa. Na primeira leitura parece impossível. Vejam-no de novo: "Portanto, (vós efésios), lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne" – e então esta longa declaração, "e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens".
Significa isto: Paulo começa fazendo-os lembrar-se de que de fato eles eram "gentios na carne". Era um simples fato da história, um fato literal, sólido, que como gentios eles não tinham sido circuncidados. Portanto, eram "gentios na carne". "Na carne" aqui não é um contraste com "no espírito", porque, se fosse, o apóstolo pareceria estar dizendo: é verdade que vocês eram gentios na carne, porém, naturalmente, no espírito vocês estavam bem. Não é nada disso que ele quer dizer. Eis o que ele quer dizer: é um duro fato de que vocês eram gentios na carne; não tinham a marca, o sinal, o símbolo de serem judeus – vocês não tinham sido circuncidados. Mas ele não abandona o ponto aí. Poderia fazê-lo, entretanto sai numa espécie de digressão que termina no fim do versículo, e depois volta ao ponto de origem, no princípio do versículo 12. Mas a digressão vem carregada de interesse. "Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne", éreis chamados incircuncisão pelos que a si mesmos se intitulavam ou se chamavam circuncisão, circuncisão na carne, feita pelas mãos. A dificuldade era que os judeus se haviam agarrado a isso, que era realmente um fato, e o tinham transformado num problema. Visto que tinham entendido mal o ensino das suas próprias Escrituras, passaram a pensar que a única coisa que realmente importava era o sinal na carne. Estavam considerando isso de maneira material, carnal, e para eles nada importava, senão a circuncisão qua1 circuncisão. Para eles isso era tudo, era da máxima importância, e nada mais importava. Eles tinham entendido errada¬mente o propósito todo, até mesmo a circuncisão propriamente dita; com isso criaram esta grande barreira, este grande obstáculo no mundo antigo. O apóstolo faz a sua colocação com estas palavras: vocês eram gentios na carne. Sim, e por aquelas pessoas que se diziam A Circuncisão vocês eram apelidados e descritos como A Incircuncisão. Os que falam somente em termos da carne e daquilo que é feito pelas mãos dos homens, pensando unicamente nesse nível, põem-se à parte e dizem: "Nós somos A Circuncisão, e aqueles outros são A Incircuncisão".
Este é um ponto muito importante que vocês devem observar quando leem as Epístolas do Novo Testamento. Vejam, por exemplo, o que Paulo escreve aos filipenses (3:3): "A circuncisão somos nós" – ¬nós, os cristãos! – "que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne". É exatamente o mesmo ponto. Noutras palavras, para termos um verdadeiro entendimento destas Epístolas paulinas, temos que entender o ponto que ele está defendendo neste versículo. Não somente era um fato e uma verdade que os gentios não tinham sido circuncidados; desafortunadamente, os judeus tinham exagerado esse fato, e tinham feito daquilo uma parede de separação que parecia completamente irremovível.
Pois bem, essa pequena exposição é vital para ter-se entendimento de tudo o que temos para dizer. Havia dois aspectos deste segundo obstáculo que Deus tinha que vencer antes de os efésios poderem tornar¬-se cristãos. Primeiramente havia a atitude dos judeus para com os gentios. E depois, em segundo lugar, havia a atitude de Deus para com os gentios. A atitude de Deus tinha que manifestar-se porque, afinal de contas, eles não tinham sido circuncidados, não eram da semente de Abraão. Mas, antes de passarmos a isso, temos que examinar esta atitude judaica, esta "circuncisão e incircuncisão", esta divisão. Há, creio eu, um elemento próximo do sarcasmo na maneira pela qual o apóstolo se expressa – "éreis... chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam (ou se intitulam) circuncisão feita pela mão dos homens". Vocês podem observar a ênfase que ele dá. O grande ponto que ele defende é que Deus venceu este obstáculo duplo. Ambas estas dificul¬dades foram sobrepujadas por Cristo e pelo que Ele fez. A atitude do judeu para com o gentio foi corrigida, se o judeu se tornou cristão; e a atitude de Deus para com eles também mudou. Assim, toda a questão da lei foi solucionada por nosso Senhor e Salvador. Esse é o argumento real e concreto do apóstolo.
1.4) A relevância disso tudo hoje
Permitam-me agora mostrar-lhes a relevância disso tudo hoje, porque continua sendo verdadeiro. Estamos vivendo numa era e num tempo em que há muito pensamento e muita concentração precisamente sobre este problema. O mundo está cheio de divisões e conflitos. Todos nós sabemos destes fatos; vemo-los entre nações – a tensão entre os Estados Árabes e Israel, entre o Oriente e o Ocidente, e todas as diversas subdivisões e ramificações. Divisões! – a Cortina de Ferro2, a Cortina de Bambu, e assim por diante! Contudo, essa verdade não diz respeito somente à esfera das nações e das relações internacionais; aplica-se igualmente ao que ocorre dentro das nações: classes, grupos e várias outras divisões. O mundo, em certo sentido, está repleto desta coisa toda. Assim como o mundo antigo estava dividido da maneira que vimos, assim também o mundo moderno está dividido desses vários modos. E acontece a mesma coisa com a Igreja Cristã: seitas, denominações, grupos e divisões, e barreiras. Que pena! E tudo isso está ocupando muito pensamento e muita atenção no presente. Fala-se disso interminavel¬mente, escreve-se interminavelmente sobre isso. Todo mundo está preocupado em conseguir entendimento, em obter unidade, e em tratar desse problema nestas diversas esferas. E, todavia, não pareceria que grande parte dessa conversa, desses escritos e dessas atividades é completamente vã e inútil? Parece não levar a nada; e a questão é: por quê? A resposta está no que Paulo ensina nesta passagem; pois a sua afirmação aqui, como em toda a sua Epístola, é que a única unidade digna de que dela se fale só é possível sob certas condições. A Igreja Primitiva, que consistia de judeus e gentios, foi a demonstração da verdadeira unidade. Eles foram aproximados e reunidos, dirigiam-se juntos em oração ao mesmo Pai graças ao Espírito, estavam na mesma Igreja, eram concidadãos, na verdade eram membros da mesma família. Esse é o único caminho, e todo e qualquer outro caminho que se tente não levará a nada. Para mim, uma das maiores tragédias da hora presente, especi¬almente na esfera da Igreja, é que a maior parte do tempo parece que é tomada pelos líderes para a pregação sobre unidade, em vez de pregarem o evangelho, o qual, unicamente, pode produzir unidade. O tempo é gasto com falas e conferências, interminavelmente – conferências nas quais eles "averiguam as suas dificuldades". Jamais se conseguirá unidade dessa maneira. Unicamente o evangelho produzirá unidade. E enquanto houver desacordo sobre o evangelho, será desperdício de fôlego e de energia falar sobre qualquer outro caminho para a unidade. Essa é a mensagem desta seção, como eu a vejo; e não se aplica somente à Igreja, mas também se aplica ao mundo de fora.
2) Duas questões principais que terão que ser consideradas antes de haver alguma espe¬rança de unidade e de solução dos problemas e dificuldades
Qual é o ensino, então? Permitam-me resumi-lo da seguinte maneira: o apóstolo queria fazer-nos ver que existem duas questões principais que terão que ser consideradas antes de haver alguma espe¬rança de unidade e de solução dos problemas e dificuldades. Quais são?
2.1) A primeira é que temos de compreender a causa da dificuldade
A primeira é que temos de compreender a causa da dificuldade. E preciso afirmar isso constante e interminavelmente nos dias atuais! Muito do que debalde se fala e se escreve sobre unidade e entendimento hoje deve-se inteiramente a uma só coisa, a saber, que os que o fazem nunca encararam a causa da dificuldade. É preciso ter o diagnóstico antes de fazer o tratamento. Quem se apressa a fazer tratamento sem saber com segurança qual é o diagnóstico, simplesmente não sabe o que faz. Positivamente está se arriscando. Medicar os sintomas ignorando a doença, a causa em suas raízes, é pura loucura. É porque as pessoas simplesmente não reconhecem a causa como esta passagem a ensina, que todas as suas tentativas são comprovadamente inúteis.
2.2) As diferenças tinham¬-se tornado barreiras
Aqui o apóstolo fala sobre a causa, sobre a moléstia. Vejam este caso dos judeus, como ele o coloca no versículo onze. Podemos expressá-lo da seguinte forma, como um postulado: a divisão do mundo antigo era devida a uma só coisa, e essa era que as diferenças tinham¬-se tornado barreiras, as diferenças tinham-se tornado uma "parede de separação que estava no meio". As diferenças existem, e menosprezá¬-las é tolice. As diferenças são fatos. E mesmo quando se tem verdadeira unidade, permanecem as diferenças. Todavia a tragédia é que os homens exageram as diferenças e as transformam em barreiras, em obstáculos, em "cortinas", em paredes de separação no meio. Era exatamente o que aqueles judeus estiveram fazendo. A ordenação de Deus era que houvesse judeus e gentios. Deus é que tinha formado a nação dos judeus. Havia uma real diferença. Os judeus eram circuncisos, os outros não. Mas isso não era para ser uma barreira. Deus não criou uma nação para não se importar com as outras; Ele criou a nação dos judeus para falar por meio deles ao mundo inteiro. Entretanto o judeu o tinha entendido erroneamente. Ele transformara essa diferença numa barreira, manti¬nha-se separado e desprezava os demais. A Circuncisão – A Incircuncisão!
3) Como isto se desenvolve e a que leva?
3.1) Primeiramente leva ao orgulho
Como isto se desenvolve e a que leva? Segundo o apóstolo, parece que o faz da seguinte maneira: primeiramente leva ao orgulho. É certamente um fato que o problema em foco é causado pelo orgulho, pelo ego. Esta é a causa fundamental de toda divisão, de toda barreira, de todo obstáculo. Essa é a causa de todas as barreiras de separação que se interpõem. É a causa basilar de tudo quanto divide as pessoas. O orgulho e o ego! O orgulho cega, o orgulho é um espírito poderoso que nos dirige, nos subjuga e nos domina. Sob a influência do orgulho a pessoa não pensa direito, torna-se preconceituosa. Não é capaz de ver coisa alguma como verdadeiramente é. O preconceito é uma das maiores maldições da vida, e geralmente tem a sua base e as suas raízes no orgulho. Tem o poder de cegar completamente a gente. Como funciona? Primeira¬mente impede-nos de ver os dois lados de uma questão. Para quem é governado pelo preconceito, não existe um segundo lado, há somente um, não há outro. Ele está completamente cego. Ora, essa era a atitude do judeu: "A Circuncisão", "A Incircuncisão"! Ele não admitia os gentios, ele voltava as costas para eles. Não seria essa a essência de todas as contendas?
3.2) Um falso conceito de nós mesmos
Depois, outro modo de funcionar do preconceito é este: sempre nos leva a ter um falso conceito de nós mesmos. O preconceito, e o orgulho que leva ao preconceito, não somente impedem a pessoa de ver que há outro lado; também produzem nela um conceito próprio inteiramente falso. Dessa maneira, o preconceito sempre exagera o que há de verdade a seu respeito. Era uma ordenança de Deus que o judeu fosse circuncidado, porém o judeu exagerava isso ao ponto de dizer que só havia uma verdadeira nação na terra, a nação judaica. Os outros povos eram "cães". Ele exagerava o que era verdade a seu respeito. Ele pensava que simplesmente porque era judeu, necessariamente estava em boas rela¬ções com Deus, e não precisava de mais nada. Por isso os judeus crucificaram o Filho de Deus, porque Ele lhes mostrou que isso não era verdade.
3.3) Incapazes de ver e perceber que o que quer que sejamos, e o que quer que tenhamos, não se devem a nós, mas foi Deus quem nos deu
Outra coisa que o preconceito faz é tornar-nos incapazes de ver e perceber que o que quer que sejamos, e o que quer que tenhamos, não se devem a nós, mas foi Deus quem nos deu. Os judeus tinham esquecido completamente que a circuncisão era um dom de Deus. "Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém" (João 8:33), disseram os judeus a Cristo certa ocasião. Pobres tolos cegos! Como se pudessem responder por si! Todos nós tendemos a fazer a mesma coisa. Vejam como os homens se gabam da sua capacidade. Que direito tem o homem de gabar-se da sua capacidade? Foi ele que a produziu? Foi ele que a gerou? Não, ele nasceu com ela, foi-lhe dada por Deus. Todos estes dons nos são dados por Deus. Um homem se orgulha da sua aparência. Ele é responsável por tê-la? Ele a produziu? Não obstante, é isso que o orgulho faz, como vocês veem. Exagera o que temos, e afirma que nós o produzimos. E não se apercebe, com humildade, de que é tudo dado por Deus e vem das Suas generosas mãos. São estas as sementes da desunião, da guerra e do derramamento de sangue.
3.4) Um falso conceito dos outros
Ademais, o preconceito faz que tenhamos um falso conceito dos outros. Visto que nos faz exagerar o que temos, faz-nos também diminuir o que eles têm. Vocês o reconhecem atuando em sua própria vida, não reconhecem? Como sempre aumentamos o que é do nosso lado e tiramos do outro! Relutamos em reconhecer a bondade quando ela está nos outros: não queremos reconhecê-la. E porque não queremos, não a reconhecemos. De fato, subtraímos, tiramos até não deixar nada. O judeu estava convencido de que não havia nada de valor nos gentios; nem lhes pareciam humanos; eram "cães". Exatamente da mesma maneira o grego, com a sua cultura, considerava os outros como bárbaros, iletrados. O preconceito não se limita a diminuir e a subtrair os valores alheios, mas também passa a desprezar os outros. Pensem nas "castas inferiores e fora da lei", de Kipling, em expressões como "não britânico", "forasteiros", "Herrenvolk"3, "nativos". Aí vocês têm a fonte de muitas contendas e dificuldades. É porque essa mentalidade foi tão propensa a predominar no século passado que o mundo se defronta com tantos problemas hoje, e particularmente este nosso país, talvez. Mas é a mesma coisa com os indivíduos. É o que se dá com todos os que se deixam governar pelo orgulho e pelo ego. É como se desenvolve e funciona – exagero do que nos é lisonjeiro, diminuição e desprezo dos outros. "Chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam (se intitulam) circuncisão feita pela mão dos homens"! Não admira que Paulo tenha sido um tanto sarcástico. Ele queria ridicularizar a coisa, e assim a retratou dessa maneira, para que todos vissem como é horrível e torpe.
4) Uma segunda grande causa de divisão, a saber, um errôneo juízo de valores
Ora, existe uma segunda grande causa de divisão, a saber, um errôneo juízo de valores. Tendo já feito referência a isto em princípio, permitam-me agora dar-lhes os detalhes. Toda a tragédia do judeu, naquele tempo, foi que ele omitiu o ponto essencial. Faltou-lhe um real juízo de valores. Ele achava que o que importava era a circuncisão. O que Paulo e outros tinham para ensinar-lhes era que o que importa é a circuncisão do espírito; que a pessoa pode ser circuncidada na carne e, ao mesmo tempo, estar condenada e perdida; que o homem que está em boas relações com Deus é o que foi circuncidado no espírito; e que isso é tão possível para o gentio como para o judeu. Mas o judeu tinha parado na carne; seu senso de valores estava errado, ele tinha interpretado mal a circuncisão. A circuncisão era meramente um sinal externo de um estado interno, espiritual. Era o que a circuncisão fora destinada a ser, porém, o judeu tinha ficado cego para isso.
4.1) Ênfase dada às aparências, às exterioridades
Notem as duas coisas que Paulo acentua: "na carne", e "feita pela mão dos homens". "Incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens." Com a expressão "a carne" aqui, ele se refere à ênfase dada às aparências, às exterioridades e àquilo que é puramente físico. Nacionalidade! É puramente da carne. É um cabal acidente nascer numa nação, e não noutra. Certamente é um fato a existência de diferentes nações e nacionalidades; mas nós nos inclinamos a fazer exatamente o que os judeus fizeram, transformamos estas coisas em barreiras. Porque sucedeu que eu nasci em determinada nação, essa é a nação. Outro homem diz exatamente a mesma coisa acerca da sua nação. Isso é tomar uma coisa que é legítima na carne, entretanto exagerá-la até se tornar algo tremendo. Nacionalidade! As pessoas lutam por isso, dão a vida por isso, matam outras pessoas por isso. Nacionalidade! Nascimento! Família! Sangue! Como exageramos e inflamos estas coisas! Como desprezamos outras pessoas! Como estas coisas criam barreiras! O povo atribui mais significação à simples linhagem dos homens do que ao seu espírito, à sua alma, ao seu caráter, ao seu entendimento. Aquelas coisas são barreiras literais na vida; muitos são postos no ostracismo por esses motivos. A cor da pele! Pura questão da carne, mas é o tipo de coisa que leva àquela horrível frase – "castas inferiores e fora da lei". Que lástima! A alma, a mente, o espírito, não são levados em consideração. A avaliação é puramente em termos da carne. Capacidade, dinheiro, escola e instrução, posição na vida – são as coisas que têm causado divisões, disputas, miséria e infelicidade no mundo atual, e todas elas pertencem à carne.
Desafortunadamente, quando se chega aos domínios da religião, vê-se a mesma coisa. Nada causa tanta divisão como a concentração em meras exterioridades da religião. Os que mais perseguiram o nosso Senhor e que finalmente foram responsáveis por Sua morte foram os saduceus e os fariseus. Por quê? Porque só estavam interessados nas exterioridades, nas formas, nas cerimônias e nos rituais, ignorando completamente o espírito. E ainda continua sendo assim. Concentração nas formas, em belos cultos, liturgias, cerimônias, vestes e coisas desse tipo relacionadas com o culto de Deus estão dividindo as pessoas. É simplesmente a velha prática dos judeus repetida na sua forma moderna; o que pertence à carne é agarrado até vir a ser uma barreira.
Vejam, porém, por um momento a outra frase. Não somente "a carne", mas também "feita pela mão dos homens", diz Paulo, isto é, puramente humana. Quais são as coisas que estão causando divisão na Igreja hoje? Por que não nos sentamos todos juntos à mesa da comu¬nhão? Ah, diz um, você não pode vir à mesa e comer do pão e beber do vinho se não foi confirmado, se certas mãos não foram impostas sobre a sua cabeça. "Feita pela mão dos homens", vocês veem! Não importa se a pessoa nasceu de novo e tem em si o Espírito de Deus e se está vivendo como um santo a vida cristã. Não participará porque ela não foi confirmada. 4Que valor há em falar em unidade e em re-união, que vale ter grandes conferências e dar-lhes grande publicidade, se os próprios líderes de tais conferências ainda agem em termos dessas barreiras? É irreal, quase chego a dizer que é desonesto. Mas outros dizem: você não virá à mesa se não foi batizado de um modo particular. É o modo como você foi batizado que importa, e você é excluído da mesa do Senhor simplesmente por causa da quantidade de água com a qual foi batizado. "Feita pela mão dos homens"! E há outros círculos que não o admitirão à participação do pão e do vinho por causa de detalhes e minúcias semelhantes. É uma repetição da maneira de ver dos escribas, dos fariseus, dos saduceus e dos doutores da lei. Estas coisas pertencem meramente à periferia. Estamos dispostos a conceder que haja diferen¬ças de opinião sobre estas questões, porém elas jamais deveriam chegar ao centro, jamais deveriam tornar-se barreiras, jamais deveriam inter¬por-se como paredes de separação. Nunca se recuse a vir à mesa do Senhor com outra pessoa por nenhuma dessas razões.
Vocês verão tradições similares também em questões de governo e ordem da Igreja. Há os que são muito mais leais à tradição de sua denominação particular do que ao Senhor Jesus Cristo. É geralmente por acidente que eles pertencem à denominação, é simplesmente porque os seus pais pertenciam a ela, e porque foram criados nela; mas lutam por ela, brigam por causa dela. Isso vem a ser a coisa importante e vital. De algum modo, Cristo e a Sua verdade são inteiramente esquecidos e não são mencionados. "Feita pela mão dos homens", tradições humanas, lealdade a formas, tradicionalismo! São estas as coisas que levam a separações e desuniões.
5) Qual a cura?
São estas, pois, as causas. Qual a cura? O apóstolo a expõe claramente aqui. Unicamente Cristo pode curar, e a razão disso é que é necessária uma mudança do coração. Não basta apenas apelar para a boa vontade, para a bondade, para o amigável e para a fraternidade. Simples¬mente não funciona, e não funcionará; de fato nunca funcionou. Tampouco é suficiente apenas apelar em geral para que os homens e as mulheres apliquem o ensino de Cristo. Esse é o apelo popular hoje. Venham, dizem eles, vamos tornar e aplicar os ensinamentos de Cristo. Alguns pensam que, se você fizesse isso, se este país fizesse isso, de algum modo até a guerra seria banida e não haveria mais problema. A resposta a isso é, de novo, que não é verdade, simplesmente não é fato. Já foi tentado. Foi tentado nas escolas onde não acreditam mais na disciplina. Foi tentado nas prisões, onde também ninguém mais crê realmente na disciplina. E vocês veem os resultados, vocês veem o aumento da barbárie e do destemor de Deus. Mais importante que isso, porém, é algo que vai contra as Escrituras, não é bíblico, não é ensino de Deus, ensino que mostra que, enquanto o homem não vier estar "sob a graça", terá que ser mantido "sob a lei". A natureza humana é má e sempre se expressará, pelo que você tem de refreá-la, você tem que dominá-la. Quando há feras selvagens em volta de você, você tem que estar preparado para enfrentá-las. A ideia de que, se você for falar suavemente com pessoas que têm a mentalidade de Hitler elas lhes darão ouvidos e deixarão de ser agressivas, é quase patética e fátua demais, nem merecendo consideração.
5.1) Há somente um método, o método de Cristo
Não, há somente um método, o método de Cristo. Ele nos diz a verdade sobre nós. Ele faz que nos encaremos a nós mesmos. Face a face com Ele, vejo a minha total inutilidade, a minha indignidade, a minha miséria. Quando contemplo a face de Cristo, vejo que não tenho nada do que me gabar. Esqueço tudo o que tenho exagerado, todas as coisas em que tenho confiado. Aqui não sou nada, sou um mendigo. Cristo faz¬-me ver a verdade sobre mim. Você jamais conseguirá unidade entre os homens, enquanto eles não virem a verdade acerca deles próprios. Ele faz-me ver também que a mesma coisa vale realmente para todos os outros; que vale para aquela outra pessoa de quem não gosto, e vale para a outra nação; que somos todos iguais, que somos um no pecado, um no fracasso; que estamos todos debaixo da ira de Deus; que as coisas cuja importância nós temos exagerado são trivialidades. "Não há um justo, nem um sequer"; somos todos réus condenados diante de um Deus santo. Ele a todos nos humilha até ao pó. Ele já demoliu a maior parte das diferenças.
Depois Ele nos mostra que todos nós necessitamos da mesma graça, da mesma misericórdia, do mesmo amor. E juntos recebemos estas bênçãos e todos juntos as compartilhamos. Prestamos culto à mesma Pessoa e nos regozijamos na mesma salvação. Tendo compreendido isso tudo, daí em diante a minha lealdade não é a mim, e sim a Ele; e a do outro homem não é a si, mas a Ele. Assim nos esquecemos um do outro e não mais somos desconfiados, invejosos e contenciosos; vamos juntos a Ele, e juntos entoamos o Seu louvor.
Esse é o método segundo o qual Cristo o faz. Não é a aplicação do espírito de Cristo feita pelo homem. É a colocação do Espírito de Cristo dentro do homem. O homem não regenerado é incapaz de aplicar o princípio e o espírito de Cristo; ele nem quer fazê-lo. Um homem pode persuadir-se por algum tempo de que deseja fazê-lo, porém, outros não querem, e então vêm divisões, distinções e guerras. Há uma única esperança – que homens e mulheres nasçam de novo, que sejam reconciliados pelo sangue de Cristo, que Deus os perdoe, que Deus lhes dê nova natureza e novo coração, e implante neles um novo Espírito. E ao compartirem este Espírito, eles Lhe prestarão culto e O louvarão e se gloriarão nEle; agora eles já não se gloriam em si mesmos, nem em suas nações, nem em coisa alguma, a não ser no fato de que o Senhor Jesus Cristo foi crucificado por eles, e que por Ele eles foram crucificados para o mundo e o mundo foi crucificado para eles.
Esta é a única base da unidade. Não a organização, nem nenhuma outra coisa, mas a humildade do novo homem em Cristo, a vida dominada por Cristo, a vida centralizada em Cristo. Eis o que derruba todas as paredes interpostas: "de ambos os povos fez um" em Cristo. Queira Deus abrir os nossos olhos para isto em todas as nossas relações pessoais. Queira Deus abrir os olhos da Igreja para isto. Que o mundo veja que só há uma esperança de paz verdadeira, vir reunir-se aos pés do Príncipe da paz, o Rei da justiça.

1 Porque, como. Em latim no original. Nota do tradutor.

2 Esta obra, no original inglês, foi publicada em 1972 (I a edição). Nota do tradutor.

3 Povo ou nação superior. Em alemão no original. Nota do tradutor.

4 Certamente isto se aplica à profissão de fé feita por adultos batizados na infância, como também ao batismo de adultos. Nota do tradutor.

AS 42 JORNADAS NO DESERTO - CAPÍTULO 66

Por: Ir. Luiz fontes

13ª Estação – Quibrote-Hataavá (parte 2)

TEXTOS: Números 33:16/ Números 10:13-28


Amados irmãos, vamos retomar o estudo desta 13ª estação, onde o povo de Israel esteve. Após saírem do Sinai eles peregrinaram até Quibrote-Hataavá.

Vimos que o significado deste nome, no hebraico, é “túmulos de cobiça”. Vimos também que o desejo do Senhor é manter o Seu povo numa “ordem de marcha”, isto é, que venhamos andar em conformidade com o caráter do Evangelho. Devemos andar em conformidade com a nossa vocação celeste. Aqui o Senhor estabelece uma ordem de marcha – essa ordem veio de Deus.

Nm 10:13 diz assim:

“Assim, pela primeira vez, se puseram em marcha, segundo o mandado do SENHOR, por Moisés.”

É sobre isso que vamos estudar. Temos que saber que a nação de Israel era uma nação escolhida por Deus. Eles não se ofereceram voluntariamente para marchar, Deus os convocou.

Se estudarmos os versículos 14 a 28 de Números 10, veremos uma sequência de textos que mostram alguns aspectos distintos de como Deus começa a revelar os assuntos avançados da Sua grande obra de edificação. Ele estabelece homens como dádivas para serem “vanguarda” no meio do Seu povo. Essa palavra “vanguarda” é uma palavra que os militares usam para descrever uma tropa para o combate; um grupo de elite; como também a posição que encabeça uma sequência. Vamos ler esses textos:

Números 10:14-21:

“14 Primeiramente, partiu o estandarte do arraial dos filhos de Judá, segundo as suas turmas; e, sobre o seu exército, estava Naassom, filho de Aminadabe; 15 sobre o exército da tribo dos filhos de Issacar, Natanael, filho de Zuar; 16 e, sobre o exército da tribo dos filhos de Zebulom, Eliabe, filho de Helom. 17 Então, desarmaram o tabernáculo, e os filhos de Gérson e os filhos de Merari partiram, levando o tabernáculo.

Preste atenção! Eram essas duas famílias, isto é, “os filhos de Gérson” e “os filhos de Merari”, que tinham o encargo de carregarem, de desarmarem e carregarem o tabernáculo.

Agora, os versículos 18 a 21:

“18 Depois, partiu o estandarte do arraial de Rúben, segundo as suas turmas; e, sobre o seu exército, estava Elizur, filho de Sedeur; 19 sobre o exército da tribo dos filhos de Simeão, Selumiel, filho de Zurisadai; 20 e, sobre o exército da tribo dos filhos de Gade, Eliasafe, filho de Deuel. 21 Então, partiram os coatitas, levando as coisas santas; e erigia-se o tabernáculo até que estes chegassem.”

Há algumas coisas que temos que ler aqui. Olhem bem, que primeiro iam “os gersonitas” e “os meraritas”, porque eles tinham que preparar o tabernáculo. Para que os coatitas chegassem, tudo tinha que estar pronto, para que as coisas santas fossem introduzidas. Primeiro a vanguarda abre caminho, depois os que vão preparar o tabernáculo e, em seguida, os que vão introduzir as coisas santas. Vocês podem perceber isso nesses textos? Isso nos leva para o livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 8, quando Felipe vai à cidade de Samaria e prega a palavra. Ele foi abrindo caminho por meio do Evangelho e, logo em seguida, Pedro e João foram enviados para lançar os fundamentos dos assuntos sagrados da edificação da casa de Deus. Sempre existe uma ordem; sempre existe uma sequência. Temos que atentar para isso, porque aqui vemos princípios espirituais. Primeiro partiu o estandarte do arraial dos filhos de Judá; depois veio o exército da tribo dos filhos de Issacar; depois os filhos de Zebulom. Então vieram aqueles que desarmavam e carregavam todas as peças que compunham o tabernáculo. E, assim, os filhos de Gérson e de Merari partiam levando o tabernáculo. Em seguida, vemos novamente uma bandeira, o estandarte de Rúben, segundo as suas turmas; depois os filhos de Simeão; depois os filhos da tribo de Gade; depois os coatitas, que iam levando as coisas santas e as introduziam – porque quando eles chegavam o tabernáculo já estava erigido, já estava levantado. Vejam que ordem, vejam o quanto isso é importante. Porque as coisas de Deus não são feitas relaxadamente; a obra de Deus não pode ser feita de qualquer maneira. Tem que haver uma ordem, tem que haver princípios em todo serviço na obra de Deus. Nada pode ser feito de qualquer maneira. Penso que isso tem que falar alto ao nosso coração. Precisamos ser ajudados quanto a isso.

Esse exemplo que dei para vocês aqui de Atos 8 é apenas um entre tantos nos quais podemos ver os assuntos apostólicos, os assuntos da edificação da Igreja no Novo Testamento. Sempre havia uma decência, sempre havia uma ordem, um princípio que era estabelecido em sequência de coisas. Nada era feito de qualquer maneira; nada era feito no improviso. Tudo tinha que ter uma ordem, tudo obedecia a uma ordem. Deus é um Deus de princípios. As coisas não podem ser feitas sem o caráter da excelência. No serviço a Deus tudo deve ser feito de acordo com a excelência.

Portanto, amados irmãos e irmãs, prestemos atenção nisso. Sejamos cuidadosos quanto ao serviço na obra de Deus, quanto ao serviço a Deus. Temos que entender que cada pessoa está onde está porque essa pessoa foi colocada por Deus. Ninguém funciona como quer. Todos nós, na vida do corpo de Cristo, funcionamos como Deus quer. Deus colocou cada pessoa no seu devido lugar, para funcionar de acordo com a vontade de Deus, não de acordo com o seu querer, com o meu querer, com o querer individual de cada um. Não é assim na obra de Deus. Cada um de nós funciona de acordo com a vocação, com o encargo que Deus tem colocado no nosso coração. E para funcionar tem que funcionar dentro da ordem estabelecida por Deus.

Agora vejam os versículos 22 a 28:

“22 Depois, partiu o estandarte” – isto é, a bandeira – “do arraial dos filhos de Efraim, segundo as suas turmas; e, sobre o seu exército, estava Elisama, filho de Amiúde; 23 sobre o exército da tribo dos filhos de Manassés, Gamaliel, filho de Pedazur; 24 e, sobre o exército da tribo dos filhos de Benjamim, Abidã, filho de Gideoni. 25 Então, partiu o estandarte do arraial dos filhos de Dã,” – aqui já temos uma nova turma, encabeçada pela tribo de Dã – “formando a retaguarda de todos os arraiais, segundo as suas turmas; e, sobre o seu exército, estava Aiezer, filho de Amisadai; 26 sobre o exército da tribo dos filhos de Aser, Pagiel, filho de Ocrã; 27 e, sobre o exército da tribo dos filhos de Naftali, Aira, filho de Enã. 28 Nesta ordem, puseram-se em marcha os filhos de Israel, segundo os seus exércitos.”

Amados, irmãos e irmãs, notem um princípio aqui: primeiro partiu o estandarte do arraial dos filhos de Judá, segundo as suas turmas; em seguida veio o exército da tribo dos filhos de Issacar (v. 15); o exército da tribo dos filhos de Zebulom; logo em seguida vieram os filhos de Gérson e os filhos de Merari, que partiram levando o tabernáculo. Vejam só: “os filhos de Judá levavam a bandeira”.

Então, no v. 18, temos uma nova sequência da marcha, que inicia no v. 18, onde diz:

“Depois, partiu o estandarte do arraial de Rúben”.

E logo em seguida temos o exército da tribo dos filhos de Simeão, o exército da tribo dos filhos de Gade e então temos os coatitas levando as coisas santas.

Aqui temos que notar um princípio: primeiro partiu o estandarte do arraial dos filhos de Judá, segundo as suas turmas. Em seguida vieram o exército da tribo dos filhos de Issacar – é isso que você vai ver. Logo em seguida vieram os filhos de Gérson e de Merari. Vejam que só os filhos de Judá levavam a bandeira. Então, no versículo 18 temos uma nova sequência de marcha, que se inicia nesse versículo, onde temos o estandarte do arraial de Rúben (Quero que vocês notem isso). Depois temos o exército dos filhos de Simeão, os filhos de Gade...

Nos versículos 22 a 25 está registrada mais uma nova etapa da marcha. A bandeira está com os filhos de Efraim. E nesse agrupamento temos o exército da tribo dos filhos de Manassés e o exército da tribo dos filhos de Benjamim. E a última bandeira estava com a tribo de Dã e eles formavam “o agrupamento da retaguarda”, isto é, a última companhia do exército de Israel. Nesse último esquadrão estavam o exército da tribo dos filhos de Aser e o exército da tribo dos filhos de Naftali. A primeira coisa que notamos aqui é que nem todos levavam as bandeiras.

Amados, não podemos avançar sem que Deus nos coloque na responsabilidade daquilo que Ele determinou para nós. É Ele quem escolhe os que vão levar a bandeira.

Em 1 Co 3:10 Paulo diz:

“Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica.”

Vejam que primeiro o Senhor colocou Paulo para lançar o fundamento e que outros virão para edificar sobre ele. Precisamos aprender a ocupar o lugar onde Deus nos colocou. E o que você tem que entender é que cada um desses grupos aqui, dessas tribos, tem um significado, tem uma função de acordo com a vocação, com o chamamento. Temos que ver isso claramente. Há uma necessidade de pessoas que vão à frente, abrindo o caminho. Havia uma necessidade de pessoas que montavam e desmontavam e carregavam todas as peças que compunham o tabernáculo. Mas também havia um grupo que era chamado de obreiros ou exército da retaguarda. O que mostra para nós a importância de obreiros na retaguarda. Vejam que no v. 25, de Números 10, diz:

“Então, partiu o estandarte do arraial dos filhos de Dã, formando a retaguarda de todos os arraiais, segundo as suas turmas; e, sobre o seu exército, estava Aiezer, filho de Amisadai.”

Meus amados, vejam que o Senhor chama alguns para abrir caminho, outros serão os últimos a entrar. Esses são os que possuem um forte zelo pelos assuntos da edificação da casa de Deus. Isso é tão sério para nós! Esses são aqueles que possuem verdadeiro zelo pelas coisas santas. São pessoas que possuem uma visão mais microscópica das situações, pessoas desconfiadas, que sempre procuram analisar cada situação com o propósito de guardar, de preservar a vida do corpo de Cristo das investidas do inimigo. São aqueles que ficam para curar as feridas dos que ficam caídos pelo caminho. Na vida da Igreja necessitamos daqueles que possuem o encargo de permanecer na retaguarda, para que ninguém fique perdido pelo caminho. Não podemos esquecer que estamos em uma guerra espiritual e cada pelotão tem sua finalidade e propósito. Temos aqueles que vão à frente abrindo caminho; temos aqueles que cuidam dos assuntos sagrados, dos assuntos das profundidades espirituais. Mas também temos aqueles que ficam por último – isso não significa que o trabalho deles é de menor importância. Se você abrir sua bíblia em Mateus 20:1-7, você vai ter ali “a parábola dos trabalhadores da vinha”, que mostra o valor do trabalho daqueles que ficam na retaguarda. Diz assim:

“1 Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha. 2 E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha. 3 Saindo pela terceira hora, viu, na praça, outros que estavam desocupados 4 e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e vos darei o que for justo. Eles foram. 5 Tendo saído outra vez, perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma, 6 e, saindo por volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo? 7 Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou. Então, lhes disse ele: Ide também vós para a vinha.”

Se você ler os vv. 8-16, você vai ver que, ao cair da tarde, o senhor volta para poder assalariar, pagar o salário. Ele começou pelos últimos, indo até os primeiros. Quando chegou aos da hora undécima, recebeu cada um deles um denário. Ao chegarem os primeiros, pensaram que iriam receber mais (v. 10). Porém, eles também receberam um denário cada um. E quando receberam, murmuraram contra o dono da casa, dizendo:

“Estes últimos trabalharam apenas uma hora; contudo, os igualaste a nós, que suportamos a fadiga e o calor do dia”. (Mt 20:12)

No v. 13 você vai ver que o proprietário, o dono da vinha, respondeu e disse a um deles:

“Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? 14 Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. 15 Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom? 16 Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos”.

Ainda precisamos ler Hebreus 11:39 e 40, porque esses textos se encaixam entre si. Esses textos de Hebreus 11 corroboram com essa parábola dos trabalhadores da vinha. Vejam o que diz:

“39 Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, 40 por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados.”

Ainda em Hebreus 12:1:

“1 Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta”

Propositadamente, lemos também o v. 1 do capítulo 12 de Heberus, porque ele corresponde claramente a essa verdade. Precisamos estar devidamente claros de que havia uma ordem a qual o Senhor estabeleceu para poder colocar aqueles trabalhadores na vinha. Aqueles trabalhadores da vinha, que trabalharam desde a primeira hora e viram o seu senhor ajustar começando por aqueles que trabalharam apenas uma hora, ficaram achando que receberiam muito mais. Ora, sabemos que quando aquele senhor da vinha convocou os trabalhadores da primeira hora em que começaram a trabalhar a partir da primeira hora, ele ajustou um denário por dia a cada um deles. Ele não foi injusto, foi justo. E quando você lê esses textos de Mateus 20 em concordância com Hebreus 11:39 e 40 e também Hebreus 12:1, você aprende esta maravilhosa lição: o valor que tem o trabalho daqueles que estão na retaguarda, daqueles que fazem o último trabalho, daqueles que, profeticamente falando, estão vivendo a última fase da obra de Deus.

Do ponto de vista da justiça de Deus, meu irmão e minha irmã, significa que o trabalho que eu e você estamos fazendo, debaixo da vontade de Deus, para a glória de Deus, tem o mesmo peso espiritual do que o trabalho que Paulo, Pedro, Tiago, João, que os pais da Igreja, que os “reformadores” e tantos santos de Deus fizeram. Por isso, diz o v. 1 de Hb 12, que nós estamos rodeados de uma grande nuvem de testemunhas. Nós precisamos correr a carreira que nos foi proposta. Estamos dentro de uma arena e estamos aqui tendo uma reponsabilidade solene quanto à obra de Deus. Nosso trabalho não é em vão. Espiritualmente falando, nosso trabalho não é inferior ao trabalho daqueles irmãos que nos precederam; esses que nos antecederam, que trabalharam antes de nós. O Senhor considera o nosso trabalho de peso igual. Eu sei que em natureza, em profundidade, o nosso trabalho jamais poderá se comparar com o trabalho de Paulo, de Pedro, de João, de Tiago ou de qualquer um dos apóstolos. Olhando com os nossos próprios olhos, nosso trabalho não significa nada diante do trabalho deles. Mas Deus dispôs cada um de nós, na Sua obra, para corresponder de acordo com a Sua vontade. A questão do reino, de acordo com Mateus 7, a partir do v. 21, não está no quanto fazemos, mas se aquilo que fazemos está de acordo com a vontade de Deus. É isso que toca o reino; é isso que nos dá o reino. Temos que olhar isso, temos que olhar para esses textos. Temos que compreender que aqueles que estão na retaguarda estão num lugar onde Deus os colocou. Eles estão em um lugar onde Deus os dispôs. E Ele colocou cada um em conformidade com a Sua vontade, para o louvor da Sua glória.